quarta-feira, 15 de abril de 2009

Estranho mundo: da janela ou da TV.




Longe vai o tempo em que me envolvia em causas sociais, em campanhas políticas, em associações de defesa disto e daquilo, em filiações partidárias (entreguei o cartão há três anos), que não passavam duma dança saloia de troca de cadeiras. Este país está na miséria intelectual (e não só), mas o mundo não está melhor.

Cada vez mais, resguardo-me no meu mundo, no casulo onde ninguém me incomoda, onde só o meu gato me interrompe os silêncios, voltar a acender a lareira pois parece que o Inverno voltou aqui junto ao mar, ouvir Leadbelly a tocar no leitor de cd’s, as minhas velas e incensos preferidos, o livro que hoje comprei de Carlos Oliveira: “A Leve Têmpera do Vento” - Antologia Poética (comprar livros é um dos meus vícios avassaladores, não resisto mesmo…) está na sala a aguardar ansioso o desfolhar, a campainha que toca mas pelo vídeo da porta não reconheço e por isso nem pergunto quem é, a posta de salmão a grelhar (salmão é outro dos meus vícios, adoro salmão como simples peixe, fumado, em mousse, salmão assim e assado…), o telefone que desliguei pois hoje não quero ser incomodada por ninguém, as imagens que passam na TV da sala com os trambolhões do mundo, as guerras dos incapazes, as guerrilhas dos infelizes… e a chuva miudinha a cair lá fora.

Esta noite estou muito estranha, talvez ande por aí algum trânsito planetário que está em sintonia com a minha energia, ou será que sou eu que estou em sintonia com ele…

As notícias são quase sempre as mesmas: hoje falou o Dr. Vítor Constâncio (que já foi meu vizinho, mas não sei se ainda é…), governador do Banco de Portugal, nada de novo disse, a crise há muito está instalada e todos o sabemos, o risco real de deflação é cada vez mais real, o crescimento negativo de 3,5% do PIB, o investimento e o consumo a descerem, as exportações a caírem a pique, o desemprego a subir, as empresas a fecharem e não para obras, as famílias encurraladas no meio desta sombra negra… e eu na minha gruta como se estivesse a ver este filme estranho pela janela da sala, com o farol do cabo Espichel a piscar ao longe, como se soubesse onde ele está, como se ele me quisesse dizer alguma coisa...

Sinto-me, por vezes, arredada deste mundo pois não me apetece fazer parte dele.
Na TV pequena do escritório falam uns senhores sobre futebol, e esses é que não dizem mesmo nada, pois nunca vou perceber como conseguem falar e cogitar tanto sobre uma bola e uns tipos a correr atrás dela! Aceito quem gosta de futebol, mas estas conversas piores que do tempo das cavernas revelam o atraso deste quintal. No outro canal uns tipos andam à pancadaria num estádio de futebol, mudo outra vez de canal, e a palhaçada do costume das novelas e novelinhos da estupidez, mais outro canal e assusto-me com aquela senhora do PSD, que sinceramente, devia criar uma associação para a defesa da falta de estética. Aquela figura cinzenta e decadente com que agora tenho que levar todos dias naqueles horrorosos “outdoors”. A primeira vez que vi o cartaz foi esta semana ou a semana passada, não sei, mas aquele sinal de vitória amarelado no canto inferior direito, junto à sigla do referido partido, deu-me a ilusão óptica que a senhora tinha o patrocínio da “Playboy”, bem precisava! Dou mais um giro nos canais, enquanto espero a minha posta de salmão com ervas aromáticas, mas as histórias parecem vinil riscado: o caso BPN, o caso Freeport, o primeiro-ministro sempre com aquele sorriso forçado que já enjoa, o novo mapa judiciário, o julgamento da Casa-Pia só será depois das legislativas (grande novidade!), o preço dos medicamentos, a polémica dos genéricos e a ministra da saúde (outra que deveria embarcar), as crianças com fome nas escolas e a outra ministra, da "dita educação", dizendo que está tudo bem (esta deveria apanhar um foguetão e debitar a sua ignorância, noutro planeta). Só mesmo a voz de outro dos meus vícios "Leadbelly" repetindo "Tell me, Baby", consegue abrir-me o apetite para o jantar-seia. O forno já está “tlim-tlim”, o que quer dizer que o meu peixinho grelhado está pronto.

Estranho mundo este, ou serei eu que estou estranha?

Nunca leio livros de poesia de seguida, ou seja do início para o final, sou aleatória ao ler poesia, abri o livro e estas palavras despertaram-me para o sonho que tive a noite passada, onde tudo voltara (estranho tempo verbal...) a ser simples e perfeito entre nós. Talvez...


SONETOS DO REGRESSO

I

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

Carlos de Oliveira, in “De Cantata” [1960]
(Poeta: nasceu em Belém do Pará - Brasil, Agosto 1921 – faleceu em Lisboa, Julho 1981)


Foto 1: Esta noite sonhei com ele, estava tudo bem... estranho sonho ou será que a realidade é que é estranha?

Foto 2: O meu bebezinho...

Foto 3: Tristes tempos de campanhas políticas. Já não me interessam.

3 comentários:

Anónimo disse...

os gatos são um bem precioso...insubstituíveis...indespensáveis, sublimes...eles são de sírius, dizem, tal como os golfinhos...estão cá só para nos ajudar com todo o amor incondicional. Não troco a minha gatinha por nada!!
um abraço

rleonor

Chris disse...

Muito obrigado pelos seus dois comentários no meu blogue. Também terei muito gosto em conversar consigo, pois só conversamos uma vez quando do lançamento do seu livro. O meu mail está no blogue, será uma questão a combinar.
Tudo a correr bem!
Chris

Anónimo disse...

Subscrevo na totalidade as suas palavras, mas não se esqueça que que fazemos parte da sociedade enquanpo tal, está nas nossas mãos mudar o estado de coisas.
Abraço
António Coelho