quarta-feira, 13 de maio de 2009

Entre a fé e o sacrifício.



Nos últimos tempos ando demasiado imbuída, mergulhada em tantas interrogações, algumas verdades reencontradas, outras novas descobertas, como o sentido da vida, a ascensão em vidas passadas e a sua materialização no nível de consciência no momento em que encarnamos, qual o sentido da fé... o encontro que tive em mim dum Deus que não tem religião, nome, raça ou sexo, que faz parte de mim, que vive dentro de mim, nomeadamente depois de ter conhecido de perto até onde a crueldade pode chegar…

Mas não é de mim que hoje quero falar, mas duma forma indirecta também. Passei o dia a pensar, como vou expor uma matéria sobre o chamado “principio da independência” – dos tribunais, por exemplo, como refere o artº 203 da C.R.P., onde se plasma a independência dos tribunais e a sua sujeição à lei. Como pode existir independência se existe uma submissão, uma dependência à lei? Sabemos que quem elabora e “deselabora” leis, algumas delas inaplicáveis, excessivas, desenhadas a preceito para apadrinhar (será amadrinhar?) este ou aquele, nada têm de gerais e abstractas como na teoria se aprende. A personalização e concretização abunda na desbunda a que tudo isto chegou. Temos portanto senhores juízes, no seu discurso quase monocórdio, dizendo que estão sujeitos à lei, claro que sim! E a consciência onde fica quando aplicam leis que vão contra aquilo que pensam… É uma forma fácil de estar na vida, comodamente instalados, pois desculpam-se com os políticos, existindo um certo receio corporativo em denunciarem o que está mal no sistema judicial português. É preciso arregaçar as mangas e colocar os muitos pontos nos “is” que faltam por aí. Aprendi em sociologia (desisti do curso logo no 1º ano, pois nunca consegui perceber nada de estatística e cálculos probabilísticos) que as revoluções nascem na base social e o poder instituído cristaliza as cúpulas, desse mesmo poder.

Gostei hoje de ouvir o ”meu bastonário” chamar os bois pelos nomes, como é seu hábito, relativamente ao caso do procurador Lopes da Mota. Algo vai mal neste sistema, pois urge mudar o estatuto dos magistrados do M.P., e não só, digo eu. Vamos ver em que vai dar o processo disciplinar instaurado contra o referido magistrado, pelo conselho superior do M.P., proposto por alguém que muito prezo: o Dr. Pinto Monteiro. Conheço alguns magistrados do M.P. que bem precisam de processos disciplinares e alguns mais que isso, pois o que tenho assistido na prática, é de bradar ao céu no qual tanto acredito. Vou ter que esperar pelo momento certo, pois mentiras desgarradas destes senhores, não!

A prosa já se estendeu pela noite dentro, pouco escrevi sobre o que me propus inicialmente: a distância que vai da fé ao sacrifício, relativamente às imagens que assistimos nas peregrinações a Fátima e a outros locais ditos sagrados. Terá que ficar para outro momento, pois não entendo a vida com um sacrifício, espécie de teoria retributiva das penas criminais, sendo tudo isto profundamente medieval, para não dizer primitivo. Respeito e entendo as pessoas que caminham quilómetros para chegar ao santo local do seu destino, mas para mim não faz sentido. Deus não nos pede sacrifício, Deus não nos pede nada…

Existe alguém que não entende isto, acusa-me, numa atitude completamente medieval, como se o Amor ainda fosse um estranho homicida... Por isso, iça singelos "poemas", como se de um atentado terrorista à humanidade se tratasse.
Será sempre assim, até tocar de novo o Amor que alguém lhe roubou noutra vida... Nada acontece por acaso, começo a entender o padrão kármico que nos juntou, o mesmo que nos afastou...
Há momentos em que tudo fica tão claro e leve dentro de mim...


Continuo a ler poesia de Mia Couto, pois fazem sentido as palavras e as falas trocadas, até ao momento certo...



Nocturnamente


Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces



Mia Couto, in “Raiz de Orvalho” [1981] (*)
(*) publicado em 1999.



Imagem 1: Om Mani Padme (mantra)

Imagem 2: P.P.Rubens (Pintor flamenco-maneirista: 1577 - 1640), sem dúvida um dos meus pintores preferidos. Gosto muito desta tela, exposta na Galeria Nacional de Arte, em Washington. "Lyon" [1612-13] - uma verdadeira pérola, faz-me lembrar o olhar de alguém...

Sem comentários: