quarta-feira, 24 de junho de 2009

Guardo-te



As palavras foram escaladas para outras páginas em branco, rios infindáveis que norteiam o fruto duma nova consciência, no momento a seguir à derradeira experiência limite, reconheço-me ao reconhecer a identidade esquecida da humanidade.

Por vezes, sinto que já não estou aqui, parti na bolha do mesmo sonho, tornando assim o tempo indefinido, abstraindo-me do espaço temporal, na busca impossível da perfeição orçamentada, afastando-me de congeminações interpoladas, polarizações estereotipadas de vidas primárias, sobrevivências risíveis na mera contagem das horas,

por isso, e por muito mais, as palavras teosóficas de H.P.Blavatsky, percorrem os silêncios audíveis.

Talvez “ele” esteja certo, o Amor é um estranho homicida, morte da qual alguns conseguem fugir, no engano do combate infrutífero, guerra onde só quem ama, perde… segundo a difusão mental que sintoniza as mentes pragmáticas, não as emocionais:

“Aquele que quiser ouvir a voz do Nada, o Som sem som, e compreendê-la, terá de aprender a natureza do Dharma… A Mente é a grande assassina do Real. Que o discípulo mate o assassino. Porque quando por si mesmo a sua própria forma parece irreal, como o parecem, ao acordar, todas as formas que ele vê em sonhos; quando deixar de ouvir os muitos, poderá divisar o Um – o som interior que mata o exterior… Antes que a Alma possa compreender e recordar, ela deve primeiro unir-se ao Falador Silencioso, como a forma que é dada ao barro se uniu primeiro ao espírito do escultor. Porque então a Alma ouvirá e poderá recordar-se. E então ao ouvido interior falará A Voz do Silêncio…”

H.P.Blavatsky (*) (1831-1891), in “A Voz do Silêncio” [1889]
(*) fundadora da Sociedade Teosófica




Guardo-te

És o texto preambular, poema encimado ao vento,
inelutável e recorrente sensatez de te querer perder
respiração submersa, adivinho-me no fundo do mar
como âncora embalada, estranho sonho de não te ter

Recolho-me quando alcanço o teu brilho solar,
para que não cifres o presente, rasgado no passado
estranhos temores, reflexos lunares, águas abissais
Inerte e imóvel, nuvem condensada num templo velado

Obrigo-me a morrer, vigilante na vida
Como castelos toscanos, sem golpes palacianos
Será isto amor ou sucessão de logros enganos?

Tento-me nos recomeços, sem prefácios
Pois reconheço nos teus passos essa nova intenção
E no intento do gelo quente, induzo a minha traição


Chris (2007)


Foto: [Guarda-jóias egípcio] - guardo-te assim, mesmo quando o meu telefone foi invadido por jornalistas, numa loucura absurda por ti inventada. Nesse tempo (ainda recente) guardei-me em mim, guardando-te assim... preservando o nosso momento certo. Continuarei a guardar-te como um segredo, num lugar certo, onde (re)conheces esse eterno momento...

18 comentários:

Fausto Sotam disse...

curiosamente moro em Oeiras,Paço de Arcos, no teu poema vejo que mais vale arriscar, que deixar tudo a perder , é uma boa lição, Abraços e muita Paz.

O Profeta disse...

Chegou ao fundo de mim
A melodia da chuva miúda
Lavou-me a alma, a saudade
Nasceu uma planta gerada do nada

Nasceu!
Nascem a todo o instante
Os sentires vindos da alma
Tatuados a cada semblante


Boa semana



Doce beijo

BAR DO BARDO disse...

Chris, sou simpático à Teosofia. Vi que também cometes sonetos e ouvi ainda alguns toques nos Portais da Percepção.

Eis um blogue virtuoso.

Namastê!

rosa dourada/ondina azul disse...

Continuas protegida, bem guardada... !


Bela postagem:)


Beijinho,

Anónimo disse...

Agorei sei que como és especial, sem palavras. Revigoras a minha alma, sou um previlegiado.
Abraços
António Coelho

Selena Sartorelo disse...

Mais do que coincidência, estou desde ontem preparando-me para ler sobre essa ciência e agora encontro parte disso aqui.

Gostei do texto e do poema que encontra meu pensamento com delicada exatidão.

beijos,

Pedrasnuas disse...

VIM APENAS ESPREITAR E ATRAVÉS DE UMA LEITURA ENVIESADA PERCEBI QUE TENS AQUI POEMAS INTERESSANTES ...HEI-DE VOLTAR COM MAIS TEMPO PARA TE LER COM MAIS CALMA...E COM PRAZER

BEIJUS

Moonlight disse...

O risco da vida está no propio arriscar.
Lindo o teu espaço.
Bonita a tua escrita.
Voltarei sempre que puder.

Um bj cheio de luar

MEL disse...

Também gostei muito de passar por aqui...quanta harmonia!:)

Texto para meditar e um poema profundo... eis-nos sempre na busca de guardar... guardar a vida que nos passa apressada, à boleia desse tempo (que tantas vezes nos é estranho de tão breve).

Parabéns pelo blog! Adorei a visita!*

Maria Valadas disse...

Deixo-me enlevar pela riqueza das palavras e pelo belíssimo soneto!

Soneto que transmite muita verdade!

Curiosamente... Aroeira?
Devemos estar perto uma da outra!

Beijos.

Siegrfried disse...

Muito bom o soneto...
Gostei essencialmente da postagem, talvez pelo seu alto teor reflexivo.
Abraços.

Paulo Celso disse...

As vezes eu sinto que não há continuidade, só atos isolados de vida.

Obrigado pela visita.
PS: teu blog continua muito bom

Baby disse...

É sempre bom haver um lugar certo ondre possamos guardar as coisas incertas que passaram por nós e se for num precioso guarda jóias egípcio, será de certeza o lugar mais certo...

Um beijo.

Papoila disse...

Olá! Este é o blog certo para meditar profundamente. O texto muito bem conseguido e muito profundo de um assunto que ando à descoberta. O soneto profundo muito bom.
O guarda joias egipcio uma preciosidade belíssima para guardar todos os segredos.
Beijos

Maria Valadas disse...

Passei para reler e desejar-te um bom final de semana.

Beijos.

Tatiana disse...

Chris...quanta preciosidade nessa postagem.
Uma viagem a sentimentos guardados na alma.

Desejo para você uma semana repleta de dádivas!

Um beijo carinhoso

Chris disse...

Obrigado a todos pelos vossos comentários que li com carinho.
Que bom estarem por aqui...

Bjs
Chris

Energia Universal disse...

Lindo isso.
Gostei muito, vou frequentar!
Muito mesmo..de tudo..parabéns!