quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Este Sentir Excessivo




Falar de Natália é falar num dos expoentes máximos da poesia mundial. Se tivesse que escolher três poetas portugueses que imortalizaram a língua portuguesa, um deles seria, sem dúvida, essa mulher desmedida, transbordante, que teceu nas palavras os silêncios cúmplices, a tranquilidade suprema da queda no abismo do amor, a extravasão vulcânica desse sentir sempre excessivo.

Ando a reorganizar a minha biblioteca, que estava dispersa por três casas, e neste andarilhar, reencontrei alguns livros perdidos na poeira que o tempo assentou. Nunca a conheci pessoalmente, mas recordo-me dum episódio, corria o ano de 1990-91... ia quase sempre, almoçar aos sábados a um restaurante perto da faculdade onde estudava. Era um pequeno restaurante, penso na Rua Rodrigues Sampaio, onde eu e o meu companheiro “talhávamos o futuro”, tudo corria bem nesse início da década de 90. Trabalhávamos juntos, os negócios corriam de feição, tudo era quase perfeito…

Recordo-me desse pequeno restaurante, duas mesas ocupadas: onde eu estava e a mesa onde estava a senhora com algumas pessoas. A voz dela impunha-se naquele pequeno espaço, como rajadas de ventania, que legitimavam qualquer pecado, por mais sagrado que fosse. Só percebi que era ela no final do almoço, quando a senhora se levantou com o seu porte corporal farto, mas uma leveza flutuante no olhar, disse-nos “boa tarde” e saiu. Senti as vidas que já tinha vivido, como se já não coubessem no sentido tradicional do que chamamos vida…

A densidade e a intensidade sentem-se nas ilhas, como se de vestígios da Atlântida se tratassem… o cheiro intemporal, os verdes únicos, a expressão do silêncio gradativo, o olhar dum outro tempo… que navegou por outros mares, outros continentes, até o reconhecimento de quem sempre conhecemos…

A poesia também é assim… surrealista na perfeição sublime da realidade, embriagada no prazer lúdico duma consciência ampliada, na perenidade dos sons esculpidos no voo dos pássaros, na violência onde os sentidos se desnudam, na paz que só conhecemos depois da guerra… dum amor inteiro e peregrino… deste sentir excessivo, a fuga do medo de amar, de perder o plano do real, o fio umbilical dum Sol a 9 graus de Leão, mergulhado na água, dum Saturno a 3 graus de Escorpião, imbuído no fogo…
não sou eu que digo, muito menos escrevo… a matriz energética de cada um revela o padrão supremo de evolução, a “missão” que temos nesta encarnação. Mas, hoje estou cheia da sua estupidez perversa, das ciladas que me preparou, da rua onde me pegou ao colo e derramou o azul que só eu conheço, rua que devería ter rosas a florir, mas está armadilhada com tanques de guerra, jipes com rapazotes marginais…

... ainda vamos beber champanhe, ou talvez, absinto… quando em surdina os sons estridentes acabaram, e as pedras arremessadas florirem como rosas vermelhas, quando os punhais da insensatez brilharem como uma espada de verdade, quando as pérolas das lágrimas que chorei, tocarem o diamante em bruto, que tentei lapidar… tentei…

Só este sentir excessivo me move… como escrevia Natália, em Outubro de 1992, no prefácio da colectânea de poesia: “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias” –

“ … É nesta cosmicidade do idioma poético que surge a tentação remissiva que nos convida a revisitar Velhos Tratados Espirituais em que cada letra do alfabeto corresponde a um número numa relação significativa de um constituinte do Universo…
Daí a justiça poética, termo que no século XVII por fim dá nome à moral da vida verdadeira que participa da vida do Universo, moral congénita à poesia que, por isso mesmo, pune a falsificação da vida submetida às leis de moralismos utilitários…”


Creio nos anjos, e no Deus da crueldade, no que é, não no que quer parecer ser.

A profecia concretizou-se nessa crueldade ostensiva entre o profeta e o poeta, entre o sol das tuas noites e o luar dos meus dias...


Poesia:
Ó Véspera do Prodígio!

IV

Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na Deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes
Creio em tudo eterno num segundo
Creio no céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além

Creio no incrível, nas coisas assombrosas
Na ocupação do mundo pelas rosas
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.


Natália Correia, in "Sonetos Românticos" [1990]


Foto 1: Natália Correia

Foto 2: Eu... na Ilha... nem o colete me salvou do naufrágio do fim do meu casamento [2003]

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Entre o Cubo cruel e a Esfera sem rédeas...



Recebi algumas chamadas de alguns amigos, nas últimas horas, a indagarem por mim… falei-lhes de um novo tempo que está prestes a acontecer. As suas prisões, os seus medos, os seus julgamentos personificados estão perto do fim…

Como dizia BUDA: “ A cada momento nós nascemos e morremos…”, pois, talvez seja assim… e se assim é, provavelmente não é um pensamento errante.

A dinâmica do Univer-SO, todos nascemos SÓS e morremos SÓS, esta é a grande, talvez… única verdade… o Amor é a força que dinamiza todo o Universo, por vezes, esse Amor é-nos renegado da forma mais cruel…

… ao ACEITAR, simplesmente aceitar… na "nossa" memória há um buraco negro, há uma DOR- AMOR - ROMA, pois ao aceitar uma experiência dolorosa… as crises da existência são as grandes oportunidades de evolução.

Em todos nós habita uma contradição, uma incapacidade, uma dor que não foi entendida, mas pode ser, ainda…

Não foi por acaso que há quatro anos, sentaste a tua filha mais velha à minha frente, e por instinto, o teu único filho, imaturo, muito verde, veio sentar-se a meu lado...

...aquela hora que estivemos frente a frente, percebemos que amávamos o mesmo homem… sempre com as duas formas que o Amor liberta. Pergunta-lhe… ela sabe, porque sentiu, quem sou… foi mágico, mas nunca te foi revelado, coisas de mulheres que tudo entendem… Conversa com a tua filha mais velha, ela sabe... quem sou (porque sentiu...), até retirei o eu, a personalidade, o ego, o orgulho, o medo... que já perdi... só o que sinto por ti me move...

Se fosse poeta, ou poetisa...
teria escrito estas palavras para ti… só para ti…


Quero falar-te deste amor, como de um vento
amordaçado na camisa; na febre de verão
que o mercúrio não acha; um telhado esmagado
pela ideia de chuva. Quero dizer-te

que sobre ele pairaram sempre brumas e nevoeiros
e profecias de temporais maiores, como os que levam
para longe os corpos dos navios. Não há notícias

deste amor; apenas uma intriga, um recado sonâmbulo,
um temor que desmaia as pregas do vestido e um sortilégio
urdido nas paisagens suspensas de um mapa que aperto
na mão sem desdobrar. E há memórias

deste amor? A voz sem as palavras, um livro lido
às escuras, um bilhete cifrado deixado num hotel,
um velho calendário cheio de desencontros? Não,

não há memória deste amor.



Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2007]

Imagem 1: Cubo... em ascensão a Deus da crueldade.

Imagem 2: Esfera... sem rédeas: entre o seu mundo cor-de-rosa e os seus perfumes caros... os livros estavam imbuídos (e embebidos) de perfumes muito caros... se o Amor tivesse um preço, eu comprava o Universo só para ti... mas o Amor não tem preço...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Amor... esse Momento Eterno.




O mundo lá fora cada vez me interessa menos. Como se já não tivesse o sonho de mudar o mundo, pois ele modifica-se por dentro, no centro do infinito que tudo pode iluminar e simplificar.

Nos últimos tempos, muitos foram os convites pessoais e profissionais que recusei, esta doação sem-tempo, esta incondicionalidade de entender a crueldadade brilhante dum novo Deus.
A nova era aquariana começa a dar os primeiros passos... Um à frente, dois para trás, uma nova estruturação mundial vai surgir depois do alinhamento energético de forças cósmicas poderosas em 2012, está nas mãos, ou melhor na órbita de Neptuno, esse novo entendimento mundial... libertem todos os prisioneiros...

A devastação da verdade, imemorial dum sorriso de outros tempos, duma inquietação esfumada, como se tivesse (tivéssemos?) que destemporalizar as brasas quentes, como doces suspiros dos nossos karmas.

As fissuras abriram-se, e a lava incandescente queimou tudo em redor, excepto para quem o pensamento se tornou geométrico e seguiu em frente, na mais pura crueldade. Talvez, o cubismo seja a forma de arte mais perfeita para quem quer encetar a maior fuga da sua história. O cubismo foi o pai do orfismo, entre Picasso e Appolinaire…
...ele encerrou-se no seu “cubo cruel”, eu na minha “esfera sem rédeas”, e o desenho animado destas duas formas em confronto está quase encerrado.

O verdadeiro Amor é excessivo, é um acontecer cósmico que transborda a dimensão simbólica da vida… Estamos perto de libertar o mito cravado na lava, no altar da cumplicidade das nossas almas…

Como a velha águia exilada, sinto-me a renascer a cada dia, como se não tivesse mais que cumprir o seu pedido. Os vértices e arestas do seu cubismo implacável, arredondam-se à medida que as luzes se apagam e o camarim se esvazia…

A dor que trespassou a própria morte, engravidou a minha voz, delineando em curvas mais finas a voz do "tenorino", numa aproximação geométrica e vocal.


Há um ano, não aceitei um convite, talvez este ano (já não me sinto exilada…) vá no final deste mês até Aulnoye-Aymeries, norte de França, junto da fronteira com a Bélgica, pois existe a possibilidade de criar um espectáculo similar neste pequeno quintal plantado à beira mar. Nessa pequena vila, no teatro “Léo Ferré” (rue Foyer), será feita mais uma apresentação dirigida por Ronny Lauwers, um senhor belga que já foi director da Ópera da Flandres, e realizou um verdadeiro espectáculo com três intérpretes vocais-teatrais e dois musicais. Nomeadamente, com Ann De Prest, Hannelore Muyllaert, Benoît De Leersnyder e o grande pianista Hein Boterberg, acompanhado ao violoncelo por Lode Vercampt.

Faltei ao apelo que me foi dirigido há um ano, estava muito cansada...

A ideia já juntou uma série de pessoas, para a realização dum espectáculo similar em Portugal, em homenagem (apesar de defender que elas não devem ser póstumas, mas em vida… o momento certo…) ao grande compositor, poeta e intérprete: LÉO FÉRRE!

“O AMOR… ESSE MOMENTO ETERNO” (“L’Amour… cette éternité de seconde”) foi o título dado a esta apresentação, que retrata o “tempo último” ou “último tempo” (???) de Ferré na Toscana, onde faleceu em Julho de 1993… Cantado à capela, a solo, em dueto, em trio, a obra de Ferré é mais que Universal, toca a cosmologia da Alma que só o é, quando encontra o Divino dentro de si!

Nenhum “criador” vive a tocar o sublime do momento certo, que a criação artística numa primeira fase encerra, e depois liberta, pode dizer que Ferré ocupa um pequeno lugar na estante da sua discografia. Sinceramente, não acredito, foi mais um “bluff” para dissimular a sua verdadeira criação, mais uma fuga (?).

As partituras enviadas (ainda não seguiram todas…) esperam pela frutificação duma nova recriação.

O alinhamento desta apresentação, contemplou alguns diamantes da sua obra.
“Notre Amour”, que inicia o espectáculo, cantado à capela por Ann De Prest, reflecte o embalo celeste que a voz de Ann nos transporta, neste uníssono iniciático.
“En Amour”, é a sequência musicada, na sua excelência.
“Porno Song”, desenquadra-se do alinhamento, tentando ironizar, na voz menos conseguida de Hannelore.
Segue-se “Ta Source”, um deslumbre ouvir e ver Benoît.
“Tu penses à quoi”, é um dos diamantes de Ferré, interpretado magistralmente por Ann.
“La Jalosie”, revela a raiva interpretativa deste tema.
“Le Superlatif” é um encanto ouvir, e mais uma vez ver Benoît, sentado no piano, interpretá-lo.
“Je t’aimais bien, tu sais”, com Ann num acompanhamento vocal, a sua voz como instrumento de religação (re-legião) ao divino, mas longe da perfeição a declamação cantada de Hannelore.
“Des Mots”, revela a entrega total de Ann a este tema.
Segue-se “Opus X”, ao piano, logo seguido por “Je te donne”, onde a genialidade do original, ofusca a interpretação em dueto, a conjugação dos graves e agudos vocais de Ann e de Hannelore ficaram longe da intenção.
“Les oiseaux du Malheur”, fica-se na razoabilidade, assim como “Lorsque tu me liras”.
“La Manque” interpretação teatral de Benoît, que sendo um encanto quase angelical, fica-se pela teatralidade dramática-barítona, poderia chegar a um tom tenor, o resultado teria sido melhor.
Depois, surge “AMRIA”, de Lucien Postman, interpretada por Benoît, quase lá... no tom perfeito, mas ficou no quase.
“De toutes les couleurs”, mais uma interpretação de Hannelore, tocando os agudos, pouco do meu agrado pessoal.
“L’amour Meurt”, os três intérpretes mais que literais de Ferré juntam-se, poderia ser melhor…
O “line-up” finaliza com “L’Opression”, onde muito mais que a interpretação, ressalvo a tonalidade de voz de Ann e o seu olhar final, talvez fatal, como foi a vida de Ferré…

Acabo com o início, pois nem sempre, o fim é o início de cada momento.
Permanecer o olhar nas vidraças dos carros que se cruzam, frente a frente… fujo de ti e encontro-te, como se uma força estranha aproxima-se a nossa mente divina… acabo com o início :“Notre Amour”, só nele ainda acredito.

Mas Aulnoye-Aymeries espera-me, e muito mais… esperei 21 anos (não foram 11…) por ti… só tu sabes porquê…

Acaba assim a canção:

“Car notre amour est plus fort que l’amour…”

Notre Amour, Léo Ferré (*)


Pode ser visionado parte do espectáculo, objecto desta dissertação em: www.leoferrelamourdeseconde.com/video


Dia 27… le théâtre Léo Férre… voo para Paris-Lille, ou mais simples via Bruxelas…

(*) esta partitura ainda não seguiu por correio, seguirá no momento certo… segues-me nesta estranha frente de vagas do assombro de outros tempos… não me procures nos próximos tempos, sou uma divorciada ocupada, no frente a frente que não entendo, a caminho da galeria...

Foto 1: "L'Amour... cette éternité de seconde".
Foto 2: Léo Ferré, na Toscanie...
Foto 3: Ann De Prest e Hannelore Muyllaert - Foto de Emille Lauwers

sábado, 13 de setembro de 2008

O Príncipe Sol e as suas 7 Provas.



...

Docemente, como um sopro que passa,
chegou do Espaço,
bem ao seu jeito mágico de sempre chegar,
a tão Sábia Fada madrinha.

Então, assim falou:
"Príncipe Sol", venceste a grande batalha da tua Vida.
Pela tua Sabedoria e Coragem,
ganhaste as 7 provas do teu Destino.

A Alma te inspirou, o Amor te guiou,
a Fé e a Fidelidade à Vida te encaminharam.

E tu, Flor-da-Manhã, muito choraste,
mas nunca perdeste a Esperança!
Nunca te revoltaste.

Sempre acreditaste que o Sol, um dia,
iria chegar...


Maria Flávia de Monsaraz, in "O Príncipe Sol e as suas 7 Provas" [2007]


É assim que acaba a história deste livro para os mais pequeninos...
Depois, dos outros que neste espaço referenciei, "A Pequena Alma e o Sol" e "A Pequena Alma e a Terra", de Neale Walsch, este é para os que teimam em continuar a ser adultos, na sua inflexibilidade humana. Quando os ramos duma árvore acompanham o movimento do vento, a harmonia expande-se no espaço enolvente, quando insistem na sua hirteza, como uma proeza quase imperial, uma rajada de vento mais forte facilmente os demoverá. Na vida também é assim...
Este livro que já fez brilhar os olhos de algumas crianças e adultos, mesmo daqueles que continuam a sua sisudez e surdez, na senda da transposição para terceiros, do que é simples a dois...

e foi escrito por uma grande Amiga minha,
obrigado Maria Flávia...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Um Amor Feliz.




Por vezes, a incapacidade mental que tenho de entender o mundo que circula é enorme. Os olhares das pessoas, inundados de preocupações, de becos sem saída, de pequenas questões quotidianas, de mil e um olhares rudimentares. Muitos são os que deambulam no fio da navalha, quase na impossibilidade de sobreviver. Sinto (este é o meu mundo... ainda) que a humanidade está na pré-história da História. Como tudo isto ainda é básico, primário, norteado duma materialidade atroz.

Talvez os grandes filósofos, os pensadores magistrais o tivessem sido, pois tinham a possibilidade pragmática de se alhearem da vida "particul(i)ar" e pessoal do corpo denso, vital, do corpo de desejos, passando a mente (pensamento concreto) e o ego (pensamento abstracto)... seguindo o rumo da simplicidade do sentir, até um ser desprovido de ego, tocando o plano divino.

Começo a perceber o que aconteceu na história da minha vida. Conheci o meu karma, quase aos 40 anos, pois tive essa possibilidade, a vida para aí me impeliu, e por vezes, quase me expeliu. Se há 20 anos me tivessem dito que eu teria que resolver nesta vida a conjugação: Plutão, Marte e Urano em oposição a Saturno, eu nada teria pensado, excepto a concepção dos incapazes que denominam (mas não dominam) o que não conseguem alcançar... como loucos. Sempre naveguei nas águas do pacifismo, nunca me imaginei a bater fisicamente em ninguém, muito menos alguém tentar matar-me. Dei comigo mergulhada numa hecatombe, que desconhecia a sua origem. Rebusquei e agora começo a entender, nem cedo, nem tarde, o momento certo é determinado pelas energias cósmicas que ninguém controla, talvez Deus... ainda não sei.

Aconteceu nesta vida, foi este o momento escolhido para o presente oferecido pelos Deuses ser desembrulhado, o papel azul sem fantasia com laço dourado, o ouro mais puro que presenteia o Amor, o vinho nobre e velho... muito velho, cruzando as castas ancestrais, de outros tempos que a memória não pode alcançar.

Este foi o momento, a encarnação escolhida pelo Universo. Agora sei (ou sabemos...) que este foi o melhor presente que os Deuses delinearam para nós, o momento certo… talvez esta tenha sido a melhor prenda que demos um ao outro.
Fugir deste Amor… foi o meu exílio vidas e vidas…


Um olhar feliz foi o que hoje reencontrei em mim, por te amar (porto de mar), a possibilidade de amar é escassa, a matriz de desenvolvimento e ascensão é única em cada ser, nenhuma matriz energética se repete no Universo. Quais máquinas de aceleração de partículas, pré-história da humanidade!

Quando as luzes se apagarem no teu palco de madeira-nogueira por dentro (a noz foi o símbolo que no momento não entendeste, hoje conheces os sinais... o olhar, também eu quase o perdi há 9 anos, estava escrita a minha morte aos 33 anos, mas superei-a...) mas banalizada por fora, quando mergulhares no que verdadeiramente és, não fugirás mais de mim para ti… só eu sei quem ÉS.

A enciclopédia que dizias teres de ler, para me entenderes, condensa-se na concretização de Marte na casa XII, na conjunção da Lua e Vénus na casa VIII. Está plasmado no desígnio dos Deuses o nosso momento certo…

Vagueias nas vielas da vila quase vilã, com esses seres primários, de primeiras passagens por aqui… é triste o espectáculo em teu redor. Gente analfabeta, manager’s de gestão caseira, miúdos e miúdas de brinco na orelha e cigarro na mão! Secretárias que não sabem escrever português, muito menos transcrever, mera marioneta de companhia nas noites de Domingo. Depois, exala o fumo da nicotina e do alcatrão na praça pública como uma funcionária nata.

Esse não é o teu mundo, mereces muito mais que o Olympia (já o escrevi aqui), mas cada vez as salas são mais pequenas, para dar a sensação que estão cheias. Pequeno o teu mundo exterior, grande o teu mundo interior. Estratégias de “marquetingue” goradas, pois o acto de criação move-se na linha do sublime, não desses arraiais coloridos, a fumegar de veraneio onde te moves, pois tens contas para pagar no fim do mês... As velhinhas de Viana do Castelo, com cadeiras de praia, com o seu “crochet” em punho… toda esta dança é ridícula, previsível como as fases lunares, no hemisfério Norte.

Foge comigo… essa é a tua única estrada onde o sonho toca a impossibilidade do real.
Toscana, Paris, Açores, Creta…
o local do Universo que escolheres, mesmo o Inferno mais doce, só eu parto contigo…

O Amor tem sempre um Olhar Feliz, mesmo quando tentamos dissimulá-lo. Tentei… nas longas conversas com um Índio Ameríndio, que desceu as escadas até ao rés-do-chão à procura duma folha branca, no rio azul… O nome dele foi revelado numa noite de Setembro, há quatro anos, num longo sono no meu regaço… pediu perdão a “Rosewell”, quem será esse personagem? Talvez, um dia revele... nas palavras adormecidas no meu colo...
Esse mês de Setembro foi frio, olhava para os meus pés envoltos em sandálias à porta da entrada e perguntava-me: "não tens frio nos pés?", a seguir abraçava-me e ía dar de comer aos gatos...

Queria cobrir-me com engobe, para que não me reconhecesses mais… mas somos água a caminhar para terra: eixo escorpião – touro e câncer – capricórnio. Estamos perto da velha praia e sei que ainda não consigo tocar-te fora do mar… O peso dos corpos é diferente no mar e na terra...

Já não te engano com promessas vãs, nem com fugas a meio da noite... sobrevivemos…
...a correspondência I e III revelam as existências trocadas. A pedra angular, o atalho grávido entre a primeira e a terceira… Só nós caminhamos de água para terra, troquei (e toquei) o percurso do eixo há 26 anos, para que não me reconhecesses. Ela caminha para água, nós para terra… o tempo foi escolhido por nós, neste longo exílio de percursos trocados.

Um olhar feliz… “quit don’t say you love me”, será este o próximo depósito dos solos de guitarra no corredor hipócrita do tribunal?

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Tola superstição. Infundado receio. É já sorrindo que transpõe os últimos metros que nos separam; é sempre sorrindo, e sem as prudências habituais, que logo me beija, encostando a cabeça ao meu ombro, antes ainda de eu fechar a porta. Em seguida, procurando os meus olhos, com a expressão de quem deseja sentir-se perdoada de não sei que falta, quase soletra as seguintes palavras:
"Olhe que eu não podia fazer outra coisa."
Imediatamente percebo que se refere ao nosso frustrado encontro de anteontem, no território dos ameríndios:
"Claro que não. Nem eu. Teve de ser assim."


David Mourão-Ferreira, in “Um Amor Feliz” [1986]

Foto 1: Capa do livro “Um Amor Feliz”

Foto 2: Andorra, há uns anos… (pensei que era feliz… enganei-me). Ele andava perto, eu fugia dele e da minha sombra...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

(Pre)monição, de nós.



Estátuas de Coral

Não queria partir sem te abraçar pela última vez.
E disseste-me como escutar o ruído no âmago do silêncio, e
ver a luz no meio da escuridão, mas não disseste que um dia
partirias e permaneceste absorto na tua morte.

Falei-te, mas era como se não ouvisses, mas de repente
enviaste uma lança de Luz e fogo que trespassou o meu ser,
e ainda sinto o sangue que brotou então de minhas entranhas.

E zanguei-me contigo por não seres aquilo que eu
procurava, e por eu não ser aquilo que desejavas encontrar.

Mas a vida era mesmo assim e o fio de prata de Ariadne
tinha-nos unido para todo o sempre.

Com o meu corpo ensanguentado, e as mãos lavadas de
orvalho, e ainda a tremer, percorri o labirinto do tempo,
procurando-te sem cessar. Envolvi-me em mil deleites só pela
ilusão de te ter. Submergi na antiga cidade submersa pelo
tempo de um azul profundo e cintilante, e
encontrei as ruínas de nós dois. Estátuas de pedra e sal
banhadas pelo coral que resplandecia na luz matutina.
E ali estávamos. Como sempre estivemos.
Olhar em olhar.
Visão de profundezas imersas na água azul escura.
E desfiz o encanto, e abracei o teu corpo,
dando-te vida e trazendo-te, mais uma vez,
para junto de mim, confundindo o tempo.



Joma Sipe, in "Afoguei-me em Ti" [2005]


Imagem 1: Joma Sipe: "Crystal 1-Silêncio"
Painel em caneta de prata, ouro e cristais sobre tela acrílica preta [2007]

Imagem 2: Joma Sipe: "O Retorno à Inocência"
Painel em caneta de prata, ouro e cristais sobre tela acrílica preta [2007]

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O tempo da monitória está perto do fim.
O tempo da nossa paz quente aproxima-se.
O tempo de nós... "quit don't say you love me"
(gostei do arranjo).

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Lisboa "desuranizada"



Trabalhei durante muitos anos na cidade que foi o meu berço: Lisboa. Hoje, evito a permanência nesse espaço desconjuntado, onde todos se atropelam, onde todos correm para o precipício, outros há muito que lá estão, meras peças funcionais duma máquina infernal criada pelo império barrento do capitalismo, e do consumismo birrento dos ventres gordos, cada vez em maior número que por aí deambulam.

Lisboa, só mesmo nas manhãs de Domingo, abandonada aos turistas, aos pombos, com as máquinas das obras adormecidas… Hoje, fui tratar duns assuntos do dito quotidiano, ao qual me esquivo, cada vez mais. Parei junto aos semáforos da Rua Alexandre Herculano, e reparei numa série de homens vestidos de igual com fatos cinzentos, espartilhados entre a raiva e a fuga que não podem encetar. Aqueles homens (e mulheres!) estavam presos dentro de si próprios, com as contas por pagar, com os filhos por criar, com o tempo preso, numa vida adiada nos recortes da hipocrisia, incapazes de se tornarem magos da sua própria vida.

É difícil descrever as águas do pensamento… aquela não era mais a minha Lisboa, do tempo dos eléctricos, do sorriso do meu avô na sua alfaiataria no velho largo do Carmo, dos tecidos que ia comprar com a minha mãe à Baixa, da velha loja de comida para animais na Praça da Figueira que tinha a mistura preferida para os meus canários, das missangas da Casa Batalha para fazer as bugigangas da minha adolescência.

Lembrei-me de dois livros que li há largos anos: “1984”, de George Orwell e a “Terceira Vaga”, de Alvin Toffler. Pois… hoje somos filmados a cada esquina, são as portagens para se entrar em Lisboa, são os chips nas matrículas, como os animais já têm… este é o fascismo onde vivemos, mas que poucos denunciam! Saltei fora desse barco fundeado há quatro anos, hoje já nada me prende aqui… só um grande Amor.

Esta não é mais a Lisboa onde nasci…

No turbilhão de pensamentos e recordações que me assolaram naquele momento, um deles foi o elogio que Patti Smith fez em Outubro passado, à cidade de Lisboa. Mas ela desconhece Lisboa por dentro, que há muito foi vendida aos grandes interesses económicos, faustosos de tudo que é o nada... Pouco tempo faltará para ser taxado o ar poluído que respiramos.

Esta não é mais a Lisboa onde nasci…

Lisboa desumanizada, espartilhada, acorrentada…
“desuranizada”.



URANO é:

a mente cósmica, divina e universal. (Universal Mind).

Saturno cristaliza, Urano liberta…

Aceitar a estabilidade instável desta coisa que chamam vida, vale a pena... tentar. Quando Urano passa, quebra as amarras, retoma o risco de acreditar que viver faz sentido. Há uma intenção divina no acto de estar vivo, saber caminhar na noite escura sem medos, é entender Urano. Todas as revoltas revelam Uranos mal vividos, conhecer Urano é fascinante… Ser fiel ao descondicionamento é a proposta de Urano, que está entre Saturno e Neptuno. Tudo começa a fazer sentido, nos mais diferentes sentidos. Todas as impressões digitais são diferentes e únicas.

Querem enformar a espécie humana segundo uma parametrização de indiferenciação, como se todos tivéssemos que viver em condomínios fechados. Sempre me repudiaram esses espaços, com seguranças à porta, com sistemas de vídeo por todo o lado, com alarmes que disparam à entrada duma formiga. Gosto das casas sem muros, sem redes (só de pesca), onde o Sol e a Lua dançam na harmonia da integração da imperfeição do outro. O prazer de partilhar quem somos, sem exigir nada, é algo que muitos desconhecem. Talvez isso seja o Amor... a passagem de Mercúrio (analítico) a Urano (sintético).

O Tempo está no Cosmos… O Tempo é o “Momento Certo” que só a Alma (re)conhece.

Urano a 24 graus de Câncer, na casa VII.
Urano a 23 graus de Virgem, na casa V.


Tudo começa a fazer sentido, para quem o souber entender…


The Passenger M

The Passenger and those he leaves behind, connected for a moment by a long unwinding ribbon. A streamer cast and caught with joy. A streamer cast and caught with joy. A ribbon of life snapping - pitched and tossed, wrapping round a wrist, gasping upon a wave or trampled upon below.

The Passenger is suddenly flattened. Perhaps it is the sight of wet crepe, a beloved port or a loved one fading – a tiny dot dissolving as the vast grainy sea takes over. Soon he is taken over as well by a sense of relief, of wightlessness, or by the courageous scent of his own volition.

The air is sweet . The arm of the sea curves and cradles, subduing all passion, and is a comfort and a lure.

The Passenger M is … musing …

Addressing perhaps … the void. The pit of the will which he pops like a stermless cherry. He regards his empty hand, the indifferent sea . If he were to step out upon the sea, would he be swakkiwed like an insect or supported like a king… Might he remove his slippers and walk upon the waves amongst the tiny fishes and draw from the swell a symphony of moans and hisses…

The sun appears from behind a rolling cloud. Sighing, the Passenger lets slide these notions for he is suddenly sleepy. With a nod to the elements he turns and makes his way to his cabin. The rays break and sparkle, lacquering the surface, as if in preparation for the perfect walk.

Patti Smith, in "The Coral Sea" [1996]

Foto 1 : Lynn Davis
Foto 2 : Lisboa…