terça-feira, 21 de abril de 2009

Ainda estamos em Abril?




Ainda estamos em Abril? Talvez, mas perdeu-se a emoção na violentação dos "funcionários da vida" que por aí deambulam. Não sei se tenha pena deles, se os ignore, se lhes deseje que mudem de vida, se quiserem...
Hoje, transcrevo parte dum texto que publiquei neste espaço em Maio do ano passado, dedicado ao meu pai. É mais uma homenagem que lhe faço ao Sr. Engenheiro (sim, porque as homenagens devem ser feitas em vida) que andou na construção da "Barragem da Bravura" em Lagos e nesse tempo conheceu de perto o Sr. Professor, que por acaso, era o Zeca...

"Não é por mim que hoje escrevo, é por ti… dos tempos que viveste na “Pensão Caravela”, em Lagos, junto do Zeca, que também estava hospedado na mesma pensão, a única que existia em Lagos, ainda longe dos turistas ingleses, do nosso Algarve daquele tempo, hoje sita na Avenida 25 de Abril, nos anos 50 ninguém sabia que aquela pequena Avenida em Lagos, seria um dia designada de 25 de Abril... será que foi premonição, ou monição sem "pré" da Vida... Talvez...
Das conversas que tiveste com o Zeca nesse final da década de 50, que conheço sem nunca ter conhecido pessoalmente, um dos homens mais importantes da cultura mundial, deixo aqui a minha homenagem, a ti PAI e ao Zeca. Conheço a obra do Zeca para além da que foi editada, conheço as histórias que me contaste desse tempo, em que ele era professor de Francês no Liceu... Dos tempos difíceis que se viviam... Lembro-me do Natal de 1971, tinha eu 5 anos, da tua alegria ao chegares a casa com uns discos de vinil debaixo do braço, um deles era do Zeca: "Cantigas de Maio". Naquele tempo, não percebi o brilho dos teus olhos, hoje entendo, mas há coisas que "desentendi"... como o sentido da vida e do Amor..."



Romance de Um Dia na Estrada


Andava há já vinte dias
Ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

Quando um barulho de cama
A voltar-se de impaciente
Me fez parar de repente
Era noite e o casarão
Não tinha lados nem frente
Dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente
Me fez parar de repente

Ó da casa, abram-me porta
Fiz as luzes se apagarem
Cheguei-me mais à janela
Vi acender-se uma vela
Passos de mulher andarem
E uma mulher muito bela
Chegou-se mais à janela
Chegou-se mais à janela

Não tenhas medo, eu não trago
Nem ódio nem espingardas
Trago paz numa viola
Quase que não fui à escola
Mas aprendi nas estradas
O amor que te consola
Trago paz numa viola
Trago paz numa viola

Meu marido foi para longe
Tomar conta das herdades
Ela disse "Companheiro"
Eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"
Ela disse "Companheiro"

A contas com a nossa noite
Afundados num colchão
Entre arcas e um reposteiro
Descobrimos um vulcão
Era o mês de Fevereiro
E o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão
Descobrimos um vulcão

E eu que falava de estradas
E só conhecia atalhos
E ela a mostrar-me caminhos
Entre chaminés e orvalhos
Pela manhã, sem agasalhos
Voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos
E ela a mostrar-me caminhos

Andarei mais vinte dias
Ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte



Sérgio Godinho, in "Os Sobreviventes" [1971]
(Uma das músicas da minha vida, a perfeita conjugação entre a melodia simples e a palavra dita na língua de Camões)


Foto 1: Abril, mês das papoilas... para mim, que não gosto de cravos.
Foto 2: José Afonso
Foto 3: Eu e o meu pai, lá para os lados de Lagos... corria o ano de 1974...

3 comentários:

Anónimo disse...

Abril mês de papoilas! Gosrei, sem dúvida que tem muito bom gosto na forma como mistura as cores e as palavras :)
abraço
António Coelho

Anónimo disse...

Passei por aqui e como sempre gostei; as telas estão lindas, tb adoro papoilas. Aparece cá no fim de semana se puderes.
bj
Gaby

Chris disse...

Obrigado ao António e à Gaby. Adoro papoilas, é verdade. Fazem-me lembrar Abril e tudo o que desponta de dentro...
Chris