quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Se eu pudesse...


Se eu pudesse,
por um instante,
apenas contemplar a imensidão do teu olhar,
e nas tuas pupilas descobrir o bálsamo
que sararia meu dilacerado coração,
encerrar-te-ia,
para sempre,
dentro de um frasco de alabastro
e colocar-te-ia num palácio de mármore
no centro do mar, de sabor a sal do meu ser.

Se eu pudesse ter
teus olhos nos meus
só por um instante
dir-te-ia que as amarras dos navios
já se soltaram
e que os fantasmas do tempo
já abandonaram os nossos sonhos
e que podes dormir de novo em paz,
porque eu estou aqui de guardião
aos teus pesadelos
para que nenhum entre
e te perturbe.


Se eu pudesse, derramaria,
sobre o teu olhar, um manto de perdão e noite,
feito de estrelas e tecido com o fio de prata do luar
e te diria que podias cerrar teus olhos e dormir em paz.

Se eu pudesse seria o teu leito
naquelas frias noites de Inverno
em que não estavas a meu lado
e em que eu sempre lembrava tua presença.

Se eu pudesse agarrar-te-ia nos meus braços
e proteger-te-ia do frio
que ecoa nas montanhas altas dos teus medos,
e dir-te-ia que a culpa que sentias
era mais um dos fantasmas
que desaparecem quando a manhã chega
e que a noite é apenas mais uma ilusão
que desaparece
quando te tenho nos meus braços.


Joma Sipe, in "Por Detrás das Lápides" [2006]

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Dia da Libertação


Partiste sem qualquer definição
levando contigo o novo tempo do engano
e quando acordares
o tempo já será outro
e não te pertencerá
porque a essência só eu a transporto

António Sem, in "Analogias" [2003]
www.antoniosem.no.sapo.pt