segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um Homem Frágil


Frágil

Observas-me
Na eterna noite que permanece
Entranhada num tempo sem vírgulas
Imenso manto branco
Na dança perpetuada
Velha melodia entoada
Nossa bruma enevoada

Sentes-me
Mesmo quando não estou aí
Imaginas espaços nossos
Repletos de sorrisos
Caiados na mansidão
Da estrada da inversão
Nossa remota explicação

Procuras-me
Nas voltas que dás
Sem destino certo
Condensação de luares
Labirinto de reencontros
Incomensuráveis contos
Na terra dos tontos

Enlaças-me
Como fêmea sem senso
Nas fugas fugazes
De histórias que me são alheias
Invertendo consentimentos
Tocando prenhes tormentos
E assim, enganando ventos

Fragilizas-me
Na perfeição da alma
Sem egóicos dramas
Rodopio ao vento sul
Mudanças emergentes
Lassidão breve das gentes
Como personagens eloquentes

Descansas-me
Sem o pudor do amor
Sem o título da conquista
Real, sem ser divinal
Como a provocação
Duma velha canção
Sábia no teu coração


(2009)





Um Homem Frágil
(na visão duma mulher)


Escrever na margem imperfeita das palavras, como recortes opcionais, talvez emocionais, tentando tocar a consciência no acto de estar presente aqui e agora. Tentar a tentativa invertida de ser tua, no repertório dos poemas displicentes, convergentes no pensamento, mas ainda longe do verdadeiro intento.

Homem frágil que padece como velho incenso a arder na direcção da luz, deambulando com suaves toques ameríndios, tentando tocar-me, outra vez, na ilustre tentativa do jogo que lhe propus há mais de duas décadas, talvez há mais de nove séculos…

Dizia-me: “sabes, ainda estou vivo, já passei por tudo...” – eu, olhava-o, na sala repleta de branco, noites longas na penumbra do simples candeeiro, sem saber o que lhe dizer, fugindo das costuras magoadas do tempo, sabendo-o...

Uma noite disse-lhe: “é mais fácil olhar para as tuas mãos, do que para o teu olhar...” – ele, sorriu e gesticulou como uma imensa labareda no âmago da noite branca, tempo que mais tarde negou na fragilidade do seu ser.

Lá fora, o cão ladrava. Num ápice, levantámo-nos do sofá de pele, e fomos ver o que se passava. Não existiam almas à solta, mas o cão continuava a ladrar… A porta batia exaurida, ausente do vento norte...

Voltámos para a sala, olhou-me e disse-me: “sabes, coisas estranhas já aconteceram nesta casa, vês aquela porta, abriu-se uma noite, ainda hoje não sei porquê...” – direccionou, o indicador direito (espécie de karma que o segue), para a porta das traseiras da sala. Quase como uma prece, o ritual tornou-se real, como uma perscrutação de outras vidas, onde o pensamento não chega, mas onde a consciência embutida pode chegar, pela inconsciência invertida. A porta ainda lá está, ele também, e eu... já não sei.

Na estranha inversão do momento certo, foi possível tocar o outro lado, como uma ilha submersa no mar, ou mosteiro embutido numa pedra secular e triangular. Naquela noite, algo de ancestral aconteceu, quando o estranho indicador direito continuou na direcção do Oeste, assim todos os pontos cardeais se fundiram, todas a persecuções do meu passado findaram, ou talvez não?

Hoje, sentir a sua fragilidade ainda dissimulada, é ter a prova (talvez, a última…) do sentido do nosso Amor…

(continua… não sei em que pretérito, sei que os três passados são um único, tocando-se como vértices de cristais que o tempo fragiliza...)

21 comentários:

FERNANDA & POEMAS disse...

QUERIDA CHRIS, MARAVILHOSO POEMA E TEXTO... SUBLIMES PALAVRAS... UMA BOA SEMANA... ABRAÇOS DE AMIZADE,
FERNANDINHA

Joana Sousa disse...

Nesse mundo já não sei se há "homens fageis"

xDD

Adoro o poema texto. Está lindo!
Espetacular =D

Beijos*

Anjo azul disse...

Lindo poema, acompanhado de um majestoso texto.
Parabéns!
Bj
Anjo azul

Mar Arável disse...

Todos os cristais

são frágeis

muito mais

que o seu brilho

Bem-vinda ao meu mar

Pena disse...

Amiguinha Doce:
Fabuloso. Existencial. Profundo. De uma sensibilidade existencial extraordinária.
Excelente!Adorei. Faço-lhe uma vénia de fascínio perante a sua beleza e pureza imensas de carácter divinal.
Perfeito.
Beijinhos amigos de um respeito gigantesco pela sua imensa significação preciosa na Blogosfera inteira. Uma bela página, talvez, das mais admiráveis e soberbas que já encontrei.
Deslumbrado de encanto...

pena


Linda...!

cristinasiqueira disse...

Oi Chris,

Li devagar como o texto pediu.Li com a alma o poema seu.

Com carinho,

Cris

Maria Valadas disse...

É neste momento... que tenho a certeza que é o certo!

Poema e texto... SUBLIMES!

Beijos.

RETIRO do ÉDEN disse...

Bom dia de sol,
Um Homem Frágil, dificilmente agarra o “Momento Certo” ou seja … tem a coragem de assumir uma Mulher Inteligente, Forte e cheia de Amor para dar... mas que também tem o direito de receber na mesma medida esse Amor.
Essa Mulher Inteligente que é… terá que se sentir um Stradivarius e não contentar-se em ser tratada como uma Rebeca. É uma questão de Amor-próprio, (sem exagero).
É bem verdade que também as pedras rolantes precisam de deixar de o ser e transformarem-se em conglomerados (como sói dizer-se em geologia), ancorando-se uma nas outras mediante uma aglutinação.
A natureza dos detritos desse conglomerado depende das rochas donde derivaram e da história do seu transporte e deposição. O cimento que as une, no caso dos humanos, não é nem mais nem menos do que o Amor.
É a forma de aglutinação mais desejada por todos, mas que, muitas vezes ou tarda ou nunca acontece, ou por falta de coragem ou de alguém o querer assumir.
Lindo poema e palavras que encantam, mais parecem um diário de tristes vidas reais.
Um forte abraço,
Mer

ParadoXos disse...

um poema cristalino e muito inspirador!

bela fragilidade!


beijo meu!

© Piedade Araújo Sol disse...

gosto da "mistura" que fazes.

poema e prosa, excelentes, na minha modesta opinião.

beij

SAM disse...

Um homem frágil...Acho que todos são. Lindo poema com um texto perfeito!


Beijos, Chris!

Sofá Amarelo disse...

Todos os homens são frágeis... até prova em contrário! E todos os homens merecem poemas sem conquistas mas com palavras naturais e quantas vezes... divinais!

Alegria disse...

Maravilhoso, como tudo que você escreve, hoje resolvi ver teu perfil, e vi que mora na região de Aroeira, aqui no Brasil temos uma árvore com este nome, ela dá uns frutos vermelhos pequeninos. Utiliza-se, suas sementes na culinária, com também sua casca serve como preparo de chá para curar algumas doenças. Sei que parece crendice ou coisa de índio, contudo nem sei se você tinha conhecimento desta curiosidade.
Fiquei feliz em ver que voltou a comentar em meu espaço, volte sempre, fico muito honrada com sua visita.

Renata Vasconcellos.

Pedrasnuas disse...

POEMA PROFUNDO DE UMA ALMA FEMININA COMPLEXA ,PERSPICAZ,INTENSA E FORTE...
UM HOMEM FRÁGIL OBSERVA? SENTE? PROCURA?ENLAÇA? FRAGILIZA-SE?
OU SERÁ UM HOMEM FORTE, ESTE, QUE TEM MOMENTOS DE QUEBRA...DE FALHA,FRACTURA...
E SE FOR UMA MULHER FÁGIL(NA VISÃO DE UM HOMEM) ESSE HOMEM?
E SE FOR UMA MULHER FRÁGIL (NA VISÃO DE SI MESMA)?

BEIJINHO

Papoila Sonhadora disse...

Na esteira da fragilidade deixo um gesto de carinho e amizade sem par.
Sandra Ferreira

manuela baptista disse...

Chris

Quando entramos pela primeira vez num blog é como se entrássemos pela primeira vez numa casa, para a qual fomos convidados mas da qual não sabemos nada.

Procuramos então o lugar das coisas e as próprias coisas, que a tornam única e singular.
Como as Aroeiras da Renata.
É preciso tempo para amar uma casa.

Andei por aqui à procura das palavras e muitas permaneceram comigo.

Um abraço

Manuela Baptista

Graça Pereira disse...

Gosto de aqui vir, para me encher de poesia. Um bj Graça

Irene Abreu disse...

Olá Chirs
Felizmente que há ainda muita almas tão sensiveis pelo mundo que nos presenteia com belos poemas e prosas como o seu blog, cujos pensamentos nos fazem sentir que vale a pena continuar a sonhar por um mundo melhor.
Beijo

A.S. disse...

Chris...

É uma delicia ler-te!!!


Beijos e um bom fim de semana!

Baby disse...

Entre o certo e o incerto...quantas dúvidas a percorrer, quantas encruzilhadas a escolher! Que a Vida nos dê o discernimento necessário para que não sucumbamos às nossas fragilidades, pois todos as temos, homens e mulheres.

Beijinho.

Luis F disse...

De blog em blog naveguei ao encontro deste mundo, onde descobri belas palavras

Gostei do que vi

Parabéns
Luis