quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Filigranas










Subterfúgios que a dor condensa
No adensamento das adendas
Que o esquecimento repensa
Das lágrimas como oferendas

Contornas-te nesse desígnio
Deserto que o amor conhece
Fuga desse secreto fascínio
Temor meu, que em ti fenece

Reclino-me sobre o manto
Magno dum véu esvoaçante
Nocturno penhasco dançante

Alcanço-te pela porta secundária
Pois ninguém pode saber de nós
Enleio-me na filigrana da tua voz






(escrito em Março 2006: na minha inocência esquecida, como filigrana na mesa de cabeceira dum pequeno quarto, que seria objecto da batalha mais cruel da história da humanidade, a crueldade já existia e eu não a sabia...)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Pedra Viva


Quebro a pedra que queda
Com um sopro silenciado
Resenha que o tempo veda
Ao teu sorriso amordaçado

Conheço esse nome desprovido
De raras rendas e velhas lendas
Como lâmina fina dum tempo ido
Folha de rascunho sem emendas

Pedra viva do teu beijo
Mármore em labareda
Mar do qual não transijo

Pedra viva do teu beijo
Poemas e lençóis de seda
Noite azul do meu Anjo





Imagem: Escultura em mármore de Auguste Rodin
[Paris-12 Nov.1840 / Meudon-17 Nov.1917],
exposta no Museu Rodin - Paris.
http://www.musee-rodin.fr

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

descalça


descalça, percorro areias como cristais da nossa velha praia, tocando a terra como ouro fino, sem filtros esgotantes, sem máscaras adjectivantes, sem nada que me sirva de pretexto, pois foi assim que perdi a transfiguração de mim, quando te reencontrei.

descalça, abandono todos os destinos que me decretaram, por lei ou costume, sabendo que quem ama perde a noção da prudência, caminho formal que a razão dita, como um ditado que se aprende nos primórdios da insularidade, ilha que o velho oceano sugou...

descalça, intento giestas bravas que o vento Sul reconhece, papoilas da minha contemplação interior, rosas azuis que me ofereceste, como os teus olhos na noite que me tocaste.

descalça, circundo o pinheiro manso que és, Lua e Vénus em conjunção, paixão e Amor na eterna deambulação, casa oito do dilema dessa união, uma oitava acima de nós, como se a liturgia dos poetas servisse de cerca ao coração, à paixão que o esquecimento reequaciona, ao Amor que o tempo nunca abandona.

descalça, decifro a água azul que escorre do teu olhar, as mãos brancas (pois, quem as conhece sabe que são brancas e não cinzentas) que comovem o silêncio inerte de cada corda sonora, como os pés descalços da Duncan…

descalça, inundo as tuas lágrimas contidas como safiras rebuscadas à cinza da noite, pedra mineral que me atiraste no meio da noite, como se a legitimidade entranhasse a legalidade que a veleidade dos homens descreve no sempre repetido texto ignóbil.

descalça, sinto o sentido da Musa invertida que te causei, como "Lilith" que a prata distorceu neste gongorismo que dizes ser meu.

descalça, guardo o teu rosto no meu regaço, como anjo dormente, confidente dum segredo que só nós conhecemos, apesar do alvoroço dos pardais e das penas soltas como biqueiras dum canto por nós ensaiado.

descalça, ilumino a tua sombra, pois aos poucos as luzes apagam-se no silêncio da noite, como reféns na gruta deste Amor.

descalça, celebro a margem que o sal não soube curar, sofismática verdade que o tempo guarda dentro de nós.

descalça, rodopio serenamente dentro de ti, mas ninguém sabe de mim, do cravejar dos pés nus no tempo, como fóssil que só tu reconheces.

descalça, encontro-te… tanto Azul… e és Tu.