sábado, 4 de abril de 2009

Abril, assim.




Gosto de sentir os cheiros, os olhares, captar a energia, seguir em frente, assim, ainda dorida mas sabendo que este é o caminho, gosto de Abril, não aprecio cravos, gosto de papoilas. Para mim Abril simboliza o nascimento de papoilas por todo o lado, até das pedras na berma da estrada, pois são flores silvestres, selvagens... nascem sem semente determinada, como este amor reencontrado, que até nas pedras procurou a justificação desse mesmo renascimento.

Por vezes, no meio da cidade de Lisboa, no influxo do trânsito parado, no flash do semáforo fechado, ou mesmo a abrir em alguma auto-estrada por aí, acelerar paralela ao mar (é uma das minhas paixões…), vidros fechados ou abertos, ar condicionado ligado ou não, sempre com as portas trancadas, que procuro entender o “social medieval”, deste pequeno Portugal, dos 35 anos depois da revolução dos cravos. O que pensará o mais comum dos cidadãos sobre todos estes senhores que nos governam e desgovernam…

No café onde por vezes vou, ali para os lados do Alto da Barra, a senhora que me serve café há quase 15 anos, perguntou-me hoje, o que era isso do Ministério Público, pois com estas notícias metralhadas quase ao minuto, grande parte das pessoas desconhecem como funciona o M.P., as pressões e depressões que sempre existiram, a sua orgânica estruturalmente dependente, as pessoas sérias e menos sérias que o integram. Existem verdadeiros cromos no M.P., uns com ar sinistro, outros pessoas de bem com quem se pode falar, outros que se acobardam nos furos que as leis lhes permitem, proferindo despachos com mentiras dedilhadas a preceito, desconhecendo o autor da prática dum suposto crime, quando o mesmo o confessa taxativamente. O referido magistrado lavra uma mentira escabrosa, referindo que desconhece quem é o arguido! Este é o circo do nosso sistema, algo que já denunciei à autoridade competente, mas quero levar isto ao conhecimento público, quando tal for possível, para que se saiba que estas coisas acontecem no dia a dia dos nossos tribunais.

Existem magistrados do M.P. aos quais coloco as seguintes hipóteses académicas: loucura, doença, incúria, desconhecimento ou mentira deliberada... muito mais poderá existir, mas fica para uma próxima prosa. Aceito todos os seres humanos como são, com as suas falhas e defeitos, com as suas grandezas e iluminações, mas a mentira deliberada e dilatória não aceito, consigo até aceitar a mentira infantil, inocente, sem laivos de perversidade, mas o despacho que este senhor magistrado proferiu é surrealista. No topo desta hierarquia, temos provavelmente um dos homens mais inteligentes e competentes, dotado duma grande capacidade de encarar as situações de frente, não aceitando esta espécie de feudo, onde circulam condes e condessas. Está na hora de mudar, mas a mudança nasce de dentro... não sei! Tenho muitas dúvidas, não chega ser "D. Quixote de la Mancha".

E estamos em Abril… dizem...

Não sendo o que acabei de escrever uma denúncia, será um alerta para quem lida com este sistema por dentro, cada vez mais viciado, hipócrita, incapaz de aceitar a emoção, positivista de leis prenhes de nada, preocupado com o bolso e com as bolsas onde se encerra, numa imunidade que não tem. A Drª Conceição Oliveira, que muito admiro, é um exemplo de dignidade, para quem conhece a sua história de vida. Talvez, seja um vício de pensamento, pois quando pensei candidatar-me ao CEJ, era para seguir a magistratura judicial, nunca a do M.P. Tomei a escolha certa e não fui por aí, hoje sei que seria incapaz de desempenhar tal tarefa, pois essa competência, mais que simples atribuição, está dentro de cada ser na sua re-ligação a Deus, mas sobre esta questão falarei num outro momento, mais ou menos certo.

Confesso que por vezes, gosto de provocar, incendiar, domar o pensamento, acordar o sono, despertar a vigília… dum ameríndio duma outra vida, dum monge medieval, dum cavaleiro iluminado numa capela na Escócia, cartas do leste europeu, velho continente submergido... sempre o mesmo olhar que me segue... sempre, seja o sempre o que for. A eternidade existe, não se define, interioriza-se, acorda uma nova forma de inteligência, uma consciência emocional, da qual fala António Damásio, assim como a minha última descoberta: Eduardo Punset. Foi uma surpresa, quase devorei dois dos seus livros: “Viagem à Felicidade” e “A Alma está no Cérebro”. Hoje, comprei a sua última obra: “Frente a Frente com a Vida, a Mente e o Universo”, gosto de ser surpreendida, até pela crueldade humana…


Não Seremos Pais Incógnitos


Não seremos pais incógnitos
Netos de filhos ignaros
Mas nestes livros avaros
Só moralizam os tolos
Quem tem farelos tem quintas
Diz o bom rei ao soldado
No tempo em que o rei Fernando
Passava por ser honrado

No tempo em que Dona Márcia
Filha de Mércia Condessa
Cantava Chácaras do tempo
Em que era madre abadessa
Também depunha o meirinho
Filho de D. Charlatão
Há que vidas os não via
Mas sei de que filhos são


José Afonso, in “O Coro dos Tribunais” [1974] (*)


(*) Mais um daqueles discos que tenho em vinil, apesar de andar por aí um “ser” que não acredita. Este foi o meu pai que comprou, mas o disco duplo dos “Doors”, curiosamente “Absolutely Live” (será plágio?), juro que fui eu que o comprei no inicio dos anos 80... talvez o tenha que levar para um determinado local, servindo assim de prova, pois anda por aí um senhor imbuído duma loucura arrebatada por mim...


Foto 1: Abril, assim.
Foto 2: Papoilas...
Foto 3: Capa do disco: "O Coro dos Tribunais", da autoria de José Brandão.

3 comentários:

Anónimo disse...

ela agoniza porque não há tempo
ela sabe que ele não mente
ela instrui sobre o que ambos sentem
ela conclui que a outra apareceu para os afastar
ela não se importa nem vislumbra a quem possa magoar
ela contabiliza: menos que a outra e mais que ele
ela avalia a raiz quadrada dos astros no esquartejar da pele
ela acossa a liberdade vaga de toda a cor
ela erradica qualquer circunstância de amor
ela, se fosse outra, aceitaria o que se sente
ela, assim como é, recusa-se constantemente
ela não concebe porque que não está presente
ela percebe como sofre e que é por isso que o merece
ela julga que o conhece
ela vive do que prevê e acredita que o tem
ela não alcança o gosto de se ser diferente de 'alguém'
ela não se deixa viver
ela não consegue ser mulher
ela pensa que o ama como ninguém mais
ela gosta de o coleccionar, como às páginas dos jornais
ela devassa o espaço, segura que ele há de cair
ela mascara a idade, cega no caminho a seguir
ela permite-se gritar que chegou à conclusão
que a outra tentou, mas que é claro, foi em vão
e envergonha-se das vezes em que ele arrisca fugir
ela trespassa-se de brutal ciúme para o perseguir
ela não concebe que sendo a outra ‘ninguém’
tem na sua cama quente
(unido e sereno) o seu amante preferido
ela jura que ele a amará até mesmo depois de morta
e oferece o momento certo em que ele
(espontâneo e ileso) vem tocar a outra porta

Anónimo disse...

Nunca


Nunca um poema de amor poderá ser escrito
Para uma mulher sem olhos
Sem pernas, sem mamas
Que engana a sua própria alma;

Nunca um poema de amor poderá ser dirigido
A um aglomerado capilar com laca
A uma verruga de histeria apifarada
A um fungo que funga
A um odor empestado pelo vómito

Nunca algo disse e nunca nada direi
Que indique a essa mulher
O sentido cartográfico da minha existência:
A doença grassa
E nada me comove
Apesar da doença se mover por aí a contabilizar movimentos e respiração
Com sacos de mercearia cheios de escrutínios do além
A inventar o que não tem
Num riso de cadáver, hiena
No cinema intruso das sombras da noite

Porque não odeio, rejeito
Uso a palavra
Afasto o nauseabundo da paleta da minha vida
Nojo e perfídia insana:
Não é mulher nem é vida
É um tendão e nervo desossados
Prenhe e aborto da sua ilusão

Chris disse...

Grande ebriedade passou por aqui no último fim de semana, como um vendaval inóspito e árido. O primeiro comentário, escreve o que não sabe, o que não conhece, mascara-se de anónima, aqui não vou dizer mais, por enquanto. Quanto ao senhor anónimo, digo-lhe aqui: a sua depravação mental é total, o seu estado ebrioso (será Martin’s, será Gin Puro ???) desliza numa linha descendente, mas terá o privilégio de ter o seu “magnífico poema”em destaque neste blogue, quando a disponibilidade de tempo me permitir.
Chris