segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Parte de Mim


Fazes parte de mim
Neste tempo inóspito
Que circunda as vagas do espaço

Fazes parte de mim
Neste espaço emergente
Que liberta os enclaves do tempo

Fazes parte de mim
Em cada momento ausente
Em cada desejo encoberto

Fazes parte de mim
Porque pensar em ti
É reencontrar
O que falta em mim

Fazes parte de mim
Assim

Chris, Granada [Outubro, 2005]

domingo, 14 de outubro de 2007

Amor


Afagado na solidão dos dias, carrego na pele
o desassossego da tua procura.
desgasto o corpo tingido de sal pelas ondas
vagarosas magoadas na minha busca.
indecisos são os gritos distantes das ondas.

Carregas o mar inteiro na perfeição do teu olhar.

Nuno Albuquerque Vaz, in "Canibal do Sal" [2007]

sábado, 13 de outubro de 2007

Nada mais Simples


(poucos sabem o motivo deste poema, desta noite. as frases são pontuadas, talvez este seja um dos mais belos poemas da história dos homens. não é coincidência, muito menos acaso do destino a publicação neste blogue esta noite... poucos sabem a verdade, e tu sabes meu amor... " a raiva é um apêndice do amor" - noite de 12 para 13 outubro - chris).

Nada mais simples. a raiva é um apêndice
do amor. digamos. uma mulher passa. é o amor
personificado em viagem. o desejo nem sei
como apareceu por aqui. nasceu subitamente.
como o sentimento de posse invadindo o espaço
do vazio. é a estrada que cresce na imensidão
das suas curvas, nas paredes que se alargam,
destruindo o significado das palavras. ninguém
se apercebe de nada e os espelhos não reflectem
os sons que povoam as bocas caladas. os postais
escondem as paisagens e não há quem se interesse
pela importância breve das coisas passageiras. a arte
encanta-se pelos museus e ignora os caixotes
do lixo. não se deixa abraçar sem o cuidado dos deuses
no seu carinho pelas nuvens. há uma multidão
na vacuidade de rua e resta-lhe apenas a sua nudez
para adormecer. erguemo-la no ar como se fosse
o último gesto com vida, num corpo com mérito
para apreciar o dia. o mundo desconhece o efeito
do eco. nada mais simples. o apêndice da arte
é o amor. procuramo-lo. debaixo da pele vive
um silêncio com a missão de abafar todos os ruídos

que entretanto sobejaram nos fenos verdes,
nessas ondas de flores e caules que amansam
os leitos das ribeiras. no estertor das horas, o poeta
rabisca o papel da mesa do restaurante e sofre,
porque ninguém deu por nada. apenas o empregado
derramou café sobre o verso fundamental
,

matando-lhe o sentido preconizado para o fecho
do poema.
e riu-se. miseravelmente.
aí, então, milagrosamente, caiu a tarde.

José António Gonçalves, in "As Sombras no Arvoredo" [2004]

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

YIN ============ YANG


YIN
YANG

FEMININO
MASCULINO

ÁGUA
FOGO

TERRA
CÉU

LUA
SOL

ESCURIDÃO
CLARIDADE

NOITE
DIA

OUTONO-INVERNO
PRIMAVERA-VERÃO

FRIO
CALOR

HUMIDADE
SECURA

INTERIOR
EXTERIOR

GESTATIVO
EMANADOR

ACUMULADOR
TRANSFORMADOR

QUIETUDE
MOVIMENTO

LADO DIREITO
LADO ESQUERDO

OESTE-NORTE
LESTE-SUL

PARA ONDE SE VAI
DE ONDE SE VEM

VAZIO
CHEIO

RECEPTIVIDADE
AGRESSIVIDADE

INCONSCIÊNCIA
CONSCIÊNCIA

INTUIÇÃO
DEDUÇÃO

SENTIR
REALIZAR

NEGATIVO
POSITIVO

SILÊNCIO
SOM

MEMÓRIA
IMEMÓRIA

NÃO SER
SER

MULHER
HOMEM

domingo, 7 de outubro de 2007

O Sol nas Noites e o Luar nos Dias


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Rêve pour L' Hiver


L'hiver, nous irons dans un petit wagon rose
Avec des coussins bleus.
Nous serons bien. Un nid de baisers fous repose
Dans chaque coin moelleux.

Tu fermeras l'oeil, pour ne point voir, par la glace,
Grimacer les ombres des soirs,
Ces monstruosités hargneuses, populace
De démons noirs et de loups noirs.

Puis tu te sentiras la joue égratignée…
Un petit baiser, comme une folle araignée,
Te courra par le cou...

Et tu me diras : "Cherche !", en inclinant la tête,
- Et nous prendrons du temps à trouver cette bête
- Qui voyage beaucoup...


Arthur Rimbaud (1854 – 1891)