quinta-feira, 29 de maio de 2008

Foste tu que me escreveste de SINTRA ?


Talvez... talvez este termo seja recorrente neste tempo incerto, entre a tona das poucas certezas, e o mergulhar a pique de muitas dúvidas:

- uma única certeza toma conta de mim em cada momento certo, algo que não posso escrever aqui. Como se alguém chamasse por mim, aqui tão perto, como se sentisse o seu apelo secreto, o seu sonho ancestral, como se a comunicação trespassasse as curvas homicidas do sentir, do outro lado do rio, como se a definição desta estranha história, alastrasse no lastro da memória… ainda azul.

Poucos são os livros que releio uma segunda, terceira vez... este reli, uma segunda vez, numa única respiração, esta noite... não foi por acaso, mais uma vez.
Toda esta história tem uma re-ligação… muito para além do divino. Qualquer que seja a religião, ela só irradia depois, no momento a seguir, à ligação da possibilidade do Amor.

Por isso: “re-ligião”… depois duma primeira ligação catastrófica, depois do caos, podemos voltar ao Cosmo , que abandonámos na defesa de egos ainda patológicos...
Passámos a linha branca da fronteira, a "white line"...

Ninguém(?) entendeu a minha proposta sem decência, o fio da navalha que provei até à exaustão. Não quero ser diligente, não quero a inteligência racional, só quero a inteligência do coração, só essa me interessa…
agora e aqui...

Ser fera é pouco, muito pouco…

Acompanhou-me do princípio ao fim, nesta única respiração de releitura sedenta, uma das pérolas guardadas das minhas noites negras: “Tonight´s the Night”, do Young: o blues que está por revelar, no encantamento fugidio duma estrada ainda por percorrer.
A escrita que se insinua, que agrava o tom agudo da ridicularização na “nova oitava” a que me propus… “Speakin’Out”: vais tocá-la para mim, só para mim… vais lá chegar, não na execução, mas no sentir da escala perfeita, na escultura de pedra bruta das novas palavras por lapidar…

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“… arquitecto aventureiro, de traços largos no sentir, sempre com aqueles chapéus estranhos de enfrentar ventos e sombrear horizontes, sempre com uma atracção irresistível por mulheres bonitas…”

“… move-se o rio nas dores do mar, resolvendo seixos e manhãs frias de bruma, mas sei que um dia ele vai trazer-te para mim, húmida e quente, de saias injustas, nesse corpo de sal e de sede…”

“… penso que os amores intensos carnais e externos das casas de Sintra acabam só porque um novo Inverno chega, chega sempre… sozinhos e gastos, em busca de eternidade.”

“… tenho um puzzle para reconstruir para o resto da vida, um pote e um amor que já não tenho mais e medidas de tempo e de equilíbrio, numeradas de um a mil, e uns olhos que me chamam do outro lado do mundo. E ainda são os teus.”

Carlos Daniel, in "Foste tu que me escreveste de Sintra?" [2005]

sábado, 24 de maio de 2008

Egéria


Sou insensata porque nunca me isolei da dor,
agora está sempre acesa e tudo é incerto.
O amor é uma emboscada
e um ácido insolúvel e corrosivo.

Mas porquê assim? - se sei que ele tem uma insígnia e é insolente.
Mas é uma graciosidade amar de volta em volta na sua espiral...
não deixes nenhum espigo cravado no meu peito
a marchar no meu sangue para o intoxicar
e deixar-me morrer presa à traição.

Egéria, in "Amor sem Pele" [2006]

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O Minuto Certo


Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os meus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que eu era a tua fantasia, o teu banco de trás. O desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam charros e putas e atirarem pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses.
Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sono do sonho ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim. Queria de ti um minuto. Um minuto.

Filipa Leal [2007]


Esta noite não dormi, envolta nas farpas da tua crueldade. No momento certo em que li este texto, senti outra vez o teu cheiro, o teu olhar a inundar o meu ser, as linhas desalinhadas das tuas mãos, a desarmonia das tuas pernas, os teus braços a agarrem-me por trás, a tua voz a verbalizar palavras que não entendo, as farripas sibilantes da tua barba por fazer… Mais do que as cicatrizes que te recortam a pele, são as costuras cosidas a sangue e suor que te definem nesta estranha indefinição em que ainda vivemos. Mas não estavas no meu quarto, na minha cama, estavas dentro de outra mulher que dizes ser eu... O corpo é meu, a alma é dela. Não entendo o rio de palavras surdas que me sussurras por dentro, como se a distância física de 33 quilómetros fosse a denúncia da (pre)monição da nossa história.
Como se estivéssemos a assistir às ondas sucessivas vindas do centro do terramoto em que nos insurgimos, já sem sustentação real e legal. Temos tudo para tentar uma única vez tocar a felicidade, mas não tentamos...
Agudizei a minha voz, agonizei as curvas que percorrem o meu lastro, a sombra que dizes ser tua, fiz-me passar por louca, para que não me reconhecesses. Construi heterónimos, estranhas personagens, conspirações inexistentes, decalques colados de sonhos ancestrais, mas agora só eu estou aqui. Tudo se esvai da água, as poeiras, as turvações, as ondulações... Só ela fica, completamente só, por opção, observando as margens dos rios, a linha crepitante entre a terra e o mar, as pedras compostas como notas, que por vezes circundam os lagos.
Na fronteira do real, o teu sorriso cada vez mais teu, cada vez mais longe da linha sarcástica desse fogo umbilical que ainda arde em ti, diz-me, que devo deixar o jogo da provocação serpenteante e tentar a impossibilidade do nosso Amor. Nem todos os amores são impossíveis, entre os juízos de probabilidade e de possibilidade, tudo de define.
Todos os meus actos encenados foram para te matar em mim. Mas não te matei, agora quero puxar-te de novo para a vida, quero ser o sangue renovador das tuas veias, o tempo e o momento que o céu tem guardado para nós… O Azul infinito que é nosso...
Agora és tu que esperas por mim.
Agora, mais do que sentir... sei.


Chris [19-5-2008]

sábado, 17 de maio de 2008

É (era) Uma Vez...



Esta semana, entre as horas cruzadas da última e da próxima exposição, entre o lapidar do tempo errático e o lascar do tempo certo, reencontrei uma velha amiga dos tempos de faculdade.

Foram horas e horas a conversar, mais que conversar foi falar sem parar… a última vez que aconteceu foi em 2004, o ano onde parti sem hesitar, pela estrada que sempre quis percorrer, longe das amarras das análises estatísticas e de probabilidades.
O Amor é uma possibilidade.

Os sonhos, pelos quais ambas pugnávamos há mais de vinte anos, uns concretizaram-se, outros ficaram cristalizados num relógio sem tempo, com ponteiros quase plectros (morte que mataste Lira, mata-me a mim que sou teu... sempre os Açores!), curiosamente somos ambas eternas apaixonadas pelas “Nove Ilhas”… A minha eleita é o Faial, ela as Flores… Confesso que sempre balancei entre o Faial e as Flores, mas como o Faial foi a primeira ilha que conheci, foi lá que ficou o meu coração. Dizem que não há Amor como o primeiro, talvez, mas “ELE” sempre esteve lá, sempre fugi dele… até o momento certo que o (re)encontrei, ou talvez aquele não fosse o momento certo...

Como somos as duas filhas únicas, quase da mesma idade, morávamos perto, eu em Nova Oeiras, ela em Sassoeiros (devias ter continuado aqui… pois, os filhos já não cabiam naquela casa…), longas foram as tardes e as noites de estudo das leis e teorias , quase todas delineadas pelo "império masculino". Nunca fomos apologistas das teorias de libertação das mulheres, mas ainda estamos a viver as sobras e as sombras desse império decadente.

A dispensa que tivemos em direito das obrigações, no terceiro ano da faculdade, foi obra… Agora à distância, percebemos como tudo é relativo, como as condutas de vida permanecem transversais aos nossos sonhos daquele tempo…
Os nossos casamentos com os homens errados, naquele tempo eram certos, foram tentativas pragmáticas de continuidade duma utopia, na qual já não acreditamos.
O economista está na falência económica total, o investigador criminal, cansou-se das brigadas mutantes anti - "qualquer coisa". Não nos casamos, nem com o economista, nem com o investigador criminal, casamo-nos com a representação dos papeis que eles encenavam na vida real...

Antes de ir ter com contigo, pensei em levar umas ofertas aos teus filhos. Quando o primeiro nasceu, o João, foi como se fosse meu filho. Hoje, já quer ser arquitecto! O tempo, que não existe, demonstrou que nos enganámos, eu mais do que tu… Não sei...
A história, conta-se e escreve-se no eterno presente, o presente doloroso que não queremos viver, mas que contém a chave para aquilo que queremos viver...
Esta noite telefonaste-me e disseste-me que vais acabar com o teu casamento, como tua amiga, é só isto que te posso dizer.

Levei dois livros infantis (?), dois Neale Donald Walsch, e para o mais pequenino de três anos que ainda não conhecia,um brinquedo.

1º A Pequena Alma e o Sol [1998] (*)
2º A Pequena Alma e a Terra [2005]


Os dois começam por era uma vez:


“Era uma vez, em tempo nenhum, uma Pequena Alma que disse a Deus:
- Eu sei quem sou!
E Deus disse:
- Que bom! Quem és tu?
E a Pequena Alma gritou:
- Eu sou a Luz!
E Deus sorriu.”




“Era uma vez, quando nem havia tempo, uma Pequena Alma que disse a Deus:
- Não quero deixar-te.
- Óptimo - disse Deus, com um grande sorriso -, porque não quero que me deixes nunca.
Mas a Pequena Alma não percebeu, porque esse dia era, exactamente, aquele em que a Pequena Alma ia nascer e a Pequena Alma pensava que, quando se nasce, se deixa o Céu…”


O autor é conhecido pelas obras que editou para adultos (?), malditas ou benditas interrogações... as quais, penso ter lido, as obras e as interrogações... quase todas, mais do que as “Conversas com Deus” [1999…], “O Que Deus Quer” [2005] é revelador duma grande verdade estética: - “A maioria das pessoas passa toda a sua vida a reagir a sentimentos, em vez de criar com eles” [pág.155].

Quando te contei a história dos últimos dois anos da minha vida, não acreditas-te. Talvez esteja relacionada com o Faial, o que lá encontrei, o vulcão adormecido… Um dia, ou uma noite, ele acorda dos despojos ancestrais guardados em cada um de nós. Esse momento não é escolhido na pequena consciência humana, mas numa consciência cósmica, sintónica com o infinito, que habita em cada um de nós.

Espero que tomes a decisão certa, na paleta cinzenta do presente, só tens duas opções: ou continuas casada, ou divorcias-te e só Deus (que vive o divino e o profano dentro de ti…) saberá o momento a seguir, mas o certo, é o agora…

(*) Ficamos na dúvida, se será um contrato de comodato (artº 1129º -Cód. Civil), ou um contrato de depósito (artº 1185 –Cód. Civil), que levou “alguém” a entregar à desordem do bafio, duma qualquer secretaria administrativa, tentando um “judicialismo da treta” muito longe da utopia em que acreditamos: a abolição dos Tribunais; pois não passam de entidades hipócritas, com peças disfuncionais, outras continuando a quer a independência judiciária para o seu umbigo, em esquemas concebidos de competências e atribuições cozinhadas à medida da sua pequena bitola quotidiana.
Qual será o destino daqueles livros inocentes, que os ofereci a "alguém" sem nenhuma bomba de detonação anexa?

Como diria o nosso “Mestre” de Direito Penal: “Todos os Tribunais são teatros, onde as marionetas, movidas pela disfuncionalidade do SER, aplicam as leis do TER, no lastro social da conveniência do - status quo - !”.
Será sempre um lírico…

A nossa amizade será eterna, longe dos “doutos” tecnocratas e labregos, que rastejam nos corredores rectilíneos, do sistema que quisemos conhecer por dentro, para sabermos como era estar "do outro lado". Estudamos juntas tanto tempo, leis mais leis e contra-leis, para chegarmos aqui e percebermos como as fundições do edifício, já não o sustentam.
A hipocrisia da fuga, a incapacidade do diálogo, a cobardia do “ego”, ainda motivam, quem sempre terá medo do Amor…
os H (?) homens!


O nosso sonho um dia será real, quando os Homens entenderem, o que o autor citado, enuncia na melhor obra (para mim) que escreveu:
"O que Deus Quer" (pag.131): -
"... a vida não é um sistema de recompensa e punição..."

É neste espaço que se enquadra, melhor que circula, o que já defendia-mos há muito tempo: as teorias penalistas retributivas estão deveras ultrapassadas; as teorias penalistas de prevenção geral e especial começaram a não fazer sentido, neste novo tempo ainda mergulhado nas trevas do passado e na poeira que urge sacudir do AGORA.

Tomei a decisão certa há quatro anos, agora é a tua vez.

sábado, 10 de maio de 2008

Ainda e Sempre




chorei lágrimas
para que não precisasses de chorar
amordacei a minha boca
para que não precisasses de gritar
ceguei meus olhos
para que não precisasses de ver
e quanto mais amordaçado
mais tu gritavas
e quanto mais cego
mais tu vias
e quanto maior é a dor
maior é o canto que te quero cantar


António Sem, in “Rostos do Tempo” [1984]

Pintura em acrílico s/ tela, de António Sem:
- Imagem 1: A Montanha Sagrada [2002]
- Imagem 2: Transposição [2002]


Próxima exposição patente ao público de 20 de Maio até 1 de Junho de 2008
Secção Regional Ordem dos Médicos do Sul:
Av. Almirante Gago Coutinho, 151 - Lisboa
De 2ª a Sábado, das 10 às 22 horas

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Obrigado... PAI.





Esta é mais uma homenagem que faço ao meu Pai, em vida, sim os reconhecimentos de Amor, devem ser ditos e escritos em vida. Desconheço o momento a seguir, mas conheço o "Agora", reconheço-me, reconheço-te… e é para ti, que hoje escrevo.

O ser frio e distante, pelo qual me revelas-te o sentido do quente gelado da vida, o teu racionalismo doce e atroz…
A tua dificuldade em manipular os meios informáticos do presente, o teu medo de não ter dinheiro no final do mês para pagar uma renda de casa, inferior a 1.000$00 (hoje menos de 5,00 €uros), a tua luta diária por minha causa, a tua única filha, fruto dum grande Amor, com a mulher mais bela que conheci: a minha Mãe

... por acaso, do destino (será?) não foi nos anos 50 para os E.U.A. com o famoso realizador de cinema que se apaixonou por “ELA”, mas "ELA" ficou contigo… o homem que “ELA” sempre amou. Abdicou de tudo por ti, por isso partiu há quase 20 anos. Mas eu ainda aqui estou a cuidar de ti…

Se a Mãe tivesse partido no final da década de 50 para a América do Norte, hoje eu não estava aqui, a Mãe podia ter sido uma grande actriz, como sempre sonhou. Recusou o convite e não apanhou o avião com o conceituado realizador de cinema... por um grande Amor, por ti pai, que nunca a levarias para os "States", só a podias levar a passear no velho Citroën, até Sintra (hoje sei por que "Ela" te pediu para passarem a Lua de Mel em Sintra...) ou até à Ericeira, na melhor das hipóteses até ao "Al-Garve"... a viagem demorava uma eternidade...

Vou relembrar os anos de 1958/59, estava eu num qualquer lugar incerto do Universo, e tu andavas nas “engenharias” da Barragem do Arade, em Odiáxere. As tuas memórias fazem parte de mim, mesmo antes de me conceberes... Somos tão diferentes, mas parecidos demais.

Nunca fomos ricos, o avô e a avó trabalhavam 18 horas por dia, para políticos e artistas, que nunca pagaram as contas, dos sumptuosos fatos completos que o mais brilhante alfaiate de Lisboa traçava o traço incerto, na velha alfaitaria do velho largo do Carmo, junto ao velho quartel do Carmo... o avô dizia que era italiano-espanhol: Romano Valério Fernandez.

Todos os dias me lembro do olhar dele a fitar o giz branco, a delinear as fazendas, os tecidos, as linhas brancas a servirem de alinhavos premonitórios, à sua forma sublime de criar o corte perfeito para corpos imperfeitos, da tesoura enorme e pesada de alfaiate. Lembro-me da primeira vez que a segurei, era mais pesada e maior do que eu, tinha eu uns 5 ou 6 anos... Estavas sempre com medo que eu me magoasse, o teu medo concretizou-se quase 35 anos depois, a tua filha magoou-se, não foi a tesoura do avô… foi bem pior…

Não é por mim que hoje escrevo, é por ti… dos tempos que viveste na “Pensão Caravela”, em Lagos, junto do Zeca, que também estava hospedado na mesma pensão, a única que existia em Lagos, ainda longe dos turistas ingleses, do nosso Algarve daquele tempo, hoje sita na Avenida 25 de Abril, nos anos 50 ninguém sabia que aquela pequena Avenida em Lagos, seria um dia designada de 25 de Abril... será que foi premonição, ou monição sem "pré" da Vida... Talvez...
Das conversas que tiveste com o Zeca nesse final da década de 50, que conheço sem nunca ter conhecido pessoalmente, um dos homens mais importantes da cultura mundial, deixo aqui a minha homenagem, a ti PAI e ao Zeca. Conheço a obra do Zeca para além da que foi editada, conheço as histórias que me contaste desse tempo, em que ele era professor de Francês no Liceu... Dos tempos difíceis que se viviam... Lembro-me do Natal de 1971, tinha eu 5 anos, da tua alegria ao chegares a casa com uns discos de vinil debaixo do braço, um deles era do Zeca: "Cantigas de Maio". Naquele tempo, não percebi o brilho dos teus olhos, hoje entendo, mas há coisas que "desentendi"... como o sentido da vida e do Amor...

"Não há bandeira sem luta, não há luta sem batalha..."
Zeca, in "Teresa Torga" [1976].


Tinhas e tens menos um ano que o Zeca… tu ainda estás perto de mim, a contar-me as histórias desse tempo… Lagos e Sagres no final dos anos 50… Foi no final dos anos 80 que voltei a esse eixo mágico entre Lagos e Sagres, junto do homem que me amava, mas que nunca consegui amar… o Amor não se escolhe, acontece… Se todos pudéssemos percorrer a estrada do livre arbítrio, as linhas (alinhaves de alfaiate…) que definem o Amor...

Obrigado, Pai…


ZECA: 2-8-1929 (Aveiro) - 23-2-1987 (Setúbal)
P A I: 12-6-1930 (Lisboa)- … desculpa Pai…




Os Índios da Meia-Praia

"Aldeia da Meia Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Montegordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo de uma gaivota
Em vez de peixe vê peças de oiro
Caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te nudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De enganar a burguesia

Adeus disse a Montegordo
Nada o prende ao mal passado
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
quem diz o contrário é tolo

E se a má língua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar para trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Que diz o contrário é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada"


JOSÉ AFONSO, in “Com as Minhas Tamanquinhas” [1976]

domingo, 4 de maio de 2008

Morder-te o Coração


"Hoje, quero que saibas que não te disse nada e quando te pedi para me morderes o coração era só para me certificar de que ele existia no meu peito. Tu preferiste beijar-me, nunca me mordeste e, assim fiquei sem saber.
...

O coração de Cristo a ranger, numa luta esforçada para conseguir manter o sorriso no rosto do homem que me olhava, o coração de Cristo a lembrar-me que eu também devia de ter um, a competir com a minha pulsação, a hipnotizar-me.
E Ele disse

Encontra quem tem o teu coração."


Patrícia Reis, in "Morder-te o Coração" [2007]