domingo, 3 de maio de 2009

Saudades presentes...




Recordo o último Natal que passei contigo, dos três dias seguintes à última noite que passei nos teus braços, os mesmos que confundia com os meus, de tão parecidas que éramos (e sei que continuamos a ser…) por dentro e por fora. Os teus olhos ainda são os meus, iguais na tentativa impossível de conter as lágrimas, nos momentos de felicidade e de dor, éramos como irmãs cúmplices de tão próximas. Foi assim que acabou o ano de 1988, já sem ti perto de mim.

Foste e serás sempre a mulher mais bonita que conheci, que recusou nos anos 50 um convite para o cinema nos E.U.A. , o realizador que te pediu em casamento, mas o teu amor eterno por quem mais tarde seria meu pai, levou-te a ficar por aqui, neste Portugal em finais dos anos 50…

... na forma como acreditavas nas pequenas coisas, a simplicidade com que regavas as plantas pela manhã, o cheiro dos lençóis lavados, as sardinhas com pimentos assados na lareira a lenha na casa do tio, perto de Mangualde onde nasceste, dos nossos passeios pela Serra da Estrela, dos bordados de Tibaldinho... e Sintra, uns tempos mais tarde onde te reencontrei...

A tua eterna paixão por malmequeres... Recordo as tardes que íamos apanhar malmequeres, os vestidos sem conta que tive com malmequeres, nos ganchos, anéis, pulseiras, com a mesma flor cheia de pétalas, todas repletas das tuas mãos.

Aprendi muito com a tua breve história de vida… Tinhas tanta vida para dar, mas partiste tão cedo... Sei (porque sinto, era assim que falavas ao meu coração) que me ouves e falas comigo todos os dias, continuas a meu lado numa saudade sempre presente. Não sei descrever-te, pois nunca sei se falo de ti ou de mim, mas continuo a sentir-te… essa foi a grande herança que me deixaste…

As palavras a seguir são para ti...


Cada Ser Humano
é um Todo energético
dotado de um Centro

Centro Imutável
presente em toda a Mutação.

Atravessa o Tempo de Vida para Vida.

Para esse Centro Imutável
converge toda a experiência individual.

Dizem os Mestres chineses:
para que tudo mude,
é necessário que algo não mude.

Algo que sempre permaneça,
que segure o Movimento
além de toda a Mutação.

À Eternidade pertence o nosso Centro.
O nosso Ser Divino.

Algo em nós Eternamente Vivo,
sempre presente.
Algo que sempre Foi, É e Será.

Além do Espaço-Tempo
de qualquer Encarnação.

Centro-Imutável,
recebe a experiência
de uma Consciência em Expansão.



Maria Flávia de Monsaraz, in "Cosmos, Ordem, Matriz" [2000]



Foto 1: A mulher mais bonita do mundo, com a idade que tenho hoje...

Foto 2: Malmequeres...

Foto 3: Maria Flávia de Monsaraz (uma mãe adoptiva para mim...)

2 comentários:

Anónimo disse...

escreves com emoções, isso é bonito. adoro-te.)
Nuno

Chris disse...

Só tu... para dizeres isso.
Bjs
Chris