terça-feira, 5 de maio de 2009

Daquilo que eu sei...



Daquilo que eu sei... de ter sobrevivido à tormenta da crueldade com que alguém tentou acabar com a minha vida (agora sabe quem é a Medusa e quem é Atena), das conversas com sons trocados por fora, das energias observadas por dentro, do momento certo revisitado, com o ser errante nas nossas costas.

Alguém devolveu-me assim, a força que perdi no cansaço, deu-me em bandeja de ouro o que sempre soubemos como um diamante em bruto a rasgar a alma, como pele em sentido invertido.

Esta noite, disse-me que aquela coisa mal acabada, nunca foi nada para ele, mera raiz estilhaçada, que adormeceu no sono errado. Agora entendo como a dita espinha quebradiça, enrugada estaladiça, abalroada na liça, com aquele olhar oco e distorcido pelos decibéis irritantes de voz fosca, mergulhada na opacidade e vulgaridade, nunca passou duma troca no momento errado.

Alguém permanece a mais nesta história, como moeda falsa e mal cunhada, vil metal de olhar enviesado, como viela perdida em bairro mundano.

“ela, depois da minha presença real, sabe que ele mente
ela, a seguir às mentiras estonteantes, advinha-o presente,
em mim."


Partilho tudo na vida, menos o que não é partilhável…

O Amor é uma incursão no tempo conjuntivo alternativo, não estrada aditiva como a Medusa quer… Não!


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Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza
Nem tudo foi permitido
Nem tudo me deu certeza

Daquilo que eu sei
Nem tudo foi proibido
Nem tudo me foi possível
Nem tudo foi concebido

Não fechei os olhos
Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah Eu!
Usei todos os sentidos
Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo


Vitor Martins e Ivan Lins, in “Daquilo que Eu Sei” [1981]



Foto 1: O Céu nunca se engana
(eu e ele sabemos... que a Medusa está a mais)


Foto 2: Medusa [1598] de Caravaggio [Milão: 1571-1610].
Galeria Uffizi, em Florença(*)

(*) Perseu matou-a enquanto dormia, por isso, a Medusa errante leva-o para a sua cama quente, como espantalha venenosa. Procurou a petrificação de Perseu, nas duas noites (há pouco mais de uma semana...) que passou com ele.
Perseu cumprirá a profecia e dará a cabeça da Medusa à Deusa Atena.
O Momento Certo aproxima-se,
eu e ele sabemos, daquilo que sabemos,
pois o Céu nunca se engana...

2 comentários:

Anónimo disse...

Quem é a Medusa? Carvaggio é um grande pintor, sem dúvida.
Bjs
Gaby

Chris disse...

Caravaggio... é assim que se escreve e sei que tu sabes, estas coisas do "computer", adoro o cheiro e o toque do papel...
Sabes que nem aprecio a pintura dele, demasiado sinistra e perturbante... mas tem algumas telas a tocar a alma. Os génios da arte só o são às vezes, induzidos por Musas secretas que rejeitam. Caravaggio é um deles, genial em duas ou três telas, só isso.
A Medusa é uma personagem que criei numa estranha obra ficcionada ainda em ebulição...)
Chris