quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Da Água para Terra...




Vulnerabilidade da água, talvez seja a capacidade de aceitar sem nada pedir, como a noite velada, numa estrada entre a demência e a premência dum momento certo por reencontrar.

Não sei qual a razão, mesmo que irracional de tanta devastação mental, em que se precipitou um ser. Arreigado entre a sua descendência e ascendência, entre a primeira água canceriana do sentir da infância, da doce mãe, e a última terra capricorniana da responsabilidade social, desse sentir projectado num ideal colectivo, num gregarismo superficial e electrizante, quando deveria incidir essa água distinta de grandes memórias de outras vidas, num colectivo umas oitavas acima, com outra abrangência intelectual.

Câncer escondido na sua carapaça de sentir, Capricórnio obstinado na sua concretização social... será esta separação mental ou emocional? Integrar as polaridades não é tarefa fácil, como não é linear resolver oposições e quadraturas kármicas. O Universo é sistémico, entender o Amor duma forma analítica, é um desmembramento de seres alterados, num laboratório onde a prova reina como coadjuvante no inferno da sua arte.

Por vezes, sinto-me como uma artesã do Amor, daquele que é bordado no mais puro linho, como quem pinta uma tela daquilo que não vem nos jornais. O Amor é um clandestino predador, no livro que está a ser escrito… mas a verdade do que aconteceu, só nós a sabemos. O Amor, esse vulgar homicida reencontrado, esse silêncio desnudado eivado nas linhas das mãos, em forma dum templo cruel, esse jardim incendiado, na janela que recorta o Mar em quadratura, a Sul e a Oeste... O lado masculino irradia na varanda mental virada a Sul, fechando-se ao horizonte feminino a Oeste...

Desenhei o nome desse ser emparedado, no vidro embaciado do carro, no centro duma qualquer cidade perdida de si… Tanta gente e ninguém, pois quem ama vive, quem não ama sobrevive…
O Amor declarativo será sempre uma denúncia atormentada, mas o Amor narrativo, exaure-se na evasão entre os tormentos da adjectivação do narrador, quiçá, personagem principal num qualquer palco secundário.

Estranho eixo de evolução de Câncer para Capricórnio, a 13 graus… a caminhar dum mundo de memórias subjectivas e de imaturidade, tentando definir o dharma, a missão que se materializa na última terra que é Capricórnio. Essa materialização do social deverá incorporar as águas do câncer, não abrigando a alma na armadura do medo do sentir, pois esse sentir reconduz ao passado, a memórias dolorosas e kármicas. Trilhar esse sentir, é saber aceitar, sem medos, sem vazios lunares, sem equívocos cósmicos… aprender que quem ama, não se defende, não acusa, pois quem o faz é o ego, e só a Alma reconhece isso a que chamamos Amor.

Esse é o processo de individuação, que Jung refere… saber atravessar o grande deserto ou as grandes águas, a porta oculta de escorpião, é saber identificar o eixo de evolução, que nos leva da cauda à cabeça do dragão.

A Lua é o regente exotérico de Câncer, sendo Neptuno o seu regente esotérico.
Saturno rege exotericamente e esotericamente Capricórnio…
o Tempo de Saturno Capricorniano.

Faz sentido esse medo de Amar…

Devemos ter compaixão por esse ser que teme o Amor, que se refugia numa gruta fina, com medo da água que continua a correr em cascata sem parar, que se perde em fendas lunares de corpos densos, onde as passageiras sem título de transporte não passam de massagistas ao domicílio cheias de avareza, ou meras damas de companhia da solidão onde mergulhou, das miseráveis mentiras confessadas aos quatro ventos, na sombra dum ego que nunca amou nada, nem ninguém...

A primeira vez que Marte reconheceu Vénus, teve medo e fugiu, como um guerreiro duma guerrilha que Vénus nunca desejou. Mas Vénus é Una, numa tripartição criativa…

Vénus devolve a fragilidade, reconduz-nos à luz, que “alguém” ainda tem medo de aceitar, mas Vénus é o último sopro pacificado da arte criativa, esse reencontro do momento certo, onde reina a inspiração dos Deuses e a sabedoria dos grandes Mestres…

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Amávamos ambos as falésias, o recorte das escarpas,
o desenho irregular dos promontórios; todos os lugares
que, como as ilhas, são agastados pelo mar e pelos ventos.

Não havia neblina nessa noite. Apenas a luz opaca
de um farol atormentando as estrelas. Disseste
quase nada para não ferires um atordoado silêncio
interior. E tocaste-me pela primeira vez os seios
como se disso, para sempre, fosses ter medo.

Abandonaste a praia logo que chegou o primeiro pescador:
a primeira lanterna,
a primeira rede.


Maria do Rosário Pedreira, in "A Casa e o Cheiro dos Livros" [1996]

Imagem 1: Câncer
Imagem 2: Capricórnio
Imagem 3: Eixo evolutivo de Câncer para Capricórnio...

sábado, 25 de outubro de 2008

Granada




Quando há três anos me convidaram para participar num estudo relativo às correntes migratórias, não hesitei e aceitei… era uma oportunidade de sair daqui, fugir do que estava a sentir, do medo de explosão do meu Plutão conjunto a Marte na casa V (leão) a qualquer momento.
Agora, sei (não acho), pois o sentir está na alma, o achar no ego, que fugir do medo é implodir, é enganar a natureza de Deus.

Em Outubro parti para Granada, cidade que não conhecia, que me apaixonou pela cor, pela luz, pelos tons fortes dos cheiros e dos sabores, o mercado onde se encontram chás e temperos intensos, e claro… o que senti quando entrei pela primeira vez em Alhambra (séc.XIII), com os seus arabestos recortados até à exaustão da perfeição. Percebi naquele momento parte das minhas raízes andaluzes.

Redescobri García Lorca, na casa onde passou férias nos últimos dez anos da sua breve vida, de 38 anos. Do jardim com milhares de rosas que integram a Huerta de San Vicente…

Guardo de Granada o tempo breve… as cartas que lhe escrevi, estão depositadas depravadamente, não no jardim dum Amor eterno, mas entrelaçadas com papelada cúmplice da cobardia, numa descida abissal às fundições efémeras do ego…
… só na Alma, vive este Amor desancorado.


SONETO DA CARTA

Amor do peito que em morte se converte,
em vão espero tua palavra escrita
e, com a flor que o tempo debilita,
sei que, se estou sem ti, quero perder-te.

O ar é imortal, a pedra inerte
a sombra não conhece nem evita.
Coração interior não necessita
do mel gelado que esta lua verte.

Por ti sofri, rasguei as veias plenas,
tigre e pomba, sobre a tua cintura
em duelo de dentadas e açucenas.

Dá, pois, palavras à minha loucura
ou deixa-me viver nesta serena
noite da alma para sempre escura.


Frederico García Lorca, in "Sonetos do Amor Obscuro" [1936]

Foto 1: García Lorca (Granada: 1898-1936)
Foto 2: Rosa da Huerta de San Vicente (Chris, 2005)
Foto 3: Patti Smith na sala do piano na Huerta de San Viente (1998)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Momento Certo ... Saturnino




Um amigo perguntou-me o porquê do nome deste blogue: “O Momento Certo”. Não sei se consegui responder, provavelmente não, pois o momento certo, é o momento que não preparamos, mas que acontece… como a vida. Acontece quando o Universo o prepara na sua ordem inteligente, numa confluência perfeita de energias. Pode parecer confuso, mas as palavras são sempre imperfeitas face à dimensão da Alma, pois só ela, conhece (pelo sentir) esse momento.

O momento certo é a sabedoria do tempo, a intuição do tempo, na conceptualização da mais pura abstracção: o próprio tempo. O tempo não existe, no sentido existencialista, o tempo é a essência da nossa própria evolução.

Por vezes, falamos das coisas pela rama, não procuramos as raízes mergulhadas na memória. De sete em sete anos fazemos uma revisão das nossas vidas, esquecemo-nos, por vezes, da ancestralidade que está na base destas passagens cíclicas.

Um ciclo de Saturno dura aproximadamente sete anos… não é por acaso que é Saturno. De sete em sete anos Saturno faz uma quadratura a si próprio, pondo muitas questões, reestruturando a energia e o pensamento, pois ela (energia) segue-o (pensamento). Seguir não é perseguir duma forma quase mortífera, sem essa noção saturniana, que Saturno nos pede. A presença de seres poucos evoluídos, e talvez alguma ebriedade, condicionaram o ser que nunca foi híbrido, felismente!

Como estou a fechar um ciclo de Saturno na minha vida, tenho pensado muito nestas questões do tempo, como ele tudo resolve, como o Amor é transversal à passagem do tempo, a noção de eternidade, de perenidade...

Quando Saturno entrou em Leão, em Julho de 2005, alguém andava muito preocupado com estas questões, telefonava-me a altas horas da madrugada, a perguntar-me o que eu ainda não sabia responder. Mas, como a vida para essa pessoa é uma permanente festa palaciana repleta de saias, passou o resto do ano na rambóia, numas corridas entre a casa que deveria ser um mosteiro sagrado, e o aeroporto, para transportar uma coisa disforme, que mais parecia uma personagem dos “Marretas”, talvez a Miss Piggy… Tentei alertar para o que lhe poderia acontecer com aquele ser destrambelhado, mas não me ouviu. Espero que tenha aprendido com Saturno, que por acaso (será?) tinha entrado em Leão nesse ano, hoje está em Virgem.

Saturno é o Deus romano, Cronos o Deus grego, filho de Gaia (Terra) e Urano. Pode parecer inversão aparente da mitologia, mas Saturno representa o passado, o senhor do karma, das memórias, o que nos retrai, enquanto Urano é o apelo do futuro, a consciência do momento presente (será o momento certo???), num futuro onde já existe essa integração dessa consciência em progressão.

Saturno é o olho frio do tempo, pois ele tem memória do nosso karma, daquilo que não resolvemos no passado. É a área onde podemos entender qual a proposta desta vida, qual a matriz e as tensões energéticas que temos que resolver. Mas, ele pode ser uma lâmina fina e subtil, pois uns aprendem com os erros, outros permanecem encerrados neles, atafulhados de “caderninhos”, que entregam a desconhecidos, com aquele ar plácido, onde se encobre a herege traição, de outras vidas, e desta, pois Saturno ainda não está integrado. Quando "alguém" entender esta experiência limite, a mulher que dizia ser a sua sombra que lhe devastava a vida... perceberá e saberá reconhecer o "Senhor do Karma" - Saturno.

Segundo Jung, nos seus estudos referentes ao inconsciente colectivo, a sombra representa um peso saturnino, as massas não assimilam de imediato um novo pensamento criativo, podem demorar três ciclos de Saturno.
Saturno é a responsabilidade em aceitar quem somos, com o entendimento dos erros que devemos tornar transparentes, pois assim, ampliamos a consciência, como uma espiral evolutiva saturniana. Onde está Saturno no nosso tema natal, é onde está a energia de aprendizagem, relacionada com o karma, com as energias que temos que desbloquear, pois Saturno é a responsabilidade que temos no tempo… talvez, certo.

Saturno no meio do céu (MC) a 3º de escorpião, na casa IX, faz sentido em toda esta estranha história, tem uma lógica embutida numa pedra ainda não encontrada. Talvez… já encontrada, não sei. Saturno, na matriz energética que não revelo na totalidade neste espaço, faz quadratura ao Sol, a 9º de leão. O Sol representa a consciência, o fogo, o ego, a expansão… Uma quadratura de Saturno ao Sol, com um Marte na casa XII, fazendo este Marte uma outra quadratura a Vénus na casa VIII, estando Vénus a 23º em conjunção à Lua a 25º...
… fica para um próximo texto, pois não quero ser hermética, intricada nas palavras, como já me "acusaram" algumas vezes.

A matriz de encarnação é implacável, certeira, não a podemos mudar, não no sentido trágico, de destino, de fado, mas no sentido que os aspectos menos positivos, para não dizer negativos, são a grande oportunidade de evolução. Quem nasce só com bons aspectos, não tem grandes questões para resolver nesta vida, quem nasce com maus aspectos, tem uma oportunidade dada pelo Universo para evoluir, para ascender, na compreensão da proposta que “ELE” nos colocou nesta encarnação. Devemos ser fiéis à nossa evolução universal.

Percebi que não tenho que me defender de nada, pois a culpa, o julgamento e o medo, são crivos saturninos. Quem ama perde o medo, perde todas as aberrações e perversões mentais, todos os jogos falsos de conquista plutónicos.
A vida é a grande oportunidade de libertação... saturniana.

IDADE MADURA

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras, nem delas careço.
Tenho todos os elementos
Ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.
Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
Absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
Durmo agora, recomeço ontem.

De longe, vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía
irrigava jardins particulares
De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

Nisso, vieram os pássaros,
rubros sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
No centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinariamente, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
Há reservas colossais de tempo,
Futuro, pós-futuro, pretérito,
Há domingos, regatas, procissões,
Há mitos proletários, condutos subterrâneos,
Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual um insecto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.

Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.

Carlos Drummond de Andrade
[1902-1987, in "A Rosa do Povo - 1945]


Imagem 1: Dalí: A Persistência da Memória [1931]
Imagem 2: Dalí: A Desintegração da Persistência da Memória [1954]
Imagem 3: Matriz energética: Saturno no Meio do Céu (MC)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

MARTE... A-mar-te.




Neste espaço as palavras são livres, dançam ao sabor das vagas assombradas e ensombradas pelo temporal das pedras de Marte, ou deambulam dançantes e descalças como Isadora, na sua eloquência de quem perdeu o medo de assumir a sua loucura.
Sentir a energia da terra, da água, do fogo, do ar, do éter... da flor que guarda o diamante como um segredo eterno.

Tudo é energia, tudo o que projectamos, recebemos o seu retorno, pela lei da correspondência cósmica.
Não é uma retribuição judaico-cristã, mas uma resposta do Universo inteligente.

A cada ser cabe um projecto divino de ascensão, passando da dimensão obscura (inconsciência) à claridade (consciência).

Existem seres que andam por aí, que ainda vivem com a noção de territorialidade, da falsa noção de império, que baralham conceitos de posse e propriedade e ficam avassalados quando se perdem no devaneio do território.
A revelação da ordem suportada não está embutida nesse território, onde ainda tenta eleger um feudo, como se aquela terra fosse sua propriedade.
Depois, revela-se o delírio imperial, como um velho cavaleiro templário que ainda guarda nos genes desta encarnação, a noção de império, de território, de outras guerras travadas, talvez, na Idade Média.
Quando se tem Marte a 25º de Sagitário, na XII casa, deve-se ter algum cuidado com atitudes violentas. Temos logo o retorno, pois sendo a casa XII uma casa kármica… a luz da consciência ainda não tocou essa área de vida, mas as experiências acontecem como oportunidades de consciência. Existe uma desordem interna, espelho dum “buraco negro” da memória. Como nada acontece por acaso, espero que tenha entendido a experiência, não com esses “seres insignificantes” que o acompanham, seres que vivem primeiras encarnações, mas com a capacidade que tem, quando uma noite me disse que provavelmente esta é uma das suas últimas encarnações. Será? Como Helena Blavatsky, Alice Bailey, Max Heindel… talvez, Hirão Abif…

… talvez, mas se assim é, terá que aprender que a crueldade foi uma defesa para um medo inconsciente. Talvez, seja parte da revelação exposta, quase confissão imposta, para o que está para além da crueldade, algo que não encontro designação de substanciação, nem de adjectivação. Provavelmente, essa palavra ainda não foi inventada pela humanidade.

Primeiro experiencia-se, depois teoriza-se… só assim faz sentido, pois os sentidos como percepção do sentir, revelam-nos os caminhos para uma nova racionalidade.

Foi numa sexta-feira, 13 de Outubro de 1307, em La Rochelle.

Cavaleiro da Ordem do Templo, de espada erguida, como a Espada de Tyler, os dois lados da lâmina, o amor imemorial e a recusa dele. A espada erecta na sala, as mãos dadas como um templo sagrado, a cumplicidade de muitas vidas ficou ancorada, à espera do momento certo...

Na única regressão com progressão que fiz, reencontrei um cavaleiro de espada apontada, um cavalo branco sem rédeas, um agente transmissor de luz, uma pedra triangular, uma serra nebulosa, brumas esquivas ondulavam entre o azul e a cor púrpura do 7º raio de evolução... capelas, igrejas, mosteiros… monges caminhavam para um outro tempo, talvez reencontrado nesta vida.

Parece uma tela surrealista, como os quadros de Dali...
Não será o realismo a forma menos criativa de expressão artística?
Seguindo a intuição, começo a juntar as pedras...
do Templo, do Tempo.

Os Velhos Mestres conhecem velhas formas de invocação.

A Santa Trindade, a triangulação angular, começa a fazer sentido…

“A raiva é um apêndice do amor”… vale sempre a pena da pena abandonar a viela do apêndice, fugaz e transitório, como mero anexo palpitante, e caminhar pela estrada onde só o amor impera, longe dos imperialismos condicionantes do território.
A “era de aquário” está à nossa espera, como uma infiel amante, como uma fiel amiga.


No Lado Certo de Cada Rua

existe no lado certo de cada rua uma porta
um sinal indicando o rumo do paraíso
esse lugar onde as pessoas se amam
riem ou choram
apenas quando é necessariamente
preciso

uma porta, uma janela ou um sinal
qualquer, um caminho, os poros duma vida
indicam sempre a distância onde se mora
e sobrevive, acredita e ora
no exacto momento do apagar da luz
à saída

uns partem para sempre na penumbra
e outros resplandecem como a lua iluminada
e tornam palpável a miragem de qualquer norma
onde se obriga a que tudo se altere e transforme
fazendo crescer a semente da sabedoria
onde antes somente havia breu
e o nada
ambicionando ser dia.


José António Gonçalves, in “Noites de Insónia” [1998]


Imagem 1: Foto da Nasa do planeta Marte, retirada de:
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/archivepix.html

Imagem 2: Foto da Nasa do planete Marte, retirada de:
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/archivepix.html

Imagem 3: Matriz energética Marte na XII casa.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

As flores do bem, que ainda acredito.






Quase a um mês das eleições presidenciais nos E.U.A., mais um debate entre os dois candidatos passa em directo nas televisões de todo o mundo, vou fazendo “zaping” entre a Sic-N e a TV5, enquanto acabo um trabalho que tenho que entregar até ao final desta semana.

Nenhum dos candidatos ainda falou da nova ordem mundial que está a nascer, da era de Aquário que começa a deitar por terra rasante todas as estruturas vincadas pela era de Peixes, que já acabou, mas que teimosamente teimam em continuar, o que o céu já não quer.

Começamos a assistir, (deveríamos ser intervenientes activos, mas poucos o são...) à preparação das consciências, para um novo tempo, que só começará a consolidar-se depois de 2012. Esta transição planetária, está inscrita no céu desde sempre… mas o momento certo chega sempre, é implacável…

Podemos viajar até às pirâmides de Gizé, aos calendários inscritos na pedra, passando pela antroposofia e algumas noções do pensamento cabalístico e budista, para entender a evidência da simplicidade das grandes questões que sempre se colocaram à humanidade... foram sempre as mesmas, assumindo diversas formas e contornos, diversos lastros temporais, nas mais diversas épocas históricas.

Numa das estantes do meu escritório continua a “bíblia” económica de Samuelson por onde estudei economia política, tendo sido deslindada duma forma brilhante pelo Dr. Arlindo Donário. As questões académicas são hipóteses “ceteris paribus”, como se a economia estivesse encerrada num aquário doméstico, mas a realidade é um oceano imenso.

Nada tenho contra os jovens de 20, 30 anos, mas não têm o mesmo nível de responsabilidade que a minha geração teve. Quando comprei o meu primeiro carro, há quase 20 anos, comprei-o com três cheques pré-datados, não passei 50 meses a pagá-lo! Hoje para além dos carros, são os electrodomésticos, os computadores, os telemóveis, as viagens… Não entendo como se vai de férias com prestações de tudo e mais alguma coisa para pagar.

A paz vem de dentro, nunca de fora… a nova era já bateu à porta há algum tempo, mas os homens continuam a bater na mesma tecla já gasta… mas temos muito tempo, esta nova era de Aquário vai até 4.000 d.C., ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos 2.000 anos. E ainda bem que não sabemos...

Como já aqui escrevi a humanidade está na pré-história, poucos são os verdadeiros Mestres, muito menos os que andam por aí, a atirar pedras, e têm espadas verticais simbolizando o que não praticam… Talvez essas pedras tivéssem um sentido: expandir a consciência de "alguém"...

… continua o debate Obama e McCain, os dois não são assim tão diferentes, mas do mal ao menos, talvez Obama minimize o erro vertiginoso em que a humanidade está embutida, como lapas cortantes na pedra.

Do outro lado, na sala, toca baixinho “Brumes et Pluies”, na voz de Ferré (o trabalho tem sido duro…) e escrito por Baudelaire. A análise comparativa entre os dois mapas astrais destes senhores que já não estão entre nós (será?) é curiosa, pois têm muitas semelhanças as suas matrizes energéticas.

Uma outra análise que realizei, foi entre o mapa astral de Léo Ferré e de “alguém”, é quase um decalque perfeito dessa outra matriz energética. Marte não está na casa XII, mas na IX. Mas o mais impressionante é a linha do horizonte, ou seja, a linha que vai do descendente (oeste – ocidente), para o ascendente (este – oriente)… é grande a semelhança energética, varia alguns graus...
Sei que me engano algumas vezes, tento enganar-me cada vez menos, mas o céu nunca se engana, e se eu estou equivocada, “ele” (o céu, entenda-se!) não está.

O debate continua, no papaguear das dualidades do mundo, e do “sonho americano”, que passou a pesadelo... santa paciência nesta encefalia ideológica.

Brumes et Pluis

Ô fins d'automne, hivers, printemps trempés de boue,
Endormeuses saisons! je vous aime et vous loue
D'envelopper ainsi mon coeur et mon cerveau
D'un linceul vaporeux et d'un vague tombeau.

Dans cette grande plaine où l'autan froid se joue,
Où par les longues nuits la girouette s'enroue,
Mon âme mieux qu'au temps du tiède renouveau
Ouvrira largement ses ailes de corbeau.

Rien n'est plus doux au coeur plein de choses funèbres,
Et sur qui dès longtemps descendent les frimas,
Ô blafardes saisons, reines de nos climats,

Que l'aspect permanent de vos pâles ténèbres,
— Si ce n'est, par un soir sans lune, deux à deux,
D'endormir la douleur sur un lit hasardeux.


Charles-Pierre BAUDELAIRE, in "Les Fleurs du Mal" [1857]


Imagem 1: Mapa astral de Léo Ferré, realizado por Jean Aidane
Imagem 2: Matriz energética de Léo Férré
Imagem 3: Mapa astral de Baudelaire, realizado por Jean Aidane
Imagem 4: Matriz energética de Baudelaire

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Entre os 20 e os 40...




Entre os 20 com maquilhagem e os 40 sem maquilhagem… deveria ser ao contrário, mas não é. Aos 20 estava presa na imagem fugaz da inexperiência palpitante de quase tudo, a dor que já me tinha tocado pela primeira vez da forma mais cruel, mas que ainda não queria sentir… por isso não fiquei mergulhada nessa mesma dor, que reencontrei 20 anos depois…

… do mundo que queria mudar à minha imagem, talvez semelhança… ficou guardado na gaveta secreta dos tempos… hoje, pouco quero da vida, só a paz de entender o porquê de tanta crueldade que inunda a humanidade na generalidade, na especialidade de um ser devassado na sua cobardia, encerrado na sua hipocrisia, prisioneiro desse medo de amar...

…juro que não entendo…
mas tento entender, a cada momento do resto da minha vida, a impossibilidade dum amor imenso, que nunca mais me abandonará...

Onde acaba a negligência e começa o dolo, qual a linha de define os juízos de probabilidade e os de previsibilidade, será que falta tipificar alguma conduta que seja dolosa, ilicita e culposa? Será que estão contempladas, na nossa lei criminal todas as causas de exclusão de ilicitude?
Teorias criminalistas do comportamento humano da acção e omissão, como comissão (art. 10º C.P.), será o silêncio potestativo uma omissão do comportamento humano doloso?

Não sendo os actos preparatórios desse Amor puníveis, será a continuidade uma agravante desse estado patológico? Será a omissão de auxílio, considerado crime nesses casos?
Será? Será? Será?
Não sei, o que sei é pouco, o que sinto é demais…

Fugi deste Amor durante tanto tempo, tempo que "ele" não reconhece, por medo desta doença que é amar, do medo de dizer: “Amo-te!”. Disse-o, talvez uma única vez, talvez de joelhos, numa cama igual a tantas outras… fugiu de mim da forma mais cruel, tendo “depositado” nessa mesma cama uma outra mulher, sete dias e sete noites depois, que diz ser eu…
juro que não entendo…

Será o Amor um mero homicida negligente ou doloso? Se for doloso será ele directo, necessário ou eventual? O AMOR é um estranho, talvez vulgar homicida…
A verdade é aquilo queremos que seja…

Escrever mais, será sem dúvida, escrever demais...

Maria do Rosário Pedreira, escreve os poemas que eu gostava de ter escrito para “ele”, os que escrevo, estão guardados numa gaveta secreta, pois o primeiro que lhe revelei, escrito em Granada, há quase 3 anos, está enclausurado num “apinhamento”, talvez “enogueiramento” duns papéis bafiosos, para análise do desconhecimento emparedado, duns funcionários administrativos dum qualquer estado social e socialista que há muito deixou de existir…

A pinha que lhe atirei, foi o presságio da mansidão duma nova dimensão deste Amor… as pedras que “ele” me atirou, foram para matar este Amor, foram para me matar...
…será que conseguiu? O fim já não me interessa, mas o caminho que todos os dias percorro no reencontro desse mesmo Amor.

Aos vinte…

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]


Aos quarenta…

Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos – tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-te. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos – nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.
Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Uma criança, como os meus gatos.





Cada vez gosto mais dos meus gatos e menos da “espécie?” humana. Não entendo a arrumação, o emparedamento do mundo do sentir, o medo de amar, que transforma a generalidade dos homens em répteis de si próprios, em funcionários disfuncionais do mundo do sentir, produto da crueldade imposta como defesa, como máscara onde se perscruta o insondável das batidas da paixão e do coração, como se a vida fosse um acto quase persecutório, sempre contra alguém, ou alguma coisa.

Depois da experiência limite que vivi nos últimos anos, depois de tudo o que aconteceu para além do sentir, deixei de acreditar nos homens… mais, muito mais (mais demais!) na humanidade na sua essência. Se a crueldade existe, será que ela opera sempre na margem da consciência? Será uma defesa cobarde para quem tem medo de sentir, de se despojar da própria vida? Poderá existir crueldade nua e crua, primária e basilar? São questões para as quais aos poucos encontro pequenas respostas, pois qualquer evidência é fugaz, e tudo pode mudar a qualquer momento, é preciso saber esperar por esse momento, talvez certo, talvez incerto…

Existem equívocos cósmicos, pois 99,9% da humanidade ainda vive na máxima de ser ou não ser, eis a questão… a vida é ser e não ser simultaneamente. Somos e não somos, o outro lado do espelho reflecte a imagem para além da consciência de nós próprios. No outro dia, um dos meus gatos escapou-se para um dos meus quartos, onde tenho um armário espelhado, ficando a olhar para a sua imagem reflectida no espelho. São estes pequenos exemplos que nos ensinam os grandes estandartes que povoam esta coisa que chamam vida… Nem a lição das formigas no alguidar com água lhe deram o ensinamento, por isso, continuará contra mim, da forma mais cruel.

A algumas semanas de completar mais um ciclo de Saturno (ciclos de 7 anos), começo a entender que este sexto ciclo foi aquele onde a ampliação da consciência, quase sempre, dolorosa, pois toda a dor tem um sentido… onde reequacionei quase tudo, e percebi que a crueldade só é maléfica para quem a pratica, não para os alvos do agente da mesma, pois quando nos pacificamos perante a vida e o mundo, já nada disso faz sentido.

A compartimentação mental da generalidade das pessoas, subjuga-as às grades duma estagnação das suas próprias águas… Não é um mero acaso, não é coincidência (não acredito nelas) que o eixo de evolução vai de água para terra… por exemplo, de Câncer para Capricórnio ou de Escorpião para Touro…

Amar é sentir a Alma, não a alma vedada em heresias, mas a alma flutuante da intenção divina do Universo.

Hoje tenho pena de alguém… pela pequenez, pela estupidez recortada, dissimulada… a consternação que vive todos os dias, do passado que rejeita, das outras vidas de que não quer falar, mas que conheço (só eu sei onde me levou a única regressão que fiz há 4 meses), agora entendo, as noites sentados no sofá, os livros expostos na mesa em frente eram os mesmos que eu andava a ler, não foi por acaso… As palhaçadas ditas nos jornais e revistas, não passaram do festim vestido de chita e ganga barata, dos pasquins populares onde deambula o outro lado de Homero, Platão, Gil Vicente, Eça e Baudelaire… que ando a reler. Quando os li a primeira vez há vinte e muitos anos, muitas coisas me escaparam… como será lê-los aos 60 e aos 80 anos… ele pensa que se escapou… quando foge não é de mim, é dele próprio…

Perdi o medo da própria morte, às vezes, penso que já morri… frase solta no meio das palavras, terá o sentido e o estilo que eu lhe quiser dar…

Não me matas-te, por isso fiquei aqui, à tua espera, da forma mais cruel que alguma vez os homens inventaram. No dia que um homem sentir um coração a bater no baixo ventre, todas as guerras no mundo findarão… os homens vivem longe do mundo do sentir, observam à distância a vida acontecer.

Hoje no regresso a casa, no leitor do cd rodava o Zeca… "Maria Faia", Elis Regina e um dos cd’s que anda sempre no meu carro: “Trampin”, claro da Patti… 2004… estavas nos meus braços, doentinho, cheio de febre, a beber chá de casca de cebola… continuas um bebé…

Fico espantada com os teus amigos, supostos escritores ou poetas, que me enviam mail’s onde não sabem distinguir o “à” do “há”…
Há… tanto tempo… metes dó… sol… si…
Lê as partituras e aprende…

A pedido de algumas pessoas, vou tornar este blogue um pouco mais jurídico-social, pois parece ser essa a vontade de quem me tem contactado. A codificação das palavras não está acessível a qualquer um... mas este blogue tem uma finalidade...
dá-me gozo escrever sobre alguém que foge do Amor.

Mulheres diligentes, inteligentes e belas (Maio 2008). Prefiro a noção de fêmea, é exclusiva das mulheres, pois a diligência, a inteligência e a beleza são atributos também dos homens, cada vez mais raros… infelizmente.

A inteligência serve as pessoas, as causas e o Amor. A inteligência não é só a racional, que nos fizeram acreditar durante muito tempo, existe uma inteligência emocional, como testemunham as novas correntes da psicologia, como por exemplo:

“… quanto mais as nossas emoções são conscientes, mais liberdade ganhamos na nossa existência… o silêncio é mais traumatizante do que a dor partilhada… não pode haver verdadeiro perdão sem justiça. O perdão passa pela expressão do sofrimento e pela afirmação da raiva… a alfabetização emocional é o desafio actual”.

Isabelle Filliozat, in “ A Inteligência do Coração” [1997]



Trespasses

Life is designed
With unfinished lines
That another sings
Each story unfolds
Like it was gold
Upon a ragged wing

The bold and the fair
Suffer their share
He whispered to his kin
All of my debts
Left with regrets
I'm sorry for everything

And she pinned back her hair
Shouldered with care
The burdens that were his
Mending the coat
That hung on the post
In heart remembering

And her time was to come
Called to her son
This your song to sing
All of our debts
Wove with regrets
Upon a golden string

And he found the old coat
Hung on a post
Like a ragged wing
And took as his own
The sewn and unsown
Joyfully whistling

Trespasses stretch like broken fences
Winding as they may
Trespasses stretch like broken fences
Hope to mend them one day



Patti Smith, in "Trampin" [2004]


Foto 1 e 2: Uma criança, como os meus gatos...

Foto 3: Patti Smith, foto de Steven Sebring, em Stairwell, Michigan: 1997.