sexta-feira, 29 de agosto de 2008

As tuas mãos.




As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada


Al Berto, in "O Livro dos Regressos" [1989]



No tear imaginado dos teus dedos
gastei as mãos. Chamei-te, a ferir os
lábios com o teu nome, contra as
paredes do quarto desterrado. Quis-te

ainda quando a morte era já uma
transparência, lente invisível para o
escândalo. Mas então era tarde de

mais: devia ter-te seguido aonde ias,
sem perguntas, na primeira manhã.



Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois" [2004]



"A poesia não se cala...
...nas tuas mãos"

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Há vinte anos... atrás.



Algo aconteceu na minha vida, que foi drasticamente interrompido… pela fuga empedernida, da nossa estranha história de Amor. Alguém tentou matar-me à pedrada, à patada (Marte na Casa XII- casa kármica), mas continuo a dar a minha vida por “ele”, o ser que promovi de Anjo a Deus da Crueldade. Começo agora a perceber que tudo isto tinha que acontecer, foi a libertação do nosso karma, que sempre nos impediu de dar o derradeiro passo na direcção do infinito. Sempre o amei, por isso escondia-me, fugia, fingia não olhar para os olhos que me olhavam com veios de sal e de azul, a tocar a eternidade.
O Amor é Azul…

As pedras sombreavam o meu sentir… “ele” temeu o que eu sentia, teve medo deste Amor que assumi naquela noite… ajoelhamo-nos diante de Deus, frente a frente num despojamento total. Abrir o coração e esperar sete dias e sete noites pela terceira traição, sempre com a mesma mulher… mas esta foi a última vez! Ficou o eco que será entoado na canção já composta… em segredo, que eu já ouvi, em sonhos ancestrais já a tocas-te para mim... só para mim. Olhei o dedilhar dos teus dedos, na viola do passarinho, fingindo não olhar, fingindo não sentir...

Desenhei o nome “dele” no veludo azul da areia naquela noite de Março, mas Março vai regressar, sempre antes do Abril. Antes de se amar em Liberdade, ama-se no enclave do sangue que rasga anarquicamente, o rio de margens cortadas que tinha de ser reconhecido pela dor. A dor tem (teve?) um sentido. Hoje, só lhe posso agradecer por me ter tentado matar…

… sim, fui eu que pedi que “ele” me matasse, mas as pedras não me acertaram, uma passou a menos de um metro da minha cabeça, no parque de estacionamento do supermercado. Uma simples moça assistiu a tudo… Numa tarde de Domingo, dum qualquer mês de Maio, a minha viatura foi espatifada à patada, tive uma pedra calcária e cúbica da calçada junto da minha cabeça… “Ele” disse que me abria a cabeça ao meio… eu fiquei à espera, mas “ele” não concretizou a sua ameaça.

Mas a prosa de hoje, é uma homenagem ao Sr. Francisco… Fez esta semana 20 anos do incêndio do Chiado, e o "flash-back" da minha vida em celulóide, duas décadas depois tem todo o sentido. O ano de 1988 em que estudava sociologia, e todos os dias me cruzava com o Prof. Hermano Saraiva, pois o curso de história era leccionado nas mesmas instalações que o de sociologia. Aborreci-me com os cálculos estatísticos e no ano seguinte, entrei em Direito…

Nesse ano de 1988 assisti ao incêndio do Chiado, no 11º andar, da torre 2 das Amoreiras, onde trabalhava como secretária de administração… A velha “Setmar”, a velha “Maritimus”, que hoje já não existem. As saudades do Dr. Pinto da Fonseca, do Engº Adelino Moura… e muitos mais a quem agradeço por terem existido, pois nenhum deles já está neste mundo dos ditos vivos. Aquele escritório marcou a minha vida, o convite para trabalhar na “Radiogeste”, dois pisos abaixo ou acima, já não me recordo, que recusei… O Dr. Pinto da Fonseca foi um dos homens que conheci com um coração enorme, que ensinei a trabalhar com o telex computorizado, pois ele só se entendia com telex de fita perfurada. O fax estava a surgir nesse tempo, a internet ninguém sabia o que era. As maratonas em directo com o presidente Eduardo dos Santos, nas quais eu receava enganar-me e não carregar na tecla certa do telex, os negócios com Angola, com a Mauritânia… O Monsieur Béchir, com quem tinha que conversar em francês longas horas… pois ele não desandava enquanto não lhe pagassem os milhões dos barcos construídos para a frota pesqueira da Mauritânia. Talvez por isso, assisti em directo à saúde do Dr. Pinto da Fonseca cair a pique nos últimos anos da sua sumptuosa vida… Os risos, em tom de chacota do Engº Tomás Taveira, grande amigo do Dr. Pinto da Fonseca, a torre 3 e os escândalos das manchetes de todos os jornais e revistas... Já ninguém se recorda da "Elite", a revista que publicou as fotos do Sr. Engenheiro... Taveira.

Pois o ano de 1988… para além da vida profissional, tinha a minha vida pessoal da qual não quero falar, mas lembro-me do Sr. Francisco, velho pescador de SAGRES, a minha terra de adopção, que me ensinou muito da vida e do MAR… O Sr. Francisco, nunca soube ler, nem escrever… por isso nunca poderá ler o que acabei de escrever. As noites na pesca da candeia, o mar profundo e revolto de SAGRES. O meu companheiro desse tempo, com quem acabaria por casar uns anos depois, muito aborrecido por estar na casa do Sr. Francisco, preferia os bons hotéis de Vilamoura... (quem tudo quer tudo perde... a bancarrota é a sua evidência), e eu recatada e encantada com a simplicidade dum pescador que muito me ensinou… há 20 anos atrás…

Obrigado Sr. Francisco…


"...aos dezanove noite fora, e aos vinte contra a lei..."


O prazer que sinto vinte anos depois, uma nova consciência quase a tocar o limiar deste Amor... é por ti ou por "ele" que sobrevivi nesta guerra sem sentido... entre nós não há partes, não pode existir processo técnico-judicial, os "nós" e os "laços" são nossos...

A verdadeira história ainda está por contar, e por escrever... mas dessa ninguém vai querer saber... escreve a ficção da história que só eu posso escrever.

Às vezes só espero uma palavra tua, mesmo sendo essa palavra o silêncio audível...


Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo - é teu,

para sempre, o meu nome.


Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois" [2004]


Foto 1: Sr. Francisco (no seu velho barco em Sagres há 20 anos atrás...)

Foto 2: Eu, na casa do Sr. Francisco, a brincar com o meu gato... 20 anos depois acusaram-me de andar a matar gatos e assaltar carros em plena noite... nunca percebi onde foi engendrada esta história que fez caixas de revistas baratas que te ficaram a matar... este é o momento de entenderes quem "tramou" esta cilada contra nós, na mais pura inocência, não foi a mulher da traição... foi a miudita inocente... a tal que assistiu às pedradas falhadas e em directo, um filme que nunca entenderá, pois esta história é tua e minha... as restantes personagens são secundárias.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O fim das penas: das leis e das aves.



Voltei a reler Beccaria, como quem volta a rever velhas páginas dedilhadas, outros tempos, de longas noites à procura do sentido da simplicidade, embutida no ser humano. Foram tempos de tentar tocar a impossibilidade do entendimento de todas as teorias criminais suportadas no pensamento humano. Foi o Dr. Costa Pinto que me recomendou este livro há largos anos atrás, depois o Dr. Laborinho Lúcio reconfirmou o que eu pensava, na sua essência sublime de ser e estar neste pequeno mundo… moldou o meu pensamento para sempre… eterno lírico, eu eterna romântica, que ainda acreditava nessas coisas do Amor.

Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, nasceu em Milão em 1738, tendo sido um estudioso do direito, da filosofia do direito penal e da finalidade das penas. A sua obra: “Dos Delitos e das Penas”, continua a ser um “ex-libris” do pensamento jurídico-penal, onde o jogo complexo da tecnicidade, nunca demove o fascínio intelectual de temas nunca esgotados, mesmo na sua exaustão espicaçada, por um idealismo, sempre utópico.

Beccaria, foi jurisfilósofo italiano, estudou em Parma e Pádua, assim como em Paris com jesuítas. Foi uma das vozes do século XVIII, que se levantou (baixinho… pois a época histórica não o permitia), contra a tradição jurídica, tendo denunciado os julgamentos secretos, as torturas como forma de obter a prova do crime, a prática usual e costumeira de confiscar os bens do condenado.

Nunca entendi a irracionalidade da pena de morte. Desde sempre, fui contra, mesmo nos mais hediondos e bárbaros crimes, que mesmo esses, têm uma explicação axiomática ao agente que o praticou, que tem que ser entendida. A rigidez empedrada do pensamento sempre me fez confusão. Na vida, devemos ser flexíveis, flutuantes, sabendo aceitar e entender, o lado menos iluminado do ser humano. Beccaria, foi o primeiro escritor a criticar com pressupostos fundamentados (para a sua época – século XVIII), a pena de morte, tendo sido acusado de heresia, por isso, teve que conter as suas ideias.

Foi aplaudido por Voltaire, tendo sido convidado por Catarina II, para a reformulação do sistema penal da Rússia, convite que recusou. O pensamento de Beccaria está plasmado, por exemplo, no artigo 5º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1779: “La loi n´a le droit de défendre que des actions nuisibles à la societé”. Foi a ideia de contrato social que sempre o entusiasmou, patamar a partir do qual construiu o seu pensamento.

O âmbito penalmente relevante, é uma questão basilar para mim. O que é que interessa ao Estado, se uma mulher dá um par de estalos ou insulta o companheiro, ou vice-versa! O Estado deve cingir-se às suas atribuições sociais, e não se meter na vida privada dos cidadãos. Mas ainda vivemos com a cruz às costas do “Estado paizinho de todos nós”.

A estupidez continua a imperar, quando por exemplo vou apanhar a A5 para ir a casa duma amiga perto das Amoreiras, e junto ao Estádio Nacional, em Caxias, uma indicação aos automobilistas, daqueles placares electrónicos, que dizia assim: “Agosto… mortes na estrada...”. O que devia estar escrito era: “Obras na A5, trânsito lento”. Demorei mais de 45 minutos para percorrer 3 kilómetros. O Estado tem o dever de informar, não andar a chatear o cidadão com amedrontamentos balofos, baseados em teorias de retribuição dementes, verdejantes como na Lei de Taleão!

Voltando a Beccaria…

Sempre foi contra a teoria retributiva das penas, enfeudada no antigo regime, a uma transcendência teológica, uma tradição estiolante, atitude na qual se mistura a noção de crime e de pecado. O Estado e a Igreja estavam-se profundamente ligados, o que moldou a ideia de pena. Foi um defensor da teoria da prevenção, que ainda hoje norteia a forma como o código penal português está redigido.
Foi um visionário no seu tempo, pois as instituições e os homens devem ser compreendidos à luz da história.
Partiu a 24 de Novembro de 1794, em Milão…
mas ele anda por aí…

Regressando a mim…

A dilemática dos fins das penas, é uma área absorvente do pensamento humano. Acredito que um dia, não existirá nenhuma finalidade para as penas, só mesmo as das aves… e as outras, dolorosas que só o verbo sentir pode tentar entender, a possibilidade dum Amor que alguém tentou matar…
… nem sempre o Amor é sinónimo de Liberdade, como eu sempre pensei, por vezes ele é uma anarquia homicida, quando alguém quer tomar conta desse Amor, que sempre foi Nosso.


“Das singelas considerações sobre a verdade que aqui acabamos de fazer conclui-se, à evidência, que o fim das penas não é o de atormentar e afligir um ser sensível, nem o de anular um delito já cometido. Poderá, num corpo político – que, bem longe de agir pela paixão, é o tranquilo moderador das paixões particulares -, poderá albergar-se esta inútil crueldade, instrumento do furor e do fanatismo ou dos tiranos débeis?...”

Cesare Beccaria, in “Dos Delitos e das Penas” [1764]

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Pérolas ou diamantes?




Uma noite perguntaste-me se tinhas escrito: pérolas ou diamantes… já não sei o que respondi. O que sei é pouco, cada vez menos… mas hoje, ao organizar a colectânea de poesia, sei que só ela é voragem no diamante da tua alma e nas pérolas azuladas depositadas por engano no teu coração. São pedras rudes e cruéis que te habitam o ser, eivado de quem nunca amou ninguém. Ainda podes tentar, sobrevoar o velho continente, onde a minha sombra é a tua única passagem.

É a dor que acende as palavras ao vento, na confluência da mais estranha forma de sentir. Mordeste-me a alma, e eu a tua eternidade…

Gostava de ter escrito este poema para “ele”, por entre os estilhaços, dispersos na noite escura.

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Trocáramos as cartas do começo – alegrias tão
frágeis, mas tão fundas, de quem mal se conhece
e já se ama; todo um inverno, diante das palavras,
o movimento dos pássaros no interior dos olhos,
o lume das estrelas na ponta dos dedos. De um

encontro tão breve é sempre fácil esquecer o que
nunca se viu. E, nessa tarde, enquanto te escutava,
soube que a memória era um espelho partido –

porque ler-te era uma coisa, mas ouvir-te era outra; e
o rosto que espreitara do papel fora eu que o desenhara;
e a assinatura ao fundo da página era o nome de uma
outra vida que eu tecera – como se na tua boca,

nesse tempo, falassem duas vozes desencontradas.



Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]

sábado, 16 de agosto de 2008

Saudades de Paris...




Saudades de Paris…

O rasto e o resto da tua história toca a tecla da pequenez e da embriaguez. Continuas a sobreviver no jogo mesquinho da tentativa de estar vivo... ninguém se lembra do palco do Bobino, só eu me recordo de cada momento perdido no vazio da tua existência.

Ontem, a Lua foi minha confidente e clarificadora da estrada errante onde deambulas... são deprimentes as terrinhas apagadas do mapa, é grandioso o jogo de hipocrisia viciada: agradecimentos a comissões de festarolas onde o analfabetismo é rei... são os mineiros, os talhantes, os camionistas... gente do povo, com o devido respeito, mas não foi para essa gente primária que voltaste aqui... são relevos da pacatez designados numa sombra soalheira, pequenas saltitantes como pipocas, rapazotes parcos a tresandar a álcool... toda a encenação é pura miséria... de ti.
Como estás cheio dessa vida aparentemente reluzente, mas profundamente vazia. Confessaste-me uma noite, que estavas farto dessa vida... A tua arte grandiosa resvala nesses espaços, onde a massa humana, é só isso... meros sobreviventes, meros funcionários da vida, com horas marcadas num picar de ponto, sufocados no vazio do nada.

Mereces mais que o Olympia, mas continuas a esbracejar na mera agitação do ar, incapaz de voar, para o outro lado. Talvez, penses que estou contra ti, mas estou ao teu lado. Por vezes, lastimo a tua incapacidade de tentar entender o que aconteceu.
Estou à tua espera lá em cima... só tu sabes onde estou.

Tenho saudades de Paris, mas não me ouves, vais continuar circundado de operários suburbanos, que de arte nada percebem. Dilacerado no mero jogo da sobrevivência mundana.

Saudades de Paris...


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Je T’ Aime

Je t’aime pour ta voix pour tes yeux sur la nuit
Pour ces cris que tu cries du fond des oreillers
Et pour ce mouvement de la mer pour ta vie
Qui ressemble à la mer qui monte me noyer

Je t’aime pour ton ventre où je vais te chercher
Quand tu cherches des yeux la nuit qui se balance
À mon creux qui te creuse et d’où ma vie blessée
Coule comme un torrent dans le bruit du silence

Je t’aime pour ta vigne où vendangent des fées
Et pour cette clairière où j’éclaire ma route
Qui balisent tes cris durs comme deux galets
Que le flot de la nuit roule sur ma déroute

Je t’aime pour le sel qui tache ta vertu
Et qui fait un champ d’ombre où ma bouche repose
Pour ce je ne sais quoi dont ma lèvre têtue
S’entête à recouvrer le sens et puis la cause

Je t’aime pour ta gueule ouverte sur la nuit
Quand ta sève montant comme du fond des ères
Bouillonne dans son ventre et que je te maudis
D’être à la fois ma sœur mon ange et ma Lumière


Léo Ferré (1971)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Inversão do Momento Certo


I

Escutar o seu silêncio como um doce rumor, senti-lo como prova incondicional e culminante duma loucura escalada nas pedras vertidas, na densidade dum nevoeiro quase intra-telúrico, e perceber os momentos desencantados pelos quais passámos.
Momentos torrenciais, sem contornos reais, momentos esdrúxulos, momentos embutidos nas pedras lançadas, fugindo à nossa verdade ancestral.

Escutar o seu silêncio é reaprender tudo, outra vez, neste acontecer abrupto, nesta espera transbordante, de tudo e nada, neste desenraizamento de raízes suspensas, como velhos jardins medievais, onde nos reencontrámos.

Escutar o seu silêncio, entre as duas quintas: a da “Boa Viagem” e das “Três Musas”, é entender que o sonho que sonhámos há muito tempo, está hoje a ser reescrito, na pedra bruta que lhe devolvi, quando choveram pedras polidas, em Agosto
...em Sintra..., agora que as pedras não provocam mais estilhaços à sua passagem encerrada, temos o céu à nossa espera, aprendendo assim, a escutar o silêncio, integrando as suturas que esta guerra nos causou. Tecemos uma nova forma de amar, que só nós conhecemos.

Escutar o seu silêncio, é saber esperar por “ele”, para além do infinito que, também ele, pode ser sempre superado.

II

No sonho premonitório da adolescência, estavam retratadas as “Três Musas”, num tempo sem-tempo, próximo da nascente do acto criativo, onde o “Monge” se inspirou...
... o entendimento consciente, que a Polímnia provocou a inversão do momento certo, como uma fuga de lava ardente...

Numa outra vida foi (re)visitado pela Érato, Melpômene e Tália.
Nesta vida, (re)encontrou Terpsícore, Clio e Polímnia.
Na sua próxima vida (re)conhecerá Calíope, Euterpe e Urânia.

...a inversão do momento certo, o acerto do tempo errado dos homens e do tempo certo dos Deuses...


III

Numa vila romana a 5 km de Monforte, designadamente em Torre de Palma, está exposto "O MOSAICO DAS MUSAS", (foto 1) da época romana, século IV d.C.
É simplesmente magistral este mosaico suspenso em pedra calcária, mármore policrome e vidro policromático. Talvez seja a mesma pedra atirada a matar… a fuga do real…
Curiosamente, no referido painel, a ordem (da esquerda para a direita) das Musas difere da sua cronologia, sendo a seguinte: Calíope, Euterpe, Érato, Tália, Melpômene, Clio, Urânia, Polímnia e Terpsícore.

Faz sentido... para quem o sabe entender...


CALÍOPE: Musa da Poesia Épica
CLIO : Musa da História
POLÍMNIA: Musa da Poesia Sagrada
EUTERPE: Musa da Música
TERPSÍCORE: Musa da Dança
ÉRATO: Musa da Poesia Lírica
MELPÔMENE: Musa da Tragédia
TÁLIA: Musa da Comédia
URÂNIA: Musa da Astronomia


IV

O POETA SÁBIO

É sábio hábil arguto informado
Porém quando ele escreve
As Ménades não dançam


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Musa" – 3º andamento [1994]

sábado, 2 de agosto de 2008

02 Agosto 19...[9]




Foi para "alguém" que estas mandalas foram pintadas em seda, nesta sede do reencontro, mergulhada na sua matriz energética primordial, na nossa "gruta" fugaz e eterna. O contra-senso é justificado pela ausência física de "nós", pela permanência do “Princípio” das nossas almas injustificadas.

O "monge" que reencontrei, no pequeno quarto azul, exposto por duas janelas... "risíveis e desgraçadas, plenamente falhadas, a fogueira onde me encanto…"

Este é o presente que queria dar-lhe hoje: as mandalas do fogo (ele: ser) e da água (eu: sentir)... no silêncio glauco das águas, de cada momento certo.

"sentir a sua ausência, sabê-lo algures, esperar neste longo exílio"...



FRAGMENTO EM FORMA DE RECONHECIMENTO

O tempo de espera se espreguiçou sobre ondas marmóreas.
Sentado sobre a falésia ansiava por um café que vencesse a monotonia do sono.
Era um desejo inventado na distância magoada.
Sonhava que era uma questão de tempo. Esse imenso tempo que ia consumindo todas as coisas que são efémeras, mas que guardava inteiras e belas em recantos indolores da memória.
Agora, amanhã, perceberei mais claramente que são as coisas efémeras, que dão sentido ao decorrer do tempo inútil em busca da inalcançável calma de uma amizade que me abraça e me renova.

António Sem, in "Analogias" [2003]