sábado, 27 de fevereiro de 2010

extensão para Ti (dentro do soneto)



bebes as palavras que Te escrevo
como um hiato de tempo distante
 brevidades deste nosso relevo
debulhando sons de rompante

sugas no meu olhar a inspiração
silêncio emoldurado no semblante
finges, foges, apartas a paixão
suspendes o tempo como mutante

 dedilhas na tentativa um novo engano
perscrutas o som da chamada
devaneio da palavra despudorada

o tempo dos outros figura-se insano
e eu sem Ti, revolvo-me velada
na sombra tempestiva da madrugada

ascendo na inversão ao tocar
o teu corpo dedilhado, cicatrizado
quando em mim procuras a tempestade

acerco-me dum trajecto sem par
na luz do Teu fogo incendiado
brotam águas nas veredas da crueldade

 (só tu sabes que a água lavada leva tudo à frente, assim as profecias cumprem-se  - 1982)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

No enlevo da obra prometida




















Na liça do jogo provoco o teu sorriso até ao limite
cavaleiro deambulante na inversão da ilha devolvida
envolta em brumas revolvidas na inversão do luar,
nossas juras de amor como presas da obra prometida

Reencontro de almas Atlantes, planície além-Tejo
sonhos guardados em Sintra nesse tempo imerso,
submerso no vazio lunar da tua alma fundida
derradeira guardiã vencida - talvez, Universo

Debruo a obra na orla, corto e retiro o alinhavo
esbato nos confins do som a nova aguarela
no traço azul de cartas escritas em eslavo

Terra distante onde nasce o enlevo da tela
celebro em cálices o feitiço de todos os travos
no rasgo da voz, obra que concebi - talvez, "Ela"


 
...sorris, vejo-te pelo espelho retrovisor, sabes que a visão do vislumbre é "d'Ela"...

no caminho invertido tornas-te visionário incutido, na estranha telepatia da imolação dos sentidos, deixo-te seguir pelos atalhos das ruelas vespertinas da memória, mas à noite aterro nas palavras rejeitadas,  cartografia que sempre conheci.

...sustenho a respiração ao antever o teu próximo sopro, no continente submerso dos Deuses, onde não existem escrutínios, só sentires de quem conhece o momento a seguir – talvez, “Ela”. 


Paris, 21 de Janeiro de 2010

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Elegia do Sagrado



Uma estrada, um sinal – tu e eu no fogo da traição
que guardei até à redenção da minha cegueira
em lágrimas de mil águas nesta voragem inteira,
prantos e lamentos na melodia da nossa canção

Murmúrios como súplicas salpicam os teus braços
revoltos em relevos rodopiantes da nossa dança,
de noites etéreas em que voltavas a ser criança
e no meu regaço descansavas todos os cansaços

Sei-te eleito diante do "Deus da Crueldade"
aquele que guarda a dor como juramento
que teme o Amor como proposta sagrada

Talvez um dia, diante da luz da divindade
saibamos decifrar os recortes do momento
nas margens bravias da nossa ilha fustigada



No Verão de 2006 escrevia no verso dum postal como este:
"... reaprendo a viver em fogo brando, não deixando visível o incêndio de lâminas de gelo cortante que me consome. Depois da crosta cair, fica a cicatriz que molda a alma em cada momento. No fundo das areias revoltas de cada um de nós, existe sempre uma nova partida, um voo incerto. Agora já sei porque  voltei aqui, porque mudaste para sempre a linha do meu horizonte..."

Imagem: Capela Sistina (cidade do Vaticano), de Michelangelo (1475 Caprese – 1564 Roma).