segunda-feira, 25 de maio de 2009

Entre o Momento Certo e os Momentos Incertos



Criei este espaço num tempo entre parêntesis, um tempo durante o qual alguém pensou que eu era “ela”. Agora sabe que sou “ela” na inversão do momento certo, tempo onde tudo perdi para nada querer ganhar. Na plena devastação de mim, foi escrita a primeira palavra, como uma aragem densa, paragem do tempo a que chamei de “Momento Certo”. Não vou encerrar esta porta, pois não sou de fechar portas, mantenho-as sempre entreabertas, mesmo quando o lado lunar dos homens denuncia o silêncio, na denúncia duma acusação invertida, águas dolorosas, agora com um sentido, rumo para uma consciência uranizada. Estranha crueldade manuscrita, pleno conhecimento de quem sempre fomos, rodopiando nas palavras escritas, escrita laminada e lavrada a sangue na pele, pelo Deus da Crueldade.

O “Momento Certo” é o meu momento, onde toda a eternidade tem um sentido, onde os olhos do meu amor repousam do outro lado da cela já sem medo, prisão de quem guardou no olhar o medo de amar, cela entreaberta, sem grades, moldada no eterno cuidar do agora

… é o momento da cumplicidade invertida, o momento das palavras quietas no movimento de nós, como se cada momento fosse o fim dum intervalo, proposto pelos Deuses, estranha dança de sinais, onde a planificação do arquitecto do Universo frutificou no novo edifício, onde as águas correm à solta, sem hiatos

… é o momento do acolhimento quente dum único amor, dum amor transversal a todas as vidas, um clamor imenso na luz reflectida do azul que chega a mim todos os dias, aparência tocada por dentro dum corpo com idade, duma alma sem rugas, que reconheço no eterno “Momento Certo”.

O “Momento Certo” sobrevive no eterno momento do agora, mantendo-o em segredo, guardado no anonimato, como um diamante se tratasse, diante do qual desnudo o que resta do pudor que restou de mim…

O “Momento Certo” continua na profusão das águas que correm na poesia em prosa, na prosa poética… na cor das palavras, dos sons, na tela pródiga das formas e dos tons, no voo lasso dos nós de nós, no soltar amarras de todos os cais, e partir sempre… nunca chegar.

O “Momento Certo” permanece o meu único lugar certo, local sagrado que reconheci nas asas dum anjo, que me desvendou uma outra existência, para além da linha do horizonte, tracejo em esboços sublinhados pelo seu olhar em mim, como luz pálida e devolvida no momento certo.

O “Momento Certo” é o momento onde guardo cumplicidades, de quem já sabe que não sou ela… Circulou-se do que nunca fui, agora circunda-se do que sou…

Os momentos dos outros, momentos fugazes e incertos, na área da justiça, da política, do quotidiano, das pinceladas de análise económica e social, têm a partir de agora um novo espaço: www.momentosincertos.blogspot.com

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O meu Amor permanece à nascença do momento certo

como prova duma pérola, não a última, mas a primeira

palavra precursora, reconhecida como o velho pinheiro…


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A lágrima que pousa no papel: a tua
mão tão longe. Esse é um caderno de
linhas que também não se encontram

e a minha mão escreve o teu nome às
cegas numa delas. Vê – a lágrima é
uma lente que multiplica a dor, toda a
saudade do mundo cabe nessa palavra.



Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]

10 comentários:

Anónimo disse...

És uma surpresa todos os dias, daqui a 20 anos quero ser como tu.
bj
Nuno

Baby disse...

Perdi-me na leitura das tuas palavras, tão prenhes do teu sentir. Revi-me em muitas delas,conheço por dentro esses momentos certos que a dada altura de vestem de incertezas e nos atiram para a terra de ninguém, entre o certo e o incerto...
Gostei muito, e da tua visita também.
Um beijo.

Chris disse...

Nuno: daqui a 20 anos vou estar velhota e tu um quarentão todo giro... beijinhos

Baby: obrigada pelo comentário e pela tua interpretação pessoal do que escrevo... a poesia também é assim, suscita diversas leituras, como a vida...
Volte sempre.

Xana disse...

Os momentos certos, são todos aqueles que bem vividos, os outros serão sómente momentos :)
beijinhos e obrigado por te reunires aqueles que me leem

boa semana

Chris disse...

Obrigado Xana pela visita e pelo comenário. A noção de momento certo não coincide em todos nós... mas todos conhecemos o "Momento Certo"... bjs
Chris

mundo azul disse...

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Bonitas as palavras do seu texto!

Belas imagens que fazem jus às suas palavras...


Beijos de luz e o meu carinho!!!

Zélia
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Papoila disse...

Tenho andado muito ocupada e com pouco tempo para visitar os amigos. Foi o momento certo para hoje passar aqui para te dar um beijo e ler este belíssimo texto.
Beijos

Kate Rose * disse...

concordo perfeitamente. :)

*

Chris disse...

Obrigado Zélia pelas palavras, mais uma vez...

Papoila: é só mais um texto, simples, cuja decifração é como a poesia, cabe a cada um... pois só o inspirador das palavras do mesmo, reconhece o verdadeiro sentido do mesmo...

Kate Rose: obrigado pela primeira visita ao "Momento Certo". Volte sempre.

Chris

Pedro Viegas disse...

" ...é o momento da cumplicidade invertida, o momento das palavras quietas no movimento de nós, como se cada momento fosse o fim dum intervalo..." "...estranha dança de sinais..."

Com frases destas cativas o leitor e "obrigas-nos" a acompanhar-te nos teus textos de grande profundidade.

Mesmo em desespero de alma, o coração pode ser de cetim.

Bem haja!

JP