domingo, 22 de fevereiro de 2009

Momentos Soltos.




Se a minha avó Alice fosse viva, fazia hoje 103 anos, partiu aos 97 anos com muitas histórias ainda para contar. Foi ela que me ensinou a coser, a bordar, a jogar às cartas... Hoje, já não sei bordar, não jogo às cartas há décadas, limito-me a pregar um ou outro botão quando é estritamente necessário. Recordo-me do cheiro das fazendas, do brilho dos tecidos, do pó do giz, das linhas multicores, de todos os apetrechos necessários na alfaiataria do meu avô, no velho largo do Carmo…

Este fim-de-semana fui tomar café com a Elisabete, uma amiga do outro lado do rio, de Almada. Temos uns cinco anos de diferença, mas muito em comum, mais uma que aderiu ao “clube das divorciadas”, muitas histórias para contar… também.

Hoje, uma outra amiga fez anos, fomos almoçar a um local que desconhecia na minha velha Lisboa. Fica perto das Amoreiras, no Largo da Bagatela, um local quase à parte nesta cidade onde nasci, que evito cada vez mais… excepto, ao Domingo, onde o esvoaçar dos pombos irradia a luz transversal e única de Lisboa.

Há três anos, ele telefonou-me a contar algumas das suas mágoas, tristezas e decepções, em relação a uma situação da sua vida. Éramos amigos, não ficávamos sete minutos ao telefone, falávamos horas sem fim, sem a noção do tempo passar. Hoje, ele pensa que sou a maior terrorista e impostora do mundo, quando no fundo só cometi um erro, e ele sabe qual foi. Mais uma vez, o tempo vai dar-lhe a dimensão real da injustiça e da crueldade, no momento certo...

O tempo vai repor a verdade desta história distorcida por terceiros (terceiras!) que nos quiseram separar. Conseguiram, provisoriamente…

Reaprendi a viver, a recuperar os meus destroços, a entender a dor, a acreditar que viver é simples. A paz que sinto quando o vejo é um dos primeiros sinais que a chuva tingida de pedras acabou, que a raiva avassaladora ruiu no templo profano, que o Amor é possível como entendimento sagrado.
Nem as suas vãs e temporárias companhias (agora chegam dissimuladas!) me tiram o sono, são sempre precárias as suas noites longe de mim. Sei porque sinto, como um mantra que me segue na calada da noite. A ansiedade partiu sem deixar saudades, pois quem ama não procura esse caminho, apenas caminhar... depois da Lua, existe Vénus e uma oitava acima Neptuno...

A história está a ser (re?)escrita, como um desafio que a Alma aceita, tendo como paradigma a personificação da loucura, a inversão do Amor no tempo certo, como quem escreveu a palavra Amor ao contrário na cinza da noite (fácil, todas a letras são simétricas, excepto o "r"), que não fui eu, como quase tudo o que ele tem escrito sobre gatos, casas, carros... é triste tanta mentira difamatória, ou será a encenação de alguém que se faz passar por mim? No caso de ser a segunda possibilidade, será fácil detectar quem é a personagem, pois neste momento só restam duas hipóteses em aberto, qual das duas será? A raposa matreira ou a cegonha arrebitada? Ainda hoje, leio as fábulas de "La Fontaine", são deliciosas...

A nossa história é simples, apesar dos floreados metralhados por quem está a mais.
A poeira começa a cobrir o vaso com água, veremos quem se reconhecerá no espelho das águas, daqui a algum tempo…
Quem saberá reconhecer o som do deserto cheio de nós que atravessamos, ainda?

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Para atravessar contigo o deserto do mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento



Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Livro Sexto" [1962]



Foto 1: Desenho de Sophia, por Árpad Szenes [Budapeste-1897/ Paris-1985]

Foto 2: A minha avó, eu e o velho rádio de lâmpadas a tocar... [Dezembro 1966]

Foto 3: Eu e a Elisabete [numa pizzaria em Paris: Junho 2004 - onde ela descobriu quem era o homem da minha vida...]

6 comentários:

Anónimo disse...

Sophia tinha razão naquilo que escrevia, mas ainda tens mais quando escreves assim.
Bj
Gaby

Chris disse...

Obrigado...
Chris

Anónimo disse...

Não tem vergonha das figuras que faz???

Chris disse...

A vergonha está no ego amigo/a "anónimo", eu já o perdi.
Desafie-se, vai ver que lhe vai fazer bem.
Chris

Anónimo disse...

Amigo/a não sou nem nunca serei. anónimo sou enquanto me apetecer, tal como a senhora também se dá a esse direito enquanto se intromete na vida de muita gente que de si só quer distância. Veja se arranja uma vida e um psiquiatra

Chris disse...

Tanta raiva, tanta reacção, tanta energia negativa, isso não lhe faz bem! A prova que este blogue é um espaço livre é ter deixado ficar o seu comentário. Pode continuar no seu anonimato, pois eu tenho um rosto e assumo-o de frente, ao contrário de muita gente que anda por aí dissimulada. Quanto à intromissão, à distância, ao psiquiatra, ficará para outro fórum.
Não precisa de ser meu amigo/a, mas seja-o para si próprio/a, pois parece que vai ter que arranjar outra vida...
Chris