sexta-feira, 24 de julho de 2009

Bonecas Russas


Bonecas russas? A última, a mais pequena, é a única que não é oca...

Assim, desafio a vida, as personagens que a habitam, transfiguro palcos e cenas, cores e sons, paro-me a sorrir, choro-me por sentir

e passo para o outro lado da estrada, na estridência surda de observar o teu olhar perplexo, mas certo...

entre o que é belo e o que se afunda no inestético, hesitas e foges, encetas a fuga planeada,

apontas, acusas e censuras... sorrio e desvio-me de ti, não de nós,

assim, ninguém sabe de nós, do que queremos vivenciar para os "nós de nós", ludibriando a avidez da pele que te tomou nos anos oitenta e o brilho sinóptico do olhar sem forma

reencontrado, quase três décadas depois...

gosto de planar o teu corpo descendente, para logo a seguir sobrevoar o equilíbrio, a harmonia deste Amor que [ainda] temes... o mesmo que temi, tantas vidas

assim, entregas a vida a este momento, aquele em que tocámos o vértice dos "nós de nós", sem laços, na crueza testamental deste Amor.

Inaugurámos o nosso teatro, moldámos personagens (que se julgavam sapientes), que te aureolavam como "Santo"... e a mim, a eterna chama acesa da "Loucura", a Musa que nunca quis ser…

mas, este foi o jogo que aceitámos jogar numa noite só nossa.

Hoje, reinventas-me na poesia, na prosa que me escreves em segredo, tocas a campainha dos outros,

e eles… ah… eles, pensam que estás certo.

Aceito o jogo, planeado na melodia sempre reinventada, rendo-me ao teu olhar, rendilho o meu no teu pálido azul, entrego-te a minha vida…

e, mais uma vez, encetas outra fuga.

No âmago da madrugada por nós inaugurada, escuto a poesia ritmada do Ferré e o grito surdo da Patti, leio Baudelaire e Apollinaire, e vagueio à procura de ti (mesmo, já te tendo encontrado), rodopio até o Sol nascer… e Paris rima com Chris… outros tempos, que ninguém conhece, só tu e eu e a outra que inventámos, para que o nosso Amor nunca fosse real.

Qual o lastro que separa a terra do mar?
(talvez seja essa a imensidão do Amor...)

Ando a reler as “As Bonecas Russas”, de António Rapaz, mais um dos livros que encontrei na mesa da tua sala, sopeado por uns cinzeiros de louça fina.

Adoro o mar que avisto do meu sexto andar, o mesmo mar que percorro até ao cabo Espichel… Sesimbra, "mergulhada nos olhos do meu Amor", foi há pouco tempo, três, quatro anos…

já disse que te amava?

afinal, isto é a vida que aceitámos, na sobreposição da nossa essência, nos retalhos duma estranha veemência…

todos pensam saber de nós, mas a verdade universal só nós a conhecemos…

as duas janelas do pequeno quarto quase quadrado testemunham o nosso Amor...
nunca percebi, porque ficava sempre junto da janela virada a Oeste, olhando o oceano que teimavas em nunca me querer mostrar...

...talvez, a última "boneca russa" seja a única que percorre as marcas da madeira nobre, o cheiro e o recorte dos pinheiros mansos que ficávamos a olhar a noite inteira...

Afinal, de quem eram as cartas que recebes-te da antiga U.R.S.S.?
(ah... talvez, duma boneca russa, a primeira e a última...)




TIVE A CORAGEM DE OLHAR

Tive a coragem de olhar para trás
Os cadáveres dos meus dias
Assinalam o meu caminho e eu choro-os
Uns apodrecendo nas igrejas italianas
Ou entre os limoeiros
Que dão ao mesmo tempo e em qualquer estação
A flor e o fruto
Outros dias choraram antes de morrerem nas tabernas
Fustigados por ardentes ramos
Sob o olhar duma mulata que inventava a poesia
E as rosas da electricidade abrem-se ainda
Nos jardins da minha memória



Guillaume Apollinaire, poeta (Roma, 1880 - Paris, 1918),
in "O Século das Nuvens", tradução de Jorge Sousa Braga [2007]

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Saber-te



O caminho faz-se caminhando - dizem. Assim, prossigo com este espaço, que alguém tentou acabar, numa atitude infrutífera e sem rosto...

por vezes, penso como continuar a saber-te, na sapiência de estar viva, não pelo facto do coração bater, mas por sentir o que está para além dele.

há quem passe a vida a pesar os prós e os contras duma forma quase milimétrica... prefiro fluir sem matemáticas pensadas, sentir os olhares e os movimentos, aceitando assim, as ondas da vida como o areal da praia as recebe, sem cálculos na tangente da rebentação.

saber-te na confluência das águas do que ainda chamamos vida...

assim, interpretas-me na transparência dum amor que não aceitas, por medo, nó existencial que te sufoca, na profundidade da mente entregue a ela própria.

olhar o mar e saber-te perto, mesmo quando longe.

sei que não é fácil exercer a cedência que o amor pede...

dirás: “há répteis enleados no passado desta folha branca” – talvez, assim a memória guarda memórias que só emergem na submersão de águas pródigas.

saber-te na água que temes, pois ela apaga o fogo, assim sinto-me mediadora da água, verdadeiro elemento na cumplicidade deste momento.

por isso, sei-te… até mergulhares no azul profundo duma nova consciência.



Mediadora da Água


Cúmplice da água
num caminho que envolve e não domina,
ágil, tácito, na demora plena
segredo em dócil fluência.

Suspendem-se os nomes. E na sombra
adormecem as coisas. Um latido fulgurante
cria a imprevista ressonância
de um encontro.

As armas de uma aliança resguardam o silêncio.
A mão segreda e aproxima-se
de um pequeno país de música
A água desliza para dentro da sombra.



António Ramos Rosa, in “ Mediadoras” [1985]
poeta e ensaísta: nasceu em 1924, em Faro.



Foto: Barbara Cole - fotógrafa publicitária de Vancouver (Canadá).
A fotografia pode ser poesia, como a água rendilhada...


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Esclarecimento (Sofia Cordis)

Desde a semana passada que ando a ser incomodada por uma senhora de nome "Sofia Cordis" (e seus acólitos), o que me obrigou a moderar os comentários neste espaço que criei, onde escrevo o que me vai na alma.

Este blogue: "O Momento Certo" está identificado, sou a autora com muita honra, e não existem aqui manobras de diversão. A referida personagem "Cordis" não tem rosto, tendo criado um blogue cujo primeiro post data de 9 de Julho passado (ontem). Para além dos comentários desagradáveis que deixa por aqui, sei que colocou em circulação em alguns blogues um comentário onde consta o meu nome e o deste blogue. Não sei quem é essa senhora, que utiliza o meu nome duma forma pública, abusiva e difamante, num contexto sem nexo e absurdo.

Vivemos num Estado de Direito Democrático, e não aceito que o meu nome seja utilizado por uma pessoa que não sei quem é, desconheço se Sofia Cordis é o seu verdadeiro nome, não tem rosto, diz ser de Leiria, ter 34 anos. Não sei qual o motivo mas vai ter que o explicar brevemente às autoridades deste país onde nasci há 42 anos, pois faz parte da minha actividade profissional e pessoal fazer jus a este princípio constitucional!

Neste momento já correm diligências para identificar a referida senhora que irá responder em sede própria à utilização abusiva do meu nome e deste espaço que assino e subscrevo, com rosto e alma.

Se alguém conhecer a referida senhora agradeço que me informe por e-mail identificado neste espaço, pois as autoridades deste país já estão ao corrente do estranho caso "Sofia Cordis".

Aos meus leitores obrigado,

Cristina Fernandes

terça-feira, 7 de julho de 2009

Meu prefixo... és Tu. (1982-83)




Deixa-me continuar com os meus sufixos inesperados… tu serás sempre o meu eterno prefixo, costura e clausura intrincada dentro mim, assim procuro-te, desde o momento que me deixaste, sem me dizeres porquê (fui eu que induzi a tua fuga de mim, para assim tentar pela última vez esquecer-te... falhei, eu sei).

Logo, no momento a seguir encontro-te na mesma estrada de outros tempos. Cantas-me, rimas-me, dedilhas-me como se eu fosse a única que te espera no velho quarto de hotel. Escapas-te, escondes-te de ti, já não de mim, procuras-te e não te encontras na suscitação da excitação que já não és. Levantas sempre o mesmo dedo, no palco encenado, reconduzes-te e falhas mais uma vez. Jogas e recomeças (sempre soubemos recomeçar…), assim logras-te, interrogas-te, mas logo a seguir a voz falha-te, já não te obedece, o tempo tem destas coisas, que só quem ama entende e aceita. Canso-me para não sentir a dor que me trespassa, dói-me o mesmo ombro que te doía há três anos, finjo estar bem, vou nadar, enganando a dor que só acabará quando me voltares a abraçar.

Vi-te cair, assisti à tua dor e não suportei a tua ocorrência na entrada da velhice, os teus segredos que são os meus. Reconsideras-te na comiseração da tua dolorosa arte, assim, invertes-me em ti, pois só o desamor é criativo (dizes), e a fonte não pode secar… dizes, outra vez, e mais outra e outra, como as pequenas que te passam entre os dedos das mãos que são minhas: "the show must go on" - tanta mentira emboscada, rendilhada, enclausurada... prefixos de mim nos teus sufixos...

para já… ou será, pára já?

Assim feliz, elevo-me na insustentável leveza que começo a sentir… tão leve, que a sensualidade volta a fazer sentido, assim rodopio em noite de lua cheia no teu sopro surdo e indefinido… afinal, os relógios não são o tempo. Lembras-te da noite em que descobrimos a singularidade na pluralidade… estranho “é” no “somos” de Nós… assim, o tempo verbal coincide... nas minhas reticências que tanto criticas… deixa-me assim reticente na veemência de Nós…



1983

Esquadras-me na tua bebedeira
Provocas-me no teu acalentamento
Do calor dum Verão quente
Nesse ano de 1983, atropelamento

Triangulas-me na tua atmosfera
De fera fogosa, eu estranha esfera
Tão feia que fiquei nesse Verão
Miúda insegura quase efémera

Hoje, neste tempo maduro
Sublimo teu pálido olhar
Na sapiência de te amar

Hoje, neste tempo certo
Interpreto os teus sinais
Como raivas viscerais


Chris (talvez 2003, 2004...)


Foto : Mandala - Chakra: 3º Olho (Ajna), de Ana Rita Borges:
pintura acrílica sobre tela (2004)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

idade (In)Certa



Só eu sei a tua idade – dizes-me. digo-te que já perdi a linha que contorna as imagens vivas, contemplando o outro lado do horizonte, que numa noite me disseste existir. não dei valor útil às tuas palavras, despedi-me e exigi o meu olhar de volta. parti com os meus passos, não sabendo como me tinhas furtado para dentro de ti… mais tarde, percebi que nunca tinha abandonado esse local onde me entoaste pela primeira vez.

O relógio marca as horas, marcando os dias, as noites longe de ti, mas tão próximos, como suturas que o tempo não conserta, costuras infinitas que o tempo não quer desnudar. talvez sejam 18h 36m (9) no teu relógio azul, mas o meu marcava outra hora, já não sei qual era, foi há tanto tempo. será que o tempo dos entre-tantos dos anos de 1982/83 existiu mesmo, será que o tempo se suspendeu a si, na ânsia de nós, num qualquer café para os lados do Saldanha?

Assim, o tempo fala-te de mim, de outros tempos no mesmo tempo, estranho é o tempo que futuramente, falar-te-á de nós. talvez, o espaço desse café guarde o sabor dos primeiros cafés que bebi, dos velhos whiskies que bebias. estranho o tempo verbal onde não me consigo conjugar, encontrar-te na pontualidade certa duma eternidade sempre adiada. sei que te amo, por isso, entendo a palavra éter-ni-da-de… chamavas-me na na... como dizia a canção para a outra, que no fundo foi escrita para mim. o meu primeiro nome nunca foi meu, sempre me despiu, como tu. nunca me colori com ele, prefiro o segundo, ao contrário de ti.

Num segundo plano, onde gosto de permanecer, encontro a tua primeira luz, reflexo incrédulo de mim. procuramos cortar as portas que eclodiram, quando ninguém sabia de nós. talvez, já não te lembres, das árvores que feríamos à nossa passagem, pelas margens cortadas do Sado, no final de 83 fugi de ti, pensava inocentemente. enganei-me, só te adiei, pouco mais de duas décadas.

Nada dura mais que um instante, sabendo-te uma oitava distante, como as teclas em dó maior, como cinza cadente, no piano do sótão.

Voltei, regressei aqui , agora sei a tua idade. ando assim, a decifrar-te em mim, como velha nota na pauta a rodopiar ao vento suão, gosto de ti, como gosto do Sul encantado no eterno Norte. adoro Sagres, os Açores e o Mar... fugimos, então?



ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, in "Elogio da Sombra" [1969]
Escritor, poeta e ensaísta: nasceu em Buenos Aires, a 24 de Agosto de 1899, faleceu em Genebra a 14 de Junho de 1986...