terça-feira, 29 de julho de 2008

Quem jamais te esqueceria?




Finalmente, consegui ver o Caetano ao vivo, a dois passos de casa. Foi uma noite mágica, com o jardim do Marquês quase cheio, junto à antiga residência do dito “Conde”, com o traçado e os recortes deslumbrantes de Carlos Mardel, entoando os sons e as formas dos mais belos jardins românticos de Sintra… e Versailles.

Só uma voz e uma viola... A simplicidade é sempre perfeita, pois nela está embutida a verdade da eterna procura. O silêncio impôs-se como uma estranha melodia, só interrompido pela passagem dum avião e pelo coaxar das rãs da ribeira da Lage.

Momentos únicos (por isso, certos…) foram as interpretações de “Menino do Rio”, “Terra” e a minha preferida: “Sozinho”. A voz no tom certo irradiou na noite estrelada, a tentativa de falsete, fora do tom destoou. Faltou o “Leãozinho”...

… mas ele estava longe… e sozinho…

A noite distante, prosseguiu com conversa cheia de palavras e chá de menta...

… e eu à procura dele, que estava longe…

mas perto…

"Dont’t say you love me, that’s what she said", do Young (sonhei que já a sabias tocar no tom certo…)


Por mais distante o errante navegante
quem jamais te esqueceria?


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Sozinho

Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus segredos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela de repente me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?


(Foto 1: Nuno Moreira)

terça-feira, 22 de julho de 2008

O Voo da Águia (azteca).



As lições da natureza são sábias, ao homem apenas cabe um leve toque do conhecimento incipiente, tão breve como o abrir e fechar da cortina do quarto cego do Amor.

Esta é uma das histórias que ainda me fascina, talvez… pela semelhança figurativa com o momento presente (só ele existe), nesta transposição consciente para as novas águas, onde só o teu olhar permanece, longe do egocentrismo deste império esculpido, do lado errado do tempo.

Há quatro anos, nesta mesma noite, estavas nos meus braços e tudo era perfeito, apesar das lamechices do “pó-pó semi-novo”.

Se o tempo ainda existe… é por ti.


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O VOO DA ÁGUIA

A águia é a ave que possui a maior longevidade da sua espécie. Chega a viver setenta anos, mas para chegar a essa idade, aos quarenta anos tem que tomar uma decisão.
Nessa idade está com as unhas compridas e flexíveis, já não consegue agarrar as presas das quais se alimenta. O bico alongado e pontiagudo encurva-se. Encurvadas contra o peito estão as suas asas envelhecidas e pesadas devido à grossura das penas. Voar torna-se cada vez mais difícil.
Então, tem duas alternativas: morrer, ou enfrentar um doloroso processo de renovação que durará aproximadamente 150 dias. Terá que voar para o alto de uma montanha e recolher-se num ninho perto de uma rocha, de onde não seja forçada a sair.
Depois de encontrar esse lugar, a águia começa a bater repetida e dolorosamente com o bico na rocha até conseguir arrancá-lo. Após o extrair, espera pelo novo bico com o qual inicia nova regeneração, arrancando agora as suas unhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela arranca as penas envelhecidas. Após cinco meses, ela lança-se no famoso voo de renovação, que lhe abre as portas para uma nova etapa de mais trinta anos de vida.

(Autor Desconhecido)

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As Flores e os Cantos

(…)

A amizade é chuva de flores preciosas.
Brancos tufos de plumas de garça,
entrelaçam-se com preciosas flores vermelhas:
nos ramos das árvores,
debaixo delas andam e libam
os senhores e os nobres.


Vosso belo canto:
um dourado pássaro cascavel,
muito formoso o elevais.
Estais numa cerca de flores.
Sobre os ramos floridos cantais.
Acaso serás tu uma ave preciosa do Dador da vida?
Acaso falaste com o deus?
Tão depressa como viste a aurora,
os pusestes a cantar.

(…)

Aqui na terra é a região do momento fugaz.
Também é assim no lugar
onde de alguma maneira se vive?
Aí nos alegramos?
Aí existe amizade?
Ou apenas aqui na terra
viemos conhecer os nossos rostos?


Ayocuan Cuetzpaltzin
(poeta da região Poblano-Tlaxcalteca – segunda metade do século XV – princípios do século XVI), in “Quinze Poetas Aztecas” (*) [2006].

(*) mais um livro depositado no corredor dum edifício sem personalidade jurídica, será… eventualmente apreciado por um “douto” público. Não entendo esta história espinhosa, talvez um dia “Alguém” me saiba explicar.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Como se urde a justiça?




Reequacionar o sentido da vida, na sua evidência mais pontual, de concretização material, mas também no seu plano abstracto, onde se fundem linhas e fundações fundamentais relacionadas com novos conceitos que reencontrei, talvez a meio desta breve passagem por aqui, relacionados com a religião, a psicologia humana e a justiça.

Este último conceito, redondamente abstracto na sua equidade, levou-me há dezanove anos até à faculdade de Direito, depois de breves incursões em sociologia e psicologia. Entre o Direito Público dos Estados e o Privado, foram sempre as questões das pessoas que mais me interessaram. Entre o Direito Civil e o Penal, foi sem dúvida, este último, que me apaixonou nos últimos anos da faculdade. Hoje, face a uma nova dimensão de consciência, sei como todo o edifício que sustenta esta máquina profundamente imperfeita (como se a imperfeição pudesse ser profunda!), retrata o atraso da humanidade, nos mais diferentes sistemas jurídicos existentes.

A lei das XII Tábuas foi promulgada, aproximadamente em 450 a.C., estamos no ano 2008 d.C., segundo o nosso calendário gregoriano.
Na base da pirâmide poucas foram as questões que mudaram. Os alicerces mantém-se, os princípios gerais tiveram poucas alterações… mas o brotar de teias nas mentes pequeninas e mesquinhas, destoou todo o sistema… Os senhores “doutos” (?) de colarinho branco e alguns de longas e falsas cabeleiras brancas sustentando a sua hipocrisia, afundados naquela bata preta (sempre serei contra o uso da toga... ridículo!) sem qualquer sentido estético, fáz-me desmontar as mentes que arquitectaram todo este estrado, este palco quase palaciano, na pior da sua vivência.

Acredito no desenvolvimento dos homens para novos patamares de consciência, como um dos últimos professores que tive na faculdade, um eterno lírico, um Mestre apaixonado pela mitigação da conduta externa do agente em termos penais e a integração dessa conduta nas vestes, na volumetria psicológica do autor.

Pensar, desejar, imaginar… são verbos exteriores à teoria jurídico-penal, como encaixam em todo este sistema as questões da inimputabilidade?

Se recuarmos até ao Código Penal de 1852, refere no artigo 22º e 23º :
“Só podem ser criminosos os indivíduos que têm a necessária inteligência e liberdade… não podem ser criminosos os loucos de qualquer espécie, excepto nos intervalos lúcidos…”

Estamos na pré-história do entendimento do comportamento jurídico-penal, a humanidade está profundamente atrasada, sobretudo ao nível mental! Os senhores que andam por aí, a produzir leis de cordel, não passam de atrasados mentais, que escrevem leis para “safar” os amigalhaços…
Concordo plenamente, com as afirmações do Senhor Bastonário da O.A., mas os “pidescos” não estão só entre os magistrados, estão por todo o lado, são uma praga que se propaga, nesta falsa e quase extinta democracia em que vivemos.

Os momentos históricos não surgem do vazio, têm raízes longas no tempo, desde a Antiguidade (Esparta, Atenas…), passando pelo código Justiniano, ao Napoleónico… até à oligarquia em que o mundo voltou a estar mergulhado.

Concluo com uma frase desse velho Mestre, que a enunciou num contexto criminal, uma ideia que me tem acompanhado:
“Só os incapazes e os cobardes, se dirigem a um Tribunal, para que terceiros alheios ao caso, resolvam um litígio, que só eles podem resolver”.

Hoje, entendo melhor do que nunca as suas palavras proféticas, mas todas as profecias têm um sentido implacável, o mesmo sentido que está inscrito na expansão do Universo, talvez a mesma expansão da sacralização humana, pois para quem não é agnóstica, Deus vive dentro da cada ser (mineral, vegetal, animal…) na forma mais perfeita, só os homens destoam o tom dessa vivência encarnada.

Depois de quebrar as amarras, temos o direito de reencontrar a unidade na dualidade, de duas mãos diferentes que são o espelho uma da outra, na sua mais profunda diferença.

Deve existir um local no Universo onde só as Almas se encontrem, mesmo no seu eterno desencontro...

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As Mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre, in "O Canto e as Armas" (*)[1967]

(*) A primeira vez que ouvi este poema foi em 1975, no LP de vinil: "Não de Costas mas de Frente", na voz de Paulo de Carvalho... um dos velhos vinis que guardo religiosamente.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Musa... Secreta.


Pensei em ti, nos recortes dissonantes do teu rosto, nos dissabores com sabor amargo dum processo emocional, muito mais que judicial, do nosso reencontro nas veredas dos estilhaços de nós, nos laços amarrados das têmporas do esquecimento… dos momentos nossos, só nossos que não oferecemos a ninguém, ninguém sabe da magia dos eternos momentos que vivemos, que sentimos, os momentos que ficaram delineados para além da morte… segue-te na linha do real… sigo-te na curva da estrada…

O som do teu olhar, o dilema entre a “persona” e a “alma”, esta vida diligente onde a cobardia impera, num falso império, a vontade imensa de partir para o outro lado, de vez… sem hesitar, voar sem pé, sem terra, voar por aí à procura de ti… de nós.

Sinto os laivos das réstias das palavras que escreves neste momento, sinto o que está a acontecer, sem expiar este plasma imenso de sentir-te em mim.

Sentir é o verbo de me dilacera, que molda uma das minhas últimas existências, a procura do sentir, não das correntes finitas do existencialismo… (re?)encontrei-te em mim, norteando o sul do sal do sentir, dos espelhos que denunciam o corte medieval do cavaleiro que me assolou, na velha praia… para além de...

(C) intra… nada jurámos, trespassámos a estupidez do juramento terreno da praia finita.

Afogámos a memória neste assombro de estátuas de pedra neolítica, neste naufrágio redentor deste Amor reencontrado no linear da morte, na tentativa de dissolver o céu e o inferno, num único compósito de substâncias neutras… o Amor é mortal, por isso, devolve-nos a vida. Sinto-te… dentro de mim.

Não nos enganámos!


[Nos breves 10 minutos em que escrevi, estas breves linhas de prosa, rodou neste 6º andar virado a Sul… “Quit (Don’t Say You Love Me”… do Young, que estará por aqui… esta semana… não digas que te Amo… os solos de guitarra, já os tocas-te para mim, vais voltar… eu sei, sinto…TE… promoção de Anjo a Deus da Crueldade…]

Don´t say you love me
That’s what you said
That’s what you said

M U S A… Secreta.

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Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti. Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas as saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira, in "O Canto do Vento nos Ciprestes", [2001]

Foto: Chris... Olhar inocente há 20 anos... se voltasse a ter 21 anos, cortava os pulsos por ti... só eu se porquê.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Lord Byron: o eterno romântico.


Se pudesse descrever em três palavras, um dos expoentes máximos dos poetas supra-românticos, elas seriam: extravagante, exuberante e empolgante.

Lembro-me que comecei a ler Byron, há uns 24 anos, no tempo das minhas “teatrices amadoras”… iniciei-me com o “Manfredo”, um dos seus poemas mais enigmáticos, personagens inesquecíveis desse tempo de descoberta, a feiticeira dos Alpes, o Abade e a Némesis… Sempre adorei castelos, montanhas, e… o mar ao qual ainda pertenço.

Uma das passagens que me marcou, foi quando Manfredo referiu:

“… Maior mudança em mim já fez a vida
Do que em ti fez a morte. O teu amor
Tão desmedido era como o meu.
Para tormento mútuo não nascemos,
Mas foi mortal pecado nosso amor.
Que não me odeias diz – hei-de sofrer
Castigo por nós dois e morrerei
Para ganhares eterna salvação;
Todo o perverso mundo conspirou
E da minha existência fez prisão..."


Andou por terras lusas, desvendou alguns mistérios da sedução das brumas envolventes de SINTRA… Espanha, Itália, Suiça, Malta, Albânia e morreu na Grécia aos 36 anos (=9: o eterno recomeço).

Morreu na praia (todos os poetas morrem na praia da sua solidão...), procurando assim o eterno reconforto, a almofada de seda que envolve a alma:
“É chegada a ocasião de descansar”
– dizem, terem sido as suas últimas palavras ditas.

O seu coração foi embalsamado e sepultado em terras gregas… o que não era coração foi até à sua terra natal: Londres. Curiosa esta imagem turbulenta da própria morte, como se a fatalidade trágica da sua vida, perdurasse para além dela.

Disse uma vez a seguinte frase:
“Na vida do homem, o amor é uma coisa à parte, na da mulher, é toda a vida”.

Será que os homens têm a capacidade de amar várias mulheres, e as mulheres só amam uma única vez, sempre o mesmo homem? Provavelmente…


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Tu Me Chamas

Em momentos de delícia,
Extática, embevecida,
Numa voz, toda carícia,
Tu me chamas: "Minha vida!"

Sentira, à frase tão doce,
Exultar-me o coração,
Se a nossa existência fosse
De perpétua duração.

Levam-nos esses momentos
Ao fim comum dos mortais.
Ou não saiam tais acentos
Dos lábios teus nunca mais.

Ou, mudando a frase terna,
"Minha alma", podes dizer.
Pois a alma não morre; eterna
Qual meu amor, há-de ser.

Lord Byron

[22 Janeiro 1788: Londres / 19 Abril 1824 (Domingo Páscoa): Missolonghi]