domingo, 26 de abril de 2009

Ando assim...



Na sombra fascinante da noite, recortada na máscara por reconhecer, dissimulada na porta aberta da catedral, na estrada percorrida em segredo, nas tuas mãos mergulhadas na tradução da mestria, na iniciação sumptuosa das noites que foram nossas… só as noites são eternas, por entre as pedras da ternura. Estranho patamar de entrada, aquele do qual não passei, quando tocas-te a minha mão…

...depois das escadas de madeira, murmúrios dum mar longínquo esperavam-nos, como laços perdidos dum velho continente... Hoje, temos os nós por desfazer, com gente a mais enredada em cenários e cores que só nós conhecemos…

...no teu olhar ecoam todos os sussurros silenciados dessa noite, estranha congratulação dos Deuses, por entre os movimentos sublimes de seres angelicais, nas nossas mãos afastadas, existe um poema por desenhar nas pedras dum templo sagrado, do tempo das igrejas, do altar do olhar…
nasce um novo poema dentro de cada momento certo, uma moldura madura de palavras onduladas pelos pássaros feridos, que voam para o céu da dor, na transmutação dessa forma de sentir em Amor… somos palavras do mesmo texto, não sei donde vêm, para onde vão, sei deste Amor guardado em segredo...

No palco revestido do esquecimento, das gotas de água onde ando embarcada, nos clamores do fogo santo onde chamas por mim, infligindo assim a dor, na cominação do Amor, do medo de reconhecer o olhar azul revestido pelos traços do Velho Mestre, do olhar reencontrado na Serra Lunar...

...perder e ganhar tudo outra vez, mas neste jogo não há pódio, nem ódio, nem medalhas de ouro, só lágrimas em forma de diamante a florescerem, como flores encantadas no olhar dos anjos cálidos e pálidos, como tu... És anjo caído, com lágrimas internas contidas… esta noite em plena auto-estrada, não me reconheces-te, pois outro carro protege-me da minha identificação pública, como um invólucro do pensamento onde só tu entras…

...não me vês, sentes-me. Nesse momento (terá sido certo?) olhas-te o céu e dele caiu uma estrela, como uma Musa domada pelo seu criador, tomada pela morte do verbo fingir, como um sonho bonito que toca as formas do mar…

Como dizia Sophia: "tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso"

Quando ando assim, retomo sempre as palavras deste livro, onde desaguam palavras em forma de poesia, poemas que sempre escrevi por dentro sem nunca os conseguir escrever... assim
... nenhum nome depois... ninguém desiste do Amor, simplesmente abranda-se numa brandura aparente... assim



Não há mais nenhum nome. Depois de ti
destinaram-me apenas corpos que não amei,
rostos onde não quis pousar os olhos por temor
de os fixar, mãos que eram sempre as sombras
das tuas mãos sob os lençóis. Nunca sequer as vi,

nem toquei esses dedos que, no escuro, celebravam
na minha a tua carne - se outro motivo os trazia,
por mais vago, também não quis ouvi-lo, nunca
o soube. Depois de ti, depois dos outros homens,
é ainda o teu nome que digo, e nenhum outro.


Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois" [2004]


Imagem 1 e 2: Ando assim, entre a luz aberta e os templos secretos de nós...

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