segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A dor leva tempo a consertar.





O tempo começa a revelar-me a sabedoria imemorial do silêncio. Não sei se foi uma opção consciente, depois da derradeira traição, espicaçá-lo, provocá-lo, para além da exaustão do prazer que a dor me revelou, sete dias e sete noites depois… Sempre me disse ser eu a terceira, dum arquipélago perdido, dum continente afundado, dum ar eterno soterrado. Onde é que fica o lado consciente do amor ferido, torturado, caluniado, será essa uma razão movediça?

O Amor e a Dor percorrem como almas gémeas de sinal contrário, o mesmo caminho, tocam-se no mesmo ponto sideral, que depois de tocado, desliza para o outro lado, onde a voz do Universo devolve a resposta, algum tempo depois, como o eco das palavras sussurradas naquela noite.
Aos poucos regresso (regressamos?), à praia que me viu partir nessa noite trágica, sem ainda saber que ela era eu, o sonho premonitório rasgado, entre a consciência e a inconsciência. O lastro onde tudo se define, a fronteira alarga-se na margem que ambos cortámos, na tentativa consumada do nos aniquilarmos, renascendo para um novo tempo criativo, que começa agora a surgir.

O terceiro instituído, veículo encontrado duma comunicação que alguém tentou, tendo como suporte uma mentira onde se espelha a imperfeição, uma crueldade como cúmulo da criação invertida.

A eterna revelação está pendente, à espera de nós…

Essa inversão que a morte nos propõe, o regresso à casa IX, onde reencontro a minha Lua, onde o Saturno e o Neptuno de alguém, entende lentamente, a proposta dum tempo que nunca deixou de ser nosso.

As páginas abrigadas pelos co-autores, começam a retomar o ponto onde a escrita ficou suspensa, agora uma oitava acima.
A verdade seduz-nos, a outra, aquela que nada tem de verdade afunda-se num mar que nunca foi nosso, pois esse só os protagonistas o conhecem…
Será que vale a pena continuar a enganar terceiros, escolhidos para inverter a nossa história, talvez de amor…

Mais uma vez… talvez.

Ao contrário da autora do texto seguinte, acredito que o amor não é um castigo, é a mais profunda aprendizagem, onde não existem vencedores, nem vencidos. No amor não existe retribuição, só um cuidar eterno de quem amamos desde o princípio dos tempos. Testar os limites, faz parte dessa evolução, um teste que propusemos a nós próprios…

Guardarão as pedras a memória da raiva?

Talvez.


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Um círculo fechado

… E de nada serviam as últimas palavras que disseste. Desprovidas de harmonia, soavam-me a falso. Escolhi então ficar sozinha mas cristalinamente íntegra, devastada pela decepção, humanamente fragmentada, mas rigorosamente autêntica.

Valerá a pena lutar, chorar, iludir a vida? E depois? Sim. E depois? Se calhar, a resposta é um infinito silêncio que nos petrifica, que nos angustia o sangue. Um dia, ficaremos irremediavelmente sós porque o desfiar do tempo irá confrontar-nos de forma implacável com o eterno.

... Se a vida fosse como as palavras? Mas não. Ela é um círculo que há-de ser inexoravelmente fechado culminando na nossa entrega crepuscular. E não podemos jogar sempre com o tempo porque somos, em suma, órfãos cósmicos, avançando no planeta de Milan Kundera, nessa evidente “insustentável leveza do ser”.

Ao escrever, vale-me o meu tipo de registo, este ritmo sincopado, entrecortado por alguns espaços, por alguns hiatos, que me deixam respirar, repousar e, no limite, esbater a dor.

Algumas pausas permitem-me relembrar a força e a verdade da minha entrega à vida e trazem-me também à memória os erros que acabaste por desenhar no mapa dos afectos, banindo tantas coisas transbordantes da vida e da harmonia.

Recordo as dores porque acredito que recordar traz consigo um efeito terapêutico, mesmo que se recorde o que morreu.

… E penso, será o amor um castigo? Se calhar, às vezes é.


Maria Adelaide Valente, in “A dor leva tempo a consertar” - (parte do texto) [2003]


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Foto 1: Este texto é dedicado à Maria Flávia, que me ajudou a entender que a dor tem um sentido... Obrigado.

Foto 2: Cabo de S. Vicente, talvez um dia conte a história desse dia... [1991].

Foto 3: Escadas até ao Cristo do Garajau, que um dia ascenderemos juntos, pois o percurso inverso (o eterno jogo invertido) já foi realizado.

1 comentário:

Anónimo disse...

O teu blogue deixa-me a pensar naquilo que nunca tinha pensado. O Rio de Janeiro tem-me deixado sem os pensamentos europeus.abraços meus e do Quim.
Maria João