terça-feira, 30 de junho de 2009

Elogio ou elegia?



Gosto de elogiar as palavras que me tocam, mas sei que o Amor é uma eterna elegia. Por isso, hoje fico-me pelos elogios, são mais leves, suaves, mais uranianos, menos plutónicos.

Ao lado do “Elogio da Loucura”, de Erasmo e do “Elogio da Sombra” de Jorge L. Borges, surgem mais dois elogios numa das minhas estantes, ambos do mesmo autor: Marc de Smedt , nomeadamente o “Elogio do Silêncio” e o “Elogio do Bom Senso”. O primeiro prendeu-me da primeira à última palavra, o segundo aguarda o momento certo, no rol infindável dos livros por ler. Esses estranhos objectos de papel e tinta que uso e abuso, como um vício bom, que o verdadeiro amor pode ser, longe de velhas elegias rendilhadas na desgraça. Hoje, sou mais de elogios, cansei-me de elegias, não confundo basismo com simplicidade, como alguém que continua a andarilhar no caminho do faz de conta, como uma bolha enganada, dum fogo que reconheço a verdadeira idade.

Os livros ganham vida nos sublinhados, quando os sublinho, anotando aqui e ali, com o mesmo fluorescente com que alguém também os sublinhava, talvez ainda sublinhe. Por vezes, uma ou outra noite deparava-me com os mesmos livros na mesa da sala, junto à colecção de cinzeiros que nada me dizia… mas os sublinhados sim, esses eram os mesmos em livros iguais, sem que as duas partes alguma vez tivessem falado sobre o que andavam a ler e muito menos a sublinhar. Sempre fiquei a pensar neste intuito(s) coincidente(s), conhecido a posteriori das leituras. Nunca encontrei uma resposta para tais sublinhados plasmados sem plágio. Deve haver uma razão, longe de qualquer racionalidade conhecida… afinal, os livros são como cristais que devemos cuidar, protegendo-os do pó, da humidade e do sol, como pessoas que se deixam cuidar.

Nem sempre o Amor se deixa cuidar…
pois nem sempre os sentimentos e as emoções sintonizam a mesma oitava, como a indução da arte, na razão deduzida da mesma. Estranha arte dum caminho perene de lateralidades e literalidades que não devem ser charneiras, pois quem teme o Amor vive assim. Nunca um criador se deve envolver com a verdade aceite pela sua arte,
pois ambas anulam-se…
como o elogio e a elegia.



“… interrupção de um ruído, pausa na música; distinguimos sete silêncios: a pausa, a meia pausa, o suspiro, o semi-suspiro, o quarto, a oitava e a décima sexta parte do suspiro… “
Marc de Smedt (*), in “Elogio do Silêncio” [1986]
(*) escritor e jornalista francês.






Contam-me (de ti)

Contam-me de ti
Contos sem fim
Cores intercaladas,
palavras caladas

Contam-me de ti
Histórias roubadas
etérea prece antiga,
velha circular intriga

Contam sem contar
Tempos que desconhecem
Contam ao contar
Tormentos que padecem

Contam por contar
A idade que sabemos
nossa, ao contar
como amanhecemos

Contam sem contar
A tua face visível
Ilusão perdida
Noite previsível

De ti… em mim
Contam-me


Chris (2005)

26 comentários:

Angela Guedes disse...

Oi Chris, eu gosto de sublinhar os livros que amei e leio várias vezes as parte sublinhadas é verdade quando você diz que eles parecem ganhar vida quando fica uma anotação.
Beijinhos
Ângela

Anónimo disse...

Chris, não há nada mais triste do que alguém fabricar e viver na mentira de um fantasioso "caso amoroso".

Coração Ateu.

Papoila disse...

Gostei de passar, de ter e de ver que há muitas palavras que podem ser lidas e sublinhadas por aqui.
Um beijo

BF

Pelos caminhos da vida. disse...

Gostei de vir aqui e conhecer seu espaço.

Obrigada pela sua visita.

Volte sempre.

beijooo.

Selena Sartorelo disse...

Olá Cris,
Uma sensiblidade lógica, na praticidade do entender.
Não é nem por perto óbvia ou comum.
Compreende claramente teu dizer.
Mas indiscutivelmente o ler saber.

Belíssimo e inteligente texto...

beijos

adelaide amorim disse...

Gostei de seu blog, Chris.
Obrigada pela visita e pelas boas palavras.

Beijo.

bruxamarytsha disse...

Nossa, que bela surpresa seu espaço!!!! Linda dissertação sobre livros, bateu de frente com o que faço com os meus, que se derramam pela estante, aguardam empoleirados na mesa para serem lidos, alguns cativos, relidos, e que tanto me ensinam sobre mim mesma e a vida, adorei aqui, estarei seguindo vc, e seu poema, maravilha, beijocas

Pedrasnuas disse...

HÁ MUITOS ANOS LI O ELOGIO DA LOUCURA DE ERASMO ...SEI QUE GOSTEI MAS JÁ NÃO ME LEMBRO ...A MEMÓRIA ATRAIÇOA-ME

OS LIVROS SUBLINHADOS?
NÃO SEI LER UM LIVRO SEM OS SUBLINHAR...TORNO-OS MEUS...

O AMOR AS VEZES NÃO SE DEIXA CUIDAR?
NÃO SERÁ POR FALTA DESSE MESMO AMOR?
POR TERMOS SIDO MAL AMADOS?
QUEM TEME O AMOR ARRISCA VIVER?
OU QUEM TEME O AMOR TEM MEDO DE SOFRER?
NÃO SERÁ O AMOR A CONJUGAÇÃO INEVITÁVEL DO ELOGIO E DA ELEGIA?

E TU QUE ME CONTAS DE TI?

FOI UM PRAZER...

BEIJO

viernes disse...

a estranha necessidade de fazer do tempo, palavras... Belo.

Giros os teus blogues, vou olhá-los com calma. Beijos

Lúcia Machado disse...

Obrigada pela sua visita :-)

E pelo gesto ao comentar :-)

Gostei deste cantinho, voltarei mais vezes...

© Piedade Araújo Sol disse...

gostei de visitar este espaço, gostei de ler, e pensei que afinal, não sou só eu que gosto de sublinhar, fazia isso quando estudava, e continuei e sublinhar tudo aquilo que me chamava a atenção, mas sempre a lápis, por vezes fui chamada à atençao quando o fazia(faço) em doc. ou contratos, enfim.

gostei tambem do poema de 2005. sempre actual.

deixo um obrigada!

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Chris disse...

Angela: então já somos duas! Tudo a correr bem...

Anónimo/a (Coração Ateu!!!): até gostei do seu heterónimo, mas não comento o que não entendo. Sabe que na vida, nem sempre o que nos contam é verdade... e verdades há muitas, e uma pessoa que deve conhecer ensinou-me a distinguir a verdade da mentira e muito mais que hoje diz ignorar. Isso sim, é triste.
Fique bem Coração Ateu!

Papoila: obrigado pelo seu regresso por estas bandas, é sempre um prazer ler o que escreve.

Pelos Caminhos da Vida: obrigado e volte sempre.

Selena: entre o dizer, o ler e o saber o meu obrigado.

Adelaide: obrigado e espero que volte a este espaço.

Bruxamarytsha: gostei da imagem de derramar livros pela estante. Sem dúvida que são grandes amigos, volte sempre e um beijinho.

Pedrasnuas: vale a pena reler o Elogio da Loucura. Passaram-se muitos anos (décadas!)até que o voltei a reler de uma outra forma, é um grande clássico da literatura.
Subscrevo as suas interrogações, pois pobres são os que vivem repletos de certezas. Provavelmente, o Amor é a conjugação de várias coisas que procuramos encontrar... Foi um prazer lê-la. Muito obrigado.

Viernes: fico à espera do seu regresso...

Lúcia: muito obrigado pelas palavras.

Piedade Araújo: e continuaremos a sublinhar, nas linhas e entrelinhas da vida. É sempre um prazer ler o que escreve. O meu sincero obrigado.

Anónimo: removi o seu comentário por respeito às pessoas que por aqui passam. Se tiver alguma coisa a dizer-me, dê a cara como as pessoas decentes.

Ana Tapadas disse...

Cristina:
Gostei muito das escolhas!
Borges é um dos meus autores preferidos ( «diz o que penso»)...
Gostaria de poder regressar. Quer trocar links?
bj

Anónimo disse...

Chris, por vezes desejamos tanto alguém que confundimos a ficção com a realidade; a mentira com as verdades e construimos um enredo do qual a partir de determinado momento não se consegue libertar e aí começa a obsessão. Um desejo de "amar" que foge ao controlo de tudo o que é racional e emocionalmente são. Queremos controlar e possuir o "amor" do ser que "amamos", mas que não nos ama.Então delineamos uma estratégia: massacrar, conhecer-lhe os passos, os lugares, as pessoas que o rodeiam e tentamos isolá-lo do resto do mundo, mas nem mesmo assim, o ser que tanto "amamos" retribui ou necessita da nossa atenção e muito menos do nosso amor. Deve ser deveras doloroso, e posso imaginar o seu sofrimento, frustração e angústia. Porque apesar de todos os seus esforços, o resultado é nulo.Para amar são precisos dois corações em sintonia. Não é o seu caso e você sabe disso melhor do que ninguém mesmo que se tente enganar diariamente.
Faça um esforço para ficar bem.

Coração Ateu.

meus instantes e momentos disse...

gostei do teu blog, foi muito bom vir aqui,
Maurizio

Chris disse...

Ana Tapadas: claro que sim... também gosto do Borges, é sempre bom sentir, lendo e relendo as pessoas que dizem o que pensamos, no mesmo sentido ou num outro sentido. Obrigado pela visita.

AnónimA: penso que sei com quem estou a falar, apesar do seu véu, na forma de heterónimo. Entendo o que diz, pode até estar cheia de razões face à suposta verdade que lhe é contada. As palavras têm uma alma, reconheço-as pelo recorte das mesmas, pelo ritmo, o tom, a pontuação...
Talvez tenha razão quando coloca o verbo amar entre aspas: pois amar é uma prisão, um estranho homicida, do qual nem todos conseguem (ou querem) libertar-se, mas o sentido inverso também acontece. Por medo de amar, cometem-se as maiores atrocidades, negando o amor da forma mais estranha. Conheço os dois lados...
Quem ama não procura retribuições, nem operações matemáticas, procura o coração amado e que sabe ser seu... Não tenha tantas certezas, ainda é muito (nova) para as ter, e a verdade desta história só duas pessoas a conhecem, e a isso chamo sintonia dum amor que tem sido anulado, mas não é nulo.
Fique bem

Meus instantes e momentos: ainda bem que gostou de passar por aqui, volte sempre.

Anónimo disse...

Chris, não dê voltas à cabeça a tentar descortinar quem sou, pois não sabe nada de mim. Uma coisa pode ter a certeza, não sou quem pensa. Mas sei quem você é.
O vosso "amor" não é nulo, tem razão, é inexistente. Nunca existiu enquanto exercício entre dois seres, apenas toma forma nas suas fantasias e devaneios.Você vive numa permanente espera do que nunca irá acontecer, pois o coração do seu "amado" já deve estar cheio, ocupado. O seu "amado"pode estar a amar, só que não a si.Já pensou nessa possibilidade? Que não seja o medo de amar, mas apenas que nunca a tenha amado a si, apenas a si?
E você, que, embora teimosamente, persiste na sua fantasia de um eterno retorno - que nunca terá lugar, porque nunca houve ponto de partida sequer-, terá de procurar uma vida própria, porque a Dele, eventualmente, poderá já estar completa e não haver lugar para si. Viva na realidade, abandone a ficção.

Faça um esforço por ficar bem.

Coração Ateu.

Anónimo disse...

Acho que uma pessoa que se convence que tem de ser amada à força não pode estar bem psicológicamente.Mais, penso também, que pela forma como divaga ao escrever(chega a não dizer coisa com coisa) está,sem dúvida alguma, muito doente. Quanto ao facto de ter retirado o meu comentário é cobardia. Em relação a dar a cara, pergunto, a que propósito? As pessoas que, no seu blog, escrevem coisas desagradáveis, além de eliminadas têm de dar a cara? Vá-se curar!!!

Chris disse...

Coração Ateu: que bom saber quem eu sou, mas engana-se em quase tudo o que diz. O Amor é um
único caminho traçado a dois, e não invente o que não sabe. O Amor sente-se, intui-se, não se deduz, não se escreve, muito menos por terceiros. Já pensou que é "ele" que pode estar a precisar da sua "ajuda técnica"? Como vê, sei com quem estou a falar.
Fique bem.

Anónima: quem se esconde no anonimato para insultar os outros, tem um nome. Não é benvinda a este espaço, o tempo do jardim escola já passou!

Anónimo disse...

Chris, sei bem quem é e não me enganei numa única palavra do que escrevi, o que acontece é que não se enquadram na sua obsessiva fantasia de uma história de desamor.Sei muito mais do que poderá alguma vez imaginar. O amor sente-se a dois, vive-se a dois, controi-se a dois e escreve-se sim, belas cartas de amor, poemas infinitos, romances fantásticos etc.As palavras fluem com grande leveza quando estamos apaixonados e somos correspondidos. Não é o seu caso, e a sua grande mágoa, ressentimento e raiva é essa: você não é amada por quem deseja. Não existe esse caminho traçado a dois, percorrido a dois, desejado a dois. Você está sozinha e é essa solidão que a consome em todos os momentos, quando se interroga onde ele andará, com quem estará, o que estará a fazer neste momento, em que pensará? Ele foge-lhe do controlo e você não aguenta isso, é a sua fraqueza, a sua fragilidade. Ele vai continuar a fugir-lhe do controlo, pois você não é, nunca foi e nunca será a dona do seu coração. Deve ser terrivel viver com esta verdade, daí refugiar-se na fantasia. Ele não precisa da minha ajuda, de outras coisas talvez...nunca o vi tão bem e feliz, julgo que as paixões têm esse efeito de constante quietude e felicidade no ser humano. Mas não se iluda, a nova paixão dele não é por si.
E uma vez mais lhe digo, você não me conhece, nem sabe quem eu sou. Sou o Coração Ateu.

Faça um esforço por ficar bem.

Anónimo disse...

Portanto o rapaz, porque é de um rapaz que trata este altarzinho, por lhe dar uma tampa passou a Deus da Crueldade, porque a sua vontade, que apelida de amor a 2 (alguém vai ter que lhe explicar que o amor tem a vontade de 2 e nunca de só 1), é este saco roto de palavras. Nunca vi tanta citação por m/m2 de blogoesfera. Mas este espaço dá-se a tanto, qualquer patetice cabe cá dentro. até o choro do despeito. Será que tem idade para perceber que o comboio passou no seu apeadeiro sem parar?
Também sou anónimo porque este mundo é feito de anónimos com alma. Passe melhor.

O Profeta disse...

Uma paixão desapaixonada
Uma razão desencontrada
Uma palavra vazia de sentido
Uma inquietação gerada do nada

A calmaria é o fim da tempestade
Ou será o princípio da tormenta?!
As velas recolhem o vento
Minha alma acolhe o que o coração inventa


Boa semana



Doce beijo

Anónimo disse...

O tempo do jardim escola já há muito que passou por mim. Entendo que escrever é "preto no branco".
Não tenho que usar termos que nínguem usa nem divagar para poder transmitir aquilo que penso.
Tenho pena de si pois vive fora do que é real;Tenho pena do homem que é atormentado por si...

Chris disse...

Profeta: obrigado pelo poema, é um anjo...

Anónimos (as): "ElE" já é crescido, não precisa de terceiras vozes, digo eu. Quanto ao bonito "Coração Ateu", quero que saiba que gosto muito de si... pode não acreditar, mas chorei quando foi injusta comigo, mas entendo-a...

Lídia Borges disse...

Maravilhoso poema.
As palavras tocam-nos!

Beijo

L.B.