quinta-feira, 2 de julho de 2009

idade (In)Certa



Só eu sei a tua idade – dizes-me. digo-te que já perdi a linha que contorna as imagens vivas, contemplando o outro lado do horizonte, que numa noite me disseste existir. não dei valor útil às tuas palavras, despedi-me e exigi o meu olhar de volta. parti com os meus passos, não sabendo como me tinhas furtado para dentro de ti… mais tarde, percebi que nunca tinha abandonado esse local onde me entoaste pela primeira vez.

O relógio marca as horas, marcando os dias, as noites longe de ti, mas tão próximos, como suturas que o tempo não conserta, costuras infinitas que o tempo não quer desnudar. talvez sejam 18h 36m (9) no teu relógio azul, mas o meu marcava outra hora, já não sei qual era, foi há tanto tempo. será que o tempo dos entre-tantos dos anos de 1982/83 existiu mesmo, será que o tempo se suspendeu a si, na ânsia de nós, num qualquer café para os lados do Saldanha?

Assim, o tempo fala-te de mim, de outros tempos no mesmo tempo, estranho é o tempo que futuramente, falar-te-á de nós. talvez, o espaço desse café guarde o sabor dos primeiros cafés que bebi, dos velhos whiskies que bebias. estranho o tempo verbal onde não me consigo conjugar, encontrar-te na pontualidade certa duma eternidade sempre adiada. sei que te amo, por isso, entendo a palavra éter-ni-da-de… chamavas-me na na... como dizia a canção para a outra, que no fundo foi escrita para mim. o meu primeiro nome nunca foi meu, sempre me despiu, como tu. nunca me colori com ele, prefiro o segundo, ao contrário de ti.

Num segundo plano, onde gosto de permanecer, encontro a tua primeira luz, reflexo incrédulo de mim. procuramos cortar as portas que eclodiram, quando ninguém sabia de nós. talvez, já não te lembres, das árvores que feríamos à nossa passagem, pelas margens cortadas do Sado, no final de 83 fugi de ti, pensava inocentemente. enganei-me, só te adiei, pouco mais de duas décadas.

Nada dura mais que um instante, sabendo-te uma oitava distante, como as teclas em dó maior, como cinza cadente, no piano do sótão.

Voltei, regressei aqui , agora sei a tua idade. ando assim, a decifrar-te em mim, como velha nota na pauta a rodopiar ao vento suão, gosto de ti, como gosto do Sul encantado no eterno Norte. adoro Sagres, os Açores e o Mar... fugimos, então?



ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, in "Elogio da Sombra" [1969]
Escritor, poeta e ensaísta: nasceu em Buenos Aires, a 24 de Agosto de 1899, faleceu em Genebra a 14 de Junho de 1986...

23 comentários:

Pelos caminhos da vida. disse...

Obrigada pela sua visita.

Tem selinho lá no blog pra vc.

beijooo

Anónimo disse...

O futuro vai ser tão bom, não foi?

- li há pouco a folhear o jornal da manhã e lembrei-me do que venho conhecendo por aqui: ornamentos e rebuscamentos minuciosos quanto ao amor não correspondido que permitem interpretar o que faria o deleite do filho de Argote..

Sun disse...

Este "adiamento" de pouco mais de duas décadas a que te referes... O meu já tem um pouco mais de dois anos. E de dois em dois...

Temo olhar olhar para o relógio novamente, daqui há duas décadas, e notar que as nossas horas continuam a não bater certas. Ou então, que um dos relógios parou.
O futuro aterroriza-me justamente pela sua incerteza.

Obrigada pelo teu comentário, realmente aquele blog é novinho sim, tem uns diazitos... :)
Obrigada pela presença,
um beijo

Maria Valadas disse...

Passar por aqui e ler-te ( sejam ou não, textos teus... faz-me reflectir na vida e de todo o caminho que percorremos até um certo tempo.

O meu (tempo) é incerto. Vivo um dia de cada vez... e por cada dia que passa, dou Graças a Deus!

Um óptimo final de semana,

Beijinhos.

Ana disse...

Porque o tempo não tem tempo, há que viver cada dia com intensidade.

Um beijo.

Paulo Celso disse...

Sempre aprendo quanto faço uma visita neste belo blog.

Anónimo disse...

Eu gosto de livros e fico fascinada com os personagens. Há pouco tempo folheei um que falava da Megera, uma das violentas deusas -Erínias para os gregos;Fúrias para os romanos,coléricas, são forças pimitivas que não reconhecem a autoridade de praticamente ninguém, e obdecem apenas às suas próprias leis.São deusas aladas,com os cabelos com serpentes e tochas ou chicotes nas mãos. Quando encontram uma vítima tentam enlouquecê-la,torturando-a de todas as maneiras.São comparadas a «cadelas» que perseguem os homens. Vivem na Treva dos Infernos.
Existem muitas Megeras nos nossos dias, não acha?

Anónimo disse...

Chris, chegámos. A nossa viagem foi um sonho.
Foi tão atencioso da sua parte oferecer-me aquela flor branca e azul.Ah, adorei o pormenor das pétalas no chão ao pé do carro dele. Fiquei sensibilizada com o gesto da sua boa vontade e aprovação em relação ao nosso recente Amor. É sinal que começa a viver a realidade, que a sua fantasia tenta tantas vezes, desesperadamente, negar. O seu último texto "idade (in)certa", ainda é fruto da sua imaginação, mas penso que com esforço da sua parte,vai deixar a ficção.

Obrigada pela flor.
Faça um esforço por ficar melhorzita.

Coração Ateu.

Chris disse...

Pelos caminhos da vida: obrigado pelo selinho e pela visita.

AnónimO: pois é, o futuro vai ser tão bom... diz-me que sim o meu coração. Sabe ele nunca me engana, o coração claro. Tenha uma excelente semana, com algumas passagens por aqui. Será?

Sun: gostei do seu comentário, mas não concordo consigo num ponto: são as incertezas que tornam a vida
uma caminho evolutivo. Se só tivéssemos certezas, morria-mos. Não se aterrorize com o futuro e viva o presente, ele contém a semente do verdadeiro "Momento Certo". Um beijinho e prometo voltar ao seu blogue.

Maria Valadas: que bom ter regressado aqui... estou de acordo consigo - viver um dia de cada vez. Um dia destes talvez possamos ir beber um cafezinho na Aroeira, vou estar por lá. Tudo a correr bem...

Ana: claro que sim e obrigado pelo comentário.

Paulo Celso: aprender sempre, e se for por aqui, fico feliz. Bjs

Anónimo: também sou uma apaixonada pela mitologia, mais a grega que a romana. Sempre existiram Megeras e vão continuar a existir, como também alguns homens serão sempre completamente infiéis! Talvez, por isso, elas tenham as suas razões que a razão não entende, mas o coração sim. Quando o ser amado é "Deus" a Erínia torna-se Nemésis. Estranho ser Deus entre os humanos?!

Coração Ateu: que saudades das suas belíssimas palavras. Fico tão feliz por já ter chegado, assim como o seu novo amor. Não sei de que flor branca e azul fala, mas acredite não hesitaria um só minuto em oferecer-lhe uma. É tão gentil, tão bondosa!
Sabe, hoje sinto-me nas nuvens, tão leve que ao mínimo toque de vento, levanto voo e acredite que não é ficção. Passei a tarde nas nuvens, por isso, de tão feliz que estou, dedico-lhe estas palavras:

"O meu coração ateu quase acreditou
Na sua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou
Meu coração por certo tempo passeou
Na madrugada procurando um jardim
Flor amarela, flor de uma longa espera
Logo meu coração ateu
Se falo em mim e não em ti
É que nesse momento
Já me despedi
Meu coração ateu
Não chora e não lembra
Parte e vai-se embora"

Acredito que vai ficar bem.
Chris

Pelos caminhos da vida. disse...

Que essa semana seja repleta de gdes realizações e muita paz.

beijooo.

Anónimo disse...

Chris, eu sabia que não me ía tratar mal, como fez com as outras pessoas que foram especiais na vida dele. Tenho uma grande decisão a tomar: mudar de cidade; da pacatez do meu Mondego, para as àguas mais revoltas do Tejo. O Amor por vezes provoca verdadeiras revoluções nas nossas vidas. A minha está a sofrer uma grande reviravolta em tão pouco tempo.
Fui Coração Ateu devido a um grande desgosto de amor, que agora está ultrapassado, mas marcou-me a canção da Maria Bethania. Acho o poema lindo e acho que lhe posso dedicar a si.
Conheci no final dos meus 38 anos, a minha alma gémea, um Homem de uma rara sensibilidade, bondade e generosidade. Um Homem de um Amor Infinito.

Faça os possivéis por continuar nas nuvens, mas cuidado com os pensamentos delirantes. Sabe que quanto maior é o voo, maior é a queda...

Coração Ateu.

Chris disse...

Pelos caminhos da vida: desejo o mesmo para si... bjs

Coração Ateu: alguma vez eu trato mal um coração ateu? Nem pense, mesmo não sabendo quem é o seu amado, que fala com tanto vigor!
Vai ver que não vai ter mais nenhum desgosto de amor, penso que encontrou a sua meia-laranja, ou maçã, depende do paladar.
Um conselho amigo: venha já para Lisboa, não hesite, a vida é breve e o Amor, esse sim é eterno. Vai ver que vai gostar das águas revoltas do Tejo da minha cidade.
Prometo que estarei à sua espera de braços abertos...
Vou continuar nas nuvens, para assistir no meu camarote à sua chagada. Quando chegar diga, estou a preparar uma passadeira vermelha para si...
Vai ver que vai ficar bem.
Chris

rosa dourada/ondina azul disse...

Qual o momento certo ou incerto...?

Bela a tua postagem!


Beijinho,

Anónimo disse...

Quais os mitos, e/ou divindades que mais aprecia na mitologia greco-romana?

Pedrasnuas disse...

O TEMPO OXIDA O NOSSO CORPO...ENFERRUJA-O...
NÓS ARRANJAMOS UM RELÓGIO PARA MEDIR A NOSSA IDADE...OS NOSSOS GESTOS...E DEIXÁMOS O TEMPO TOMAR CONTA DE NÓS...MAS É POR DENTRO QUE SE DÁ A GRANDE CALAMIDADE...
HOJE SINTO-ME TÃO DISTANTE DO QUE FUI...FOI OUTRO TEMPO...TÃO DIFERENTE...
E SERÁ QUE O AMOR CONTINUA IGUAL NO TEMPO,NÃO SE OXIDA?
FUGIR PARA ONDE?
O TEMPO APAGA A JUVENTUDE...OS ROSTOS ALTERAM-SE MESMO...
OS DOS AMIGOS E DAS MULHERES DOS AMIGOS...
OS OLHOS SÃO OUTROS, AS IDEOLOGIAS TAMBÉM
ACREDITO QUE SE RENASÇA DE UMA FORMA DIFERENTE, PENA QUE O CORPO JÁ OXIDOU...TALVEZ SEJA O CASTIGO PROMETIDO NO INÍCIO DOS TEMPOS AO ADÃO E A EVA...

BEIJINHO

Chris disse...

Rosa Dourada: o momento certo e momento incerto? - a resposta, se é que ela existe, está dentro de cada um de nós, cada um reconhece o seu eterno "Momento Certo"...
Um beijinho para si e tudo a correr bem.

Anónimo: a mitologia personifica tudo o que somos, no melhor e no pior. Prefiro a mitologia grega à romana - o mito de "Orfeu e Eurídice", por exemplo, fascina-me. Orfeu (poeta e músico: filho de Apolo) olhou para trás e perdeu para sempre a mulher que sempre amou - Eurídice. Por isso, alguns homens personificam o mito de Orfeu, procuram assim dar um sentido de eterno retorno à sua parca existência. É mais fácil fingir não amar, do que amar e perder o chão, a terra... perder tudo. No fundo, Orfeu quis ter a certeza que Eurídice o seguia, e quando a olhou para trás, perdeu-a para sempre...
Pois é, e assim alguns homens persistem na estupidez até uma próxima reencarnação... mas esquecem-se que esta pode ser a última vez que uma qualquer Eurídice os chama para o eterno retorno mitológico... Gostava que a minha resposta fosse inocente? Pois, a idade da inocência passou... será?

Pedrasnuas: profundas e sábias as suas palavras... existirá mesmo um castigo prometido? Não sei, quero acreditar que não. Sei que o Amor não oxida, sei que nunca deixamos de amar quem sempre amámos, independentemente do tempo, pois o tempo é uma abstracção humana. O tempo ilumina e aprofunda o olhar que nunca envelhece, pois o olhar não tem rugas, aprofunda-se, torna-se Mestre...
Muito obrigado pelas suas palavras e interrogações...
bjs

Anjo Azul disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anjo Azul disse...

Tanta demência, tanta tristeza que paira neste blog e os seus leitores nem se apercebem...só quem o conhece, a ELE, sabe o mal que a Chris lhe faz, assim como aos que lhe são próximos. É essa a imagem que quer manter de si? De alguém insano, doente, sem vida própria, que inferniza a vida a alguém que de si, só quer distância e silêncio...?

Anónimo disse...

LEITURA: Biografia e obra de Florbela Espanca

FILMES: "Atracção Fatal"

É o que me "fica" ao ler este blog, ao qual, aliás, não tenciono voltar - é demasiado deprimente!
Aproveite a vida sendo positiva e feliz e deixando que as outras pessoas também o sejam!

Anónimo disse...

Só contou parte do mito de Orfeu, deixe-me completá-lo.Orfeu desceu aos infernos por amor à Esposa, Eurídice (uma ninfa, ou uma filha de Apolo). Depois da parte do mito que contou, Orfeu tenta voltar para aos infernos, mas é-lhe recusada a entrada no mundo subterrâneo. Orfeu tem de voltar para junto dos humanos completamente devastado. A morte de Orfeu deu origem a muitas versões, mas a mais comum é que foi morto pelas mulheres da Trácia, que despeitadas, por Orfeu se manter fiel ao Amor da falecida esposa, mataram-no e despedaçaram o seu corpo.

Ainda hoje, o despeito e ressabiamento de algumas mulheres por um amor não correspondido leva-as a acreditar que o Amor é um estranho Homicida. São as mulheres da Trácia dos nossos dias...

Chris disse...

Anjo Azul: o meu espaço está aberto a todos os que o que querem visitar. Quem não quer, não é obrigado a passar por aqui! Ok? Não sei do que fala e não entendo o que diz, por isso, não comento o que não sei. Siga a sua vida, pois da minha cuido eu.

Anónimo: tem bom gosto, e se não quer voltar não volte, a mais não está obrigado. Seja feliz, é também o que lhe desejo.

Chris disse...

2º Anónimo: muitos são os anónimos que sobrevoam o meu (e dele!) "Momento Certo" desde meados da semana passada. Porque será? Até sei, mas não posso ainda escrever neste espaço, que vou manter público, sem subterfúgios maliciosos.

Adorei as suas palavras sobre o mito de "Orfeu"... talvez seja um homem ou uma mulher da Trácia...
Mas o Amor de que falo não existe para ser correspondido, esse tempo das correspondências e cartas sem endereço já passou. A velha história do Amor por cumprir, que até foi cumprido religiosamente, nas confissões denunciadas. Por isso, ainda estamos aqui.
Só nós sabemos porquê...
Chris

Anónimo disse...

Há um outros mitos que gosto particularmente: o de Mnemósine e o das Sirenes, conhece?

Quanto ao aumento substancial do número de anónimos, tenho uma ideia: Ele tem muitas pessoas que lhe querem muito bem. E você, ao ser tão intrusiva na vida dEle faz lembrar a personagem mitologica Mania- personificação da loucura.