terça-feira, 30 de março de 2010

Um Poema Nosso


Se pudesse inverter o curso do rio
o mesmo que separa a vaga do oceano
ondulante na sombra da barca náufraga,
serpenteando entrelaçada no teu engano

Sonego todos os horizontes e convites
e no teu olhar azul revolvo a ondulação
deste mar reencontrado na íris encimada,
tela rasgada na métrica da nova canção

Um poema nosso
como vulcão guardado
no baú da eternidade
Um poema nosso
deste tempo exilado
Amor duma só idade

Se pudesse reabrir a porta que fechei
com a mesma chave que guardei vidas a fio
entenderia este desfiladeiro da traição
conjunção na Serra Lunar como desafio

Presságio de sinais entre pinheiros mansos
e és tu a lenda fogosa no brando auspício
dissipando nevoeiros, estátua desarmada
no enclave do murmúrio deste armistício

Um poema nosso
como vulcão guardado
no baú da eternidade
Um poema nosso
deste tempo exilado
Amor duma só idade



há perguntas 
com tempo certo,



há respostas 
sem tempo certo…




para todas as personagens escolhidas (incluindo os/as figurantes) na peça por nós encenada, o meu obrigada e em especial a uma personagem cujas raízes estilhaçadas a impedirá de florir, pois só as flores soltas renascem na Primavera...

 ... há quem fale do que nunca saberá ... ?


Fotos: Pnina Evental, fotógrafa israelita

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ebulição no Deserto



Na ebulição embutida das pedras
vigora  uma estranha deambulação,
 azul aceso no calor de outras eras
depravação da nossa eterna paixão

Em ti esbraceja uma nova heresia
Terra Santificada da falsa verdade,
fogueira arqueada desta melodia
dissipada na bruma da Trindade

Sou papoila espezinhada por um herege
 renascida na despovoação do amparo
onde transcende a retórica emparedada

És parede cimentada que a cobardia elege  
emoção cativada no pagamento do preparo
fuga duma só vida no sentido da espada



Momentos partem e  não te sei definir,
sentir-te basta-me...



Imagem : Salvador Dali, in "Woman with Flower Head" [1937] - colecção particular

quarta-feira, 17 de março de 2010

Momento de Gratidão

1-Por que acha que mereceu este selo?

Muito sinceramente não sei, comecei este espaço por brincadeira, não gosto de levar as coisas muito a sério... mas agradeço toda a amabilidade da Graça Pereira.


2-Na sua opinião, qual o post do seu blogue que acha merecedor de um prémio?

Nenhum em especial, mas é uma honra receber o feedback de quem por aqui passa e comenta, e de quem passa e não comenta o meu obrigada na mesma. Todos são importantes, mesmo os que não me entendem, assim deixo o "Momento Certo" ser vosso, como uma vaga que voga a liberdade.


3-Do blogue que o indicou, o que mais lhe agrada? Ele merecia o blog de ouro?

O blogue "Zambeziana" é um espaço que visito com muito prazer, único no enquadramento poético das gentes e dos lugares, com o sabor e a cor que só uma vida cheia nos pode dar.

Passo a três blogues (que me perdoem todos os outros...) 



sábado, 13 de março de 2010

(Hoje) não me leves contigo



No silêncio guardo a tua afluência
sem moldes subjugados ou vozes conjuradas
apenas um rio azul  na ingerência
da folha branca, dançam as palavras veladas

No silêncio oiço a tua voz combalida
tolhida pela dor, respiras o som como odor
suscitas o merecimento cabal da vida
em mais um palco escasso do velho fulgor

Repetes o discurso antigo
dedilhas as palavras, pranto e liturgia
finges na entoação um novo toque criador

Hoje não me leves contigo
quero-te sozinho na estridência da noite fria,
entre cordas e sons, na desistência do Amor



Foto: tela a óleo de Teresa Dias Coelho [2000]


 

Hoje não me leves contigo...





quero o silêncio das formas cauterizadas, dos sons feitos ruídos sem palcos, do alheamento encenado das luzes descompassadas, da tua voz embargada, bebida no segredo da mulher que te mudou o olhar e a existência…  
talvez, a última...


terça-feira, 9 de março de 2010

Água no teu fogo


Sabes do tempo que dilacero no eco da devastação,
mas desconheces a travessia solar, brilho das trevas
velha estrada afogada na luz duma Lua que augura
um hino felino embalado no berço da tua loucura

Sabes dos lençóis exaustos na muralha do silêncio
dos meus olhos fundidos nos teus, paixão sem senso
levada à cena num teatro como cântico de edilidade
mas ninguém sabe de nós nas arestas da ubiquidade

No teu berço ferido, toquei a ferida ancestral
das palavras desconexas, premonição duma traição
concretizada nessa mesma estrada saturnal

Cruel o Deus que encarnaste, fogo abissal
despudorada Musa que vesti – corpo de indução,
corrente deduzida na água esculpida, era glacial


(no silêncio do Mar Báltico, assisti ao acidente na curva da estrada na véspera dum qualquer Natal – simples ensaio que os Deuses determinaram na Unicidade do Amor, guardei-te da morte nessa noite, e hoje guardo-te no amanhecer da vida na qual voltei a acreditar... 
por isso, e por muito mais, sei que ainda me amas)

 
Foto: Barbara Cole