quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

E a prosa continua...




Regressei aqui em finais do ano de 1966 (d.C.), foi o que me disseram, será?
Não tenho conhecimento que tenha alguma irmã gémea, muito menos uma clone, mas existe por aí alguém que me vê em diversos lugares certos, num automatismo mirabolante, à mesma hora que outros seres (serão peças compradas para florir o ramalhete?) que também dizem ver-me, talvez acenar!
Será que a massagista tirada dum filme de terror me viu passar, ou terá sido o bate-chapas, figura tétrica, sempre a bater na chapa errada?
Talvez tenha sido a dançante ramaldeira, ou terá sido a enlatada abespinhada?

Histórias contadas sem o mínimo interesse, por quem continua embrenhado numa demência mental, mais vasta e intrincada do que eu pensava inicialmente.
Quem continuará a ver as minhas irmãs gémeas (ou serão finas primas?) em acto contínuo em diversos locais, em simultâneo movimento, como umas clones criadas para a epopeia da sua nova criação?

Inicialmente, pensei que alguém poderia ser dotado de alguma inteligência, mas enganei-me. Quem se deixa burlar por alguém que negoceia na loja do chinês, onde vende suspensões peitorais, só pode ser duas coisas: ou muito estúpido, ou um anjinho enganado nas ditas suspensões disformes, vislumbrando o soalho!
A megalomania tem destas coisas, os protozoários também.

O ser errante deambula numa lata, a medusa dispõe-se a tudo, nem o seu olhar de alforreca o consegue espantar, o ser acusador dele próprio, evidentemente!
A terrorista, a vândala e por aí fora, têm o respeito e a consideração de alguém com quem privou academicamente, não num ensaio escrito dum depravado. É só essa a diferença entre a Musa e a Medusa, que até lhe atribuo a minha vénia maiúscula, por pena de tanta agregação precária.

A “musomania” nunca existiu, a Musa surge no momento certo da incorporação na alma do seu criador, e se alguma vez afirmei neste espaço a palavra Musa, foi pelos poemas que alguém me escreveu, e que estão bem guardados. Ele (quando perder o ego), e eu (que já o perdi) sabemos a verdade, tudo o resto são manobras de diversão, foguetes estaladiços e pipocas gracejantes.

Entretanto, a medusa continua a dançar, talvez o vira, ou será o virote? Escreve no decalque da sua própria ridicularização a pessoas que têm mais que fazer do que aturar delírios de vendedoras de propostas contratuais mal redigidas, que dão erros básicos de português, que passam a vida a pedir perdão (olhe-se ao espelho, minha senhora!), que papagueiam o que não sabem, o que desconhecem, pois ouviram dizer. Esse exercício de cartografia gorada, é o mesmo que passar uma noite num hotel pago por um melro em decadência, pois as papagaias são assim, profundamente tristes, ridículas e grotescas, a roçar o chiste, mas já dizia Gil Vicente: ser ridículo(a) mata! Aconselho-a a ler: “O Velho da Horta”, pois empregará o seu parco tempo duma forma mais inteligente, do que a escrever baboseiras para amigos meus, daquilo que não sabe e nunca saberá.

É assim que alguém pulula por aí, que pensa que o aparelho do Estado serve para resolver as suas misérias existenciais, as suas decrépitas mãos maculadas, o seu voyeurismo que se reduz à sua rua. Por vezes, urge entender a cegueira, para reencontrar a claridade excessiva que pode cegar.

E a prosa continuará...


CONCHA

nenhum neptuno amanhece do mar. um galgo prateado
com orelhas de concha emerge dele tranquilamente.
seco como um osso. tenho
o impulso de lhe murmurar qualquer coisa ao ouvido.

de súbito antes que pronuncie palavra estou gelada.
como uma estátua. como a valsa que pára no ar.
o cão atravessa-me de ponta a ponta. telepático. sotavento.
sábio ritmo.

aí vai a história:

a uma concha não se fala
ouve-se

estou envergonhada mas compreendo depressa.
comprimo a orelha contra
o seu ouvido-concha. primeiro, como era de esperar,
oiço sons do mar. murmúrios. depois gradualmente outra música.
palavras extremas.

palavras de poder. palavras de luz. tão inocentes e corruptas
como um beco. tão sedutoras como o sangue do pombo. a cabra
branca. a metáfora. alquimia do
béu-béu


Patti Smith, in "Witt" [1973]


Foto 1: Patti Smith - Foto de Gordon Comstock [2002]
Foto 2: Ando a receber rosas azuis... Serão do "Deus da Crueldade"?
Foto 3: Polímnia: Musa dos hinos e da poesia sagrada...

3 comentários:

Anónimo disse...

Rosas azuis, andas com sorte. Acho que sei de quem são.
Bjs
Gaby

Anónimo disse...

Nunca deixei aqui nenhum comentário, mas costumo de ler o seu blogue, dos textos pouco definidos como na poesia, e que deixam espaço de interpretação.
Cumprimentos
Pedro J.Leitão

superior disse...

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