terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Possivelmente


I
Possivelmente
Vou aproveitar os vitrais esfarrapados da lua
e atravessar a nudez do gozo;
do gozo
a deslizar por entre os pés de pedra do silêncio estilhaçado
e a criar sem misticismos
a denúncia duma deusa
esmagada como uma mulher vulgar
numa manhã inquieta:
- onde o fim será o começo do mar

nos alçapões das horas
por onde circulam feridas cobardes
e cabelos risonhos
tento inutilizar as palavras acres
e enlaçar os olhos sujos
nas portas eivadas de fantasmas
de tanto imaginar
formam-se em redor de mim
labaredas reflectindo o espanto
das mulheres que sonham alto
e têm bocas viris reais

II
Digo. Digo que há mais tempo
para inventar, afirmo:
os cães escorregam pintados de bolor
entre o bafo das paredes e a sombra
das suas entranhas apunhaladas;
os poetas penetram nas lágrimas do vento
e sugam-nas para que nas suas mentes
deslizem poemas que não sejam secretos;
e as flores - até as flores - claudicam
ante as filas das lembranças perfumadas
que golpeiam a disciplina dos cemitérios
empedrados de silêncio

III
Possivelmente
não haverá: lua --- gozo --- silêncio
não criarei: uma denúncia --- uma manhã
e não haverá o mar

António Brito Figueirôa, in "Função Ambígua do Ser" [1979]
(poeta madeirense nascido em Janeiro 1955)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Da incomunicabilidade das Almas


Da incomunicabilidade das Almas
porque o véu é cerrado,
esse que separa as Almas de outras Almas...
cinzento, cerrado, redutor.
Muralha de energia densa e informe.

Isso que empareda as Almas,
e separa as Vidas de outras Vidas...
Névoa, que polui
a memória obscura dos Homens,
tecida da substância-do-Medo,
da ignorância, da cegueira interior,
da não-Visão...

Isso, que separa-as-Almas de outras Almas...
miopia psíquica, mental, emocional,
feita de recusa, suspeita, negação,
solidão "congelada" nas malhas
de um coração frio
preso, na teia defensiva e arrogante
de esquemas oblíquos e palavras vãs...

A dor da incomunicabilidade-das-Almas...

A dor, mãe de todas as dores,
a dor, que dor multiplica.

Ilusão que gera ilusão de ilusão...



Maria Flávia de Monsaraz

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

António L. Antunes


"Os personagens dos meus livros perseguem-me, é como se vivesse rodeado de fantasmas."

"O suicídio é uma presença constante. Estou consciente de que essa dimensão autodestrutiva existe em mim."

"Eu não tenho capacidade poética. Para mim, isso é a vida: «Pelo teu amor me dói o ar, o coração e o chapéu...». É tão verdadeiro, tão forte... A mim, parece-me que Lorca é um poeta a quem não se dá o valor que tem. Talvez porque é demasiado conhecido e nós, os intelectuais, tendemos para poetas mais elevados, mais herméticos..."

António L. Antunes, in "Conversas com A.L.A.",de María Luisa Blanco [2001]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

La Mort des Amants


Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux ;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.


Charles BAUDELAIRE, in "Les Fleurs du mal" [1857]

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Regresso às Histórias Simples


É no silêncio
que melhor ludibrio a morte

não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo

ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir

Al Berto, in "Uma existência de papel" [1984]