

Sei que hoje escrevo para ti, nesta chegada a casa entre a chuva miudinha que se entranha nos trilhos de mim e uma estória que o tempo guardou, deslizante entre preces, presságios e a nossa velha... tão velha premonição...
Hoje, sei que foi por ti que sobrevivi à tempestade com que iluminaste o mar sem fundo, conheço as palavras que o silêncio cruza, simbólicas na imperfeição humana, perene caminhar até ti.
A chuva suave e tépida que hoje me tomou é mais cruel que a água que cai como bátega que leva tudo à frente. Foi assim que me tocas-te, gota subtil que nunca quis sentir, entre a epiderme e a derme, a seguir o nosso tempo adiado, depois do corpo, da alma, de tudo o que a dimensão dos homens ainda não libertou, esse território indecifrável e insuficiente na memória austera da terra.
É cedo demais para nós, nesta sede que anoitece e embala a paixão que o tempo guardou e a loucura alienou. Sei donde vens e para onde vais, como estranha guardiã deste Amor que temes abrir a porta, e assim continuas no pequeno quarto voltado a Sudoeste, onde não deixas entrar esse amor que ainda é nosso. O perigo descerra e eteriza o quarto maior virado a Nordeste, onde nunca mais a comiseração te tocou... as folhas da palmeira alastram na janela desse quarto onde uma noite o amor entrou, homicida maculado que conhecemos. Ninguém conhece os filamentos imensos onde te perdes, lugares incertos onde encetas uma nova fuga, não de mim, mas de ti...
imóvel e estático olhas-me, mas parti há muito tempo contigo dentro de mim.
Não sei se terei tempo para escrever a nossa História, mas o que interessam as palavras escritas ou ditas, depois de tudo o que vivemos e sentimos...
mas estórias como esta sim, estrada em sentidos opostos, no meu rosto o teu, no teu o meu, o espelho inquebrável como campo magnético indomável, onde a crueldade foi coroada com flores que o calor degela e nenhum gládio destrói. Teias fragmentadas, onde o embalo suave de sueste me desnudou, na pele que guardava o segredo de ti.
Respiras dentro de mim, tomas as vagas que gerei, domas as minhas cinzas como brasas vivas em ti. És um diamante lapidado, cujas lascas encrespadas soltei ao vento, na esperança que o Universo as transforme em novos diamantes para novas vidas.
É quente o gelo da obra suprema na qual sou água a fluir em ti, como o teu fogo quimérico que alcança o topo do Monte Sinai... A prova não é a última, é o nosso eterno recomeço nessa longínqua capela vestida de sombras brancas, pontificadas no azul da noite, linhas que o luar densificou na génese da chama azul, como uma lareira a naufragar em nós.
Sei que é por ti que me demovo, que me revolto, que regresso à paz que perdi, sete noites depois do Universo que tocámos juntos. Remexes velhos tempos, segredas-me segredos só nossos, e dizes que me queres, mas não podes abandonar a caravela com velas triangulares, da qual te tornaste timoneiro, mas não és tu…
Só eu sei a tua verdadeira idade, aquela que nunca ninguém saberá. O imenso Azul que encontrámos na linha que separa o mar do céu veda-se à nossa passagem, e a chave ficou guardada numa pequena capela na Escócia há mais de nove séculos, lacrada a sangue em envelope crepuscular, e o Mestre foste tu... em mim…
Tantas foram as vidas que percorri até reencontrar-te… como naquele final de tarde numa vila de sapientes pescadores, que conhecem as voltas dentro coração do mar, como um amor impossível.
A devastação que te assombrava era enorme, e disseste-me entre a sofreguidão e a multidão ainda ausente:
“amanhã, vou para Elvas…” (talvez, tenha sido Estremoz, não me recordo...), sorri para ti e parti para apanhar o cacilheiro, pois os tempos eram outros, e uma adolescente com quase dezasseis anos, tinha que estar em casa antes de anoitecer. Assim, parti com a certeza de nunca mais te tocar, e nunca mais voltar…
mas voltei, passado tanto tempo a ti… e agora?

Imagem: Pintura a óleo de Artur Real Bordalo, nascido em Lisboa em 1925