terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Noite Passada.



Começo por transcrever parte dum texto que publiquei neste espaço LIVRE, onde expresso o que penso, o que observo na minha experiência diária, o que vejo para além do pragmatismo do quotidiano, o que sinto nos olhares e na falta deles, daquilo que o Direito ainda está longe de entender: o princípio da imediação do olhar, o espelho da alma que não se engana, por mais recônditas que sejam as teias, por mais enroladas e enevoadas que sejam as leis e o seu excesso de produção, em detrimento da falta de regulamentação:

“Estamos na pré-história do entendimento do comportamento jurídico-penal, a humanidade está profundamente atrasada, sobretudo ao nível mental! Os senhores que andam por aí, a produzir leis de cordel, não passam de atrasados mentais, que escrevem leis para “safar” os amigalhaços… ” - in, “Como de urde a Justiça”, de 16 de Julho 2008.

Um exemplo muito directo é a lei 59/2007, de 4 de Setembro que alterou o Código Penal, em algumas matérias para melhor, outras “menos melhor”, sendo brando o grau superlativo. Temos como mero exemplo, a redacção que introduziu o nº 3 ao artº 30º do referido código:
Artº 30 (Concurso de crimes e crime continuado)
1 - (mantém-se).
2 - (mantém-se).
3 - O disposto no número anterior não abrange os crimes praticados contra bens eminentemente pessoais, salvo tratando-se da mesma vítima.

Será que esta alteração não está relacionada com algum processo mediático? Casa Pia, será que quer dizer alguma coisa? A lei é de 2007… Não afirmo aquilo que não sei, só pergunto e questiono, sem qualquer dogmatismo inerente. São estas as malhas que o nosso “poder legislativo” tece, sem que o mais comum dos mortais entenda o que está a acontecer, mas o “poder judicial” deveria ter a obrigação, não direi legal, mas moral, de se pronunciar sobre estas questões incómodas. Este é um mero exemplo, existem milhares na teia urdida pelos senhores “doutos”!

Hoje, numa banal conversa com um amigo, indagávamos sobre a questão da inquirição por teleconferência das testemunhas. Atende-se à sua razoabilidade, ao apelo das novas tecnologias (quando funcionam), mas esquecemos a questão central (mais importante em penal que em civil), que fundamenta a teoria que o Direito perdeu com o tempo, seja ele o que for, na sua mais pura abstracção, a do Tempo, não do Direito, pois nem sempre as leis são gerais e abstractas, como deveriam ser.
Se este último é a matemática das letras, então esquecemo-nos da questão sacramental que as modernas sociedades transportaram para outros planos. Não quero com isto dizer, que devemos recuar ao Código de Hammurabi (séc. XVIII a.C.), passando pelos tempos onde as noções de direito e de justo, mitigavam-se com o poder religioso. Não devemos esquecer que a prática do mesmo era exercido por sacerdotes em templos sagrados, até à laicização entre o edifício civil e o religioso. A confissão manteve-se nos templos religiosos, tendo sido transposta para o Direito laico, ainda hoje subsistindo como meio de prova. Será que devemos confessar o sagrado a um terceiro, que não conhecemos de lado nenhum, que não simboliza a Justiça, que é um mero funcionário dum Estado deturpado? Não, definitivamente! Aqui não questiono, podendo até tocar o terreno da anarquia, mas a justiça deixou há muito de ser aplicada (é diferente de ser exercida) por sacerdotes, por Mestres…

Existem questões que só podem ser confessadas a nós próprios, a quem amamos incondicionalmente, e talvez também, a esses Mestres superiores, escolhidos livremente por cada ser, sejam eles quem forem. Nunca a terceiros estranhos, administrativos mais ou menos independentes da máquina do Estado. O princípio da independência dos juízes (ao contrário da dependência do Ministério Público), é interessante de analisar no plano da retórica. São independentes, mas submetidos à lei plasmada… elaborada por quem? E, se analisarmos os sistemas de direito anglo-saxónico, esta questão torna-se inabalável, e por aí fora…

Desde o inicio do ano, entrei em três tribunais da zona metropolitana de Lisboa, tendo verificado que foram colocados detectores de metais e sistemas mais eficazes de vídeo-vigilância. Mais uma vez esta questão reforça aquilo que penso: ninguém nos pergunta nada quando entramos num templo sagrado, seja qual for a religião proclamada, limitando-nos a cumprir os preceitos conhecidos e costumeiros de cada uma delas – desde o budismo, passando pelo cristianismo, até ao islamismo…

Poderemos ter agora um novo alvo preferencial da criminalidade: os advogados. Explico-me: entramos nos tribunais “apitando por todos os lados”, com a mera exibição fugaz, quase em estilo passe público, sem a adequada verificação da cédula profissional. Alguns larápios, andam por aí “à caça” da dita cédula, tendo conhecimento de alguns advogados que já foram assaltados, uns com violência (roubo), outros sem a mesma (furto), para conseguirem o respectivo documento profissional, de quem passou muitos anos a queimar e a florir (porque não?) pestanas. Agora é fácil ser detectado, como hoje presenciei um cidadão que vocifrava, na sua justa demanda da desigualdade que esta cidadania nos propõe: “lá vai ele a apitar!"
Pode parecer caricato, mas vamos ter um novo problema na sociedade portuguesa!

Mudando a agulha do gramofone:
a noite passada tive um sonho…

... ele acenava-me do portão da nossa gruta, não estava chamuscado, não estava parecido com nenhum peru, nem frango… Não sonho com a maldade, nem com a perversão, revejo-me nos meus sonhos, por isso, as suas mãos eram luz, o seu olhar enfatizava uma nova aprendizagem, marcada por tudo o que aconteceu, por toda a dor que nos causou… e ascender era simples, como todas as histórias de Amor o são.

Houve um tempo que anotava num pequeno caderno os meus sonhos, hoje não ando com cadernos amarrados às mãos, escrevo folhas soltas, sem datas, sem referências idiotas, um puro acto de liberdade. Não me recordo conscientemente, que alguma vez tenha sonhado o impossível, os meus sonhos estão no limiar da possibilidade do possível. O tempo o reconfirmará…

Acordei entre os acordes simples que acolhiam as palavras sussurradas nessa noite. A harmonia pode regressar, depois do sonho, quando a noite passada amadurecer o tempo incerto, para voltar ao tempo certo, o presente… sem papel de fantasia, sem os trajes com que andámos (será que ainda andamos?) disfarçados, enganando tudo e todos, estranho jogo serpenteado numa vitimização em colisão, sem sentido definido, simplesmente sem sentido.

… a narrativa estudada, a tese elaborada… fui eu que escolhi o meu papel, poderia ter escolhido outro, mas só este retratava a secreta inversão da eterna premonição sonhada.

Quando o pano descer, só nós estaremos do outro lado do palco, sem disfarces…



A Noite Passada

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas “sou gaivota e fui sereia”
ri-me de ti: “então porque não voas?”
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste.

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto, abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo, dormias lá no fundo
faltou-me o pé, senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos.

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti, disse baixinho “Olá”
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então tu olhaste
depois sorriste
disseste “ainda bem que voltaste”.


Sérgio Godinho, in “Pré-Histórias” [1972]


Imagens 1 e 2: como entendo o sonho da noite passada, entre as palmeiras e os pinheiros que me guardaram na noite escura, pois tudo nasce da escuridão, como o dia é filho da noite...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Eu, Uraniana de mim...





Há tolos e tolas. Homens convencidos do seu umbigo desajustado, mulheres libertinas que transcrevem o que não sabem interpretar, por isso, tristemente traduzem literalmente, num limitado “stricto sensu”, nunca tocando o “lato senso”, reduzem-se à sua “caixinha conformada do quotidiano”, é triste…

Quando não sabemos devemos ficar calados, entender o silêncio a que devemos prestar uma vénia de gratidão, pela oportunidade que a vida nos dá, aprendendo assim, o drama da libertação que só o saber da evolução desdensa. Como quem ouve uma velha canção que se ouve ao Domingo, e ficar assim quieta, olhando as imagens que desfilam no registo, é bonito…

No inicio deste ano, talvez mergulhada na minha oposição de Urano a Urano que estou a viver, percebi o significado da verdadeira mente superior, a eterna Universal Mind: “I was doing time in the Universal Mind, I was feeling fine, I was turning keys, I was setting people free, I was doing all right… Then you came along, with a suiticase and a song, turned my head around… “ , esta é sem dúvida uma das mais belas melodias de sempre, que ouvi a primeira vez em 1980, num álbum duplo em vinil, daqueles que hoje guardo quase como uma peça de museu, que demorei seis meses a juntar 1.750$00, da mesada que o meu pai me dava para o conseguir comprar, na discoteca “Preto”, onde comprava os meus discos. Um dia destes voltarei ao duplo álbum (naquele tempo chamava-se LP-Long Play) de 1970 dos Doors, “Absolutely Live”. Hoje, há por aí alguém que tenta comercializar a mais bela obra queirosiana: “A Tragédia da Rua das Flores”, embrulhada em papel de telenovela, plagiando o que não é copiável, pois até para copiar é preciso alguma criatividade, que não há, que não existe, nunca existiu! Talvez até tenha existido, talvez até possa voltar a existir, se "ele" tentar entender-me...

Só quem conhece o “ser” por dentro, muito para além das suas entranhas, pode entender o que acabei de escrever. Mas não o condeno, não lhe quero mal, e tudo o que faço hoje, é por que sou quase obrigada a fazê-lo. É como se não fosse eu que estivesse ali, uma representante de quem não sou. Só queria voltar a ter a paz que reencontrei nos seus braços, e que alguém nos roubou provisoriamente, mas a vida é sábia, nunca se engana na sua onda Uraniana.

Não somos livres quando queremos, somos livres quando passamos por determinadas experiências vivenciais, nunca deixando de ser fiéis a essa dolorosa ascensão, pois não é o prazer que nos transcende, é a dor... esse Urano descomunal daquilo que é a Liberdade. Onde há violência não há liberdade, onde há revolta não há liberdade, pois quem é verdadeiramente livre não contesta, partilha a liberdade, essa consciência cósmica, esse Urano duma mente superior, ao contrário de Mercúrio analítico, definidor da mente inferior.

Temos que ser nós próprios definitivamente! Pelo pouco que li duma senhora que desconheço (?), até pode configurar uma escrita mediana, uma beleza intrínseca que até pode existir, mas não existe sensualidade, não existe a capacidade de voltar a desencadear o processo criativo para "alguém" que precisa dele urgentemente! Alguém que gosta da sua “caixinha organizada e direitinha”, quando o que “ele” precisa é duma força vulcânica entre a terra e o céu, sedutora por dentro e bonita por fora... alguém que o provoque físicamente, mentalmente e espiritualmente, mas agora num intuito apaziguador, bebido duma serenidade em ondulação de maré vaza, mas sempre com a inquietação criativa, finalmente desprovida da ansiedade, que quase me matou. Esse é o apelo do tempo certo!

Saber ler palavras escritas, é um exercício de facilitismo que não me seduz, saber interpretar por experiência própria tudo o que passei, é um desafio de quem não sabe fingir, de quem perdeu o medo e o pudor do Amor e de Amar, que não são sinónimos.

“O karma constitui a eterna afirmação da liberdade humana. Os pensamentos, as palavras e obras formam as malhas da rede com que nos envolvemos”. – Entendo e pratico as palavras escritas, ao contrário de quem só sabe papaguear, fui eu que fiquei presa na malha dum Amor incondicional, e a seguir, (é aqui que entra o entendimento de Urano) saber entender o que está do outro lado, e demonstrá-lo para além dos limites que ele encerra, não é fácil. Implica um despojamento total, um ficar sem nada, sem ninguém, um todo de nada...
Fui eu que senti o lastro que define o espaço entre a vida e a morte, fui eu que o senti dentro de mim, a senhora limitou-se a ser uma simples medusa sem sal, um olhar sem sedução, para alguém que procura numa mulher o que a senhora nunca lhe poderá dar, que “ele” encontrou e tentou matar-me pelo medo do reflexo no espelho da alma dele.

A escolha que fiz, foi a do Amor que reencontrei… Também não lhe quero mal, só lamento que na escolha das suas manhãs, o seu vestido esteja polvilhado de tons profundamente tristes e inestéticos, como aquele verde alface que tinha vestido numa noite de Maio de 2006, a noite que eu perdi, o que a senhora ajudou a matar. E, não tendo eu nada para lhe ensinar, aprenda que a evolução não é longa, é eterna…
Deixe os objectivos profissionais e atravesse o deserto como eu atravessei. Tenho pena de si, já não tem nada para lhe dar, o seu rio secou. Só eu lhe posso devolver o poder da criação, aliás, a mulher secreta da vida “dele” sou eu… A mera beleza intrínseca limita qualquer mulher, mas isso é um problema seu.

Entre a Medusa e a Musa existe a diferença entre a conjugação aditiva e a alternativa. A senhora foi um escape alternativo, nunca será uma conjunção aditiva. Por dentro a transformação pode ser melhorada, por fora, por mais cortes e plásticas, nada muda. É um presente com que Deus não a presenteou. Lamento, mas esta é parte da verdade que se limita a sê-lo na sua mais simples perfeição. “Ele” sempre me amou, e a senhora aproveitou-se da minha depravação para dar uns passinhos de dança desarmoniosa e sempre escapulida. Mas tudo isso são meros acordes laterais, secundários, e a senhora na sua tentativa (nem sempre a tentativa é punida criminalmente, aprenda) balanceante tentou o que nunca terá...
Será uma questão de tempo...


O Universo tem coisas boas à sua espera, procure-as, afaste-se de quem eu amo, pois esta história pode estar só no início...

Há amores que se partilham, outros não!

Tenha coragem para ser Uraniana, longe de nós...

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Amor Sem Pele

Temo a tua beleza, não a quero para mim, mas não quero que ninguém fique com ela,
por inveja, porque és demasiado bela!
O teu poder de sedução feroz, não tenho qualquer fuga ou armamento,
é sempre um sobressalto sem alento…
Nunca tive medo que me levasse a esconder de ti, mas,
confesso que tenho medo de me encontrar contigo na claridade
sem que exista uma sombra, mesmo que na presença de ambas,
se existisse luz, que seja tão lenta como o tempo sem cronómetro.
Encarar um diálogo tão próximo numa quadrilha de atitudes não eloquentes ou intemporais
fico sem álibi.


Egéria, in “Amor Sem Pele” [Maio 2006]

Foto 1: Eu…
Foto 2: O meu karma nesta vida...
Foto 3: Egéria - pintura de Joma Sipe [2006]
Foto 4: Ele…

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A dor leva tempo a consertar.





O tempo começa a revelar-me a sabedoria imemorial do silêncio. Não sei se foi uma opção consciente, depois da derradeira traição, espicaçá-lo, provocá-lo, para além da exaustão do prazer que a dor me revelou, sete dias e sete noites depois… Sempre me disse ser eu a terceira, dum arquipélago perdido, dum continente afundado, dum ar eterno soterrado. Onde é que fica o lado consciente do amor ferido, torturado, caluniado, será essa uma razão movediça?

O Amor e a Dor percorrem como almas gémeas de sinal contrário, o mesmo caminho, tocam-se no mesmo ponto sideral, que depois de tocado, desliza para o outro lado, onde a voz do Universo devolve a resposta, algum tempo depois, como o eco das palavras sussurradas naquela noite.
Aos poucos regresso (regressamos?), à praia que me viu partir nessa noite trágica, sem ainda saber que ela era eu, o sonho premonitório rasgado, entre a consciência e a inconsciência. O lastro onde tudo se define, a fronteira alarga-se na margem que ambos cortámos, na tentativa consumada do nos aniquilarmos, renascendo para um novo tempo criativo, que começa agora a surgir.

O terceiro instituído, veículo encontrado duma comunicação que alguém tentou, tendo como suporte uma mentira onde se espelha a imperfeição, uma crueldade como cúmulo da criação invertida.

A eterna revelação está pendente, à espera de nós…

Essa inversão que a morte nos propõe, o regresso à casa IX, onde reencontro a minha Lua, onde o Saturno e o Neptuno de alguém, entende lentamente, a proposta dum tempo que nunca deixou de ser nosso.

As páginas abrigadas pelos co-autores, começam a retomar o ponto onde a escrita ficou suspensa, agora uma oitava acima.
A verdade seduz-nos, a outra, aquela que nada tem de verdade afunda-se num mar que nunca foi nosso, pois esse só os protagonistas o conhecem…
Será que vale a pena continuar a enganar terceiros, escolhidos para inverter a nossa história, talvez de amor…

Mais uma vez… talvez.

Ao contrário da autora do texto seguinte, acredito que o amor não é um castigo, é a mais profunda aprendizagem, onde não existem vencedores, nem vencidos. No amor não existe retribuição, só um cuidar eterno de quem amamos desde o princípio dos tempos. Testar os limites, faz parte dessa evolução, um teste que propusemos a nós próprios…

Guardarão as pedras a memória da raiva?

Talvez.


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Um círculo fechado

… E de nada serviam as últimas palavras que disseste. Desprovidas de harmonia, soavam-me a falso. Escolhi então ficar sozinha mas cristalinamente íntegra, devastada pela decepção, humanamente fragmentada, mas rigorosamente autêntica.

Valerá a pena lutar, chorar, iludir a vida? E depois? Sim. E depois? Se calhar, a resposta é um infinito silêncio que nos petrifica, que nos angustia o sangue. Um dia, ficaremos irremediavelmente sós porque o desfiar do tempo irá confrontar-nos de forma implacável com o eterno.

... Se a vida fosse como as palavras? Mas não. Ela é um círculo que há-de ser inexoravelmente fechado culminando na nossa entrega crepuscular. E não podemos jogar sempre com o tempo porque somos, em suma, órfãos cósmicos, avançando no planeta de Milan Kundera, nessa evidente “insustentável leveza do ser”.

Ao escrever, vale-me o meu tipo de registo, este ritmo sincopado, entrecortado por alguns espaços, por alguns hiatos, que me deixam respirar, repousar e, no limite, esbater a dor.

Algumas pausas permitem-me relembrar a força e a verdade da minha entrega à vida e trazem-me também à memória os erros que acabaste por desenhar no mapa dos afectos, banindo tantas coisas transbordantes da vida e da harmonia.

Recordo as dores porque acredito que recordar traz consigo um efeito terapêutico, mesmo que se recorde o que morreu.

… E penso, será o amor um castigo? Se calhar, às vezes é.


Maria Adelaide Valente, in “A dor leva tempo a consertar” - (parte do texto) [2003]


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Foto 1: Este texto é dedicado à Maria Flávia, que me ajudou a entender que a dor tem um sentido... Obrigado.

Foto 2: Cabo de S. Vicente, talvez um dia conte a história desse dia... [1991].

Foto 3: Escadas até ao Cristo do Garajau, que um dia ascenderemos juntos, pois o percurso inverso (o eterno jogo invertido) já foi realizado.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

E a prosa continua...




Regressei aqui em finais do ano de 1966 (d.C.), foi o que me disseram, será?
Não tenho conhecimento que tenha alguma irmã gémea, muito menos uma clone, mas existe por aí alguém que me vê em diversos lugares certos, num automatismo mirabolante, à mesma hora que outros seres (serão peças compradas para florir o ramalhete?) que também dizem ver-me, talvez acenar!
Será que a massagista tirada dum filme de terror me viu passar, ou terá sido o bate-chapas, figura tétrica, sempre a bater na chapa errada?
Talvez tenha sido a dançante ramaldeira, ou terá sido a enlatada abespinhada?

Histórias contadas sem o mínimo interesse, por quem continua embrenhado numa demência mental, mais vasta e intrincada do que eu pensava inicialmente.
Quem continuará a ver as minhas irmãs gémeas (ou serão finas primas?) em acto contínuo em diversos locais, em simultâneo movimento, como umas clones criadas para a epopeia da sua nova criação?

Inicialmente, pensei que alguém poderia ser dotado de alguma inteligência, mas enganei-me. Quem se deixa burlar por alguém que negoceia na loja do chinês, onde vende suspensões peitorais, só pode ser duas coisas: ou muito estúpido, ou um anjinho enganado nas ditas suspensões disformes, vislumbrando o soalho!
A megalomania tem destas coisas, os protozoários também.

O ser errante deambula numa lata, a medusa dispõe-se a tudo, nem o seu olhar de alforreca o consegue espantar, o ser acusador dele próprio, evidentemente!
A terrorista, a vândala e por aí fora, têm o respeito e a consideração de alguém com quem privou academicamente, não num ensaio escrito dum depravado. É só essa a diferença entre a Musa e a Medusa, que até lhe atribuo a minha vénia maiúscula, por pena de tanta agregação precária.

A “musomania” nunca existiu, a Musa surge no momento certo da incorporação na alma do seu criador, e se alguma vez afirmei neste espaço a palavra Musa, foi pelos poemas que alguém me escreveu, e que estão bem guardados. Ele (quando perder o ego), e eu (que já o perdi) sabemos a verdade, tudo o resto são manobras de diversão, foguetes estaladiços e pipocas gracejantes.

Entretanto, a medusa continua a dançar, talvez o vira, ou será o virote? Escreve no decalque da sua própria ridicularização a pessoas que têm mais que fazer do que aturar delírios de vendedoras de propostas contratuais mal redigidas, que dão erros básicos de português, que passam a vida a pedir perdão (olhe-se ao espelho, minha senhora!), que papagueiam o que não sabem, o que desconhecem, pois ouviram dizer. Esse exercício de cartografia gorada, é o mesmo que passar uma noite num hotel pago por um melro em decadência, pois as papagaias são assim, profundamente tristes, ridículas e grotescas, a roçar o chiste, mas já dizia Gil Vicente: ser ridículo(a) mata! Aconselho-a a ler: “O Velho da Horta”, pois empregará o seu parco tempo duma forma mais inteligente, do que a escrever baboseiras para amigos meus, daquilo que não sabe e nunca saberá.

É assim que alguém pulula por aí, que pensa que o aparelho do Estado serve para resolver as suas misérias existenciais, as suas decrépitas mãos maculadas, o seu voyeurismo que se reduz à sua rua. Por vezes, urge entender a cegueira, para reencontrar a claridade excessiva que pode cegar.

E a prosa continuará...


CONCHA

nenhum neptuno amanhece do mar. um galgo prateado
com orelhas de concha emerge dele tranquilamente.
seco como um osso. tenho
o impulso de lhe murmurar qualquer coisa ao ouvido.

de súbito antes que pronuncie palavra estou gelada.
como uma estátua. como a valsa que pára no ar.
o cão atravessa-me de ponta a ponta. telepático. sotavento.
sábio ritmo.

aí vai a história:

a uma concha não se fala
ouve-se

estou envergonhada mas compreendo depressa.
comprimo a orelha contra
o seu ouvido-concha. primeiro, como era de esperar,
oiço sons do mar. murmúrios. depois gradualmente outra música.
palavras extremas.

palavras de poder. palavras de luz. tão inocentes e corruptas
como um beco. tão sedutoras como o sangue do pombo. a cabra
branca. a metáfora. alquimia do
béu-béu


Patti Smith, in "Witt" [1973]


Foto 1: Patti Smith - Foto de Gordon Comstock [2002]
Foto 2: Ando a receber rosas azuis... Serão do "Deus da Crueldade"?
Foto 3: Polímnia: Musa dos hinos e da poesia sagrada...

domingo, 11 de janeiro de 2009

Time is On My Side.























Time is on my side, escrita por Jerry Ragovoy, imortalizada em 1964 (ainda eu não tinha nascido), pelos Rolling Stones...
Saturno também já existia quando voltei aqui, vinda não sei de onde, talvez de Plutão, o planeta que mais me fascina, mas é o meu Saturno que me tem ensinado muito nos últimos tempos, pois ele é o "Senhor do Tempo". Talvez, por isso, hoje apetece-me contar uma história ligeira e pouco densa, de quem sempre foi uma pessoa normal, ao contrário do que alguém quer fazer fé, ou será crença?

Este ano que ainda agora se iniciou, já me reservou algumas surpresas: umas desagradáveis, onde a concepção da crueldade alastra como erva daninha, sabendo que a verdade nunca se engana, será uma questão de tempo, “ele” regressará da bolha de crueldade que criou para mim…
Outras surpresas agradáveis, pois é assim que devem ser. Recebi uma carta na minha antiga morada, uma casa que continua a ser da minha família, de alguém que perdeu o meu contacto, há mais de vinte e cinco anos. Não vou aqui revelar a identidade da referida pessoa, pois este espaço é lido pelos infiéis, e denunciado duma forma fascista numa instituição pública, que deixou de merecer o meu apreço. A referida pessoa, foi músico nos anos 80, era eu adolescente, tinha um namorado daqueles de café, o Beto, que já aqui referi, e a rua onde vivia respirava música. Recordo-me das noites em que as sirenes da polícia iluminavam a noite, devido às denúncias do “barulho” nocturno, eram os músicos em ensaios… Uma dessas noites, foi o meu pai (desculpa papá) que telefonou para a PSP, pois não conseguia dormir com os “batuques” a altas horas da noite. Nessa rua, existiam várias bandas da chamada música rock, uma delas eram os Tânger, os Ferro e Fogo apanhavam a camioneta em frente da minha casa e muitos outros músicos que por ali pairavam e paravam… Um deles, pelo qual tive uma ligeira paixoneta, o Beto, que fazia serenatas de viola acústica debaixo da janela do meu quarto, pois não podia sair de casa depois das vinte horas e os concertos eram quase todos à noite, ficando eu retida em casa. Eram outros tempos, mas que ficaram na memória. A carta que recebi de alguém, esta semana, revelou-me a lado bonito da vida, das amizades verdadeiras que nunca se perdem, apesar dos desencontros e caminhos diferentes que a vida tece. Lembro-me das vezes que ouvimos o lado B, dum single dos Opinião Pública, “Ela é Tua” – tantas estórias com história que sobreviveram ao tempo:
“Vê o Beto com a mota à esquina… capacete na mão, perfume no corpo… ela é tua…”

Este texto é profundamente banal, em estilo quase de pasquim, mas revela um tempo inesquecível que vivi. Talvez, a adolescência tardia tenha o seu profundo encanto, mesmo de quem me acusa, quem esqueceu um tempo que foi nosso… e voltará a ser. As raivas demorarão o tempo certo a esquivar-se, pelas asas dum Amor que nunca morrerá.

Duplo Controle

Ela tem duplo controle
Estilo para dar e vender
Um sorriso todo “pretty doll”
Na vida nada tem a perder

Nos longos corredores
Ela move-se decidida
Não quer saber de rumores
Entre a vida e a morte não hesita

Ela tem duplo controle
Sobre a vida e a morte
Ela tem duplo controle

Ela procura afeição
Vai escolhendo até encontrar
Algo para além da ocasião
Até a morte a procurar

Opinião Pública, do LP “No Sul da Europa” [1982]

Depois deste devaneio revivalista, motivado por alguém, que ao fim de tanto tempo me escreveu… não foi “ele”, foi um amigo da adolescência, desses dourados anos oitenta…
A amizade é o melhor do mundo, pois o Amor desmedido pode ser perigoso, eu que o diga...


Regressando ao estilo deste blogue, fica aqui a minha última descoberta na poesia, e também na prosa: Maria do Rosário Pedreira.

“… Eu voltando a cabeça, fingindo não o ver. Filipe, dizendo em tom de brincadeira: eu acho que a conheço de qualquer lado. Eu erguendo a cabeça, fitando-o nos olhos e respondendo: tem graça, eu não me lembro. Filipe, inconformado… atacando de novo: acho muito estranho que não se lembre, pois podia jurar que já estive na sua cama. Eu… concluindo: pois olhe, para eu não me lembrar, é porque não deve ter sido nada de especial”.

Maria do Rosário Pedreira, in “Alguns homens, duas mulheres e eu” [1993]


Foto 1: Contra- capa do single dos “Tanger” [1982]

Foto 2: O meu Saturno (o meu tempo) mergulhado a 22º em Peixes, na casa 11 (Aquário), o meu Saturno retrata a concepção que tenho do tempo…

Foto 3: Eu… talvez em 1982… talvez 15 anos…

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A Mar Te





A Mar Te hei
até ao dia seguinte
Incondicionalmente


Lena d´Água , in "A mar te" [1984]

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Inverter a prosa, o ritmo, o silêncio
Na noite gélida, olhando o mar pela janela da sala
O cabo Espichel ao longe,
o oceano aqui tão perto,
dissimulado pelas luzes da base da Nato
avisto a ponte sobre o Tejo,
a outra margem,
toda a costa que se estende
até Sesimbra.

Do outro lado, no meu quarto
a serra de Sintra,
um pequeno ponto luminoso,
talvez o palácio da Pena,
a pena que o amor é.
Será que vale a pena?
A mais estranha invenção
dos homens,
talvez o amor, talvez…

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Estranhas são as minhas noites, já me esqueci qual foi a última que dormi oito horas seguidas, terá sido há três, quatro anos, já não sei…
Alguém tem o direito de me invadir em pleno sono, inquietar-me, roubar-me a paz, remexer debaixo da minha pele, propagar-se na minha mente, como se tivesse direitos de autor sobre ela…
Daqui a umas horas tenho mais uma reunião, daquelas que desgastam e não levam a lugar nenhum, pois esse local onde uns ganham e outros perdem não me interessa. Interessa-me estar do outro lado… aquele onde “ele” está mas não assume, por medo, cobardia, vivendo assim uma vida enclausurada em si próprio, enevoada pela espada proclamada, cavaleiro dum tempo incerto.
Calcular, engendrar o que não quero. Não consigo entender o alcance da crueldade, mas tento, todas as noites tento, mas o sono esvai-se e o sol reaparece com um estranho brilho, outra vez…
Como alguém me dizia, às vezes, temos que dar dois passos atrás para podermos dar um novo passo em frente.
Os anjos andam à solta, sem terra, invadem o éter e é assim que os sentimos, na dimensão mais secreta do sentir, onde a crueldade fica à porta.

A Mar Te hei
incondicionalmente
até ao momento certo


Foto 1: Pintura Da Costa Maya, capa do livro referido.
Foto 2: Início de 2009, sem maquilhagem, sem máscara… de frente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Carta a uma desconhecida.






















Foi assim que recomecei…
Nas minhas reticências, tão ao meu gosto…
Muitas dúvidas, felizmente
De quem não acusa de lado, mas de frente
De quem vai desmontar a trama mental
Dum louco, alucinado, poeta enganado
Soterrado em moscas junto a bidés,
Cortinas e finas primas…
Quiçá, aracnídeo perdido em operetas de cordel

Rodeado de figuras dependentes:
Do pecúlio, da alcova, do prazer primário
Da estupidez de quem ama e tem medo
Da cobardia de quem pisa terra alheia
Talvez lhe falte tocar o ar que os anjos
Respiram…
Ou será que a proclamada feia
É mais uma a deixar cair…
Talvez…


Quero aqui agradecer expressamente a um velho amigo que hoje me telefonou, tendo recebido uma carta duma senhora, que nem escrita por ela foi. Reduziu-se a rubricar em jeito de cancioneiro popular, como quem dança a chula ou a ramaldeira, acompanhada por umas rabecas, ou terá sido rabecão?

Existem pessoas profundamente tristes, funcionárias que a sobrevivência tece, picadoras de minutas enganadoras, rodopiando nos minutos contados, onde a falta de estética é aberrante. Sei que a beleza é um conceito relativo, mas a dignidade não o é.
Obrigado Dr… pelo apoio.


E como sou uma cidadã livre, sendo este blogue da minha autoria, continuarei a escrever, mesmo espiada e perseguida, num jeito de lápis azul, por um fascismo que me agonia até ao tutano, numa cobardia de transferência da culpa para terceiros. É triste, mas é assim, poderia não o ser...

Hoje, limito-me a ver e aceitar, com uma única ressalva: o Amor não são dois, é UNO.
Não sei quem é o Mestre, mas “ele” nunca o foi, falso xamã, ser umbilical a perder de vista em terras da Catalunha, fugindo de quem ama, fingindo amar quem nunca amou, soprando em brasas mortas e extintas, há muito tempo.
Desceu às catacumbas do seu desperdício, do que mais abomino, mas entendo e aceito…
Mais uma vez…

Gosto de elogiar a loucura, assim:

"Foi na loja do Mestre André
que eu comprei um rabecão,
Chiribiribão, um rabecão,
Chiribiri-biri, uma rabequinha,
tlim tlim tlim, uma campainha,
tum tum tum, um tamborzinho,
plim plim plim, um pianinho,
tiro, liro, lir'um pifarito,
Ai olá, ai olé,
Foi na loja do Mestre André."

Cancioneiro Popular

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Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio: 17 Setembro 1901 – 22 Dezembro 1969,
in Poemas de Deus e do Diabo [1925]


Fotos 1 e 2:
O meu gato e a minha gata, dois olhares, um único olhar…
pois o terceiro está a mais, quiçá dançando a chula ou a ramaldeira.