domingo, 29 de maio de 2011

Há em ti...

                                        Tela s/acrílico da pintora Carmo Pólvora


Há em ti
uma bruma flutuante
acordada na noite ancorada
aos umbrais da dor passada

Há em ti
um sopro envolvente
volvido em cada dia debruçado
na insónia do poeta esquivado

Há em ti
uma planície deslizante
na vontade dessa luz enfeitiçada
fundida no luar da seara dourada

Há em ti
um perfume eloquente
no desvelo do mar assolado
ao mesmo deserto salgado

Há em ti
uma terra escaldante
que procura lentamente
a água certa e confidente


terça-feira, 3 de maio de 2011

"olhar insular..."




Acordo-te num compasso descompassado
sempre que me visto de chuva delirante
precipitada em acordes silenciosos,
sinuosos no sonho rendido ao instante

Acordo-te na ternura dos mil verdes
onde o meu olhar se perde na nota certa,
do teu olhar insular ao rasar o planalto
duma planície crescente em descoberta

Acordo-te como vento prenunciado
de prelúdios nocturnos reveladores
dum aMor Maior não anunciado
nome de arcanjo de mil condores

Acordo-te na quietude sussurrante
das manhãs que enganamos o Sol
no aconchego da nossa Lua sonhada
e ao nosso sorriso na dobra do lençol


Foto
Cristina Fernandes (Açores 2003 - Caldeira do Faial... ainda longe do meu "olhar insular"... do cheiro, do toque, da pele... do olhar que reencontrei sete anos depois numa rua lisboeta... um ciclo de Saturno... faz sentido... hoje...) 

terça-feira, 19 de abril de 2011

Nas tuas Mãos


Nas tuas Mãos
corre um rio arqueado em delta maior
onde crepitam mil margens angulares
na lareira intensa dos nossos olhares

Nas tuas Mãos
cresce um tempo soletrado no silêncio
de luares profanados por esta paixão
na terra ancorada dessa tua razão

Nas tuas Mãos
soltam-se asas de anjos flutuantes
envolvidos nas voltas da madrugada
e a lua amanhece cheia de luz salgada

Nas tuas Mãos 
desaguam sonhos como nascentes
fontes sedentas no ventre dos cristais
respirações etéreas como vendavais

Nas tuas Mãos
reconheço a profecia confessada
na voz do mar ao chegar 
à foz do verbo aMar...


quinta-feira, 17 de março de 2011

tento ser terra no Mar dos teus sonhos...



tento ser terra no Mar dos teus sonhos…
na abrangência das reticências – guardo-te
dentro de nós,  do tempo que se solta
nesta inquietude de paz que é aMar-te…

e sei-te nesse deserto sedento de Mar
oposto certo na desmesura da luz
imagem íntegra na arte desintegrada
ascensão que o teu olhar induz

rodopiam novos sonetos verdejantes
no verde fulminante que me doMa
e sustém a respiração dos aMantes

pulsam fragmentos no brilho vulcanizado
integrado por este aMor Maior
e sou terra real no nosso Mar sonhado...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Lentamente...



                                                            Foto: Miguel Quaresma
               
          
Rasgo o azul num voo quente que se rompe no silêncio
exasperada é a quietude deste novo espectro latente,
vitral de luz nascente em cada precipício sobrevoado
envolvência ardente no olhar do peregrino resistente

Foco duma fonte continuada em cada momento
superfície profunda e marginal na terra laminada,
onde se plantam raízes no mar erguido de apogeu
no olhar herege volvido na margem da madrugada

Lentamente, grau a grau há um poente sem idade
por dentro desse olhar que alcança o infinito do céu
e sem o tocar, trespassa-se na luz que me invade

Lentamente, suplanto o mesmo degrau jade
quando sorrio ao breu e a este amor que nasceu,
no mesmo olhar rendilhado de cumplicidade





Foto :http://emblogliof.blogspot.com/

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O teu olhar


Chegaste na Primavera profunda do caos estilhaçado
irrompeste por dentro da luz, como um anjo inesperado
soltaste asas apaziguadas na fúria do Mar abalroado
e voaste na noite rasgada, sedento de brilho salgado

No teu olhar luziam prados verdejantes fundeados
que seduziam as brumas sibilantes na floresta densa
arqueei a vontade nos teus verdes insularizados
e rendi-me a este aMor imenso, sem pertença

Hoje, unimos as mãos salgadas num só vento
que sopra ondulante, odorado no sabor da brisa
veemente é o momento, glauco o Mar poderoso

No teu sorriso nasce uma gota ainda em rebento
luar incendiado que a voz de Saturno profetiza,
e esqueço o pensamento no teu olhar luminoso


Foto : Net
(do teu olhar escorre a transparência da água do meu Mar...)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Transparência

                                                                                        Foto: Miguel Quaresma


Transparência decorrente sem tempo
Onde não procuro a razão eloquente
Simplesmente um olhar confidente
Raiado na penumbra da cor fluente

Transparente confissão deste tempo
Perscrutada na gruta da sedução
Lapidada por dentro da intuição
Sombreada no fogo desta paixão

Transparência eclodida no tempo
Esquecido nas vértebras da vida
Na água duma corrente sentida
Exausta na sede deserta bebida

Transparente o olhar com tempo
Abstraído da terra ao rasar o mar
Num voo lento e quente sem domar
O amor que hoje sei reencontrar…



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

brumas lunares...

No sopro das tuas mãos flutuo... 

com a vontade acesa de regressar 

à mesma praia planada... 

bruma dum planalto soterrado 

de falésias a rasgar o mar... 

e deixo o teu olhar glauco amadurecer

na mesma simbiose lunar...

 

 (para alguém especial... pois, 2010 foi um ano especial...)

 


Desejo a todos um excelente 2011...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sei...

                                                           Foto: Miguel Quaresma
                                                                                              

Sei da sombra fluente no pó cheio do deserto

sei da queda das estrelas no vácuo do tempo

sei da respiração suspensa na hesitação do sonho

sei do olhar embutido no rubro abismo ascendente

sei do voo desarvorado da palavra silenciada

sei do arvoredo flutuante na terra sem semente

sei do cântico sedento nas margens entornadas

sei do sorriso encerrado no segredo revelado

sei da falésia erguida nas escarpas do silêncio

sei do brilho salgado guardado no suor dos Deuses

sei da noite desviada na linha ténue da madrugada

sei do gelo herdado na fissura do olhar estilhaçado

 sei do renascer deste Amor num dia dito santo

sei dos homens que o designaram – “ressurreição”

não sei… sei, apenas sentir o pulsar do coração…

 



Foto: http://emblogliof.blogspot.com/

terça-feira, 2 de novembro de 2010

seM esperar

seM esperar
derrubaste o negro do mar que me secava
pintaste-o com o verde único do teu olhar
depondo a cada passo flores em vez de lava
e nesse gesto discreto fizeste-me sonhar

seM esperar
sonho quando acordo e estás a meu lado
belisco esse teu “bom dia” para acreditar
que o rio que corre sem margens é salgado
desfaz nós e forma laços de tanto te amar

seM esperar
esqueço as lâminas cortantes do passado
e nos teus braços abraço eternos presentes
oferendas límpidas do nevoeiro fustigado
e no teu peito nascem mil estrelas fulgentes

seM esperar
venero o teu templo agnóstico e luminoso
sopro desse deus Maior por nós tocado
silêncios nocturnos dum respirar misterioso
que reconheço no luar deste tempo provado

seM esperar
continuas a acontecer-Me
em cada momento
talvez… certo…


(esqueço-me do tempo... hoje... quando ele me tenta abrir velhas feridas passadas... a memória já não sangra... amparas-me na linha incerta que separa a Terra do Mar, lastro certo da divisão que os une... porque és o meu momento certo... assim,  há sete meses...  mudaste a minha vida... sem saberes... e eu... seM esperar...)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

luz respirada


envolta na margem do teu corpo
decifro a sombra alvorada de luz
e acendo a palavra inconfessada
fímbria dum respirar que seduz

reconheço na mesma respiração
o sopro quente do deserto molhado
provado na inversão deste chão
céu rubro do velho mar indomado

repouso no eco da tua assonância
o fulgor da vogal que me desperta
na profunda madrugada entoada

silenciada na paz da minha infância
e na tua pele revejo a porta certa
duma chave em nós reencontrada 



(para a minha luz "especial"...
que me inspira há quase sete meses...)


Imagem: Joma Sipe, in "Mayab" 
tela a óleo sobre cartão telado (2000)
http://jomasipe.no.sapo.pt/

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Quero


Quero a assimetria da perfeição de cada onda do mar
Quero a mestria da eclosão entoada no meu madrugar
Quero a tua pele de algodão inundada em cada chegar
Quero o deserto sem chão alagado no verde do olhar

Quero o divino encanto do nosso recanto rendilhado
Quero o sorriso feito pranto sem futuro nem passado
Quero o teu odor sacrossanto no meu mar respirado
Quero a lua vestida de branco sem drama nem fado

Quero a paz dum sonho encimado na ambivalência
Quero a palavra que proponho na livre veemência
Quero o teu rosto risonho ao reconhecer a essência
Quero o Amor onde ponho toda a minha existência

Quero-te...
nesse espaço real entre a tua Terra
nesse tempo sonhado do meu Mar...


Foto: Barbara Cole
 

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

no teu olhar glauco...


sei do olhar glauco e imenso de mansidão
sempre que irrompe das águas secretas
sede em mim, afogada nessa respiração
plena num voo repleto de borboletas

adivinho o tempo nas mãos cálidas
fogo duma paixão em apneia bebida
tracejada em mil pulsações contidas
onde reconheço o traço de outra vida

no teu beijo reluzem pérolas lunares
dum remoto local dourado de planura
Sul amanhecido na vontade do perto

e nessa livre confluência dos mares
desenho a nossa Lua com ternura
dum sonho que queremos (in)certo



( e no teu olhar glauco...  
 reconheço a margem (in)certa entre a "Terra e o Mar"...
desse nosso "até já"...)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

e o Amor és tu...


e o Amor és tu
nas noites abertas de luz - manto sagrado
das tuas mãos como vagas ondulantes
que nunca assim senti em nenhum passado,
são recortes tão certos quando entrelaçam
as minhas, como estrelas lunares elevadas
no crepúsculo de dois rios que se abraçam

e o Amor és tu
nos dias inundados deste Sol renascido
radiante no fulgor do primeiro sorriso
que guardo dentro dum saber intuído,
espaço dum cofre secreto - o coração
que mesmo magoado noutros pretéritos
reconhece o caminho certo da paixão

e o Amor és tu
nas madrugadas dóceis de branduras
sonho real no leito imenso da tua pele
como o sal dum mar que gera curas,
sem arestas crivadas no pensamento
e abre uma porta deste novo véu
transparente - nosso eterno momento 


segunda-feira, 5 de julho de 2010

rasgos sem rima



chegas num gesto abraçado
trazes nas Mãos o pó aceso das estrelas
e o brilho do negrume precipitado
dum outro Mar...

a luz eleva-se no culminar do entardecer
tocas as Margens na abrangência dos teus braços,
demoves o Manto bordado a pérolas negras
onde um dia me perdi

a luz regressa na transparência da noite,
como uma confissão silenciada...

(pour toi... trois mois après... M...)




Foto: pintura de Montserrat Gudiol, in "Pareja" [1972]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

noites nossas


Prelúdio demorado das tuas mãos nas minhas
numa dança nocturna que queremos descalça
sentir o chão para a seguir lhe perder o rasto
a cada compasso que o brilho da noite realça

Adivinho no verde do teu olhar a paz sublime
decifrada no azul que nos une em felicidades
de momentos inscritos entre a Terra e o Mar
lastro do teu cheiro matizado por divindades

Adormeces no amanhecer da madrugada
e a tua respiração torna-se voz profética
ditada pela transcendência do teu acordar

O vento sopra no quadrante de nortada
e em nós acende-se uma Lua Nova céltica
iniciática deste tempo que quero cuidar


Foto: pintura de Henry Asencio
http://henryasencio.net/

terça-feira, 1 de junho de 2010

respiração


espero
dentro da pele onde guardo o segredo
da tua respiração madrugada de calmaria,
dum amor que já não pensava encontrar
compasso tão certo e terno do teu olhar

chegas
envolto em transparências ponteadas
duma pintura que reconheço o traço,
e o cheiro que me soterra na libertação
desse mar profundo, véu em ascensão

tocas
os meus destroços e plantas um Sol
jóia de ouro puro como a água verde,
que resvala no teu olhar, esboço recente
pacto de raiz deste tempo feliz e presente

respiro
na subtil leveza das palavras aplanadas
entre as arestas do que tento não pensar,
quando à entrada do quarto a poesia
dança no silêncio duma sacra liturgia



(há algo de sagrado na tua respiração, quando adormeces 
e eu fico acordada… escutando-Me, 
nesse sopro que um “Deus Maior” tem para me revelar…)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

beijo



o Sol embala a noite num cântico de luz
quando  juntos dedilhamos a madrugada,
num bailado em teus braços que seduz
a translúcida alvorada da tua chegada

a Lua rodopia num tempo fragmentado
inteiro nas tuas mãos como folhagem,
e desfolhas em mim um sabor sagrado
dum rio que procura tocar a  margem

resvalo nas escarpas verdejantes
floresta tão certa do teu olhar
transparência deste novo mar

colorimos o céu como amantes
demorada pintura ao acordar
do teu beijo no meu serenar

domingo, 2 de maio de 2010

aconteces-(Me)


aconteces-me
por dentro da verdade eterna
de ternos sossegos – inquietude
quieta neste anoitecer orado
oração coroada dos teus braços
em mim

aconteces-me
do outro lado da dor consentida
reconhecida e consertada
neste desconserto de amar
submergida planície que guardas
em ti

aconteces-me
quando as tuas mãos laçam as minhas
luz no Éter dum bailado azulado
e abrem laços de ternura serena
quando sobrevoamos as margens
em nós




..."só existe poesia porque existe o Amor e a Morte..." - disseste-me há um mês… no primeiro momento que os meus olhos tocaram os teus… reconheci-te quando atravessei a estrada dentro do sorriso que ainda não sabia ser teu… um mês depois, sei e sei-te…
(re) encontro no meio desta vida… e o vento ruidoso sopra lá fora entre jornais e cobardias...  mas não quero saber o que tentei saber num outro "Momento Certo"...  hoje,  em mim sopra uma brisa suave, livre como o teu olhar vestido de verdes imensos… inspirada dentro das noites infiltradas do teu odor respirado… filtro que começo a quebrar só para ti... (02-04-2010 / 02-05-2010)