terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cristo do Garajau






Uns fazem balanços, outros balancetes, talvez baloiços e balancés, duma vida vazia de sentido, sem a revelação da intenção de estar encarnado, sem nunca entenderem a dimensão mais subtil da criação e do coração.

Final do ano a transitar para outro ano, tempo inventado pelos homens, foi um tempo que reaprendi o sentido da palavra CRUELDADE, a grande revelação que a vida me guardou, depois do amor e da dor. Há coisas que ainda não entendo, talvez já não as queira entender, como a cobardia de quem trai um grande amor, da forma mais displicente, como se duma tarefa quotidiana se tratasse. Aprendi, que o desconhecimento do amor, leva um ser às tentativas mais bizarras de desistência, esquecendo-se (pois, nunca amou ninguém...) que o Amor é eterno, não vive num tempo de disfarces, um tempo tecendo o medo desse mesmo amor, inventando reinos e feudos de impérios inexistentes, transfigurando-se em vítima da sua sombra, mergulhada numa bolha que engana o exterior, não a alma que sente. Pois, essa nunca se engana, só ela reconhce o verdadeiro amor, tudo o resto são jogos do ego, estratégias de defesa e de ataque, remoinhos de raiva, feitiços quase carnavalescos, engodos de puro engano.
Perder o medo de amar pode levar tempo, por vezes vidas, só assumi esse nó existencial, há pouco mais de dois anos, por isso, sei que leva muito tempo, tempo que agora já conheço, e ele conhece-me...

A dinâmica de qualquer fogo primordial revela-se sempre em trígonos, o fogo operativo dança nas chamas purificadoras da água, pois só ela o pode religar ao divino. Mas entre o fogo e a água existe um tempo incerto que ficou guardado. A água é o único elemento que liga a terra ao céu, esse é o meu curso natural de ascensão. Sente-se pela água, não pelo fogo, esta é a aprendizagem que ainda lhe falta fazer...

Existem locais neste pequeno planeta, profusos, profundos, onde qualquer adjectivação é mera redundância de palavras. Num desses locais mágicos, foi erguido em 1927, o Cristo do Garajau, situado na costa sul da Ilha da Madeira, mais precisamente na freguesia do Caniço de Baixo, junto a Santa Cruz. O figura do Cristo do Garajau é imponente pelo seu porte grandioso, flexível nas aves que poisam na construção de pedra intensa.

Christian Galko, um conceituado engenheiro austríaco, especialista em radioestesia, está a elaborar um estudo científico, relativo à confluência de energias que se manifestam naquele local, e a sua importância na renovação energética dos sete chakras.

A rendição dos braços abertos, o olhar erguido à imensidão do horizonte, de quem mudou para sempre essa linha, criando-lhe um lastro infinito, representa o eixo evolutivo horizontal: a linha que caminha do descendente para o ascendente, de leste para oeste. Dizem que é para oeste o melhor caminho… talvez. A linha vertical que liga a terra ao céu, representa o eixo do caminho para a luz, para a consciência, de Sul para Norte, do fundo do céu até ao meio-do-céu…
Talvez, "ele" com Saturno a três graus de Escorpião, na casa IX… no meio-do-céu…
Eu, talvez com a Lua a vinte e nove graus de Capricórnio, a entrar em Aquário, na casa IX… no meio-do-céu…

Enquanto escrevia este texto, passou numa rádio distante do outro lado do meu escritório, a notícia da ocorrência dum abalo sísmico, com a magnitude de 3,00 da escala de Richter, muito perto do Cristo do Garajau… talvez seja mais uma coincidência, para quem continua a escrever rios de palha, sem a capacidade de comunicar o seu amor, duma forma mais fidedigna, talvez ainda acredite em coincidências, eu já não acredito nelas, nas coincidências, claro…

Dos milhares de acontecimentos e descobertas, que este ano de 2008 me guardou e segredou, uma delas foi a descoberta da poesia de Maria do Rosário Pedreira, gostava de escrever assim para “ele”, mas ando a escrever outras coisas, talvez a serem reveladas em 2009...


Nunca te esqueci – é este um amor maior
que atravessa a vida e resiste à cicatriz
do tempo. O que ontem me disseste agora
o ouço, como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas
se aguardavam na distância de um beijo e
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se

hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja
lombada acariciei todos os dias que durou a tua
ausência como uma nesga de sol acaricia um
rosto no inverno), encontrarás a sopa a fumegar
na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
para qualquer aventura – e ainda o cão deitado
à porta, à tua espera, como na véspera de partires.

Porque os anos não contam para quem assim ama.



Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]



Imagem 1 e 2: Cristo do Garajau
Imagem 3 e 4: Meio do Céu (de duas matrizes energéticas, ainda desentendidas)

domingo, 28 de dezembro de 2008

A pele serve de céu ao coração

























A pele serve de céu ao coração…
É assim que tenho evitado o pior,
O melhor onde ainda habita
A cor da crueldade feroz
O tempo recortado no mesmo local
Vinte anos depois
Para os lados de Sintra…
A permissão do tempo, a chave reencontrada
Um segredo transmissível
Guardado no aviso das águas,
No eco da paisagem interrompida
Do azul negro guardado…


Para uma mulher que acreditou no amor para além dos limites que a vida lhe impôs, abdicou de quase tudo por esse amor, a história está a ser escrita vinte anos depois da sua morte.
Uma homenagem à vida que me deixou, à eternidade reencontrada em Sintra…



Em Sintra

As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros

Luís Miguel Nava (*), in “Películas” [1979]
(*) Nasceu em 1957, em Viseu e foi assassinado em Bruxelas em 1995…


O Céu

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.


Luís Miguel Nava, in “Como Alguém Disse” [1982]



Sem Outro Intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in “Vulcão” [1994]


Foto 1: José Boldt
Foto 2: José Boldt - Vidro Partido, Sintra [2006]
Foto 3: Eu e a minha mãe, Sintra... [1969]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Natal 1968



A crueldade existe definitivamente. Esta foi a semana que estive muito perto de matar alguém, pois alguém ultrapassou todos os limites, da sua própria devastação mental. As palavras encalham em tamanha monstruosidade…

Mas, existe sempre o outro lado, o lado dos meus momentos de felicidade, e este Natal tive muitos, junto de quem amo e de quem me ama, longe, muito longe do Deus da Crueldade…
a verdade nunca se engana, pois é perfeita...

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Pedra de Doçura

Cada poema de Natal
é uma pedra de doçura
guardada na mente duma criança.

Tudo o mais
- as palavras e os punhais –
perde-se na esperança.

José António Gonçalves, in “Lembro-me desses Natais” [2000]


Foto 1: No Douro...
Foto 2: Natal de 1968: eu e o meu pai. Passados 40 anos continuamos iguais...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Entre o perceber e o entender...




As palavras que se seguem não são minhas, ou talvez o sejam...
Alguém me segradou ao ouvido
No eco do coração implodido
No som do meu coração que já explodiu
Nos erros, nas culpas sem associação,
foi assim,
que "alguém" me segredou estas palavras:
matar-te é pouco, quero mais,
mais demais...


"Entre o perceber e o entender
Entre a fibra e o algodão
Entre o real e o coração
Entre o norte e o sul

Entre a morte e a vida
Entre o reparar e o olhar
Entre a tentativa e o tentar
Entre a terra e o céu

Entre a cobardia e a dor
Entre a raiva e o amor
Entre as garras e o toque
Entre o sexo e a alma

Sentir-te… é assim
Sentir-te é o que resta de mim…

A pseudo intelectual que nunca o foi
A louca "lorcorniana"
A maluca "malthusiana"
A psicopata "pessoniana"
A obsessiva "obtusiana"
A perseguidora "persiniana"

M u s a … mais de mais
Quase tudo foi dito
Na voz, no movimento
No olhar
Na anestesia...
Nas reticências que re-conheço

Na morte, onde já morremos
Na terra que já não queremos
Na vida que ainda vivemos

És tu…

O sulco novo das minhas rugas
Nos brancos irradiados
Na dor dos ossos, no pó do éter
Na carne a desaparecer

A alma que me devora
O eterno momento
Da nossa eternidade
Nas horas… sem ti

Entre Baudelaire e Ferré
Entre a morte e a vida
Entre o corpus e o animus
Entre a pele e as estranhas

Amadureci o teu ser
Os movimentos re-iniciáticos
O arrastar do corpo
O elevar da alma

Entre o teu olhar e o meu
Renasce a impossibilidade
Dum amor possível
Inadmissível perante os falsos doutos
Aceite perante os dignos celti-desoutos

A guarda conjunta
Do amor des-conjunto

A tua voz primeiro
O teu olhar depois
As tuas mãos no após
Do momento a seguir...

A incomunicabilidade
Dos Deuses
A comunicabilidade dos anexos
Dos pequenos seres
Dos egos reduzidos
Mergulhados fora de si
Na oitava a seguir
Na oitava casa

O rei-ki nas tuas mãos
O movimento do teu corpo
Esse segredo onde te re-iniciei
O tempo dum Amor
Mera proposta acusativa

Como um masoquista dormente
Nas longas horas sem descanso
Entre o Amor… e a Dor...
A mais alta frequência do ser
O estranho crepitar das brasas
Dum novo amanhecer...

No éter que tento
Na maturação do tempo…
Daquilo que não posso ainda
Dizer…

Sentir o coração que bate a meu lado
Sem o conhecer
Conhecendo-te
Reconhecendo-te
No olhar
Na noite que foi nossa

Querendo-te
No gerúndio
Tendo-te
Aqui

O infinito que ganhei
Nas tuas mãos,
Nos teus olhos,
No corpo que ainda sinto
Dentro de mim

Na alma única
Que foi nossa
Só nossa
De mais demais…

O acto da criação
Nasce duma fonte
Entre a terra e o céu

Entre o rio e o mar
Entre o doce e salgado
Entre o aconchego
E a depravação
Da dor onde vive a nossa
Prisão: tem-plo dum Amor

Nunca amei ninguém
Foi por isso que re-aconteceu
A nossa história?
Sempre te amei
Onde estará Plutão?
Casa VII, Casa VIII
A casa VIII é a minha casa
A porta oculta escorpiónica

Re-ensinei-te a re-tocar
As almas
Essa foi a melhor prenda de Jesus
O melhor ensinamento que Cristo
Me ofereu num tempo de Orfeu

No lastro da diferença
De Nós
Nos Laços
Talvez…"


Imagens: ...repetidas neste espaço incerto, neste tempo certo...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Esta tarde, percebi...




Neste quase início de Inverno, laivos solarengos inundavam a baixa lisboeta, como os traços que o destino tece, nos recantos dormentes da memória. Demorei mais de sessenta minutos no percurso entre o Marquês de Pombal e a Rua Victor Cordon, semáforos mutantes, automóveis imóveis, gente e mais gente. Como não tinha hora marcada para chegar ao local pretendido, reencontrei o valor das pequenas coisas, na observação pausada, que num ritmo normal de condução não é possível realizar. Sintonizar a frequência moldada no volume do tráfego, estranhos momentos na observação dos gestos, dos movimentos, dos olhares, das rugas tensas, do habitual frenesi citadino, que nesta época natalícia se acentua. Lisboa é cada vez mais uma cidade cosmopolita, onde se cruzam vários continentes, numa osmose cultural, quase sempre benéfica.

Dei comigo a pensar na diversidade da espécie humana, nos sonhos e nas preocupações de cada um… foram poucos os sorrisos que presenciei, muitos rostos perdidos e encerrados em si próprios (apesar das iluminações de Natal), nos passos trocados de uns, no tempo cristalizado em que quase todos vivem, no esquecimento do poder unitário do acto de estar vivo, no poder de transformação que o Amor tem, como um encontro iniciático...

Mais uma vez a rádio era o costume: conversas fúteis, futebol, politiquices e mariquices. Por isso, carreguei na tecla do leitor de cd's, e voltei a ouvir um dos discos que reencontrei do Chick Corea: "Where have I known you before - return to forever”… aquele Sol avermelhado da capa sempre me foi familiar, da primeira vez nesta vida que o voltei a reencontrar, como foram as outras vidas, do Amor... de hoje saber, que nunca se deixa de amar quem sempre se amou.
Do tempo que passou, do tempo que falta passar, do tempo certo, dos momentos de felicidade, de infelicidade, de alegria e de dor. Da conceptualização da teoria existencialista do tempo, com a qual não comungo.

Por breves momentos, quis partilhar com todos aqueles transeuntes tudo o que já vivi, e saber se tinha sido assim com eles. Se estão dispostos a fazer uma vénia à vida, agradecer a oportunidade única de estarem encarnados (mesmo os que ainda estão numa primeira vida), e entender o silêncio comunicante, o espaço táctil onde confluem sentimentos, e todas as imposições que a vida nos submete, até a aprendizagem dum novo conceito de crueldade...

Esta tarde percebi o quanto já fui feliz, e hoje sei que quanto maior é o momento de felicidade, maior é a dor que a acompanha por dentro, só que nesse momento não temos a consciência da divisão do mundo material, e por maior que seja a tentativa de juntar e colar os estilhaços, pintar com a mais nobre tinta a “estatueta” quebrada, por mais que a envernizemos com o verniz mais brilhante, ela nunca mais será a mesma. Os cacos unidos, e nem sempre reencontrados, mesmo depois de colados, dificilmente devolvem o olhar inicial, pois só a dor o aprofunda para uma dimensão maior.

Agradeci ao meu “Mestre”, por me ter deixado sozinha no meio dum mar imenso, com vagas assombrosas, sem conseguir vislumbrar a praia, talvez tivesse sido a prenda cruel desejada por mim. Fui eu que procurei destruir este Amor, fui eu que tentei deixar de amar, fui eu a causa da minha própria causa...

esta tarde, percebi que o seu último (?) beijo continha o veneno, da traição que me prometera no velho sonho, sete dias e sete noites depois…

esta tarde, percebi que as vagas do vento norte se transformaram num mar brando de sueste, num suave caminhar para a velha praia, onde talvez, ele me espere...

esta tarde, percebi que apesar de não conseguir ainda vislumbrar a praia, sei que estou na rota certa, o retorno à casa do Pai…

esta tarde, percebi que os seus braços encerram todo Universo, na libertação infinita quando me acolhem, em diversos modos e tempos verbais...

esta tarde, percebi…



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Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.



Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]


Imagem 1 e 2: Telas de Jú Novais

Imagem 2: Eu... no dia do meu casamento a 19 Dezembro de 1997.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Qual é a cor do Amor?





O enclave em que se encontra o poder judicial, neste tempo desentendido pelos homens, neste barquinho à deriva, onde cada um rema para o ponto cardeal que lhe é mais conveniente, parece ser um autêntico brocado sem o mínimo ponto reluzente, sem o brilho do olhar do meu Amor, como deveria ser apanágio da dita justiça, mas nem “justicinha” consegue ser.

O motivo que me fez abandonar há mais de vinte anos, as lides, primeiro da psicologia, depois da sociologia e apanhar o navio (como num filme de Fellini) na minha profunda ingenuidade, foi um acontecimento a tocar o impensável da barbárie que assisti... Foi esse facto real, que me fez tentar perceber o porquê da existência do outro lado da injustiça, que nunca é a justiça.
Passaram-se mais de vinte anos: se algo mudou nos contornos latentes, os meandros do sistema estão cada vez mais dissonantes.

Sempre repudiei qualquer forma de corporativismo, mas ele não pára de aumentar em sectores fulcrais da sociedade. Na obra “O Espírito das Leis” (1748), do filósofo e político Montesquieu, que foi um seguidor de John Locke, desenvolveu a teoria da separação dos poderes: executivo, legislativo e judicial. Cada vez assistimos mais à fusão destes poderes, por mais que nos digam que não é assim.

Numa semana em que se falou tanto de direitos humanos, a propósito do 60º aniversário da "Declaração Universal dos Direitos do Homem", com muitas conferências, sessões e reuniões aqui e ali, esquecemos a rama da questão. Olhamos para o cume da montanha, com os seus princípios gerais estruturantes bem redigidos, cheios de boas intenções, mas esquecemo-nos da base, daquilo que toca o cidadão diariamente.

A justiça não é (nunca o foi, duvido que alguma vez o seja) para todos. Exemplos práticos abundam por aí, em casos mais ou menos mediáticos. O que me leva a escrever estas linhas é a minha incapacidade de entender o silêncio, quando se tem que falar dos senhores juizes. O carácter cada vez mais discricionário da aplicação do poder judicial, onde os senhores juízes, com o devido respeito, não se limitam a aplicar a lei, redigida pelos senhores legisladores. Quando essa redacção lhes dá a possibilidade de terem uma “margem de manobra” vasta demais, temos os senhores juízes a aplicar as leis segundo critérios cada vez mais subjectivos, pois lhes é dada essa possibilidade pelo legislador. A fusão de poderes é cada vez mais intencional, deliberada, ninguém vê, nem ouve nada...

O Estado (também ele corporativo), precisa de receitas cada vez mais elevadas para se auto-sustentar, e manter os vícios de alguns "senhores". Os tribunais não são excepção, como nesta matéria, nada tem um carácter excepcional, muito menos especial. Temos o código das custas judiciais, com “novas” alterações que entrarão em vigor a 5 de Janeiro do próximo ano, se entrararem em vigor, pois nestas coisas nunca se sabe nada, ou sabe-se muito pouco com é que vai funcionar. Quem se der ao trabalho de ler, o diploma legal (DL 34/2008), pode ler o “brilhante” artigo 8º, no capítulo II, referente à taxa de justiça, o seguinte:
1-“A taxa de justiça devida pela constituição como assistente é auto liquidada no montante de 1 UC, podendo ser corrigida, a final, pelo juiz, para um valor entre 1 UC e 10 UC, tendo em consideração o desfecho do processo e a concreta actividade processual do assistente.”
2-“… podendo ser corrigida, a final, pelo juiz para um valor entre 1 UC e 10 UC, tendo em consideração a utilidade prática da instrução na tramitação global do processo.”

Ninguém ainda sabe que considerações vão tecer os nossos prezados juízes, e qual o conceito determinado das expressões:

- concreta actividade processual do assistente.
- utilidade prática da instrução na tramitação global do processo.


Quanto à diferença entre 1 UC (unidade de conta) e 10 UC, todos entendemos o que isto quer dizer. Pois é...

Mas já nada me espanta… a aplicação de medidas de coacção completamente ilegais, redacções de conceitos indeterminados, como frequentar e permanecer... não sei o que isto é em termos jurídicos, parece que ninguém sabe... mas quanto a esta procissão, ainda vai no adro, onde provavelmente falecerá de morte natural.

Continuo a acreditar no Amor, um oceano imenso onde não existe a noção de culpa, e se ela existe é para ser descodificada aos poucos, pelos amantes, ou pelos interveniente no processo amoroso, tudo o resto, são eloquências circenses.

Ser advogado do Amor, na sua defesa, nunca na sua acusação. Como já escrevi, quem ama não acusa, pois a condenação e absolvição são meros expedientes processuais.
Defender o Amor, foi o "seu" pedido há muito tempo, num continente submerso que reconhecemos quando nos voltámos a (re)encontrar. O azul profundo embutido na água que tivémos medo de reconhecer como nossa...
Depois da crosta caír, existe uma pele nova a nascer todos os dias, muito longe das habilidades processuais, mais ou menos acrobatas.

O Amor reconhece-se no olhar de quem amamos...

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Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.



Natália Correia, in "O Livro dos Amantes - VII Soneto" [1955]

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Reflexões com e sem Saudade.














O eterno escritor dos afectos, do sentir feminino, da aceitação do sentir sem medos das raízes fortes, onde está cravada a fragilização humana, que acredito serem património de todos os seres, independentemente do sexo e do continente dos anjos.

Escreveu três livros que ficaram na minha memória: "Reflexões sobre Deus” (1971) e “Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança” (1982). Foram leituras inovadoras e difíceis, naqueles anos 80, onde as descobertas eram quase diárias. Mais tarde, já no inicio dos anos 90 li o romance “Os Nós e os Laços” (1985). Há pouco tempo, uma amiga minha que o conheceu de perto, falou dele… da ternura, dos gestos, do sentir… a estranha forma de sentir que os místicos partilham.

O místico acredita no caminho do coração, do sentir, para alcançar o dourado manto nupcial, que nos fala Max Heindel. O ocultista, segue o mesmo caminho, mas pela via do intelecto, da racionalidade. Sem dúvida que António Alçada Baptista foi um místico, tendo tal concepção e filosofia de vida, marcado a sua obra duma forma ímpar.

Recordarei para sempre esta frase dele: O poder é a capacidade que os homens têm de criar para os outros um destino, essa é a essência da sua perversão”.

Por vezes, o destino que encontramos é um grande Amor, talvez, só nesse caso o destino não seja perverso… ou talvez o seja, até a aceitação, não das duas partes, mas da “una” parte com que se molda o Amor…

Quando há dois meses, “alguém” tentou o que não devería ter tentado, mais uma vez, entendi, aceitei… tentei que a raiva não moldasse aquilo que é desamor. Foi a manifestação de Plutão a 24º de Leão na casa VII, mas também poderá estar na casa VIII… falta o minuto certo do nascimento, pois ter um Plutão na casa VII, ou tê-lo na casa VIII, pode ser a chave-mestra da abertura para a luz dum qualquer drama emocional, da força telúrica da terra, que é Plutão… espero que esteja na casa VII, não na casa VIII, mas poderá ser uma dúvida eterna, que só o minuto, talvez só o segundo certo da primeira respiração poderá determinar com precisão. São poucas as matrizes energéticas que deixam dúvidas, neste limite quase milimétrico, esta matriz é um desses casos. Só conhecendo muito bem o suporte físico e espiritual dessa energia (o ser, talvez humano…), se poderá saber em qual das casas está Plutão. Começo a acreditar que esteja na casa VII…

"Plutão é a recusa obstinada ao melhor que nos espera", como diz Mª Flávia de Monsaraz, que me salvou mais uma vez, naquela noite há dois meses, que poderia ter sido fatídica…
…mas acredito que o Amor reconhece aqueles que ama…

Imagem: Contra-capa de "Recados dum Mestre Interno", de
Maria Flávia de Monsaraz, por António Alçada Baptista [1927-2008]

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Há noites assim




Poderia ser, há dias assim, como cantavam os Rádio Macau, uma estranha forma de recordar o ano de 1984, e a velha canção “Até o Diabo se Ria”, os meus 17 anos, o meu namorado (Beto) Vieira da Silva, que tocava numa banda do Algueirão, as minhas fugas até ao café, pois às 20.00 horas, tinha que estar em casa… Nunca mais o vi, sei que foi trabalhar para a Alemanha… tocava para mim a “Michelle” dos Beatles, duma forma que nunca mais vou esquecer.

Era o tempo da inocência, da adolescência, do acreditar na eternidade do momento, de querer mudar o mundo, das calças de ganga ruças, da voz da minha saudosa mãe: "não tens mais nada para vestir?", dos passeios à tarde para os lados de Sintra… dos velhos cafés da Amadora e de Almada, que nesse tempo frequentava. As festas de Sábado à tarde nos velhos cinemas, que hoje alguns já não existem, as histórias que guardo, dum tempo recortado na margem certa da memória, dum tempo onde reencontrei um Amor, um velho Mestre, que nesse tempo não sabia quem era…

Neste dia chuvoso de Dezembro, enquanto regressava a casa, tentei mais uma vez ouvir rádio, mas a encefalia mental de quem tenta fazer rádio é imensa (com algumas excepções, longe do que é a regra): uns dizem umas coisas sobre futebol, que não entendo e não me interessa, outros falam da vida cor-de-rosa (não será cinzenta?) dumas personagens que desconheço, outros nem falar português sabem, sobretudo nas rádios locais, apesar de se ouvir muito atropelo linguístico, também nas rádios nacionais… Mas pior que isso, é não ter o dom da comunicação, papagueiam por catálogo (talvez, multinacional...), como quem diz bom dia ao vizinho no café.
Contam-se pelos dedos os grandes profissionais de rádio, o resto é paisagem, profundamente deprimente.

A pasmaceira em que este pais tenta sobreviver, sempre a reboque de alguma coisa ou de alguém, é assustadora. Os programas de autor desapareceram, como existiam nesses anos de 1982-84, como a “Cor do Som”, a “24ª Hora”, e um programa que tentava ouvir sempre ao final da tarde, com o Paulo Coelho, penso que se chamava “Círculo em FM”, e outros que já não me recordo. Hoje quando ligo a rádio, a uma qualquer hora, é para ouvir algumas notícias, mas mesmo nessa área a estupidez vagueia. Como o que ouvi hoje: "o rendimento dos portugueses vai aumentar em 2009, pela baixa da taxa de juro, pela queda do preço do petróleo…"; o que sei de economia é pouco, só o que aprendi em duas ou três cadeiras na faculdade, mas qualquer leigo entende o profuso disparate que está a ser noticiado. Confundem o mercado da oferta, com o da procura, baralham os fluxos macro e micro económicos, e lançam ao ar umas supostas notícias, um de fogo de artificio, quanto mais colorido e redopiante, melhor!
Acabei por voltar a colocar no leitor de CD do carro, um velhinho disco do Cat Stevens…”Oh Oh, baby, baby, it's a wild world, it's hard to get by just upon a smile…”

Por vezes, temos que encontrar um refúgio para não perdermos a sanidade mental, pois a sanidade do coração é uma outra história…
… por fim: esta semana foi especial, consegui (talvez, não gosto de certezas...) transmitir a alguém o significado (mais que épico…) do alinhamento da Lua e Vénus… o silêncio é a forma que encontrei de sentir todas as suas frequências, as vibrações de quem encontro pelo sentir… as partituras emocionais começam a dourar um novo tempo de criação, até quando ficará nas galerias do mosteiro que lhe devolvi, até quando ficará no claustro do silêncio com que me penitenciou?

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Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.


Pablo Neruda, in "Los Viente Poemas" (1924).[Chile: 1904-1973]

Imagem 1: Conjunção Lua, Vénus e Júpiter (esta semana)
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap081204.html

Imagem 2: Conjunção Lua, Vénus e Júpiter (Los Angels)
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap081203.html

Imagem 3: Pintura da autoria do "Beto" [1984]