domingo, 10 de maio de 2009

Futilidades e um enigma.



Depois de um sábado movimentado, pois já ter passado a barreira dos quarenta com mais ou menos ternura, dá muito que fazer. Passei parte do fim de semana no ginásio: passadeira (45 m.), aqueles pedais que nunca sei o nome (30 m.), bicicleta (30 m.), mais aparelho aqui e ali. Depois do corpo, lá fui eu tratar do cabelo, máscara de jojoba quase 20 minutos, limpeza de pele com mil e um produtos, unhas, mais isto e aquilo. Quando olhei para o relógio já passava das 20,00 horas. Aos 20 anos bastava-me uma horinha de ginástica por semana e ficava tudo bem; aos 30 anos duas aulas de natação por semana eram mais que suficientes; aos 40 anos começo a perder (será perder?) cada vez mais tempo nestas coisas, pois não suporto a ideia que já não vou para nova. Assusta-me a ideia de envelhecer por fora, para usar taxativamente essa palavra terrível. Apesar das mil tarefas (serão supérfluas?) com que passei este Sábado chuvoso, a fazer-me lembrar os Açores (minha eterna paixão...) ainda consegui chegar a tempo ao jantar de família, pois amanhã partem para a casa do Douro. A minha madrasta (nunca gostei deste nome…) é uma cozinheira exímia, fez um bacalhau no forno com coentros, que sabe que adoro (lá se foram algumas calorias dum dia de ginásio), mais um bolo caseiro de noz como só ela sabe fazer (contive-me e comi só uma fatia), mas fui obrigada a trazer para casa mais uma série de fatias, que foram directas para o fundo do congelador (sei, que ela não vai ler isto!) para só as encontrar daqui a algum tempo. São só futilidades que estou para aqui a escrever, mas também fazem parte da vida.

Regressando a mim, posso dizer que já passa da 1.30 da manhã e sei que a esta hora, alguém procura por mim, num espaço que deverá estar quase vazio, cheio de cheiros com os quais não simpatizo. Detesto o cheiro a cerveja, o cheiro a suor de gente demasiado popular, o cheiro a algodão doce e pipocas enjoativas. Não gosto, sou assim! Gosto de ambientes intimistas e requintados; confesso que gostei do que lhe transmiti em segredo em Leiria há poucas semanas (apesar, da Medusa inconveniente e indesejável...), do que vi em Almada há alguns meses (nunca soube que estive lá, como entrei cilindrando a "engraçadinha" a vender bilhetes, que sendo pouco inteligente, não percebeu que era eu...), do que senti no centro de Lisboa há mais de um ano (o disfarce imperfeito, deu para me reconhecer...), são tantas as estórias que tenho para contar, locais que ninguém sabe que estive lá, para lhe devolver a energia, que me sugou em outras vidas...

Recordo-me de terrinhas perdidas no mapa, as quais não irei revelar, por enquanto. Posso falar, duma queda que quase dei quando subi umas escadas de madeira todas tortas, para chegar ao local onde ele estava depois daquela algazarra sonora e popularucha. Mas fazia tudo por ele… se não fosse o rapazito com uma fita na cabeça que nesse tempo era “manager” do ser, teria dado uma aparatosa queda naquelas escadas retorcidas. Antes do “chinfrim “ ficamos no carro, enquanto me lia o horóscopo que recebia semanalmente do Paulo Cardoso. Dizia-me: “está tudo a acontecer!” Parecia uma criança com quase 50 anos, olhos a brilhar, toques de adolescente em mim, mas não percebeu o quanto o amava. Fui eu que lhe devolvi a maturidade, foi comigo que foi de rapaz a homem, algo que se tornou público e notório, mas poucos sabem que fui eu...
Sei, como fingi, como se fosse possível tentar continuar a fingir, nesta imensidão verbal.

Tocava só para mim o “Fingir” e chorava-me por dentro. Quantas vezes fugi daquela gruta, para que não soubesse o que sentia. Quantas vezes fixava os seus dedos dedilhantes de cordas erradas, para não subir até ao seu olhar… o medo que tinha de lhe revelar a minha única verdade. Até uma noite: foi por isso que me traiu sete dias e sete noites depois, foi por isso… agora sei.

Esta noite não fui para a minha verdadeira casa, estou na minha casa no bosque, talvez dos medos, onde vou ficar à espera que ele chegue, sem o ver chegar. No silêncio da noite, conheço todos os sons e movimentos deste local, o som do carro dele, as suas vibrações em mim, se chega sozinho ou com companhia, mesmo daquelas duma só noite...

Vou ficar na casa que arranjei, em regime quase de comodato, a escrever pela noite dentro ao som de Mozart e Ravel (um dia falarei da minha paixão por estes dois compositores…) e a reler Mia Couto

As noites recentes em que descia em teu peito para me procurar, até ao momento certo que me encontrei em ti…


Para ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida



Mia Couto, in “Raiz de Orvalho” [1981] (*)
(*) publicado em 1999.


Foto 1: sei,
Foto 2: por que sinto...

5 comentários:

Anónimo disse...

Só depois de ver o BI acreditei:)
mas o teu afilhado ainda é um puto,mas gosto do que vejo. bj
Nuno

Anónimo disse...

Passei por aqui e gostei do poema, nunca li nada desse escritor, fiquei curiosa. Boa semana!
Gaby

Chris disse...

Obrigado ao Nuno e à Gaby pelos mimos. Acredita que vale a pena ler Mia Couto...
Bjs
Chris

Babes disse...

Maravilhosamente escrito! Quase sentimos a "dor" da queda que (felizmente) não chegaste a dar...

E sim! Vale muito a pena ler Mia Couto!!

Beijo meu

Chris disse...

Babes: claro que vale sempre a pena, seja ela qual for, ler Mia Couto. Bjs.
Chris