quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Palavras Baldias


Ergo-me suavemente, como maré levante
salpicos negros nas minhas cinzas circulam
nessa lapidar noite branca, recorte jusante
pasquins e palavras nas tintas que especulam

Sei-me perdida como voz de rompante
na madrugada golpeada como fera
embarcada na tua ordem imperante,
tela escapulida que o óleo venera

Nas linhas insondáveis do cansaço
quebro o linho fino do teu braço
rasgado como ouro fino

Guardo os laços de nós na memória
poemas baldios com dedicatória
Musa em ti, velho hino



(2007)

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Uma estória dentro da nossa História (1982)


Sei que hoje escrevo para ti, nesta chegada a casa entre a chuva miudinha que se entranha nos trilhos de mim e uma estória que o tempo guardou, deslizante entre preces, presságios e a nossa velha... tão velha premonição...

Hoje, sei que foi por ti que sobrevivi à tempestade com que iluminaste o mar sem fundo, conheço as palavras que o silêncio cruza, simbólicas na imperfeição humana, perene caminhar até ti.

A chuva suave e tépida que hoje me tomou é mais cruel que a água que cai como bátega que leva tudo à frente. Foi assim que me tocas-te, gota subtil que nunca quis sentir, entre a epiderme e a derme, a seguir o nosso tempo adiado, depois do corpo, da alma, de tudo o que a dimensão dos homens ainda não libertou, esse território indecifrável e insuficiente na memória austera da terra.

É cedo demais para nós, nesta sede que anoitece e embala a paixão que o tempo guardou e a loucura alienou. Sei donde vens e para onde vais, como estranha guardiã deste Amor que temes abrir a porta, e assim continuas no pequeno quarto voltado a Sudoeste, onde não deixas entrar esse amor que ainda é nosso. O perigo descerra e eteriza o quarto maior virado a Nordeste, onde nunca mais a comiseração te tocou... as folhas da palmeira alastram na janela desse quarto onde uma noite o amor entrou, homicida maculado que conhecemos. Ninguém conhece os filamentos imensos onde te perdes, lugares incertos onde encetas uma nova fuga, não de mim, mas de ti...

imóvel e estático olhas-me, mas parti há muito tempo contigo dentro de mim.

Não sei se terei tempo para escrever a nossa História, mas o que interessam as palavras escritas ou ditas, depois de tudo o que vivemos e sentimos...

mas estórias como esta sim, estrada em sentidos opostos, no meu rosto o teu, no teu o meu, o espelho inquebrável como campo magnético indomável, onde a crueldade foi coroada com flores que o calor degela e nenhum gládio destrói. Teias fragmentadas, onde o embalo suave de sueste me desnudou, na pele que guardava o segredo de ti.

Respiras dentro de mim, tomas as vagas que gerei, domas as minhas cinzas como brasas vivas em ti. És um diamante lapidado, cujas lascas encrespadas soltei ao vento, na esperança que o Universo as transforme em novos diamantes para novas vidas.

É quente o gelo da obra suprema na qual sou água a fluir em ti, como o teu fogo quimérico que alcança o topo do Monte Sinai... A prova não é a última, é o nosso eterno recomeço nessa longínqua capela vestida de sombras brancas, pontificadas no azul da noite, linhas que o luar densificou na génese da chama azul, como uma lareira a naufragar em nós.

Sei que é por ti que me demovo, que me revolto, que regresso à paz que perdi, sete noites depois do Universo que tocámos juntos. Remexes velhos tempos, segredas-me segredos só nossos, e dizes que me queres, mas não podes abandonar a caravela com velas triangulares, da qual te tornaste timoneiro, mas não és tu…

Só eu sei a tua verdadeira idade, aquela que nunca ninguém saberá. O imenso Azul que encontrámos na linha que separa o mar do céu veda-se à nossa passagem, e a chave ficou guardada numa pequena capela na Escócia há mais de nove séculos, lacrada a sangue em envelope crepuscular, e o Mestre foste tu... em mim…

Tantas foram as vidas que percorri até reencontrar-te… como naquele final de tarde numa vila de sapientes pescadores, que conhecem as voltas dentro coração do mar, como um amor impossível.

A devastação que te assombrava era enorme, e disseste-me entre a sofreguidão e a multidão ainda ausente: “amanhã, vou para Elvas…” (talvez, tenha sido Estremoz, não me recordo...), sorri para ti e parti para apanhar o cacilheiro, pois os tempos eram outros, e uma adolescente com quase dezasseis anos, tinha que estar em casa antes de anoitecer. Assim, parti com a certeza de nunca mais te tocar, e nunca mais voltar…

mas voltei, passado tanto tempo a ti… e agora?





Imagem: Pintura a óleo de Artur Real Bordalo, nascido em Lisboa em 1925

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Filigranas










Subterfúgios que a dor condensa
No adensamento das adendas
Que o esquecimento repensa
Das lágrimas como oferendas

Contornas-te nesse desígnio
Deserto que o amor conhece
Fuga desse secreto fascínio
Temor meu, que em ti fenece

Reclino-me sobre o manto
Magno dum véu esvoaçante
Nocturno penhasco dançante

Alcanço-te pela porta secundária
Pois ninguém pode saber de nós
Enleio-me na filigrana da tua voz






(escrito em Março 2006: na minha inocência esquecida, como filigrana na mesa de cabeceira dum pequeno quarto, que seria objecto da batalha mais cruel da história da humanidade, a crueldade já existia e eu não a sabia...)

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Pedra Viva


Quebro a pedra que queda
Com um sopro silenciado
Resenha que o tempo veda
Ao teu sorriso amordaçado

Conheço esse nome desprovido
De raras rendas e velhas lendas
Como lâmina fina dum tempo ido
Folha de rascunho sem emendas

Pedra viva do teu beijo
Mármore em labareda
Mar do qual não transijo

Pedra viva do teu beijo
Poemas e lençóis de seda
Noite azul do meu Anjo





Imagem: Escultura em mármore de Auguste Rodin
[Paris-12 Nov.1840 / Meudon-17 Nov.1917],
exposta no Museu Rodin - Paris.
http://www.musee-rodin.fr

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

descalça


descalça, percorro areias como cristais da nossa velha praia, tocando a terra como ouro fino, sem filtros esgotantes, sem máscaras adjectivantes, sem nada que me sirva de pretexto, pois foi assim que perdi a transfiguração de mim, quando te reencontrei.

descalça, abandono todos os destinos que me decretaram, por lei ou costume, sabendo que quem ama perde a noção da prudência, caminho formal que a razão dita, como um ditado que se aprende nos primórdios da insularidade, ilha que o velho oceano sugou...

descalça, intento giestas bravas que o vento Sul reconhece, papoilas da minha contemplação interior, rosas azuis que me ofereceste, como os teus olhos na noite que me tocaste.

descalça, circundo o pinheiro manso que és, Lua e Vénus em conjunção, paixão e Amor na eterna deambulação, casa oito do dilema dessa união, uma oitava acima de nós, como se a liturgia dos poetas servisse de cerca ao coração, à paixão que o esquecimento reequaciona, ao Amor que o tempo nunca abandona.

descalça, decifro a água azul que escorre do teu olhar, as mãos brancas (pois, quem as conhece sabe que são brancas e não cinzentas) que comovem o silêncio inerte de cada corda sonora, como os pés descalços da Duncan…

descalça, inundo as tuas lágrimas contidas como safiras rebuscadas à cinza da noite, pedra mineral que me atiraste no meio da noite, como se a legitimidade entranhasse a legalidade que a veleidade dos homens descreve no sempre repetido texto ignóbil.

descalça, sinto o sentido da Musa invertida que te causei, como "Lilith" que a prata distorceu neste gongorismo que dizes ser meu.

descalça, guardo o teu rosto no meu regaço, como anjo dormente, confidente dum segredo que só nós conhecemos, apesar do alvoroço dos pardais e das penas soltas como biqueiras dum canto por nós ensaiado.

descalça, ilumino a tua sombra, pois aos poucos as luzes apagam-se no silêncio da noite, como reféns na gruta deste Amor.

descalça, celebro a margem que o sal não soube curar, sofismática verdade que o tempo guarda dentro de nós.

descalça, rodopio serenamente dentro de ti, mas ninguém sabe de mim, do cravejar dos pés nus no tempo, como fóssil que só tu reconheces.

descalça, encontro-te… tanto Azul… e és Tu.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Estrada das Guaridas


Noite de bruma imensa
Quebrada pela madrugada
Como o primeiro incenso
Inebriante da tua chegada

Maré que o olhar plantou
No rumo desta ascendência
felliniana, que a tela ocultou
No cristal da transparência

Velha dança distanciada
No grande quarto fechado
À crepitação anunciada
Dum fogo enclausurado

Cinzas como feridas
Velhas acácias em flor
Na estrada das guaridas
Abrigo do meu Amor






Uma noite onde a ocorrência do tempo era similar, o telefone tocou e só podias ser tu, exaltando a imensa bruma que planava nas margens do rio da nossa cidade.

Repetias discursos, ritmos que já conhecia, vazios que o teu lado Sul desnorteava. O cão ladrava do outro lado fio, a garrafeira etilizava-se nas histórias descritas a papel químico. Por vezes, dizia que não, era tarde, ou talvez cedo para nós, outras vezes, embarcava na auto-estrada a quase duzentos à hora para dobrar o tempo que tinha para te abraçar.

Atravessava a ponte como devota do teu ruído, entrava na gruta secreta e os teus braços como os whiskies velhos que bebias, abriam-se à minha chegada…

Guardava o meu olhar na palmeira ainda chamuscada, para que não perscrutasses o silêncio da nossa velha melodia. Nunca quis que soubesses como arruinavas todos os pilares que me sustentavam.

Assim, descurei o Amor dum tempo que não foi nosso, ou talvez fosse nesse ancestral sentido invertido, vertido num cálice que o ouro profetizou…

... até ao nosso regresso, impresso na
"Estrada das Guaridas"...

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

certos enganos


breves foram as noites dos nossos longos enganos
quando as tuas mãos exiladas desvendavam o segredo
da longa espera, luz cindível de olhares insanos
dizias: “estou farto desta vida exposta em degredo”

olhavas a estridência dos foguetes como uma guerra
como quem observa um som e escuta uma imagem
duma tragédia que nunca foi tua, mas que encerra
a história que vestes no contentor como camuflagem

assim, emprestas-te à vida como inocente ditame
esperas por “Ela” – o Azul que escorre do teu olhar
comove o silêncio que já não consegues ocultar

na vertente Norte desse longínquo promontório
abandonas a máscara que esqueci de decifrar
como o disfarce que perdi de tanto te amar