quarta-feira, 29 de abril de 2009

Andamos assim...




Na taça das tuas palavras encontrei há muito tempo, um sentido para as palavras que guardei no mesmo cálice primordial, sem nunca as proferir… até um dia, uma noite para ser mais precisa… Guardei a imperfeição na tradução deste sentir, sabendo que uma noite, a lápide viva da verdade seria desvendada, como véu ingurgitado em templos de chamas azuis e águas púrpuras mergulhadas nesse mesmo fogo regenerativo, operativo para além da razão, como uma das obras que me marcou: “Ísis sem Véu”, duma das minhas mestras : H.P.Blavatsky.

Nesse degredo secreto, existe o meu mar infinito do qual és parte integrante (serás ainda o mar em chamas?) revelado na noite que os Deuses escolheram para nós… Noite recente na evolução do tempo, até que uma pequena grainha seca interrompeu esse tempo, só nosso… sete dias e sete noites depois, conforme a profecia…

Agora entendo, que sou tudo para ti, pois se alguém vê a vida como um aparente nascer de sóis sucessivos, sem brilho, estética, equilíbrio, harmonia, mera revelação de quem nunca conheceu a progressão das formas mais sublimes que envolvem o pensamento, mera passageira no aproveitamento temporário de quem nunca teve, de quem nunca terá… nunca saberá qual a nossa história encenada por nós, entre os mesmos nós que retorcemos em nós, nós de nós, nós envolvidos por nós…

Esse ser que até pode ter algo de magnífico (mesmo sendo o oposto total do conceito de belo), demonstrou que desconhece que é mera intromissão consentida por nós, para a concretização da voz de todas as profecias, do profeta das velhas terras Celtas, do sangue judaico, da carne ariana, do silêncio transbordante do mar do Sul, do eco tempestuoso do mar do Norte, da densidade e intensidade vibratória do nosso "velho continente", terra em chamas regenerada, submersa pelas águas do sentir...

Alguns acontecimentos desta semana revelaram que o fogo continua a correr na água incandescente, entre a água e o fogo, a sabedoria e o conhecimento, entre os “vigilantes místicos” (não ocultos) de si próprios, na expiação dos nós de nós, na Verdade que só Deus nos nós de nós conhece, no riso prosaico da indigente verdade humana… a verdade é uma mentira imperfeita, se fosse perfeita não era verdade… nem sempre a verdade se diferencia da mentira, por mera interpretação da teoria epistemológica da perfeição… hoje, releio Neale Walsch, como algo quase básico, palavras dirigidas ao grande público, esculpidas numa linguagem, banal pelo mesmo som que as palavras transpiram.

Esse é o risco da arte, de vestir obras com cópias do mesmo manequim, de ficar repleto de figurinos repetitivos... Nesse tempo (há cinco, seis anos...) reencontrei alguém que estava nessa curva de esgotamento criativo, nunca o disse... depois, percebi que tinha que fazer algo para poder crescer para o infinito à procura da criatividade quase perdida, esquecida, não sei. Foi com esta história que lhe devolvi a energia criativa de si... talvez em mim.

Talvez, seja o momento de se interrogar qual o motivo de tanta explosão telúrica entre nós? Esta estranha proveniência da nossa ascendência terrestre (Touro e Capricórnio), da evaporação da água pelo fogo, do apagamento do fogo pela água, anulando-se e renascendo em cada momento certo. Entre a água e o fogo, elementos descendentes, tendo a terra como elemento ascendente, consubstancia-se na energia que nos aproxima e afasta simultaneamente. Como se existisse um mar de fogo, como se as chamas desaguassem na praia deserta, como se a floresta terrestre estivesse mergulhada no fundo do mar... a arder.

Eu e ele somos assim… reticências no limite da possibilidade do impossível, espaços duma estranha temporalidade tempestiva, dimensão desconhecida na espécie humana, com o denominador comum do eterno retorno dos 12 anos (=3), constelação de cavalo, segundo o conhecimento oriental, com o sublinhado denso de ter (re)nascido na constelação de cavalo de fogo, que só regressa de 60 em 60 anos (=6), ou seja, segundo os cálculos perfeitos que a matemática ensina: 3 + 6 = 9, o eterno retorno aos tempos prenunciados, na premonição que já conhecemos.

Tem que se viver para poder contar… como diz a canção…

A diferença entre o conceito estético de belo e feio, entendi-o esta semana... definitivamente... eu sei... entre a primeira e a terceira existe a eterna anulação de ti em mim... juntos somos perfeitos, por isso, fugimos do engano que é a felicidade, pois um momento certo basta-nos!

Andamos assim…



Live to Tell

I have a tale to tell
Sometimes it gets so hard to hide it well
I was not ready for the fall
Too blind to see the writing on the wall

A man can tell a thousand lies
I've learned my lesson well
Hope I live to tell
The secret I have learned, 'till then
It will burn inside of me

I know where beauty lives
I've seen it once, I know the warm she gives
The light that you could never see
It shines inside, you can't take that from me

The truth is never far behind
You kept it hidden well
If I live to tell
The secret I knew then
Will I ever have the chance again


If I ran away, I'd never have the strength
To go very far
How would they hear the beating of my heart
Will it grow cold
The secret that I hide, will I grow old
How will they hear
When will they learn
How will they know


Madonna e Patrick Leonard, in “True Blue” [1986](*)

(*) mais um disco em vinil que guardo com carinho, faz parte das estórias com história da minha vida, dos meus 20 anos…



Foto 1: Nasa: http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/archivepix.htm

Foto 2: Andamos assim…

Foto 3: Eu, e os meus vinte anos :“Live To Tell”, hoje entendo como os homens podem dizer um milhão de mentiras, fingindo não amar, fugindo de quem amam… Hoje, já nada acho, sei.

domingo, 26 de abril de 2009

Ando assim...



Na sombra fascinante da noite, recortada na máscara por reconhecer, dissimulada na porta aberta da catedral, na estrada percorrida em segredo, nas tuas mãos mergulhadas na tradução da mestria, na iniciação sumptuosa das noites que foram nossas… só as noites são eternas, por entre as pedras da ternura. Estranho patamar de entrada, aquele do qual não passei, quando tocas-te a minha mão…

...depois das escadas de madeira, murmúrios dum mar longínquo esperavam-nos, como laços perdidos dum velho continente... Hoje, temos os nós por desfazer, com gente a mais enredada em cenários e cores que só nós conhecemos…

...no teu olhar ecoam todos os sussurros silenciados dessa noite, estranha congratulação dos Deuses, por entre os movimentos sublimes de seres angelicais, nas nossas mãos afastadas, existe um poema por desenhar nas pedras dum templo sagrado, do tempo das igrejas, do altar do olhar…
nasce um novo poema dentro de cada momento certo, uma moldura madura de palavras onduladas pelos pássaros feridos, que voam para o céu da dor, na transmutação dessa forma de sentir em Amor… somos palavras do mesmo texto, não sei donde vêm, para onde vão, sei deste Amor guardado em segredo...

No palco revestido do esquecimento, das gotas de água onde ando embarcada, nos clamores do fogo santo onde chamas por mim, infligindo assim a dor, na cominação do Amor, do medo de reconhecer o olhar azul revestido pelos traços do Velho Mestre, do olhar reencontrado na Serra Lunar...

...perder e ganhar tudo outra vez, mas neste jogo não há pódio, nem ódio, nem medalhas de ouro, só lágrimas em forma de diamante a florescerem, como flores encantadas no olhar dos anjos cálidos e pálidos, como tu... És anjo caído, com lágrimas internas contidas… esta noite em plena auto-estrada, não me reconheces-te, pois outro carro protege-me da minha identificação pública, como um invólucro do pensamento onde só tu entras…

...não me vês, sentes-me. Nesse momento (terá sido certo?) olhas-te o céu e dele caiu uma estrela, como uma Musa domada pelo seu criador, tomada pela morte do verbo fingir, como um sonho bonito que toca as formas do mar…

Como dizia Sophia: "tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso"

Quando ando assim, retomo sempre as palavras deste livro, onde desaguam palavras em forma de poesia, poemas que sempre escrevi por dentro sem nunca os conseguir escrever... assim
... nenhum nome depois... ninguém desiste do Amor, simplesmente abranda-se numa brandura aparente... assim



Não há mais nenhum nome. Depois de ti
destinaram-me apenas corpos que não amei,
rostos onde não quis pousar os olhos por temor
de os fixar, mãos que eram sempre as sombras
das tuas mãos sob os lençóis. Nunca sequer as vi,

nem toquei esses dedos que, no escuro, celebravam
na minha a tua carne - se outro motivo os trazia,
por mais vago, também não quis ouvi-lo, nunca
o soube. Depois de ti, depois dos outros homens,
é ainda o teu nome que digo, e nenhum outro.


Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois" [2004]


Imagem 1 e 2: Ando assim, entre a luz aberta e os templos secretos de nós...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Ainda estamos em Abril?




Ainda estamos em Abril? Talvez, mas perdeu-se a emoção na violentação dos "funcionários da vida" que por aí deambulam. Não sei se tenha pena deles, se os ignore, se lhes deseje que mudem de vida, se quiserem...
Hoje, transcrevo parte dum texto que publiquei neste espaço em Maio do ano passado, dedicado ao meu pai. É mais uma homenagem que lhe faço ao Sr. Engenheiro (sim, porque as homenagens devem ser feitas em vida) que andou na construção da "Barragem da Bravura" em Lagos e nesse tempo conheceu de perto o Sr. Professor, que por acaso, era o Zeca...

"Não é por mim que hoje escrevo, é por ti… dos tempos que viveste na “Pensão Caravela”, em Lagos, junto do Zeca, que também estava hospedado na mesma pensão, a única que existia em Lagos, ainda longe dos turistas ingleses, do nosso Algarve daquele tempo, hoje sita na Avenida 25 de Abril, nos anos 50 ninguém sabia que aquela pequena Avenida em Lagos, seria um dia designada de 25 de Abril... será que foi premonição, ou monição sem "pré" da Vida... Talvez...
Das conversas que tiveste com o Zeca nesse final da década de 50, que conheço sem nunca ter conhecido pessoalmente, um dos homens mais importantes da cultura mundial, deixo aqui a minha homenagem, a ti PAI e ao Zeca. Conheço a obra do Zeca para além da que foi editada, conheço as histórias que me contaste desse tempo, em que ele era professor de Francês no Liceu... Dos tempos difíceis que se viviam... Lembro-me do Natal de 1971, tinha eu 5 anos, da tua alegria ao chegares a casa com uns discos de vinil debaixo do braço, um deles era do Zeca: "Cantigas de Maio". Naquele tempo, não percebi o brilho dos teus olhos, hoje entendo, mas há coisas que "desentendi"... como o sentido da vida e do Amor..."



Romance de Um Dia na Estrada


Andava há já vinte dias
Ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

Quando um barulho de cama
A voltar-se de impaciente
Me fez parar de repente
Era noite e o casarão
Não tinha lados nem frente
Dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente
Me fez parar de repente

Ó da casa, abram-me porta
Fiz as luzes se apagarem
Cheguei-me mais à janela
Vi acender-se uma vela
Passos de mulher andarem
E uma mulher muito bela
Chegou-se mais à janela
Chegou-se mais à janela

Não tenhas medo, eu não trago
Nem ódio nem espingardas
Trago paz numa viola
Quase que não fui à escola
Mas aprendi nas estradas
O amor que te consola
Trago paz numa viola
Trago paz numa viola

Meu marido foi para longe
Tomar conta das herdades
Ela disse "Companheiro"
Eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"
Ela disse "Companheiro"

A contas com a nossa noite
Afundados num colchão
Entre arcas e um reposteiro
Descobrimos um vulcão
Era o mês de Fevereiro
E o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão
Descobrimos um vulcão

E eu que falava de estradas
E só conhecia atalhos
E ela a mostrar-me caminhos
Entre chaminés e orvalhos
Pela manhã, sem agasalhos
Voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos
E ela a mostrar-me caminhos

Andarei mais vinte dias
Ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte



Sérgio Godinho, in "Os Sobreviventes" [1971]
(Uma das músicas da minha vida, a perfeita conjugação entre a melodia simples e a palavra dita na língua de Camões)


Foto 1: Abril, mês das papoilas... para mim, que não gosto de cravos.
Foto 2: José Afonso
Foto 3: Eu e o meu pai, lá para os lados de Lagos... corria o ano de 1974...

domingo, 19 de abril de 2009

Inexorabilidade do sentir.






Será o Amor uma forma de sentir inexorável? Penso que sim, mas não o afirmo duma forma imperativa e categórica numa perspectiva kantiana, muito menos num silogismo dedutivo, impermeável ao verbo onde me reconheço: sentir.

O centro da minha matriz energética movimenta-se na água, por isso para mim, viver é sentir. A água sente, o fogo concretiza, o ar mentaliza, a terra materializa, e o éter… será tudo isso e muito mais, o caminho a percorrer no entendimento do “Versus – Uno”, mais conhecido como Universo.
Sempre procurei entender o mundo pelo sentir, a forma menos conhecida da ciência, a inteligência emocional (Q.E.) que começa a dar os primeiros passos.

Sou uma mulher de interrogações e de muitas reticências, o eterno momento do “talvez”, não do “agora”, não sou da afirmação, por isso, não sei julgar os outros, pois o que é, poderá não ser… A água não afirma, questiona todos os tempos num só, a passado, o presente e o futuro. A água representa as memórias, talvez por isso, seja excessivamente ligada ao passado, no qual procuro encontrar a explicação do momento presente. Nunca pensei no futuro duma forma consciente, esse não é o mundo da água, também não é o universo do fogo, é mais do ar e da terra. O fogo move-se no presente, a água no passado, a terra e o ar no futuro.
O fogo será sempre o “eterno momento certo”, a concretização da ilusão do “agora”.

Não acredito em “astrologices baratas”, acredito no eterno movimento do Universo sempre em expansão, como deveria acontecer com o homem. Nem sempre assim acontece, por vezes, temos que retroceder para poder voltar a avançar. Tristes são os que pensam que caminham em frente todos os dias, sem parar, sem dar um passo atrás, sem entender que a vida não é um movimento intempestivo... atropelando tudo e todos, pelo prazer aparente que têm em afirmar: “Eu sigo o meu caminho, sempre em frente”. Gosto dos abismos e das tempestades, de não saber parar, pois a minha conjunção Plutão / Marte é brutal, transcende a própria morte. Um dia falarei como esta conjunção pode ser poderosa, como aprendizagem kármica, mas perigosa demais quando não se tem consciência dela.

Hoje um amigo veio jantar comigo, alguém que conhece parte da minha trágica (será?) história, trouxe com ele um jornal matutino da semana passada, que por vezes até leio, com um artigo onde se falava dumas “velhinhas nuns banquinhos desdobráveis”… soltei uma gargalhada não estridente, mas devolvida ao espaço onde a minha consciência mergulha... pois é, por mais que papagueie, implicitamente sabe que sou a sua eterna inspiradora, mas o ser anda perturbado… Sabe que só em nós existe a resolução dos nós por desfazer de nós... Os outros deambulam na personificação que lhes demos. Nunca saberão que foram colocados na nossa história, como mera instrução do real utópico.

Gosto de celebrar a herança das vidas passadas, gosto de celebrar o facto de ter sobrevivido à minha morte, gosto de celebrar por ter (re)encontrado um grande Amor...
Quantos poderão ter esse privilégio?
Será assim tão difícil viver no mundo do sentir?


Não me canso de continuar a publicar neste meu “recanto do sentir” a poesia de Maria do Rosário Pedreira… já o escrevi, e volto a afirmar (às vezes, afirmo, quando sinto o momento certo…), que gostava de saber escrever assim para “alguém”…



Cheguei tarde, e os que sabiam de mim
notaram que o meu corpo já não me
pertencia. E perguntaram. Porque ardia
a tua boca nos meu lábios mais do que
a fogueira do segredo, respondi-lhes

que o céu, afinal, era mesmo azul, e o
verão um estação maior que o tempo,
e o tempo nada se o teu corpo estava
junto desse corpo que todos já sabiam
que não vinha comigo – e que Deus,
Deus fechava os olhos e existia. Riram

os que te tinham conhecido noutra noite
com outra pele vestida; os outros foram
para muito mais longe que o seu rosto
magoado dizer ao próprio ouvido que eu
mentia. Mas os que ainda queriam saber

de mim pediram-me que lhes contasse
quem eras, o teu nome. E eu mordi essa
boca vermelha que deixara contigo para
não ter de dizer que nem o perguntara.



Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]



Foto 1: Foto de Barbara Cole, sabe fotografar o mundo da água, esta estranha forma de sentir, inexorável...

Foto 2: Piscina natural das Furnas - Açores, onde vou voltar brevemente. Sou completamente apaixonada por aquelas "nove" ilhas. Mais uma vez...

Fotos 3 e 4: O saber parar diante do sonho, que nem sempre é um precipício, não acontece por acaso, nada é fruto de meras coincidências, pois elas não existem, mas dum conjunto de energias (umas kármicas, outras não) que devem ser estudadas e entendidas. Um exemplo: Saturno a 3º de Escorpião (água) e Neputuno a 23º de Balança (ar), tudo na Casa IX. Não existe conjunção, pois existe uma separação de 10º.
Outro exemplo: Mercúrio (21º câncer) conjunto a Urano (24º câncer), na Casa VII. Existe um mundo sem fim, para explicar o que pensamos ser um acaso...

Foto 5: Plutão a 20º conjunto a Marte 21º em Virgem, na Casa V (Leão - Fogo)...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Estranho mundo: da janela ou da TV.




Longe vai o tempo em que me envolvia em causas sociais, em campanhas políticas, em associações de defesa disto e daquilo, em filiações partidárias (entreguei o cartão há três anos), que não passavam duma dança saloia de troca de cadeiras. Este país está na miséria intelectual (e não só), mas o mundo não está melhor.

Cada vez mais, resguardo-me no meu mundo, no casulo onde ninguém me incomoda, onde só o meu gato me interrompe os silêncios, voltar a acender a lareira pois parece que o Inverno voltou aqui junto ao mar, ouvir Leadbelly a tocar no leitor de cd’s, as minhas velas e incensos preferidos, o livro que hoje comprei de Carlos Oliveira: “A Leve Têmpera do Vento” - Antologia Poética (comprar livros é um dos meus vícios avassaladores, não resisto mesmo…) está na sala a aguardar ansioso o desfolhar, a campainha que toca mas pelo vídeo da porta não reconheço e por isso nem pergunto quem é, a posta de salmão a grelhar (salmão é outro dos meus vícios, adoro salmão como simples peixe, fumado, em mousse, salmão assim e assado…), o telefone que desliguei pois hoje não quero ser incomodada por ninguém, as imagens que passam na TV da sala com os trambolhões do mundo, as guerras dos incapazes, as guerrilhas dos infelizes… e a chuva miudinha a cair lá fora.

Esta noite estou muito estranha, talvez ande por aí algum trânsito planetário que está em sintonia com a minha energia, ou será que sou eu que estou em sintonia com ele…

As notícias são quase sempre as mesmas: hoje falou o Dr. Vítor Constâncio (que já foi meu vizinho, mas não sei se ainda é…), governador do Banco de Portugal, nada de novo disse, a crise há muito está instalada e todos o sabemos, o risco real de deflação é cada vez mais real, o crescimento negativo de 3,5% do PIB, o investimento e o consumo a descerem, as exportações a caírem a pique, o desemprego a subir, as empresas a fecharem e não para obras, as famílias encurraladas no meio desta sombra negra… e eu na minha gruta como se estivesse a ver este filme estranho pela janela da sala, com o farol do cabo Espichel a piscar ao longe, como se soubesse onde ele está, como se ele me quisesse dizer alguma coisa...

Sinto-me, por vezes, arredada deste mundo pois não me apetece fazer parte dele.
Na TV pequena do escritório falam uns senhores sobre futebol, e esses é que não dizem mesmo nada, pois nunca vou perceber como conseguem falar e cogitar tanto sobre uma bola e uns tipos a correr atrás dela! Aceito quem gosta de futebol, mas estas conversas piores que do tempo das cavernas revelam o atraso deste quintal. No outro canal uns tipos andam à pancadaria num estádio de futebol, mudo outra vez de canal, e a palhaçada do costume das novelas e novelinhos da estupidez, mais outro canal e assusto-me com aquela senhora do PSD, que sinceramente, devia criar uma associação para a defesa da falta de estética. Aquela figura cinzenta e decadente com que agora tenho que levar todos dias naqueles horrorosos “outdoors”. A primeira vez que vi o cartaz foi esta semana ou a semana passada, não sei, mas aquele sinal de vitória amarelado no canto inferior direito, junto à sigla do referido partido, deu-me a ilusão óptica que a senhora tinha o patrocínio da “Playboy”, bem precisava! Dou mais um giro nos canais, enquanto espero a minha posta de salmão com ervas aromáticas, mas as histórias parecem vinil riscado: o caso BPN, o caso Freeport, o primeiro-ministro sempre com aquele sorriso forçado que já enjoa, o novo mapa judiciário, o julgamento da Casa-Pia só será depois das legislativas (grande novidade!), o preço dos medicamentos, a polémica dos genéricos e a ministra da saúde (outra que deveria embarcar), as crianças com fome nas escolas e a outra ministra, da "dita educação", dizendo que está tudo bem (esta deveria apanhar um foguetão e debitar a sua ignorância, noutro planeta). Só mesmo a voz de outro dos meus vícios "Leadbelly" repetindo "Tell me, Baby", consegue abrir-me o apetite para o jantar-seia. O forno já está “tlim-tlim”, o que quer dizer que o meu peixinho grelhado está pronto.

Estranho mundo este, ou serei eu que estou estranha?

Nunca leio livros de poesia de seguida, ou seja do início para o final, sou aleatória ao ler poesia, abri o livro e estas palavras despertaram-me para o sonho que tive a noite passada, onde tudo voltara (estranho tempo verbal...) a ser simples e perfeito entre nós. Talvez...


SONETOS DO REGRESSO

I

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

Carlos de Oliveira, in “De Cantata” [1960]
(Poeta: nasceu em Belém do Pará - Brasil, Agosto 1921 – faleceu em Lisboa, Julho 1981)


Foto 1: Esta noite sonhei com ele, estava tudo bem... estranho sonho ou será que a realidade é que é estranha?

Foto 2: O meu bebezinho...

Foto 3: Tristes tempos de campanhas políticas. Já não me interessam.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Olhos ácidos (que foram doces).




Ele continua a mentir-se por dentro, tentando convencer-se a si e aos outros da inexistência inalada de mim, que o colhe e tolhe constantemente em segredo. Tenta ludibriar o sentir, inverter o invés de si, rasgar o brilho que continua a irradiar-nos quando nos cruzamos, tenta o que já entendeu que não vai conseguir muito mais tempo. Escreve no avesso da tela, com costuras visíveis, mas os alinhavos começam a tornar-se roçados, contra-pontos provisórios do nosso Amor.

Permanece suspenso na inversão das palavras escritas, guarda em segredo os poemas de amor que me escreve, até o momento certo, como o olhar corrosivo que me quer mostrar do lado de fora, camuflando o olhar que sabe que sempre segui e conheci...

O tempo relativiza as factualidades, como as fotos que tirei há 22 anos para uma campanha de “batons”, cheguei a ter mais de 2.000 batons... Recordo-me como o meu pai me cortou a mesada e quase me pôs fora de casa, agora soltamos gargalhadas sobre tais acontecimentos, confortavelmente instalados no sofá da sala. Hoje, só uso batom para o cieiro...

O poema seguinte liberta as palavras que gostava de escrever para os olhos ácidos, os mesmos que já foram doces, como há 37 meses quando adormeceu, esquecido de si em mim. Quero continuar a contar o tempo, como guardião dum segredo que ele continua a negar como um mantra, sei que terei de descobrir a conjugação sonora da revelação que me quer transmitir, o diamante da sabedoria invertido, como me confessou...

Ando a estudar alguns mantras, o mais conhecido é o OM, que simboliza a contracção das três letras AUM, que significa: “bem vindo ao divino”.
A: revela o despertar da consciência na dualidade - tese.
U: existe um estado onírico-psicológico da consciência, mas ainda dual - antítese.
M: corresponde ao estado do sono profundo, estado abençoado, onde a dualidade se dissolve. (Só neste estado nos deixamos adormecer suavemente no colo de alguém) – síntese.


Exortação ao Meu Anjo


Quando eu me deixar cair
No sonho de adoecer para poder dormir,
Fere-me com a tua lança!
Reaviva em mim a dor, fonte da esperança.

Quando a verdade, que é nua,
Me cegar como um sol, e eu me voltar para onde há lua,
E procurar jardins convencionais e plácidos,
Queima-me com os teus olhos ácidos!

Quando me for mais fácil a verdade do que ter
Um papel de actor qualquer,
Como aos que assim se recreiam,
Faz-me exibir-me bobo ante os que aplaudem ou pateiam.

Quando eu julgar, falando, dizer tudo,
Faz ante mim sorrir teu lábio mudo!
Quando eu me poupe a falar,
Aperta-me a garganta obriga-me a gritar!

Quando eu tiver medo do Medo
E acender fósforos nos cantos rumorosos de segredo,
Arrasta-me pelos cabelos
Para entre os pesadelos!

Quando, a meio da noite e da ansiedade,
Eu me rojar por terra e te pedir piedade,
Não me apareças nem me fales!
Deixa-me só com o meu cálix.

Quando eu te falsificar,
E alugar anjos de serrim para em seus braços me embalar,
Derrete o chumbo dessas casas:
Leva-me no tufão das tuas asas!

Quando eu enfim, não puder mais,
Por tuas próprias mãos belíssimas e leais,
E sem caixões nem mortalhas,
Enterra-me na terra das batalhas.

Quando, depois de morto, a glória
Me levantar o seu jazigo e celebrar minha vitória,
Desvenda os alçapões dos meus escritos
E arranca à terra que me esconde os mais secretos dos meus gritos!



José Régio, in “As Encruzilhadas de Deus” [1935]



Foto 1: Mantra "Om mani padme hum" (espero que ele o estude, para entender...)
Foto 2: Olhos ácidos...
Foto 3: Uma das fotos da campanha de há 22 anos...

sábado, 4 de abril de 2009

Abril, assim.




Gosto de sentir os cheiros, os olhares, captar a energia, seguir em frente, assim, ainda dorida mas sabendo que este é o caminho, gosto de Abril, não aprecio cravos, gosto de papoilas. Para mim Abril simboliza o nascimento de papoilas por todo o lado, até das pedras na berma da estrada, pois são flores silvestres, selvagens... nascem sem semente determinada, como este amor reencontrado, que até nas pedras procurou a justificação desse mesmo renascimento.

Por vezes, no meio da cidade de Lisboa, no influxo do trânsito parado, no flash do semáforo fechado, ou mesmo a abrir em alguma auto-estrada por aí, acelerar paralela ao mar (é uma das minhas paixões…), vidros fechados ou abertos, ar condicionado ligado ou não, sempre com as portas trancadas, que procuro entender o “social medieval”, deste pequeno Portugal, dos 35 anos depois da revolução dos cravos. O que pensará o mais comum dos cidadãos sobre todos estes senhores que nos governam e desgovernam…

No café onde por vezes vou, ali para os lados do Alto da Barra, a senhora que me serve café há quase 15 anos, perguntou-me hoje, o que era isso do Ministério Público, pois com estas notícias metralhadas quase ao minuto, grande parte das pessoas desconhecem como funciona o M.P., as pressões e depressões que sempre existiram, a sua orgânica estruturalmente dependente, as pessoas sérias e menos sérias que o integram. Existem verdadeiros cromos no M.P., uns com ar sinistro, outros pessoas de bem com quem se pode falar, outros que se acobardam nos furos que as leis lhes permitem, proferindo despachos com mentiras dedilhadas a preceito, desconhecendo o autor da prática dum suposto crime, quando o mesmo o confessa taxativamente. O referido magistrado lavra uma mentira escabrosa, referindo que desconhece quem é o arguido! Este é o circo do nosso sistema, algo que já denunciei à autoridade competente, mas quero levar isto ao conhecimento público, quando tal for possível, para que se saiba que estas coisas acontecem no dia a dia dos nossos tribunais.

Existem magistrados do M.P. aos quais coloco as seguintes hipóteses académicas: loucura, doença, incúria, desconhecimento ou mentira deliberada... muito mais poderá existir, mas fica para uma próxima prosa. Aceito todos os seres humanos como são, com as suas falhas e defeitos, com as suas grandezas e iluminações, mas a mentira deliberada e dilatória não aceito, consigo até aceitar a mentira infantil, inocente, sem laivos de perversidade, mas o despacho que este senhor magistrado proferiu é surrealista. No topo desta hierarquia, temos provavelmente um dos homens mais inteligentes e competentes, dotado duma grande capacidade de encarar as situações de frente, não aceitando esta espécie de feudo, onde circulam condes e condessas. Está na hora de mudar, mas a mudança nasce de dentro... não sei! Tenho muitas dúvidas, não chega ser "D. Quixote de la Mancha".

E estamos em Abril… dizem...

Não sendo o que acabei de escrever uma denúncia, será um alerta para quem lida com este sistema por dentro, cada vez mais viciado, hipócrita, incapaz de aceitar a emoção, positivista de leis prenhes de nada, preocupado com o bolso e com as bolsas onde se encerra, numa imunidade que não tem. A Drª Conceição Oliveira, que muito admiro, é um exemplo de dignidade, para quem conhece a sua história de vida. Talvez, seja um vício de pensamento, pois quando pensei candidatar-me ao CEJ, era para seguir a magistratura judicial, nunca a do M.P. Tomei a escolha certa e não fui por aí, hoje sei que seria incapaz de desempenhar tal tarefa, pois essa competência, mais que simples atribuição, está dentro de cada ser na sua re-ligação a Deus, mas sobre esta questão falarei num outro momento, mais ou menos certo.

Confesso que por vezes, gosto de provocar, incendiar, domar o pensamento, acordar o sono, despertar a vigília… dum ameríndio duma outra vida, dum monge medieval, dum cavaleiro iluminado numa capela na Escócia, cartas do leste europeu, velho continente submergido... sempre o mesmo olhar que me segue... sempre, seja o sempre o que for. A eternidade existe, não se define, interioriza-se, acorda uma nova forma de inteligência, uma consciência emocional, da qual fala António Damásio, assim como a minha última descoberta: Eduardo Punset. Foi uma surpresa, quase devorei dois dos seus livros: “Viagem à Felicidade” e “A Alma está no Cérebro”. Hoje, comprei a sua última obra: “Frente a Frente com a Vida, a Mente e o Universo”, gosto de ser surpreendida, até pela crueldade humana…


Não Seremos Pais Incógnitos


Não seremos pais incógnitos
Netos de filhos ignaros
Mas nestes livros avaros
Só moralizam os tolos
Quem tem farelos tem quintas
Diz o bom rei ao soldado
No tempo em que o rei Fernando
Passava por ser honrado

No tempo em que Dona Márcia
Filha de Mércia Condessa
Cantava Chácaras do tempo
Em que era madre abadessa
Também depunha o meirinho
Filho de D. Charlatão
Há que vidas os não via
Mas sei de que filhos são


José Afonso, in “O Coro dos Tribunais” [1974] (*)


(*) Mais um daqueles discos que tenho em vinil, apesar de andar por aí um “ser” que não acredita. Este foi o meu pai que comprou, mas o disco duplo dos “Doors”, curiosamente “Absolutely Live” (será plágio?), juro que fui eu que o comprei no inicio dos anos 80... talvez o tenha que levar para um determinado local, servindo assim de prova, pois anda por aí um senhor imbuído duma loucura arrebatada por mim...


Foto 1: Abril, assim.
Foto 2: Papoilas...
Foto 3: Capa do disco: "O Coro dos Tribunais", da autoria de José Brandão.