quinta-feira, 9 de abril de 2009

Olhos ácidos (que foram doces).




Ele continua a mentir-se por dentro, tentando convencer-se a si e aos outros da inexistência inalada de mim, que o colhe e tolhe constantemente em segredo. Tenta ludibriar o sentir, inverter o invés de si, rasgar o brilho que continua a irradiar-nos quando nos cruzamos, tenta o que já entendeu que não vai conseguir muito mais tempo. Escreve no avesso da tela, com costuras visíveis, mas os alinhavos começam a tornar-se roçados, contra-pontos provisórios do nosso Amor.

Permanece suspenso na inversão das palavras escritas, guarda em segredo os poemas de amor que me escreve, até o momento certo, como o olhar corrosivo que me quer mostrar do lado de fora, camuflando o olhar que sabe que sempre segui e conheci...

O tempo relativiza as factualidades, como as fotos que tirei há 22 anos para uma campanha de “batons”, cheguei a ter mais de 2.000 batons... Recordo-me como o meu pai me cortou a mesada e quase me pôs fora de casa, agora soltamos gargalhadas sobre tais acontecimentos, confortavelmente instalados no sofá da sala. Hoje, só uso batom para o cieiro...

O poema seguinte liberta as palavras que gostava de escrever para os olhos ácidos, os mesmos que já foram doces, como há 37 meses quando adormeceu, esquecido de si em mim. Quero continuar a contar o tempo, como guardião dum segredo que ele continua a negar como um mantra, sei que terei de descobrir a conjugação sonora da revelação que me quer transmitir, o diamante da sabedoria invertido, como me confessou...

Ando a estudar alguns mantras, o mais conhecido é o OM, que simboliza a contracção das três letras AUM, que significa: “bem vindo ao divino”.
A: revela o despertar da consciência na dualidade - tese.
U: existe um estado onírico-psicológico da consciência, mas ainda dual - antítese.
M: corresponde ao estado do sono profundo, estado abençoado, onde a dualidade se dissolve. (Só neste estado nos deixamos adormecer suavemente no colo de alguém) – síntese.


Exortação ao Meu Anjo


Quando eu me deixar cair
No sonho de adoecer para poder dormir,
Fere-me com a tua lança!
Reaviva em mim a dor, fonte da esperança.

Quando a verdade, que é nua,
Me cegar como um sol, e eu me voltar para onde há lua,
E procurar jardins convencionais e plácidos,
Queima-me com os teus olhos ácidos!

Quando me for mais fácil a verdade do que ter
Um papel de actor qualquer,
Como aos que assim se recreiam,
Faz-me exibir-me bobo ante os que aplaudem ou pateiam.

Quando eu julgar, falando, dizer tudo,
Faz ante mim sorrir teu lábio mudo!
Quando eu me poupe a falar,
Aperta-me a garganta obriga-me a gritar!

Quando eu tiver medo do Medo
E acender fósforos nos cantos rumorosos de segredo,
Arrasta-me pelos cabelos
Para entre os pesadelos!

Quando, a meio da noite e da ansiedade,
Eu me rojar por terra e te pedir piedade,
Não me apareças nem me fales!
Deixa-me só com o meu cálix.

Quando eu te falsificar,
E alugar anjos de serrim para em seus braços me embalar,
Derrete o chumbo dessas casas:
Leva-me no tufão das tuas asas!

Quando eu enfim, não puder mais,
Por tuas próprias mãos belíssimas e leais,
E sem caixões nem mortalhas,
Enterra-me na terra das batalhas.

Quando, depois de morto, a glória
Me levantar o seu jazigo e celebrar minha vitória,
Desvenda os alçapões dos meus escritos
E arranca à terra que me esconde os mais secretos dos meus gritos!



José Régio, in “As Encruzilhadas de Deus” [1935]



Foto 1: Mantra "Om mani padme hum" (espero que ele o estude, para entender...)
Foto 2: Olhos ácidos...
Foto 3: Uma das fotos da campanha de há 22 anos...

5 comentários:

Anónimo disse...

Cheguei ontem, consegui as tintas nas cores que me pediste. Vais adorar! Tens que lá ir, vou enviar-te algumas fotos por e-mail.Grande poema do Régio:)
Gaby

Anónimo disse...

Gostei,muito...
Beijos Chris

Anónimo disse...

Li bem?????????? 2000 batons! As miudas de hoje têm 2000 piercings, agora 2000 batons, estás mesmo uma cota, gira à brava. Vou continuar a ser um puto para ti.
de quem tem 20 e poucos anos, mas que te adora.
Nuno

Chris disse...

Obg G. pela encomenda, ainda não vi as fotos...
Então Nuno? Sou do tempo dos batons, mas nada tenho contra os piercings e outras coisas que tais, desde que não seja em mim...
bjs.
Obg Chris pelo seu comentário, apesar de não estar a ver quem é, mas sendo minha homónima deve ser boa pessoa...
Chris

Anónimo disse...

Cristina:

Gostei do seu Blogue, compreendo o que diz da política, também passei por ela, mas há mais anos...
Gostava de conversar consigo.
Mais do que trânsitos há energias que nos envolvem e pedem urgente uma consciência do nosso ser profundo, da mulher liberta do medo, a mulher inteira que se vale de toda a sua força para SER ela mesma!...apareça...

um abraço
rleonor