segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma estória dentro da nossa História (1982)


Sei que hoje escrevo para ti, nesta chegada a casa entre a chuva miudinha que se entranha nos trilhos de mim e uma estória que o tempo guardou, deslizante entre preces, presságios e a nossa velha... tão velha premonição...

Hoje, sei que foi por ti que sobrevivi à tempestade com que iluminaste o mar sem fundo, conheço as palavras que o silêncio cruza, simbólicas na imperfeição humana, perene caminhar até ti.

A chuva suave e tépida que hoje me tomou é mais cruel que a água que cai como bátega que leva tudo à frente. Foi assim que me tocas-te, gota subtil que nunca quis sentir, entre a epiderme e a derme, a seguir o nosso tempo adiado, depois do corpo, da alma, de tudo o que a dimensão dos homens ainda não libertou, esse território indecifrável e insuficiente na memória austera da terra.

É cedo demais para nós, nesta sede que anoitece e embala a paixão que o tempo guardou e a loucura alienou. Sei donde vens e para onde vais, como estranha guardiã deste Amor que temes abrir a porta, e assim continuas no pequeno quarto voltado a Sudoeste, onde não deixas entrar esse amor que ainda é nosso. O perigo descerra e eteriza o quarto maior virado a Nordeste, onde nunca mais a comiseração te tocou... as folhas da palmeira alastram na janela desse quarto onde uma noite o amor entrou, homicida maculado que conhecemos. Ninguém conhece os filamentos imensos onde te perdes, lugares incertos onde encetas uma nova fuga, não de mim, mas de ti...

imóvel e estático olhas-me, mas parti há muito tempo contigo dentro de mim.

Não sei se terei tempo para escrever a nossa História, mas o que interessam as palavras escritas ou ditas, depois de tudo o que vivemos e sentimos...

mas estórias como esta sim, estrada em sentidos opostos, no meu rosto o teu, no teu o meu, o espelho inquebrável como campo magnético indomável, onde a crueldade foi coroada com flores que o calor degela e nenhum gládio destrói. Teias fragmentadas, onde o embalo suave de sueste me desnudou, na pele que guardava o segredo de ti.

Respiras dentro de mim, tomas as vagas que gerei, domas as minhas cinzas como brasas vivas em ti. És um diamante lapidado, cujas lascas encrespadas soltei ao vento, na esperança que o Universo as transforme em novos diamantes para novas vidas.

É quente o gelo da obra suprema na qual sou água a fluir em ti, como o teu fogo quimérico que alcança o topo do Monte Sinai... A prova não é a última, é o nosso eterno recomeço nessa longínqua capela vestida de sombras brancas, pontificadas no azul da noite, linhas que o luar densificou na génese da chama azul, como uma lareira a naufragar em nós.

Sei que é por ti que me demovo, que me revolto, que regresso à paz que perdi, sete noites depois do Universo que tocámos juntos. Remexes velhos tempos, segredas-me segredos só nossos, e dizes que me queres, mas não podes abandonar a caravela com velas triangulares, da qual te tornaste timoneiro, mas não és tu…

Só eu sei a tua verdadeira idade, aquela que nunca ninguém saberá. O imenso Azul que encontrámos na linha que separa o mar do céu veda-se à nossa passagem, e a chave ficou guardada numa pequena capela na Escócia há mais de nove séculos, lacrada a sangue em envelope crepuscular, e o Mestre foste tu... em mim…

Tantas foram as vidas que percorri até reencontrar-te… como naquele final de tarde numa vila de sapientes pescadores, que conhecem as voltas dentro coração do mar, como um amor impossível.

A devastação que te assombrava era enorme, e disseste-me entre a sofreguidão e a multidão ainda ausente: “amanhã, vou para Elvas…” (talvez, tenha sido Estremoz, não me recordo...), sorri para ti e parti para apanhar o cacilheiro, pois os tempos eram outros, e uma adolescente com quase dezasseis anos, tinha que estar em casa antes de anoitecer. Assim, parti com a certeza de nunca mais te tocar, e nunca mais voltar…

mas voltei, passado tanto tempo a ti… e agora?





Imagem: Pintura a óleo de Artur Real Bordalo, nascido em Lisboa em 1925

19 comentários:

Sonhadora disse...

Lindo,escrito com alma.Gostei muito.
bjs
Sonhadora

Norma Villares disse...

Navegar é Preciso!
Que lindo texto, escrito de alma para alma.
Gostei muito.
Um grande abraço

direitinho disse...

Desculpa querida amiga mas não sei comentar este teu post.
Não entendi, não percebi nem quero que me expliquem nada.
Parece que por vezes sabe melhor não entender as situações.
Desculpa. Vou voltar outro dia e sei que hei-de entender tudo ou parte de alguma coisa desse todo.

Lídia Borges disse...

A estória contada de forma primorosa, revelando um sentir imenso dentro de uma História de amor inacabada.

Um beijo

L.B.

FrancK P_LavD disse...

Texto maravilhoso, é a genuína alma Lusa que escreve uma história de amor profundo.
Gostei muito!
Abraços
FrancK

Pelos caminhos da vida. disse...

Vim deixar meu beijo meu carinho e te desejar uma linda noite!
Que nesta noite, você tenha a paz que precisa para repor suas energias físicas, emocionais e espirituais.
Nunca esqueça que Pelos Caminhos da VIda você está presente dentro do meu coração.

beijooo.

continuando assim... disse...

gostei ....mas ...
não há "e agora..." :) :)


bj
teresa

Papagaio Mudo disse...

chega a chuva por aí?


bacio

Gus

Pedrasnuas disse...

UMA ESTÓRIA ESCRITA DENTRO DA HISTÓRIA...O PARALELO ...UMA VELHA ESTÓRIA DE AMOR...
QUANDO OLHEI AINDA PENSEI ...TERÁ SIDO (1882)?...

IMÓVEL ,ESTÁTICO...VALERÁ A PENA PARTIR COM UMA SOMBRA ALGURES DENTRO DE NÓS...DE UM TEMPO MAIS ANTIGO QUE O NORTE?
NÃO TERÁ MAIS VALOR O QUE FOI VIVIDO E SENTIDO ...DO QUE QUERER PERPETUAR O QUE JÁ NÃO É?

AGORA?

A VIAGEM NÃO CONTINUA MESMO SEM TIMONEIRO?
CADA UM NÃO É TIMONEIRO DO SEU PRÓPRIO ROTEIRO?

TENS UM ESTILO INCONFUNDÍVEL...UM CUNHO PESSOAL

BEIJO

FrancK P_LavD disse...

Chris,
Indiquei para o seu blogue o selo "Excellent".
Se gostar pode pegar no meu blogue:
http://franckplavdpremios.blogspot.com
Está na postagem de 3 de Novembro.
Coloquei o seu link nesta postagem.
Abraço,
FrancK

Anónimo disse...

1982, como é estranho pensar que uma adolescente daquele tempo teve um caso com um homem casado e com dois filhos pequenos...

Contracena disse...

Como me tocou esta estória dentro de uma história, que leio amarga, sofrida, até hoje...
Década de 80. Nada de estranho nesta estória dentro de uma história.
Se eu soubesse escrever uma estória dentro de outra história, esta seria diferente. Seria a estória dentro de uma história muito feliz - no mesmo dia, à mesma hora, do mesmo ano.

"... e agora?" Agora, citando Vinícius:
"... Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure."

"... e agora?" Agora, recordar um amor infinito, que durou 29 anos..., e só a morte os separou...

Um abraço.
Fátima

poetaeusou . . . disse...

*
Lisboa
Menina e moça,
nas palavras do teu texto,
,
conchinhas,
,
*

uminuto disse...

envolvi-me nas profundezas da tua escrita e adorei
um beijo

manuela baptista disse...

en passant

movimento de peças
peregrinar do amor

às vezes, fico mais um bocadinho

Um abraço

Manuela Baptista

Mar Arável disse...

Uma viagem sincera

num cacilheiro de memórias

Um amor sem cais

de carne e osso e alma

Um corpo inteiro

neste rio

este rio

Chris disse...

Sonhadora: é sempre uma honra a sua presença por aqui.

Norma Villares: navegar é sempre preciso, mesmo com a maré revolta.

direitinho: por vezes, é mesmo melhor não entender... fico à espera que regresse para outros entendimentos.

Lídia Borges: entre a estória e a História... onde começa uma e acaba a outra, limites que o lastro (in)define...

Frank: obrigado pelo selo e pelo prémio, que vou guardar no coração com carinho.

Pelos Caminhos da Vida: obrigado mais uma vez.

Teresa: só existe o agora... talvez.

Papagaio Mudo: é verdade...

Pedrasnuas: paralelismos que a divergência do tempo equaciona. Até que ponto somos timoneiros desse roteiro, pretensamente autónomo??? - não sei...

Anónimo: não entendo o seu comentário, deveria de o entender?

Contracena (Fátima): Vinicius atinge a alma universal como uma espada implacável! Obrigado pelas palavras e pelo cuidado.

Poetaeusou: conchas que Lisboa semeia nas palavras dos poetas...

uminuto: fico feliz, por si.

Manuela Baptista: fique todo o tempo que quiser, esta casa também é sua.

Mar Arável: uma viagem na memória, um cais entre a partidas chegadas...

Chris

SAM disse...

Belo texto escrito com alma e sentimentos. A alma traz todas as marcas indeléveis pelo tempo. O tempo, por si, esmaece lembranças, transforma sentimentos, marca e desmarca e tem suas conveniências. Estórias de almas não se preenchem com palavras na extensão e volume na dimensão do que carregam, por tempo que não se pode definir.


Carinhoso beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

gostei, desta estória, escrita com sentires nostálgicos.

sublinho esta frase:

"É cedo demais para nós, nesta sede que anoitece e embala a paixão que o tempo guardou e a loucura alienou. "

parabens!

um beij