terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Catarse Pública ou Privada?



É urgente reformar o Ministério Público nesta jangada à deriva, sem qualquer ponto cardeal definido. É vergonhoso o que está a acontecer, a parcialidade que determinados senhores do M.P. assumem é assombrosa. Subscrevo as palavras do ilustre advogado, Dr. Ricardo Sá Fernandes, relativamente ao processo casa Pia, mas a transposição para outros casos é uma lamentável constatação: “ A inquisição não faria melhor!”.

A falta de brio no desempenho da causa e da coisa pública de alguns senhores delegados do M.P. é escarpada, quando faltam à palavra prometida, quando se deixam permear e influenciar por uma aparência de falsos justos, por eloquentes vitimizações com salpicos grotescos, por hilariantes prosas de falsos profetas.
Será que andam distraídos com a loucura elogiada, como descreveu Erasmo em finais do séc. XV? Será que estamos no séc. XXI, ou será que a máquina inventada pelos humanos para a contagem do mesmo avariou de vez?

Só a poesia nos devolve a liberdade, contra todas as ditaduras encobertas e dissimuladas. O medo de amar pode levar homens a perderem-se longe dele… do Amor, claro!

As palavras seguintes são para os subalimentados do sonho, falsas pinturas de veredictos fascistas, que nem a sua sombra sabem reflectir, pois acordam todas as manhãs com a luz invertida.

O Amor caminha pela estrada onde florescem as acácias sem precisar de mandatários, assume-se por si.

Assisti à metamorfose dum poeta iluminado, num moscardo encalhado...

Será que pensa (será que ainda pensa?) em regressar a si, por uma catarse pública ou privada?



A DEFESA DO POETA¹

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



¹ Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.

Natália Correia, in “A Mosca Iluminada” [1972]

1 comentário:

Anónimo disse...

São só mudanças! Cara nova, vida nova, blogue renovado, são só novidades para estes lados.
Bjs
Gaby