segunda-feira, 25 de maio de 2009

Entre o Momento Certo e os Momentos Incertos



Criei este espaço num tempo entre parêntesis, um tempo durante o qual alguém pensou que eu era “ela”. Agora sabe que sou “ela” na inversão do momento certo, tempo onde tudo perdi para nada querer ganhar. Na plena devastação de mim, foi escrita a primeira palavra, como uma aragem densa, paragem do tempo a que chamei de “Momento Certo”. Não vou encerrar esta porta, pois não sou de fechar portas, mantenho-as sempre entreabertas, mesmo quando o lado lunar dos homens denuncia o silêncio, na denúncia duma acusação invertida, águas dolorosas, agora com um sentido, rumo para uma consciência uranizada. Estranha crueldade manuscrita, pleno conhecimento de quem sempre fomos, rodopiando nas palavras escritas, escrita laminada e lavrada a sangue na pele, pelo Deus da Crueldade.

O “Momento Certo” é o meu momento, onde toda a eternidade tem um sentido, onde os olhos do meu amor repousam do outro lado da cela já sem medo, prisão de quem guardou no olhar o medo de amar, cela entreaberta, sem grades, moldada no eterno cuidar do agora

… é o momento da cumplicidade invertida, o momento das palavras quietas no movimento de nós, como se cada momento fosse o fim dum intervalo, proposto pelos Deuses, estranha dança de sinais, onde a planificação do arquitecto do Universo frutificou no novo edifício, onde as águas correm à solta, sem hiatos

… é o momento do acolhimento quente dum único amor, dum amor transversal a todas as vidas, um clamor imenso na luz reflectida do azul que chega a mim todos os dias, aparência tocada por dentro dum corpo com idade, duma alma sem rugas, que reconheço no eterno “Momento Certo”.

O “Momento Certo” sobrevive no eterno momento do agora, mantendo-o em segredo, guardado no anonimato, como um diamante se tratasse, diante do qual desnudo o que resta do pudor que restou de mim…

O “Momento Certo” continua na profusão das águas que correm na poesia em prosa, na prosa poética… na cor das palavras, dos sons, na tela pródiga das formas e dos tons, no voo lasso dos nós de nós, no soltar amarras de todos os cais, e partir sempre… nunca chegar.

O “Momento Certo” permanece o meu único lugar certo, local sagrado que reconheci nas asas dum anjo, que me desvendou uma outra existência, para além da linha do horizonte, tracejo em esboços sublinhados pelo seu olhar em mim, como luz pálida e devolvida no momento certo.

O “Momento Certo” é o momento onde guardo cumplicidades, de quem já sabe que não sou ela… Circulou-se do que nunca fui, agora circunda-se do que sou…

Os momentos dos outros, momentos fugazes e incertos, na área da justiça, da política, do quotidiano, das pinceladas de análise económica e social, têm a partir de agora um novo espaço: www.momentosincertos.blogspot.com

************************************************

O meu Amor permanece à nascença do momento certo

como prova duma pérola, não a última, mas a primeira

palavra precursora, reconhecida como o velho pinheiro…


************************************************


A lágrima que pousa no papel: a tua
mão tão longe. Esse é um caderno de
linhas que também não se encontram

e a minha mão escreve o teu nome às
cegas numa delas. Vê – a lágrima é
uma lente que multiplica a dor, toda a
saudade do mundo cabe nessa palavra.



Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Escrever para ti...





Escrever para ti é como uma pontualidade perdida, esquecida de mim. Rasto e raio de luz que sigo já sem seguir. Sentir-te é a expressão da incapacidade, cerceada à nascença, como um copo meio cheio, que poderá estar meio vazio. É igual, depende da perspectiva, do reflexo incidente no mesmo.

Escrever para ti é cortar o espaço físico que nos separa, recortar a energia emergente da nossa mente superior, tão próxima, mas tão distante. Gosto de ver-te caminhar em viés, calculando todas as pedrinhas do passeio, como se a tua realidade fosse universal.

Escrever para ti é moldar a intemporalidade que és, a incerteza tão certa do teu olhar, prefácio dum livro por acabar. Gostava de ser uma espécie de máquina sem coração, como se o sentir nascesse dele, mas não. Sentir-te não é um acto mecânico, a bombear o sangue que corre nas veias. Sentir-te vem duma outra dimensão, não sei definir tão estranha, mas certa sensação.

Escrever para ti é abandonar todos os arquétipos vigentes, todas as normas urgentes. Gosto da forma como agarras as folhas em branco que não encontras no quarto a meio da noite. Desces as escadas de madeira, buscas folhas soltas no escritório, notas sonoras que enlaçam o silêncio, num outro compartimento da casa vazia… pois tu já não estás lá, foges de ti no caminho da criação, emprestas-te à arte como vidente proclamado.

Escrever para ti é estampar a virtualidade dum futuro sem projecções, derreter o passado como barras de ouro em bruto, e deixá-lo correr como um rio dourado para o eterno momento do presente. Rios do mesmo tom que ainda ondulam as ondas do teu cabelo, marés vivas que exaltam as tuas mãos nebulosas, oceanos nórdicos onde o teu olhar mergulha, como gotas de safiras pálidas.

Escrever para ti é desnudar todos os bosques, onde pinheiros bravos crescem na aridez do solo. Onde sombras na noite escura passam, procurando encontrar-te, mas já não sou eu, que estou mergulhada no bosque... há muito que te reencontrei. Um dos pinheiros ainda me segreda sossegos, na noite azul que em mim converge, como as tuas arestas em forma de monge.

Escrever para ti é sustentar este momento certo, em palavras incertas que encenam o que já não queremos (será que alguma vez quisemos esta estranha história?), na compreensão dos fantoches do sistema, no formalismo hipócrita, tão mal desenhado na letra da lei medieval escrita pelos homens, na estupidez de seres que não passam de funcionários da vida, infelizes e apertados nos nós de gravatas cinzentas.

Escrever para ti é o meu voo para a liberdade, na velha estrada onde nos reencontrámos passados 21 anos, talvez para os lados de Sintra… escrever para ti é sorrir-me por dentro de felicidade, ao recordar os momentos a roçar a eternidade que passámos, e entender que ninguém conhece a nossa verdadeira idade…


***********************************************

Génio da noite que os verdes sombreando
Entre os quebrantos do crepúsculo vais
Sedas de roxas sombras desdobrando
E torna mais profundos os pinhais.

As aparências em cinzas transformando,
Fundes as formas sobrenaturais,
A folha e o mar, o céu e a terra quando
Brilham da lua os mágicos metais.

Génio da eternidade enternecida,
Dá-me do sonho a loucura exacta
Que liberta a alma taciturna.

A ti me entrego na hora adormecida
De flores e estrelas que não têm data.
Tempo, deixa-me em paz. Eu sou nocturna.



Natália Correia, in "Sonetos Românticos" [1990]

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sem palavras...




Estou sem palavras, só eu sei porquê...
Entre a sétima e a oitava casa, encontrei finalmente a casa onde está o Plutão de alguém...

Ficam as palavras do grande escritor e poeta português: Teixeira de Pascoaes.



Eternidade

Em tudo o que julgamos ser mentira,
Existe a mais perfeita realidade.
No etéreo som que exala etérea lira
Ouve-se a voz oculta da verdade.

Na forma acesa e viva que delira.
Num astro, numa flor, numa saudade,
Naquele infinito sonho que me inspira,
Transluz inextinguível claridade.

Por mais frágil que aos olhos nos pareça
Luz que alumie, sombra que escureça,
Canção amável, cor cheia de graça;

Não há visão quimérica, ilusória,
Nem há vida que seja transitória,
Nem sonho, nem amor que se desfaça!



Teixeira de Pascoaes (1877-1952), in “Sonetos“ [1925]


Foto 1: Talvez, a eternidade...
Foto 2: Mandala.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Entre a fé e o sacrifício.



Nos últimos tempos ando demasiado imbuída, mergulhada em tantas interrogações, algumas verdades reencontradas, outras novas descobertas, como o sentido da vida, a ascensão em vidas passadas e a sua materialização no nível de consciência no momento em que encarnamos, qual o sentido da fé... o encontro que tive em mim dum Deus que não tem religião, nome, raça ou sexo, que faz parte de mim, que vive dentro de mim, nomeadamente depois de ter conhecido de perto até onde a crueldade pode chegar…

Mas não é de mim que hoje quero falar, mas duma forma indirecta também. Passei o dia a pensar, como vou expor uma matéria sobre o chamado “principio da independência” – dos tribunais, por exemplo, como refere o artº 203 da C.R.P., onde se plasma a independência dos tribunais e a sua sujeição à lei. Como pode existir independência se existe uma submissão, uma dependência à lei? Sabemos que quem elabora e “deselabora” leis, algumas delas inaplicáveis, excessivas, desenhadas a preceito para apadrinhar (será amadrinhar?) este ou aquele, nada têm de gerais e abstractas como na teoria se aprende. A personalização e concretização abunda na desbunda a que tudo isto chegou. Temos portanto senhores juízes, no seu discurso quase monocórdio, dizendo que estão sujeitos à lei, claro que sim! E a consciência onde fica quando aplicam leis que vão contra aquilo que pensam… É uma forma fácil de estar na vida, comodamente instalados, pois desculpam-se com os políticos, existindo um certo receio corporativo em denunciarem o que está mal no sistema judicial português. É preciso arregaçar as mangas e colocar os muitos pontos nos “is” que faltam por aí. Aprendi em sociologia (desisti do curso logo no 1º ano, pois nunca consegui perceber nada de estatística e cálculos probabilísticos) que as revoluções nascem na base social e o poder instituído cristaliza as cúpulas, desse mesmo poder.

Gostei hoje de ouvir o ”meu bastonário” chamar os bois pelos nomes, como é seu hábito, relativamente ao caso do procurador Lopes da Mota. Algo vai mal neste sistema, pois urge mudar o estatuto dos magistrados do M.P., e não só, digo eu. Vamos ver em que vai dar o processo disciplinar instaurado contra o referido magistrado, pelo conselho superior do M.P., proposto por alguém que muito prezo: o Dr. Pinto Monteiro. Conheço alguns magistrados do M.P. que bem precisam de processos disciplinares e alguns mais que isso, pois o que tenho assistido na prática, é de bradar ao céu no qual tanto acredito. Vou ter que esperar pelo momento certo, pois mentiras desgarradas destes senhores, não!

A prosa já se estendeu pela noite dentro, pouco escrevi sobre o que me propus inicialmente: a distância que vai da fé ao sacrifício, relativamente às imagens que assistimos nas peregrinações a Fátima e a outros locais ditos sagrados. Terá que ficar para outro momento, pois não entendo a vida com um sacrifício, espécie de teoria retributiva das penas criminais, sendo tudo isto profundamente medieval, para não dizer primitivo. Respeito e entendo as pessoas que caminham quilómetros para chegar ao santo local do seu destino, mas para mim não faz sentido. Deus não nos pede sacrifício, Deus não nos pede nada…

Existe alguém que não entende isto, acusa-me, numa atitude completamente medieval, como se o Amor ainda fosse um estranho homicida... Por isso, iça singelos "poemas", como se de um atentado terrorista à humanidade se tratasse.
Será sempre assim, até tocar de novo o Amor que alguém lhe roubou noutra vida... Nada acontece por acaso, começo a entender o padrão kármico que nos juntou, o mesmo que nos afastou...
Há momentos em que tudo fica tão claro e leve dentro de mim...


Continuo a ler poesia de Mia Couto, pois fazem sentido as palavras e as falas trocadas, até ao momento certo...



Nocturnamente


Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces



Mia Couto, in “Raiz de Orvalho” [1981] (*)
(*) publicado em 1999.



Imagem 1: Om Mani Padme (mantra)

Imagem 2: P.P.Rubens (Pintor flamenco-maneirista: 1577 - 1640), sem dúvida um dos meus pintores preferidos. Gosto muito desta tela, exposta na Galeria Nacional de Arte, em Washington. "Lyon" [1612-13] - uma verdadeira pérola, faz-me lembrar o olhar de alguém...

domingo, 10 de maio de 2009

Futilidades e um enigma.



Depois de um sábado movimentado, pois já ter passado a barreira dos quarenta com mais ou menos ternura, dá muito que fazer. Passei parte do fim de semana no ginásio: passadeira (45 m.), aqueles pedais que nunca sei o nome (30 m.), bicicleta (30 m.), mais aparelho aqui e ali. Depois do corpo, lá fui eu tratar do cabelo, máscara de jojoba quase 20 minutos, limpeza de pele com mil e um produtos, unhas, mais isto e aquilo. Quando olhei para o relógio já passava das 20,00 horas. Aos 20 anos bastava-me uma horinha de ginástica por semana e ficava tudo bem; aos 30 anos duas aulas de natação por semana eram mais que suficientes; aos 40 anos começo a perder (será perder?) cada vez mais tempo nestas coisas, pois não suporto a ideia que já não vou para nova. Assusta-me a ideia de envelhecer por fora, para usar taxativamente essa palavra terrível. Apesar das mil tarefas (serão supérfluas?) com que passei este Sábado chuvoso, a fazer-me lembrar os Açores (minha eterna paixão...) ainda consegui chegar a tempo ao jantar de família, pois amanhã partem para a casa do Douro. A minha madrasta (nunca gostei deste nome…) é uma cozinheira exímia, fez um bacalhau no forno com coentros, que sabe que adoro (lá se foram algumas calorias dum dia de ginásio), mais um bolo caseiro de noz como só ela sabe fazer (contive-me e comi só uma fatia), mas fui obrigada a trazer para casa mais uma série de fatias, que foram directas para o fundo do congelador (sei, que ela não vai ler isto!) para só as encontrar daqui a algum tempo. São só futilidades que estou para aqui a escrever, mas também fazem parte da vida.

Regressando a mim, posso dizer que já passa da 1.30 da manhã e sei que a esta hora, alguém procura por mim, num espaço que deverá estar quase vazio, cheio de cheiros com os quais não simpatizo. Detesto o cheiro a cerveja, o cheiro a suor de gente demasiado popular, o cheiro a algodão doce e pipocas enjoativas. Não gosto, sou assim! Gosto de ambientes intimistas e requintados; confesso que gostei do que lhe transmiti em segredo em Leiria há poucas semanas (apesar, da Medusa inconveniente e indesejável...), do que vi em Almada há alguns meses (nunca soube que estive lá, como entrei cilindrando a "engraçadinha" a vender bilhetes, que sendo pouco inteligente, não percebeu que era eu...), do que senti no centro de Lisboa há mais de um ano (o disfarce imperfeito, deu para me reconhecer...), são tantas as estórias que tenho para contar, locais que ninguém sabe que estive lá, para lhe devolver a energia, que me sugou em outras vidas...

Recordo-me de terrinhas perdidas no mapa, as quais não irei revelar, por enquanto. Posso falar, duma queda que quase dei quando subi umas escadas de madeira todas tortas, para chegar ao local onde ele estava depois daquela algazarra sonora e popularucha. Mas fazia tudo por ele… se não fosse o rapazito com uma fita na cabeça que nesse tempo era “manager” do ser, teria dado uma aparatosa queda naquelas escadas retorcidas. Antes do “chinfrim “ ficamos no carro, enquanto me lia o horóscopo que recebia semanalmente do Paulo Cardoso. Dizia-me: “está tudo a acontecer!” Parecia uma criança com quase 50 anos, olhos a brilhar, toques de adolescente em mim, mas não percebeu o quanto o amava. Fui eu que lhe devolvi a maturidade, foi comigo que foi de rapaz a homem, algo que se tornou público e notório, mas poucos sabem que fui eu...
Sei, como fingi, como se fosse possível tentar continuar a fingir, nesta imensidão verbal.

Tocava só para mim o “Fingir” e chorava-me por dentro. Quantas vezes fugi daquela gruta, para que não soubesse o que sentia. Quantas vezes fixava os seus dedos dedilhantes de cordas erradas, para não subir até ao seu olhar… o medo que tinha de lhe revelar a minha única verdade. Até uma noite: foi por isso que me traiu sete dias e sete noites depois, foi por isso… agora sei.

Esta noite não fui para a minha verdadeira casa, estou na minha casa no bosque, talvez dos medos, onde vou ficar à espera que ele chegue, sem o ver chegar. No silêncio da noite, conheço todos os sons e movimentos deste local, o som do carro dele, as suas vibrações em mim, se chega sozinho ou com companhia, mesmo daquelas duma só noite...

Vou ficar na casa que arranjei, em regime quase de comodato, a escrever pela noite dentro ao som de Mozart e Ravel (um dia falarei da minha paixão por estes dois compositores…) e a reler Mia Couto

As noites recentes em que descia em teu peito para me procurar, até ao momento certo que me encontrei em ti…


Para ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida



Mia Couto, in “Raiz de Orvalho” [1981] (*)
(*) publicado em 1999.


Foto 1: sei,
Foto 2: por que sinto...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sentir, sentir e sentir.




Todos os que entram neste meu espaço partilhável, talvez entendam que o verbo “sentir” é fulcral para mim. Nem sempre foi assim… momentos existiram que ficaram guardados, contidos, maquilhados, sublinhados nas margens internas que me guardam...

Algum trânsito planetário começou a mudar a minha vida no decorrer do ano de 2003, revejo-me no momento antes desse momento, no momento depois desse momento…
Começo a entender o que aconteceu, como foi minha opção, a decisão de ficar indefesa, no sentido da fragilidade, fundamental à expansão da consciência, de me entregar à vida pelo sentir, pela água como elemento basilar na minha matriz energética.

O contacto com o divino muda consoante a maturidade da alma, com as experiências kármicas de outras vidas, que um elevado grau de consciência, nos permite descodificar. Assim, a intemporalidade da alma é esférica, nada acontece quando queremos, tudo acontece quando o céu deixa que assim seja.
Quando comecei a perceber todo este jogo perfeito de equilíbrio que habita o Universo, entendi que o destino está dentro de cada ser, pela compreensão das energias planetárias, das quais fazemos parte…

Passei a minha porta oculta entre 2003 e 2004 (a chamada porta oculta de Escorpião) e comecei a nadar para as águas onde sempre me revi, mas nem sempre vivi. Só quem sente as almas lhes pode tocar, só quem conhece o drama da existência tem a capacidade de chegar à última fila, em silêncio… A capacidade de criar, sendo abstracta no acto singular da criação, concretiza-se quando tocamos os outros.
"As coisas acontecem quando aceitamos perder, não quando queremos ganhar", aprendi com alguém...

Ando a ler Mia Couto, num estado de deslumbramento total, pois sou assim, sinto… o que me leva aos limites, por vezes, para além daquilo que os outros designam como linha de fronteira. O lastro dessa linha, encontra-se no sentir da linha indefinida da água...

Não é fácil viver neste mundo com uma conjunção brutal (um grau de diferença) de Marte e Plutão, com um Urano a universalizar essa conjunção energética poderosa e perigosa… é a aprendizagem das vidas vividas, do tempo saturnino que segura estas energias tão próximas.
Entendi-as a tempo, por isso, hoje mais que respostas, encontro perguntas... felizmente.



Pergunta-me


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Mia Couto, in “Raiz de Orvalho” [1981] (*)
(*) publicado em 1999.


Foto 1: Primeira imagem do “Momento Certo”… entre a quebra dos ponteiros saturninos e dos sonhos acordados... o que nunca poderei escrever aqui... sei.

Foto 2: Encontrei parte do entendimento de mim, na minha casa V, na minha conjunção Marte (20º), Plutão (21º) e Urano (23º).

Foto 3: Não está a ser fácil encontrar a casa do Plutão (24º de Leão), continua o estudo entre a Casa VII e a Casa VIII, um mistério ancestral por decifrar… penso que nem “ele” sabe qual a casa onde está Plutão, mas vou lá chegar... sei.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Daquilo que eu sei...



Daquilo que eu sei... de ter sobrevivido à tormenta da crueldade com que alguém tentou acabar com a minha vida (agora sabe quem é a Medusa e quem é Atena), das conversas com sons trocados por fora, das energias observadas por dentro, do momento certo revisitado, com o ser errante nas nossas costas.

Alguém devolveu-me assim, a força que perdi no cansaço, deu-me em bandeja de ouro o que sempre soubemos como um diamante em bruto a rasgar a alma, como pele em sentido invertido.

Esta noite, disse-me que aquela coisa mal acabada, nunca foi nada para ele, mera raiz estilhaçada, que adormeceu no sono errado. Agora entendo como a dita espinha quebradiça, enrugada estaladiça, abalroada na liça, com aquele olhar oco e distorcido pelos decibéis irritantes de voz fosca, mergulhada na opacidade e vulgaridade, nunca passou duma troca no momento errado.

Alguém permanece a mais nesta história, como moeda falsa e mal cunhada, vil metal de olhar enviesado, como viela perdida em bairro mundano.

“ela, depois da minha presença real, sabe que ele mente
ela, a seguir às mentiras estonteantes, advinha-o presente,
em mim."


Partilho tudo na vida, menos o que não é partilhável…

O Amor é uma incursão no tempo conjuntivo alternativo, não estrada aditiva como a Medusa quer… Não!


*****************************************************

Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza
Nem tudo foi permitido
Nem tudo me deu certeza

Daquilo que eu sei
Nem tudo foi proibido
Nem tudo me foi possível
Nem tudo foi concebido

Não fechei os olhos
Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah Eu!
Usei todos os sentidos
Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo


Vitor Martins e Ivan Lins, in “Daquilo que Eu Sei” [1981]



Foto 1: O Céu nunca se engana
(eu e ele sabemos... que a Medusa está a mais)


Foto 2: Medusa [1598] de Caravaggio [Milão: 1571-1610].
Galeria Uffizi, em Florença(*)

(*) Perseu matou-a enquanto dormia, por isso, a Medusa errante leva-o para a sua cama quente, como espantalha venenosa. Procurou a petrificação de Perseu, nas duas noites (há pouco mais de uma semana...) que passou com ele.
Perseu cumprirá a profecia e dará a cabeça da Medusa à Deusa Atena.
O Momento Certo aproxima-se,
eu e ele sabemos, daquilo que sabemos,
pois o Céu nunca se engana...

domingo, 3 de maio de 2009

Saudades presentes...




Recordo o último Natal que passei contigo, dos três dias seguintes à última noite que passei nos teus braços, os mesmos que confundia com os meus, de tão parecidas que éramos (e sei que continuamos a ser…) por dentro e por fora. Os teus olhos ainda são os meus, iguais na tentativa impossível de conter as lágrimas, nos momentos de felicidade e de dor, éramos como irmãs cúmplices de tão próximas. Foi assim que acabou o ano de 1988, já sem ti perto de mim.

Foste e serás sempre a mulher mais bonita que conheci, que recusou nos anos 50 um convite para o cinema nos E.U.A. , o realizador que te pediu em casamento, mas o teu amor eterno por quem mais tarde seria meu pai, levou-te a ficar por aqui, neste Portugal em finais dos anos 50…

... na forma como acreditavas nas pequenas coisas, a simplicidade com que regavas as plantas pela manhã, o cheiro dos lençóis lavados, as sardinhas com pimentos assados na lareira a lenha na casa do tio, perto de Mangualde onde nasceste, dos nossos passeios pela Serra da Estrela, dos bordados de Tibaldinho... e Sintra, uns tempos mais tarde onde te reencontrei...

A tua eterna paixão por malmequeres... Recordo as tardes que íamos apanhar malmequeres, os vestidos sem conta que tive com malmequeres, nos ganchos, anéis, pulseiras, com a mesma flor cheia de pétalas, todas repletas das tuas mãos.

Aprendi muito com a tua breve história de vida… Tinhas tanta vida para dar, mas partiste tão cedo... Sei (porque sinto, era assim que falavas ao meu coração) que me ouves e falas comigo todos os dias, continuas a meu lado numa saudade sempre presente. Não sei descrever-te, pois nunca sei se falo de ti ou de mim, mas continuo a sentir-te… essa foi a grande herança que me deixaste…

As palavras a seguir são para ti...


Cada Ser Humano
é um Todo energético
dotado de um Centro

Centro Imutável
presente em toda a Mutação.

Atravessa o Tempo de Vida para Vida.

Para esse Centro Imutável
converge toda a experiência individual.

Dizem os Mestres chineses:
para que tudo mude,
é necessário que algo não mude.

Algo que sempre permaneça,
que segure o Movimento
além de toda a Mutação.

À Eternidade pertence o nosso Centro.
O nosso Ser Divino.

Algo em nós Eternamente Vivo,
sempre presente.
Algo que sempre Foi, É e Será.

Além do Espaço-Tempo
de qualquer Encarnação.

Centro-Imutável,
recebe a experiência
de uma Consciência em Expansão.



Maria Flávia de Monsaraz, in "Cosmos, Ordem, Matriz" [2000]



Foto 1: A mulher mais bonita do mundo, com a idade que tenho hoje...

Foto 2: Malmequeres...

Foto 3: Maria Flávia de Monsaraz (uma mãe adoptiva para mim...)