quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Carta a uma desconhecida.






















Foi assim que recomecei…
Nas minhas reticências, tão ao meu gosto…
Muitas dúvidas, felizmente
De quem não acusa de lado, mas de frente
De quem vai desmontar a trama mental
Dum louco, alucinado, poeta enganado
Soterrado em moscas junto a bidés,
Cortinas e finas primas…
Quiçá, aracnídeo perdido em operetas de cordel

Rodeado de figuras dependentes:
Do pecúlio, da alcova, do prazer primário
Da estupidez de quem ama e tem medo
Da cobardia de quem pisa terra alheia
Talvez lhe falte tocar o ar que os anjos
Respiram…
Ou será que a proclamada feia
É mais uma a deixar cair…
Talvez…


Quero aqui agradecer expressamente a um velho amigo que hoje me telefonou, tendo recebido uma carta duma senhora, que nem escrita por ela foi. Reduziu-se a rubricar em jeito de cancioneiro popular, como quem dança a chula ou a ramaldeira, acompanhada por umas rabecas, ou terá sido rabecão?

Existem pessoas profundamente tristes, funcionárias que a sobrevivência tece, picadoras de minutas enganadoras, rodopiando nos minutos contados, onde a falta de estética é aberrante. Sei que a beleza é um conceito relativo, mas a dignidade não o é.
Obrigado Dr… pelo apoio.


E como sou uma cidadã livre, sendo este blogue da minha autoria, continuarei a escrever, mesmo espiada e perseguida, num jeito de lápis azul, por um fascismo que me agonia até ao tutano, numa cobardia de transferência da culpa para terceiros. É triste, mas é assim, poderia não o ser...

Hoje, limito-me a ver e aceitar, com uma única ressalva: o Amor não são dois, é UNO.
Não sei quem é o Mestre, mas “ele” nunca o foi, falso xamã, ser umbilical a perder de vista em terras da Catalunha, fugindo de quem ama, fingindo amar quem nunca amou, soprando em brasas mortas e extintas, há muito tempo.
Desceu às catacumbas do seu desperdício, do que mais abomino, mas entendo e aceito…
Mais uma vez…

Gosto de elogiar a loucura, assim:

"Foi na loja do Mestre André
que eu comprei um rabecão,
Chiribiribão, um rabecão,
Chiribiri-biri, uma rabequinha,
tlim tlim tlim, uma campainha,
tum tum tum, um tamborzinho,
plim plim plim, um pianinho,
tiro, liro, lir'um pifarito,
Ai olá, ai olé,
Foi na loja do Mestre André."

Cancioneiro Popular

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Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio: 17 Setembro 1901 – 22 Dezembro 1969,
in Poemas de Deus e do Diabo [1925]


Fotos 1 e 2:
O meu gato e a minha gata, dois olhares, um único olhar…
pois o terceiro está a mais, quiçá dançando a chula ou a ramaldeira.