quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Reticências...




A margem cortada, que o tempo guarda em segredo...

As estórias na história por revelar...

No final do dia, entre Aljustrel e Lisboa, só o olhar da madrugada de sábado passado me acompanhou, como se o tempo desnudasse o espaço, mais uma rota de colisão de sentido inverso, na inversão do tempo certo...

Para quem só lê as minhas primeiras três linhas...

De regresso à poesia, às palavras que gostava de escrever, para o olhar que não me consegue mentir, por mais que tente...

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Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe.
E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.


Maria do Rosário Pedreira, in "A Casa e o Cheiro dos Livros" [1996]


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Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da mannhã.



Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]


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Nada mudou. Ao fim de tantos anos, o meu
passado é ainda o mesmo passado - nenhum
rosto diferente para desviar o rio da memória,
nenhum nome depois. Para te esquecer,

devia ter partido há muito tempo, como viajam
as aves de verão em verão. E tentei; mas as malas
abertas sobre a cama eram livros abertos, e eu
nunca fechei um livro antes do fim. Por ter

ficado, nada mudou jamais - e o meu passado é
ainda o nosso passado; e o rosto que tinha antes
de me deixares é o que o espelho me devolve no
presente - embora os outros me digam que o

que vêem na superfície fria desse lago é um vinco
na água, uma mulher muito mais velha do que eu.


Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]



(Dos três livros de poesia editados pela autora, o meu preferido é "Nenhum Nome Depois", seguindo-se "O Canto do Vento nos Ciprestes", e finalmente, "A Casa e o Cheiro dos Livros", invertendo assim a ordem temporal).

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