segunda-feira, 31 de agosto de 2009

fragilidades minhas...


o tempo heróico e egóico desvanece, atenua-se como o eterno momento do “agora”, o verdadeiro e único momento certo.

estranha rota desta navegação invertida, onde as ondas eclodem como velhas melodias no mar alto, sem pé, sem chão, local onde o teu olhar me doma sem forma, onde a tua voz queima o momento da entrega, onde as tuas mãos brancas encontram a complacência da nossa inocência.

aos poucos percebo que as tuas fragilidades se tornaram minhas, velhos medos despidos, encontros plenos de sentido.

sei o que nunca procurei saber, aconteceu.

não me façam perguntas, às quais não sei responder.

despovoo-me neste voo pleno do vácuo circundante, sem forma, sem pensamento, emoções que não sei amarrar ao nosso cais de partida.

nada tenho, só este Amor que é tudo o que sinto, como gáveas desprendidas de mim, velas densas do teu fogo onde me afundei.

sei que é por ti, estranho endeusamento da crueldade degustada, como uma amante encrostada na rocha submergida de mim, que sobrevoo o limite da impossibilidade que dizes ser nossa.

frágil sou quando te sinto, do outro lado da margem que o tempo encimado revela. sons e cores de saudades que são eternas.

trocámos os fios na perpetuação dos destinos, deixámos entrar estranhas inquilinas numa casa que é nossa desde sempre.

há mais de dez anos peguei-te nos braços e levei-te para o local onde ainda hoje permaneces e floresces, no tronco da palmeira que te sustenta.

velhos silêncios do lado poente, conduzem-te à nossa velha casa, assisti às breves deambulações entorpecidas, como longos nocturnos de Chopin, cânticos oníricos que o tempo cuidou.

frágil sou quando sei me soletras lentamente, pinheiro manso que a bravura devastou.

frágil sou quando sei que todas as palavras se quedam nesta insuficiência terrena.

frágil sou quando o teu peito se funde no meu, breve noite desta fragilidade serena.



sei como hoje a paz me tenta, nesta única e vã certeza de te saber…

(não recolhas mais razões, não quero saber delas)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um Homem Frágil


Frágil

Observas-me
Na eterna noite que permanece
Entranhada num tempo sem vírgulas
Imenso manto branco
Na dança perpetuada
Velha melodia entoada
Nossa bruma enevoada

Sentes-me
Mesmo quando não estou aí
Imaginas espaços nossos
Repletos de sorrisos
Caiados na mansidão
Da estrada da inversão
Nossa remota explicação

Procuras-me
Nas voltas que dás
Sem destino certo
Condensação de luares
Labirinto de reencontros
Incomensuráveis contos
Na terra dos tontos

Enlaças-me
Como fêmea sem senso
Nas fugas fugazes
De histórias que me são alheias
Invertendo consentimentos
Tocando prenhes tormentos
E assim, enganando ventos

Fragilizas-me
Na perfeição da alma
Sem egóicos dramas
Rodopio ao vento sul
Mudanças emergentes
Lassidão breve das gentes
Como personagens eloquentes

Descansas-me
Sem o pudor do amor
Sem o título da conquista
Real, sem ser divinal
Como a provocação
Duma velha canção
Sábia no teu coração


(2009)





Um Homem Frágil
(na visão duma mulher)


Escrever na margem imperfeita das palavras, como recortes opcionais, talvez emocionais, tentando tocar a consciência no acto de estar presente aqui e agora. Tentar a tentativa invertida de ser tua, no repertório dos poemas displicentes, convergentes no pensamento, mas ainda longe do verdadeiro intento.

Homem frágil que padece como velho incenso a arder na direcção da luz, deambulando com suaves toques ameríndios, tentando tocar-me, outra vez, na ilustre tentativa do jogo que lhe propus há mais de duas décadas, talvez há mais de nove séculos…

Dizia-me: “sabes, ainda estou vivo, já passei por tudo...” – eu, olhava-o, na sala repleta de branco, noites longas na penumbra do simples candeeiro, sem saber o que lhe dizer, fugindo das costuras magoadas do tempo, sabendo-o...

Uma noite disse-lhe: “é mais fácil olhar para as tuas mãos, do que para o teu olhar...” – ele, sorriu e gesticulou como uma imensa labareda no âmago da noite branca, tempo que mais tarde negou na fragilidade do seu ser.

Lá fora, o cão ladrava. Num ápice, levantámo-nos do sofá de pele, e fomos ver o que se passava. Não existiam almas à solta, mas o cão continuava a ladrar… A porta batia exaurida, ausente do vento norte...

Voltámos para a sala, olhou-me e disse-me: “sabes, coisas estranhas já aconteceram nesta casa, vês aquela porta, abriu-se uma noite, ainda hoje não sei porquê...” – direccionou, o indicador direito (espécie de karma que o segue), para a porta das traseiras da sala. Quase como uma prece, o ritual tornou-se real, como uma perscrutação de outras vidas, onde o pensamento não chega, mas onde a consciência embutida pode chegar, pela inconsciência invertida. A porta ainda lá está, ele também, e eu... já não sei.

Na estranha inversão do momento certo, foi possível tocar o outro lado, como uma ilha submersa no mar, ou mosteiro embutido numa pedra secular e triangular. Naquela noite, algo de ancestral aconteceu, quando o estranho indicador direito continuou na direcção do Oeste, assim todos os pontos cardeais se fundiram, todas a persecuções do meu passado findaram, ou talvez não?

Hoje, sentir a sua fragilidade ainda dissimulada, é ter a prova (talvez, a última…) do sentido do nosso Amor…

(continua… não sei em que pretérito, sei que os três passados são um único, tocando-se como vértices de cristais que o tempo fragiliza...)

sábado, 15 de agosto de 2009

teces-me


teces-me, como um imenso manto de sons e palavras, desfiladeiro de poemas escritos num quarto virado a Sul e a Oeste, como lápide que a noite soergueu, na forma como rasgou e sugou o ar, redimensionando o vácuo da volatilidade das partículas inocentes.

teces-me, na tentativa de vencer as palavras escritas, frágeis como pétalas expostas a ventos ciclónicos, nesta fala surda de sons reconhecidos, nas vozes trocadas que o destino entranha, na tua voz timoneira, na maneira como solta tempestades.

teces-me, como labareda azul, espuma crepitante do mar nórdico, a arder na tontura da queda do fogo purificador numa qualquer lareira, onde sustentas rituais ancestrais, e assim, queimo-me na atracção perene da tua próxima chegada.

teces-me, entre sorrisos contidos, cálices vertidos, espadas erguidas, máscaras exaltadas e escarlates, como corpos em frenesim de festas saltitantes, onde tentas alongar a bolha do tempo que já não é teu.

teces-me, no curso das cicatrizes do teu corpo, na mansidão da brancura da tua pele, quando me almejas nessa fuga escondendo a ferida, engano que o sal descurou, nestas vírgulas e interrupções que o tempo nos causou.

teces-me, no novo jogo de cordas que o sopro maculado denunciou, e eu tento adormecer mais uma vez, neste sono impossível de te esperar, neste sonho possível de te amar.

teces-me, nesse velho continente, onde sibilas reinam no lastro luminoso do teu olhar, longínquas memórias, como o teu primeiro beijo na noite de extinção dos Templários.

teces-me, no toque dum tecido azul, por vezes veludo invernoso, outras vezes seda irradiante dos dias de Verão, e nesta sede de ti desmorono castelos, velhas histórias célticas, como na noite em que ficámos suspensos no palácio de Versailles, velhos sonetos que me entoaste em Paris.

teces-me, na teia da tela onde me redefines em cada momento, e eu espero pelo teu canto desencantado, fuga de sombras guardiãs na noite branca que se segue…

domingo, 2 de agosto de 2009

02 de Agosto... duma outra idade



Para ti (d’ Ela)

Ritmos, cadências, silêncios…
abstracção entendida como tempo,
tracejada pelo pintor
nos tempos trocados de nós
na eterna fuga deste Amor, de mim para ti
ou será de ti para mim?
já não sei, mas o que importa?
as formas justificam os fracos
a substância rende-se
ao saber e ao sabor deste Amor

Assim, tudo renasce num momento,
na dança esvoaçante duma ave
na voz nivelada do oceano,
o mesmo local velado onde te sinto
como nas noites púrpuras
em que as tuas mãos eram minhas
ou seriam as minhas tuas?
nada é grave - dizes,
e por "Ela" reaprendes
a sobrevoar o imenso azul…






Neste mesmo dia há cinco anos, início de semana, talvez uma segunda-feira, conversámos muito e convidaste-me para ir a uma “aparição” tua nessa noite para os lados do Ribatejo (depois da noite mágica de Julho, numa terrinha depois de Sintra…). Disse que não, no dia seguinte tinha uma reunião importante às nove da manhã. Esta, até nem foi mais uma das muitas desculpas, que por vezes arranjava, para não ir ter contigo. Como as obras em casa que nunca existiram, e me guardavam aparentemente do que sentia, assim acabaste por ir para o hotel no Algarve sozinho… o hotel, para onde levas as outras e as tuas eternas cartas em branco sem endereço, fica o bilhete postal com mais ou menos cor…

Há uns anos quando ficaste em coma numa praia, perto do local onde hoje escrevo estas palavras, sei que fiquei muito doente, na minha adolescência tardia, donde nunca saíste… uma história que está por contar...

Nunca pensei dizer que te amava (no fundo de ti, já sabias… mas o engodo do engano continuava), até que uma noite tudo mudou. As caixinhas onde guardava a minha vida arrumada, abriram-me como uma imensa caixa de Pandora. Entre revelações e confidências (terão sido confissões?), velhas memórias ancestrais, que o medo nos impedia de desvendar, começou o desalinho, esquecido no linho dos lençóis, e no eterno engano que é a felicidade como conquista perene.

As águas turbulentas e pantanosas acordaram-me quando a escolhida por nós chegou, e a tua voz como um farol no meio do nevoeiro, tornou-se mais grave, como um sopro de vento enraivecido.

Nessa noite já sabias que Plutão deveria estar na casa VIII (escorpião) e não na casa VII (balança), pois a verdade é que a tua primeira respiração não foi às 19h 10m, mas às 19h 07m. Esses três minutos (mais tarde, ainda num plano subconsciente intuías essa verdade) mudaram a tua vida, verdadeira consciência que só terás ao fechar o oitavo ciclo de Saturno, daqui a um ano...

Devemos manter o coração guardado dentro do peito, nunca o deixar subir às cordas vocais, mas há coisas que só acontecem uma vez na vida, e passadas muitas vidas...

O caminho aparente do equilíbrio que confiavas, começou a quebrar-se e a inversão espelhada a revelar-se como uma velha amante. Ainda hoje, tens dificuldade em olhar para “Ela”, é mais fácil continuar essa fuga, como gotas gotejantes de insânia.

... esta noite, tendo a Lua crescente como companhia, numa auto-estrada por aí, percebi o quanto ascendemos com os acontecimentos que desenhámos nos últimos tempos, tela sacra duma pequena capela estilhaçada.

O jogo que construímos, com estranhas personagens e cativantes seduções trocadas, dilui-se nas coisas simples que permanecem. Afinal, só os humanos pensam e jogam xadrez, os Deuses sabem pela inspiração da respiração imortal, que só o Amor eleva o pensamento à sabedoria, no toque sublime do divino que existe dentro de nós…

02 de Agosto... de mim para ti.