sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Tempo Circulante


Oiço tumultos na estrada do teu regresso
Partituras desenhadas no fogo serpenteante
Vislumbres cegos e um olhar confesso
Eterno momento certo de cada instante

Rolam vultos na sombra da noite fustigada
Como folhas secas – tua doce esmola
Palavras recolhidas ao luar da tua chegada
Delineadas na escrita que se desenrola

Trespasso o espaço como ave que assoma
O despertar manso – ocaso ou aurora
Tempo circulante, perenidade esvoaçante

Quebras-me as asas, vaga que me doma
Leio Kerouac – sigo pela estrada fora
Neste caminhar contra ti, fera errante

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um "post" diferente (Novembros Meus)

Nesta noite chuvosa de Novembro, uma noite onde confesso o meu profundo desencanto em relação a uma pessoa em particular, noite densa onde aprendi a diferença entre a infidelidade e a traição, onde mora a crueldade na estrada do medo de encarar uma ferida kármica, percurso onde o curso da água resiste e molda-se a todas as pedras vivas, caminho incerto com um rosto e diversas faces entre o nascimento e a morte...

Nesta noite chuvosa de Novembro, sei qual a cor do Amor, debulho o tom "azul púrpuro" reencontrado nos laivos do Amor, mesmo quando toda negação não toca as falas trocadas, a mulher esquecida e a outra que nunca existiu, pois o Amor para alguém será sempre uma eterna fuga, imposição da fiel infidelidade que a Arte determina, estranho teatro de enganos, na terra sem congratulação chamada paixão...



Nesta noite chuvosa de Novembro, respondo ao desafio duma amiga da blogosfera, onde revelo mais o que sou, do que o que sinto...

Aqui fica o “jogo do conhecimento” e a proposta da amiga Maga:

1 - Quatro filmes que assisto, sempre que passam:
O cinema é uma das minhas eternas paixões, aqui ficam quatro filmes de excelência:
- O Clube dos Poetas Mortos
- A Insustentável Leveza do Ser
- A Lista da Schindler
- As Pontes de Madison County

2 - Quatro lugares onde já morei:
Nasci em Lisboa, morei na Amadora, Oeiras, Aroeira e quando era adolescente passava uns fins- de-semana e pequenas férias em casa da minha madrinha, em Almada. Ah... e Sagres, em tempos posteriores de felicidades e serenidades duma vivência em comum...

3 - Quatro programas de televisão que gosto ver:
Vejo pouca televisão, mas gosto de ver o “Câmara Clara”, na RTP2 ao Domingo à noite, o jornal na Sic Notícias, alguns programas do canal “História” e “Mezzo”.

4 - Quatro pessoas que me mandam e-mails regularmente:
Quatro amigos particulares e em especial (eles sabem quem são ao lerem este ”post”).

5 - Quatro coisas que faço todos os dias (s/falta):
Todos os dias não dispenso o meu café, olhar o céu mesmo quando cinzento, o mar da janela da minha casa e tentar sorrir, apesar de nem sempre ser possível…

6 - Quatro comidas favoritas:
Comida: bacalhau com natas, salmão de todas as formas, todas as frutas e alguns doces. Adoro um bom vinho branco gelado, de preferência numa varanda especial numa casa no Douro…

7 - Quatro lugares que gostaria de ir (ou estar):
Viajar… são tantos os locais onde gostaria de ir: Egipto, Escócia, Islândia, Chile e Brasil…
Voltar aos AÇORES (uma paixão única, nos cheiros, nas cores, no que sinto quando piso a terra duma das nove ilhas, sobretudo o Faial e as Flores), regressar a Paris (cidade mágica!) e algumas cidades em Itália que conheço, mas quero lá voltar com mais tempo… e Sagres o meu refúgio sacrossanto, já aqui quase ao virar da esquina…


Passo o jogo a quatro amigas da blogosfera, pois acredito nas correntes sem amarras que libertam o pensamento positivo:

Lídia Borges: www.searasdeversos.blogspot.com
Maria Valadas: www.ecosdepalavras.blogspot.com
Elisa Fardilha (Mona Lisa): www.fardilhas.blogspot.com
Elisa Ramos (Agulheta): www.agulheta.blogspot.com




Este foi um "post" diferente que me ajudou a esquecer a noite de 25 de Novembro dum ano inconfessável.
Terá o Amor vindouro sido reencontrado naquela noite de Novembro?
Não sei... talvez o tempo responda à questão, talvez seja mais uma pergunta sem resposta, entre o que não tem explicação racional...


Foto: eu, Novembro de 1969...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Compasso visionado


Procuro quem já encontrei, Outono no meu Verão
Adágio nas tuas mãos cálidas, quente gelo plácido
Como cálice vertido no tempo – sangue, pulsação
Copo sem fundo, olhar inerte no teu velho prefácio

Postulo enleadas justificações, neste pranto risível
Vale de confissões coroadas – estranha insensatez,
Deste amor injustificável, água em fogo submergível
Que se entranha na estrada de tudo o que crês

Assim, ladeio-me de licores amargos
Escorando a vontade imperativa
Império primitivo dos meus embargos

Despeço-me do prelúdio enquadrado
Partitura longa, intempestiva
Poema meu – compasso teu visionado

sábado, 14 de novembro de 2009

Quando (as luzes se apagarem)


Quando as luzes se apagarem
e o tempo decifrar a ausência
do empréstimo dos Deuses,
minha estranha ascendência

Quando as luzes se apagarem
na névoa díspar do teu olhar
permanecerá no firmamento
nórdico mar imenso, sem par

A luz arredonda-se, quase esférica
eleva-se e resiste na suposta distância,
perscruto-te dúbia, nesta discordância

Degustas na minha mente esotérica
um crepúsculo frágil, mito desagregado
na travessia desse momento esperado



(quando as luzes se apagarem, só a escuridão será luz no teu olhar…)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Palavras Baldias


Ergo-me suavemente, como maré levante
salpicos negros nas minhas cinzas circulam
nessa lapidar noite branca, recorte jusante
pasquins e palavras nas tintas que especulam

Sei-me perdida como voz de rompante
na madrugada golpeada como fera
embarcada na tua ordem imperante,
tela escapulida que o óleo venera

Nas linhas insondáveis do cansaço
quebro o linho fino do teu braço
rasgado como ouro fino

Guardo os laços de nós na memória
poemas baldios com dedicatória
Musa em ti, velho hino



(2007)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma estória dentro da nossa História (1982)


Sei que hoje escrevo para ti, nesta chegada a casa entre a chuva miudinha que se entranha nos trilhos de mim e uma estória que o tempo guardou, deslizante entre preces, presságios e a nossa velha... tão velha premonição...

Hoje, sei que foi por ti que sobrevivi à tempestade com que iluminaste o mar sem fundo, conheço as palavras que o silêncio cruza, simbólicas na imperfeição humana, perene caminhar até ti.

A chuva suave e tépida que hoje me tomou é mais cruel que a água que cai como bátega que leva tudo à frente. Foi assim que me tocas-te, gota subtil que nunca quis sentir, entre a epiderme e a derme, a seguir o nosso tempo adiado, depois do corpo, da alma, de tudo o que a dimensão dos homens ainda não libertou, esse território indecifrável e insuficiente na memória austera da terra.

É cedo demais para nós, nesta sede que anoitece e embala a paixão que o tempo guardou e a loucura alienou. Sei donde vens e para onde vais, como estranha guardiã deste Amor que temes abrir a porta, e assim continuas no pequeno quarto voltado a Sudoeste, onde não deixas entrar esse amor que ainda é nosso. O perigo descerra e eteriza o quarto maior virado a Nordeste, onde nunca mais a comiseração te tocou... as folhas da palmeira alastram na janela desse quarto onde uma noite o amor entrou, homicida maculado que conhecemos. Ninguém conhece os filamentos imensos onde te perdes, lugares incertos onde encetas uma nova fuga, não de mim, mas de ti...

imóvel e estático olhas-me, mas parti há muito tempo contigo dentro de mim.

Não sei se terei tempo para escrever a nossa História, mas o que interessam as palavras escritas ou ditas, depois de tudo o que vivemos e sentimos...

mas estórias como esta sim, estrada em sentidos opostos, no meu rosto o teu, no teu o meu, o espelho inquebrável como campo magnético indomável, onde a crueldade foi coroada com flores que o calor degela e nenhum gládio destrói. Teias fragmentadas, onde o embalo suave de sueste me desnudou, na pele que guardava o segredo de ti.

Respiras dentro de mim, tomas as vagas que gerei, domas as minhas cinzas como brasas vivas em ti. És um diamante lapidado, cujas lascas encrespadas soltei ao vento, na esperança que o Universo as transforme em novos diamantes para novas vidas.

É quente o gelo da obra suprema na qual sou água a fluir em ti, como o teu fogo quimérico que alcança o topo do Monte Sinai... A prova não é a última, é o nosso eterno recomeço nessa longínqua capela vestida de sombras brancas, pontificadas no azul da noite, linhas que o luar densificou na génese da chama azul, como uma lareira a naufragar em nós.

Sei que é por ti que me demovo, que me revolto, que regresso à paz que perdi, sete noites depois do Universo que tocámos juntos. Remexes velhos tempos, segredas-me segredos só nossos, e dizes que me queres, mas não podes abandonar a caravela com velas triangulares, da qual te tornaste timoneiro, mas não és tu…

Só eu sei a tua verdadeira idade, aquela que nunca ninguém saberá. O imenso Azul que encontrámos na linha que separa o mar do céu veda-se à nossa passagem, e a chave ficou guardada numa pequena capela na Escócia há mais de nove séculos, lacrada a sangue em envelope crepuscular, e o Mestre foste tu... em mim…

Tantas foram as vidas que percorri até reencontrar-te… como naquele final de tarde numa vila de sapientes pescadores, que conhecem as voltas dentro coração do mar, como um amor impossível.

A devastação que te assombrava era enorme, e disseste-me entre a sofreguidão e a multidão ainda ausente: “amanhã, vou para Elvas…” (talvez, tenha sido Estremoz, não me recordo...), sorri para ti e parti para apanhar o cacilheiro, pois os tempos eram outros, e uma adolescente com quase dezasseis anos, tinha que estar em casa antes de anoitecer. Assim, parti com a certeza de nunca mais te tocar, e nunca mais voltar…

mas voltei, passado tanto tempo a ti… e agora?





Imagem: Pintura a óleo de Artur Real Bordalo, nascido em Lisboa em 1925