terça-feira, 22 de abril de 2008

O Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.



Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio" [1972]


Por vezes, a única forma de comunicação entre dois seres, é o silêncio.
As palavras têm um destino certo, como as cartas proibidas que escrevo, na letargia evasiva desse mesmo silêncio.
Neste exílio aceite, reencontro-te em cada folha branca na noite púrpura, no mesmo "quarto escuro da verdade"...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Provavelmente, não há coincidências...


Tríptico da Descida da Cruz atribuído a Gérard David

Painel Central: Descida da Cruz

1518-1527

Pintura a óleo sobre madeira de carvalho

Conjunto pictórico redescoberto em 1915 na Igreja do Santo da Serra, na ilha da Madeira, depois adquirido por Américo Olavo e restaurado em Lisboa por Luciano Freire.
Foi vendido mais tarde ao antiquário Adolphe Weiss, de Viena de Áustria, e novamente intervencionado.
Foi adquirido pelo estado português em 1954, e depois exposto no Museu Nacional de Arte Antiga, de onde transitou para o Museu de Arte Sacra do Funchal.
Deve ter por origem provável o convento franciscano de Nossa Senhora da Piedade em Santa Cruz, hoje desaparecido.
Apresenta-se o episódio do Descimento, em que o corpo do Salvador está a ser despregado da Cruz.
Nicodemos retira com uma turquês o braço direito de Cristo, enquanto José de Arimateia segura o tronco e João as Suas pernas.
De pé Maria, Sua mãe, espera a descida do corpo, enquanto Maria Madalena, ajoelhada, adora o Senhor de mãos postas. No fundo representa-se uma visão fantasista de Jerusalém, transfigurada em cidade flamenga do fim da Idade Média.
Num volante Maria Adão, ajoelhada, é apresentada por São Tiago Maior, identificado pelo bordão e chapéu de peregrino.
No reverso, em grisalha, São Tiago Menor, em vestes episcopais, com o pente de cardador como atributo.
No volante oposto, Jorge Lomelino é apresentado por São Bernardino de Siena, identificado pelo trigrama IHS, símbolo do nome de Jesus. No reverso, em grisalha, Santa Luzia.
Gérard David nasceu entre 1450-60 em Oudewater na actual Holanda, tendo-se registado em Bruges como mestre pintor em 1484.
Inscreveu-se em 1515 na guilda de Antuérpia.
Morreu em Bruges em 1523. O artista recupera uma tradição flamenga quatrocentista, de Jean van Eyck, fazendo do espaço, e sobretudo do horizonte baixo, uma experiência comum aos fiéis observadores e às próprias personagens representadas, como é o caso de outras obras atribuídas a Gérard David, caso do Tríptico Sédano do Museu do Louvre, ou o Tríptico do Baptismo de Cristo do Museu Groninge de Bruges. Veja-se ainda a proximidade do rosto da Virgem, com a Pietá do Museu do Hermitage.

Arte Flamenga, Museu de Arte Sacra do Funchal, Luiza Clode e Fernando António Baptista Pereira, EDICARTE, 1997, p. 44.


Será coincidência? 1518 - 1527 [69 - 69].
Provavelmente, não há coincidências...

sábado, 12 de abril de 2008

Fogo


A Vida não é sofrimento, é entendimento.
Quero aqui agradecer à minha Mestra, Maria Flávia de Monsaraz.
Foi Ela que me ensinou que a dor tem sentido quando entendida.
A expansão da consciência pode ser suave ou brutal.
Quando é brutal, queima e arde como um fogo crescente, símbolo vivo de purificação.
Desembrulhei o refúgio a alguém que mudou para sempre a linha do meu horizonte, queimei-me... tinha de ser assim. Existem verdades que nunca se dizem, sentem-se.
Como o Amor não se verbaliza, só se sente no silêncio dos dias, na lucidez etílica e idílica das noites, pois só elas são eternas.
As cartas escritas têm agora um destino certo e um momento certo para serem lapidadas.

“O Fogo está directamente ligado
ao processo de expansão da Consciência.
A progressiva expansão da Consciência
é um processo Solar:
Sol é Fogo
Luz é Fogo.”


Maria Flávia de Monsaraz, in "Alquimia" [2002]


Mandala pintada em seda: "Fogo" [2005]
(O Fogo está sempre aqui tão perto...)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Paris, je ne t'aime plus



Paris en crêpe de Chine comme un chagrin d'asphalte
Et tes trottoirs vaincus par la téléfaction
La foule qui va (boire) à la prochaine halte
Je m'arrête toujours pour voir passer les cons

Ah Paris je ne t'aime plus

Les guitares à Paris ne sont plus espagnoles
Elles jouent la flamenjerk branchées sur le secteur
Comment veux-tu petit danser la Carmagnole
Si t'as rien dans les mains si t'as rien dans le coeur

Ah Paris je ne t'aime plus

Entends le bruit que font les Français à genoux
Dix ans qu'ils sont pliés dix ans de servitude
Et quand on vit par terre on prend des habitudes
Quand ils se lèveront nous resterons chez nous

Ah Paris je ne t'aime plus

Paris du 1 er mai avec ses pèlerines
Et le beau syndicat qui reste à la maison
Ce sont les Marx Brothers oubliés par Lénine
En mil neuf cent dix-sept Place de la Nation

Ah Paris je ne t'aime plus

Paris en manteau noir habillé par Descartes
À perdre son latin on met tout un quartier
Paris de la Sorbonne qu'ils ont pris pour un claque
Un étudiant en carte ça doit se visiter

Ah Paris je ne t'aime plus

Paris des beaux enfants en allés dans la nuit
Paris du vingt-deux mars et de la délivrance
Ô Paris de Nanterre, Paris de Cohn Bendit
Paris qui s'est levé avec l'intelligence

Ah Paris quand tu es debout
Moi, je t'aime encore


Léo Ferré (1970)


(Foto: Chris- Paris 2008)

terça-feira, 1 de abril de 2008

A Pena


Não vale a pena dizer, calar, consentir.
A palavra existe, escreve-se, sofre-se,
habita e pulsa
no espaço de um gesto vestido
de sonoridade
na permanente convulsão
do ansiar a chegada dos corpos
que se procuram
no escuro.

Não vale a pena vencer, estar, ser.
A palavra existe e rasga a carne,
a alma, a centelha
da recusa,
o breu incólume
da transparência.

Não vale a pena
a pena
da inocência.


José António Gonçalves, in "Esquivas são as Aves" [2001]


(Só o amor desmedido nos vale a pena e é o amor.)