quarta-feira, 20 de maio de 2009

Escrever para ti...





Escrever para ti é como uma pontualidade perdida, esquecida de mim. Rasto e raio de luz que sigo já sem seguir. Sentir-te é a expressão da incapacidade, cerceada à nascença, como um copo meio cheio, que poderá estar meio vazio. É igual, depende da perspectiva, do reflexo incidente no mesmo.

Escrever para ti é cortar o espaço físico que nos separa, recortar a energia emergente da nossa mente superior, tão próxima, mas tão distante. Gosto de ver-te caminhar em viés, calculando todas as pedrinhas do passeio, como se a tua realidade fosse universal.

Escrever para ti é moldar a intemporalidade que és, a incerteza tão certa do teu olhar, prefácio dum livro por acabar. Gostava de ser uma espécie de máquina sem coração, como se o sentir nascesse dele, mas não. Sentir-te não é um acto mecânico, a bombear o sangue que corre nas veias. Sentir-te vem duma outra dimensão, não sei definir tão estranha, mas certa sensação.

Escrever para ti é abandonar todos os arquétipos vigentes, todas as normas urgentes. Gosto da forma como agarras as folhas em branco que não encontras no quarto a meio da noite. Desces as escadas de madeira, buscas folhas soltas no escritório, notas sonoras que enlaçam o silêncio, num outro compartimento da casa vazia… pois tu já não estás lá, foges de ti no caminho da criação, emprestas-te à arte como vidente proclamado.

Escrever para ti é estampar a virtualidade dum futuro sem projecções, derreter o passado como barras de ouro em bruto, e deixá-lo correr como um rio dourado para o eterno momento do presente. Rios do mesmo tom que ainda ondulam as ondas do teu cabelo, marés vivas que exaltam as tuas mãos nebulosas, oceanos nórdicos onde o teu olhar mergulha, como gotas de safiras pálidas.

Escrever para ti é desnudar todos os bosques, onde pinheiros bravos crescem na aridez do solo. Onde sombras na noite escura passam, procurando encontrar-te, mas já não sou eu, que estou mergulhada no bosque... há muito que te reencontrei. Um dos pinheiros ainda me segreda sossegos, na noite azul que em mim converge, como as tuas arestas em forma de monge.

Escrever para ti é sustentar este momento certo, em palavras incertas que encenam o que já não queremos (será que alguma vez quisemos esta estranha história?), na compreensão dos fantoches do sistema, no formalismo hipócrita, tão mal desenhado na letra da lei medieval escrita pelos homens, na estupidez de seres que não passam de funcionários da vida, infelizes e apertados nos nós de gravatas cinzentas.

Escrever para ti é o meu voo para a liberdade, na velha estrada onde nos reencontrámos passados 21 anos, talvez para os lados de Sintra… escrever para ti é sorrir-me por dentro de felicidade, ao recordar os momentos a roçar a eternidade que passámos, e entender que ninguém conhece a nossa verdadeira idade…


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Génio da noite que os verdes sombreando
Entre os quebrantos do crepúsculo vais
Sedas de roxas sombras desdobrando
E torna mais profundos os pinhais.

As aparências em cinzas transformando,
Fundes as formas sobrenaturais,
A folha e o mar, o céu e a terra quando
Brilham da lua os mágicos metais.

Génio da eternidade enternecida,
Dá-me do sonho a loucura exacta
Que liberta a alma taciturna.

A ti me entrego na hora adormecida
De flores e estrelas que não têm data.
Tempo, deixa-me em paz. Eu sou nocturna.



Natália Correia, in "Sonetos Românticos" [1990]

9 comentários:

Anónimo disse...

É um prazer passar por este espaço, cada vez mais bonito com as suas palavras.
Abraço
Amtónio Coelho

Madalena disse...

Muito bem escrito e que bom é ler Amor. :)

Gostei também da ligação à Natália.

Obrigada.

Mona Lisa disse...

Amei o texto!

Parabéns!

Viver para ti...é voltar a viver!

Bjs.

Papoila disse...

Uma agradável surpresa este passeio pelo Momento Certo.
Um texto maravilhoso!
Parabéns!
Vou linká-la para a não perder de vista...
Beijinhos

Milésimo disse...

Escrever para ti...
Foi escrito por ti?
O texto é muito bonito, gosto do teu modo de escrever.
E vou voltar...

Bj

mundo azul disse...

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...bonito! O amor inspira mesmo!


Beijos de luz e um domingo feliz...


Zélia

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Anónimo disse...

Conhecer o momento certo,súbtil nas palavras e nos gestos.
bjs,)
P

Dois Rios disse...

Oi, Chris,

Escrever é meio que uma catarse. Eu diria que é um momento de rara e intensa aproximação, ainda que falte o olhar do outro.

Gostei muito das suas palavras.

Um afetuoso beijo,
Inês

p.s. Muito obrigada pelo carinho da sua visita.

Chris disse...

Obrigada a todos pelos comentários e palavras. O "Momento Certo" agradece. Bjs para todos!
Chris