quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estrada das Guaridas


Noite de bruma imensa
Quebrada pela madrugada
Como o primeiro incenso
Inebriante da tua chegada

Maré que o olhar plantou
No rumo desta ascendência
felliniana, que a tela ocultou
No cristal da transparência

Velha dança distanciada
No grande quarto fechado
À crepitação anunciada
Dum fogo enclausurado

Cinzas como feridas
Velhas acácias em flor
Na estrada das guaridas
Abrigo do meu Amor






Uma noite onde a ocorrência do tempo era similar, o telefone tocou e só podias ser tu, exaltando a imensa bruma que planava nas margens do rio da nossa cidade.

Repetias discursos, ritmos que já conhecia, vazios que o teu lado Sul desnorteava. O cão ladrava do outro lado fio, a garrafeira etilizava-se nas histórias descritas a papel químico. Por vezes, dizia que não, era tarde, ou talvez cedo para nós, outras vezes, embarcava na auto-estrada a quase duzentos à hora para dobrar o tempo que tinha para te abraçar.

Atravessava a ponte como devota do teu ruído, entrava na gruta secreta e os teus braços como os whiskies velhos que bebias, abriam-se à minha chegada…

Guardava o meu olhar na palmeira ainda chamuscada, para que não perscrutasses o silêncio da nossa velha melodia. Nunca quis que soubesses como arruinavas todos os pilares que me sustentavam.

Assim, descurei o Amor dum tempo que não foi nosso, ou talvez fosse nesse ancestral sentido invertido, vertido num cálice que o ouro profetizou…

... até ao nosso regresso, impresso na
"Estrada das Guaridas"...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

certos enganos


breves foram as noites dos nossos longos enganos
quando as tuas mãos exiladas desvendavam o segredo
da longa espera, luz cindível de olhares insanos
dizias: “estou farto desta vida exposta em degredo”

olhavas a estridência dos foguetes como uma guerra
como quem observa um som e escuta uma imagem
duma tragédia que nunca foi tua, mas que encerra
a história que vestes no contentor como camuflagem

assim, emprestas-te à vida como inocente ditame
esperas por “Ela” – o Azul que escorre do teu olhar
comove o silêncio que já não consegues ocultar

na vertente Norte desse longínquo promontório
abandonas a máscara que esqueci de decifrar
como o disfarce que perdi de tanto te amar

sábado, 12 de setembro de 2009

O Véu e a Sombra



Retocas a madrugada com acordes
duma pauta por nós delineada
arestas que o tempo acentua
nesta velha dança enredada

Esqueces a solidão e partes
golpeias o olhar como vitral
janelas doadas ao colectivo
no teu suporte vocal mistral

Soergues a brevidade da luz
procuras nobres tarefas diárias
nessa inferência silogística
de conclusões desnecessárias

Abres os braços no espaço aberto
nesse gesto sem folha ou calendário
fechas os braços ao meu abraço
como templo cravejado e lendário

Esboças um novo sonho
e concretizas no fogo que és
mas no momento a seguir
recomeça tudo outra vez

Arrastas o véu e a sombra
como guardião dum segredo
apelas aos pinheiros do bosque
a iluminação até ao rubedo



Imagem: desenho da pintora Margarida Cepêda,
nasceu a 12 Abril de 1959, em Lisboa.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Nove


Talvez por hoje ser 09/09/2009, segundo o calendário gregoriano, faça sentido agradecer a todos os que me acompanham (mesmo, aos que me desacompanham, o meu obrigado...) neste espaço que criei, sem qualquer intenção ou pretensão, há pouco mais de dois anos, mais precisamente a 25 de Agosto de 2007, como revela o primeiro “post” deste "Momento Certo"...

Aqui, revelo um pouco de mim, as ondulações do sangue que me corre nas veias, o recorte da luz que desagua na sombra, o tempo da partida e da chegada, retalhos duma história integrada, talvez um dia a ser contada…

Hoje, este meu recanto chegou aos 99 seguidores! Será coincidência? Não sei, mas não acredito nelas, vãs explicações da chamada racionalidade humana...

Acredito que tudo tem um sentido no momento certo, encarnado numa pintura que os Deuses nos oferecem sem nada pedir, os mesmos que vivem dentro de cada um de nós, mesmo quando fingimos esquecê-los, descurando-os em nós, coroa que o velho altar entoa, nota musical que não destoa...

Sabe-se que o nove representa o fim, que é o princípio de cada momento (perdoa-me o plágio das palavras...), a passagem do pensamento egocêntrico à porta aberta da transcendência, onde se fundem as energias Yin e Yang, território de desintegração do absoluto no relativo, tela da criação onde se conjuga o concreto no abstracto. Dizem, que o Amor é Uno...

Esse simples e eterno momento onde a consciência se toca a si, como personagem cheia de vacuidade formal, local que o tempo reconhece na redefinição dessa proximidade, como o pulsar de cada respiração, elevando-se no esquecimento suspenso da densidade que é o pensamento.

O número nove simboliza a iniciação, número imortalizado pelos velhos profetas…




há quem viva toda a vida encostado à encosta funcional da vida,

há quem arrebate abismos e desvende mistérios esculpidos pelo tempo,

há quem antecipe o momento certo, na voracidade desmedida de não saber esperar,

há quem submerja no azul profundo das águas e desse fundo nunca mais saia,

há quem provoque energias telúricas, para confirmar um velho Amor,

há quem reconheça o olhar ancestral desse mesmo Amor e saiba que a espera “d’Ela”,
queda o sentido do eterno momento certo…

há quem já tenha morrido e renascido, no eterno retorno a esse mesmo Amor…

há quem saiba de mim, fingindo não querer saber…

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Descida (até ti)



Encontro-te e não te procuro
procuro-te e não te encontro
inerte essência onde desperdiço
toda a perenidade deste feitiço

Deixa-me descer a velha escadaria
neste ímpeto de não querer ser tua
apenas a mulher do teu (de)encanto
que beija lágrimas de sal e pranto

Persigo na descida até ti
como vento cristalino
fingindo ser cabotino

Prossigo na descida até ti
como lapa exaurida
negação da guarida



(Assim descuido o Amor nesta descida até ti… sabendo que o momento da inversão se aproxima, o momento que guardei com Amor para ti…)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

As Oito Faces Lunares


São conhecidas quatro fases lunares (quarto crescente, lua cheia, quarto minguante e lua nova), mas existem mais quatro fases e faces que designamos como intercalares, oito do nó existencial da casa VIII, a passagem da porta oculta de Escorpião, a morte do ego e a passagem para a transcendência consciente.

O “ I Ching” (a minha bíblia e o livro mais antigo de sabedoria taoista) define os movimentos possíveis das oito etapas das mutações, onde se desenvolvem os trigramas e os hexagramas, berço exuberante da dinâmica entre a noite e o dia, dança sibilante entre a lua e o sol, transição perene da inconsciência para a consciência…

Existe um equívoco na tradição cultural ocidental: “to be or not to be” – de Hamlet (Shakespear). Em todos os humanos habita o ser “E” (e não “OU”) o não ser. As polaridades integram-se, na conjunção copulativa e não alternativa, pois somos e não somos ao mesmo tempo. Somos sol e lua, dia e noite, luz e trevas...

Somos um todo e não uma só parte, não somos seres polarizados, procuramos a eterna integração, um caminho eterno na procura da Unidade.

OM – a Via da Universalidade, representa a síntese dos opostos, essa eterna procura…

A Lua define o nosso vazio primordial, os nossos medos que devem ser encarados, e só depois integrados. O vazio da alma, o lado branco que a noite procura, a tela dolorosa que procura ligar o Universo, mas que ainda depende da cisão do mesmo.

Por isso, sei que o Amor é Uno, não são dois, pois no Amor não existem polaridades, mas integrações. Assim, a Lua resolve-se de dentro para dentro, quando decidimos abrir o vazio, e assim integrar a nossa lua.

A Lua é aquilo que ainda não é, noite branca interior…

Esta foi uma noite de Lua Cheia em Virgem, talvez por isso, hoje tentei dizer pequenas coisas sobre o lado lunar…

Uma Lua a 25 graus em conjunção com Vénus a 23 graus de Virgem, na Casa VIII (escorpião)

Outra Lua a 29 graus de Capricórnio a entrar em Aquário quase no Meio-do-Céu, na Casa IX (sagitário)


Tudo começa a fazer sentido, numa integração lenta…
todas as matrizes contém a solução da transposição desse nó (oito) existencial…




Lua

Esse branco vazio
de não-ternura,
esse fundo, esse frio,
essa lonjura.
Noite da nossa mágoa.

Prende à Terra onde estou,
e não segura
essa insuspeita sede de doçura.
Poço da nossa água.

Água, a minha, a tua,
elemento filtrado pela Lua
onde passa e flutua o Sentimento
nesse nocturno Tempo.

Rio de tão longa margem.
Fio de estreita passagem
onde corre subtil a vibração
da mais profunda e íntima Viagem,
linguagem de emoção...



Maria Flávia de Monsaraz [2001]