quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Templo Azul



Penso-te em mim, no azul que tocámos algures
encanto precipitado do mar nórdico adormecido,
rajada demorada da tua pele, espiral eterizada
na eternidade confessada ao caudal do rio vencido

Sei-te guardado na gruta, na dormência das palavras
sorvendo a alma na libertação de mais um poema,
mas só tu sabes meu amor, a interrogação que travo
neste trazer dos dias sem ti, dúbia no teu dilema

Desfaço a raiva, sublimo-me neste jejum
de acreditar que quem ama sabe recomeçar,
longe do álcool fundeado do teu passado

Dizes que o amor é dois, digo-te que é um
neste jogo de enganos, maré cheia a vazar,
saberemos recomeçar depois do sal sarado?

Doce é a sutura dos meus dias 
no tempo que alinhavo,
sabendo-te aqui...



Foto: José Boldt

http://wwwescrevercomluz.blogspot.com/

domingo, 24 de janeiro de 2010

Se um dia




Se um dia o tempo te falar de mim
saberás que foi por ti que cruzei oceanos,
movi intempéries no grito surdo do trovão
sem recurso ou apelo à tua pele - tentação
dos sentidos que quis enganar ao forjar
nos teus braços mais uma fuga basilar 


Se um dia o sonho te falar do temporal
saberás que escolhi perder-te
como a água condensa a feiticeira
na queda abismal da nascente obreira
velha bátega que reconheceu na rajada
o vento como escarpa da tua madrugada
  

Se um dia um acorde te falar do toque
saberás como me perdi nesse quarto
exíguo no espaço, imenso na eternidade,
verbos sonorizados rendidos à vontade
como mártires dos poemas sombreados
no sal em crosta viva de outros passados


Se um dia a luz te falar das trevas
saberás que sou noite nos teus dias
escuridão transparente como um crivo
deste jogo escorpiónico e obsessivo
que se aproxima do fogo de sagitário
última fogueira do cavaleiro templário

  
Se um dia ninguém te esperar na curva da estrada
saberás que sou o vazio
que o tempo não ousa definir…


Foto: Patti Smith (1978), de Robert Mapplethorpe : fotógrafo norte-americano [1946-1989]

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Entre o visionário e a obra (prometida)



Escondes o mistério que o abismo perceptivo
aprofunda, como o Sol que és - incandescente
noites brancas presas, feras dum enleio cativo
da última encarnação de Gaia, teu ascendente
                                                                             
Invades as palavras alvas na visão devolvida
outra sonoridade lírica que o traço sobranceia
olhar do visionário imerso na obra prometida,
submerso no oceano volátil da escassa plateia

Outro naufrágio semeia a penumbra definida
na insularidade ténue da água, mar de chamas
fragilidades do destino ou intenção duma vida?

Agora, quero devolver-te o mar da partida
cor púrpura da trama, encenada em dramas
duma premonição ou dum suave homicida?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ainda assim...


Se o nosso amor fosse platónico exaltaria o mármore frio na noite branca para te alcançar, estrada de bruma que o sonho revelou. Mas não, és a realidade que sempre quis protelar, quando do outro lado do fio a tua voz cortava a distância entre a jura e o engano, como quem resgata um poema Byroniano.

"Maior mudança em mim já fez a vida
Do que em ti fez a morte. O teu amor
Tão desmedido era como o meu.
Para tormento mútuo não nascemos,
Mas foi mortal pecado nosso amor.
Que não me odeias diz – hei-de sofrer
Castigo por nós dois e morrerei
Para ganhares eterna salvação;
Todo o perverso mundo conspirou
E da minha existência fez prisão"

(Byron, in "Manfredo")

Tentei, no momento a seguir falar-te desse Amor que inunda os dias, como a noite redescobre as lápides da madrugada. Recordo-me do teu olhar gravado na premonição de outros tempos, talvez Némesis, amnésia que os Deuses ocultaram, crueldade que desbravei até ao fim de mim...

mas “Ela” persegue-te o sonho que a transcendência não esquece. 

Assim, todas as conjunções me confidenciam a tua presença… real, como corolário dos sentidos silenciados no augúrio do teu regresso.

(Memórias submersas na minha água, do fogo sagrado que o “Poeta” provocou) 

Entre o Fogo e a Água, sem disfarces, na farsa que escolhemos... 




Foto: Barbara Cole- fotógrafa publicitária canadiana

domingo, 10 de janeiro de 2010

Rasgo do Tempo




Intentas no rasgo do tempo o meu rasto
na velha estrada das matas onde matas a dor
do meu rosto e de outro decano já gasto
esquecimento corroborado – som e cor

Persegues-me no passado, guardas no olhar
a chave secreta que o ar contempla – anoitece
no tempo vestido da nudez do meu mar
teu fogo brando dum rio que visto sem pressa

Sigo-te no presente, desafio-te a sorte
no copo sem fundo do personagem – actor
sem a linha que a ferida do amor sutura


Vigias-me a alma na prisão do teu norte
rédea recôndita, vaga controlada do pudor
soltas a voz ao sul, esquecendo a ternura



Foto: Emil Schildt - fotógrafo dinamarquês, n. 1958.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Contigo


reconheci o olhar submerso do peregrino
no claustro rendilhado da sombra que és
projectas-te onde não estás, vives o engano
dessa história que nunca foi tua
rodopias na noite entre as flores do quintal
que te falam desse Amor – impedimento duma vida
fácil é sobreviver fora do quarto escuro
que foi nosso, saíste a tempo
eu perdi-me no deserto onde me deixaste


hoje, reencontro-te no mesmo ponto pontuado
do dia em que te conheci, incerto e indeterminado
em seguir o momento posterior no presente
determinismo em que ainda acreditas
nessa conjugação difícil entre a Lua e Vénus
mas a paixão confunde o Amor
essa serenidade que só agora reencontrei
quando reconheci os destroços de mim
na mesma maré que hoje cresce em ti


assim, deixo-te
à espera d’ Ela…



Foto: 
eu, fotografada pelo P. na passagem de ano... 
um excelente 2010 a todos os que ainda têm paciência para me lerem...