terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sintra, Memória de Sempre


Sítios há, pela vibração que irradiam,
mais poderosos que outros.
A sua atmosfera e frequência de emanação
faz deles lugares únicos e privilegiados.
Sintra é um desses lugares.
Nela se cria um determinado campo vibratório
ou qualidade energética,
que ressoa em nós,
expandindo-nos a Alma e o sentir.

Em Sintra a sua “onda” é passiva, nocturna, introvertida, feminina, húmida,
lunarizada...
Força telúrica aberta ao Cosmos,
Sintra torna-nos igualmente receptivos,
numa postura de tranquilidade
e reconhecimento.
Sintra interioriza.
Acorda a voz da Alma,
encaminha-a na sua procura de Unidade,
desperta-a, para outra e maior dimensão...

Num Mundo desalmado,
sem pausas nem silêncio,
feito de turbulência, extroversão,
tensões de várias naturezas
e total carência de Vida Maior,
Sintra existe como oportunidade.
Oportunidade de reencontro:
com o mais íntimo, o mais subtil,
a essência Eterna que nos habita...
Sintra aparece como o elo perdido,
a nota novamente afinada,
a chamada aos Mundos internos...
Eco longínquo de um Som primordial,
antigo mantra iniciático,
vibração há muito esquecida,
Sintra devolve-nos a harmonia do seu reconhecimento.

Para quem souber ouvir...
para quem estiver atento,
capaz de já sentir o invisível
presente no visível,
o oculto além das aparências,
“o sem forma, que habita todas as formas”,
a realidade que se revela
na irrealidade daquilo que parece Ser...

No entanto, Sintra não deve ser um refúgio,
uma evasão ou uma fuga ao conflito dos Tempos.
Essa é a tentação que ameaça
quem nela se perde em vez de se encontrar.

A afinidade que Sintra propõe à memória da Alma,
há que a interiorizar e meditar,
que a tornar consciente,
para que a saibamos definitivamente
passar aos outros,
trazê-la a um Tempo hostil
que importa regenerar.

É Verdade que pede revelação.
A magia de certos lugares,
a emanação de certos Espaços Míticos,
é uma bênção, uma Graça, uma abundância...
Algo que nos é oferecido
para que possamos revitalizar
o nosso Eu maior.
Justo, nesse lugar da Terra, ali, onde se abrem
Canais de receptividade Cósmica,
onde baixam Poderes Sagrados,
onde se sintonizam altas-frequências,
onde se evidencia
o que sempre Foi, É e Será sempre...

Locais que são dádivas.
Pontos de Síntese.
Arco-Íris entre a Terra e o Céu.

Centros de convergência energética,
onde a Vida se exprime mais intensamente,
e nos devolve a evidência interior
de um Tempo sem Tempo...

Saibamos agradecer.

Maria Flávia de Monsaraz

OM
a Via da Universalidade

domingo, 9 de setembro de 2007

Antologia Inglória


És a sucessão do passado a constante do presente e o silêncio do futuro.
És a palavra desejada, imaginada, feita amor.
Depois, ruíram irreversíveis os castelos sonhados.
Que se anteviam cercados de incompreensão
As muralhas iam caindo uma a uma.
Seria assim, o tempo da espera.
Somarias certezas numa razão de enganos
Tinhas comigo a força da vitória.
Madura serena e sã.
E quando a esperança batia na face.
Transformavam-se em pérolas as jóias perdidas.
Brilham opalas que a sombra admira.
Um raio de sol filtra o Universo.
E vaporizava-me saudade.
E um sortilégio de nostalgia.
A própria ternura faz-se porcelana.
Querias uma canção feita de amor.
Livre de ser cantada quando te atirassem pedras.
A liberdade era fazer poemas, não problemas.
Era pintar uma rua de vermelho.
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Nos telhados, cruzando a rua cantavam despertas aves surpreendidas.
Abriam algemas forjadas de sonhos.
De súbito...,
Rondando limítrofe a margem da coragem.
Havia outrora um lago profundo de fundo límpido e prateado.
Ventos magnéticos agitam as águas, espelham-se arrepios à superfície.
Distantes.
Os ídolos ficaram sós no meio do caminho.
Servem de espantalho aos pardais.
E quando voltas jogando, regressas anónimo fitando a única estrela.

António M.Fernandes, in “Pedra Angular” [2006]

Analogias


Não sei se esta viagem me pertence
mas guardo este último tempo
na convicção do nada
na incerteza do talvez
nas analogias de um destino
que não alimenta mágoas
mas apaga cicatrizes
dentro de cada vida
de todas as vidas

António Sem, in “Analogias” [2003]

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Orfeu e Eurídice

Grande herói da Trácia, Orfeu era conhecido não pelas suas qualidades de guerreiro, mas pelas suas qualidades musicais. Filho de Apolo e da musa Calíope, recebeu do pai uma lira como presente e aprendeu a tocar com tanta dedicação e beleza, que ninguém conseguia ficar indiferente ao encanto da sua música.
Tanto os seres humanos como os animais, e diz-se que até as árvores e os rochedos, se rendiam ao seu fascínio.Orfeu amava apaixonadamente a ninfa Eurídice. No dia do casamento de ambos, esteve presente Himeneu para abençoar a união, mas o fumo da sua tocha fez lacrimejar os noivos, o que não trouxe augúrios favoráveis. Pouco tempo depois, Eurídice passeava com as ninfas, quando foi surpreendida pelo pastor Aristeu, que, ao vê-la, se apaixonou perdidamente e tentou conquistá-la. Na sua fuga, Eurídice pisou uma cobra e morreu da mordedura que esta lhe fez no pé. Orfeu, inconsolável, tocou e cantou aos homens e aos deuses, mas nada conseguiu. Decidiu, então, descer ao reino dos mortos para conseguir recuperar Eurídice. Perante o trono de Hades e Perséfone, Orfeu cantou o seu desgosto e o seu amor dizendo que, se não lhe devolvessem Eurídice, ele próprio ficaria ali com ela, no reino dos mortos. Todos os fantasmas que o ouviam choravam e Hades e Perséfone ficaram tão comovidos que lhe devolveram Eurídice. Mas com uma condição: Orfeu poderia levar Eurídice, mas não poderia olhá-la antes de terem alcançado o mundo superior. Caminhando na frente, Orfeu, que estava quase a chegar aos portões de Hades, com receio de ter sido enganado por Hades, virou-se para trás para confirmar se Eurídice o seguia. Esta, com os olhos cheios de lágrimas, foi levada para o mundo dos mortos, por uma força irreversível. Orfeu tentou alcançá-la, mas sem êxito. Profundamente triste, Orfeu ficou na margem do rio, durante sete dias, sem comer nem dormir, suplicando a volta de Eurídice. Depois, vagueou triste e solitário pelo mundo, sem nunca mais querer saber de mulher alguma e repelindo todas aquelas que o tentavam seduzir, até que um dia, as mulheres da Trácia, enfurecidas pelo seu desprezo, o mataram. O seu corpo foi atirado ao rio Ebro e levado até à ilha de Lesbos, onde, durante muito tempo, a cabeça de Orfeu, presa numa rocha, proferia oráculos. A sua lira foi colocada num templo de Lesbos. Outra lenda diz que as musas enterraram Orfeu, em Limetra, num túmulo onde o rouxinol canta mais suavemente do que em qualquer outra parte da Grécia e a lira do jovem apaixonado foi colocada por Zeus entre as estrelas. Orfeu encontrou por fim Eurídice e, abraçando-a, nunca mais deixou de contemplá-la.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

A Isadora Duncan


Nasci quando morreste.
Por isso trago a nostalgia
dos movimentos puros que tivestes.

David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão" [1950-1953]

sábado, 1 de setembro de 2007

Tão Breves Que Fomos



Tenho comigo palavras
Textos breves para uma história por fazer: a nossa
E tenho o tédio, a rotina dos dias
Esta encenação em play-back
Repetitiva como a distância mediana
Entre as palavras e os factos
Espaço árido à espera de charrua,
E sei do caruncho que existe em tudo
Pena é que não ficássemos amigos, dizes tu,
É que houve um tempo
Breve mas fundo

Arquivo onde me invento
Tão breves que fomos mas tão juntos
E a ti me prendo
A ti me invento
Neste espaço em que me tenho
Porque (ainda) me habitas a noite
Embora ausente
Depois embarco só
...

Foram tantos os poemas ditos
Com as mãos no corpo,
Sem a ilusão das palavras que agora sei inúteis;
Amorfas como todo este texto branco,
Por dizer-te estou aqui e sinto
Então sonho Veneza, e parto só,
Porque hoje o estar aqui magoa.

Tão breves que fomos mas tão juntos.

Carlos Alberto Fernandes
(poeta madeirense- nascido no Funchal a 16 Novembro 1954)