terça-feira, 29 de dezembro de 2009

essência adiada




falho-me quando procuro no sulco da tua pele
a alvura que admoesta a trave onde o rio balança
caminho sinuoso no laivo azul da madrugada
que embriaga o precipício e os passos desta dança



falho-me na concordância trocada da tua verdade
contorno-te quando me acerco dessa cerca ilusória
eterna permissão retaliada do teu olhar diáfano
fuga que o asfalto impele, medo da velha memória


lasco lâminas finas na distância regrada
murmuro ilesa no palco dos indigentes  
que só quem ama conhece a crueldade


e quem conheceu a paixão julgada
sabe que tristes são os não crentes
âncoras sem praia, olhares sem claridade



sei que o Amor é essa essência
quase sempre adiada 
sei que És Tu...
tentando não o Ser 
...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Coração armadilhado



Na defesa armadilhada do teu coração
Mora a tentativa de tramas e enganos
Teia incrédula duma eterna paixão
Sal descurado de todos os oceanos

Inventas no toque audaz das palavras
Um novo poema, sempre intenso
Brando nos meios-tons que desbravas
Nesse teu luar de Mestre ascenso

Sinto-te, sabes porquê
Não sei pensar-te na razão
Nem na curva da divagação

Poemas escritos por nós
Do nada que ainda é tudo
Armadura que não escudo


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

pedra em flor


as pedras que ainda tens
rolam solitárias pelo jardim
na esperança cega do meu corpo
mas deixa meu amor o tempo
reencontrar o reduto da madruga

as pedras que já não guardo
ainda procuram o desaguar
desse rio despudorado
cena dum engano derramado
nosso leito imenso acordado

as pedras espantam a recusa
deste amor desmitificado
magoado nas lâminas secas
do velho mito enclausurado
grito lapidar guardado

as pedras ainda não morreram
neste templo demorado
flor em mim de ti...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Tempo Circulante


Oiço tumultos na estrada do teu regresso
Partituras desenhadas no fogo serpenteante
Vislumbres cegos e um olhar confesso
Eterno momento certo de cada instante

Rolam vultos na sombra da noite fustigada
Como folhas secas – tua doce esmola
Palavras recolhidas ao luar da tua chegada
Delineadas na escrita que se desenrola

Trespasso o espaço como ave que assoma
O despertar manso – ocaso ou aurora
Tempo circulante, perenidade esvoaçante

Quebras-me as asas, vaga que me doma
Leio Kerouac – sigo pela estrada fora
Neste caminhar contra ti, fera errante

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um "post" diferente (Novembros Meus)

Nesta noite chuvosa de Novembro, uma noite onde confesso o meu profundo desencanto em relação a uma pessoa em particular, noite densa onde aprendi a diferença entre a infidelidade e a traição, onde mora a crueldade na estrada do medo de encarar uma ferida kármica, percurso onde o curso da água resiste e molda-se a todas as pedras vivas, caminho incerto com um rosto e diversas faces entre o nascimento e a morte...

Nesta noite chuvosa de Novembro, sei qual a cor do Amor, debulho o tom "azul púrpuro" reencontrado nos laivos do Amor, mesmo quando toda negação não toca as falas trocadas, a mulher esquecida e a outra que nunca existiu, pois o Amor para alguém será sempre uma eterna fuga, imposição da fiel infidelidade que a Arte determina, estranho teatro de enganos, na terra sem congratulação chamada paixão...



Nesta noite chuvosa de Novembro, respondo ao desafio duma amiga da blogosfera, onde revelo mais o que sou, do que o que sinto...

Aqui fica o “jogo do conhecimento” e a proposta da amiga Maga:

1 - Quatro filmes que assisto, sempre que passam:
O cinema é uma das minhas eternas paixões, aqui ficam quatro filmes de excelência:
- O Clube dos Poetas Mortos
- A Insustentável Leveza do Ser
- A Lista da Schindler
- As Pontes de Madison County

2 - Quatro lugares onde já morei:
Nasci em Lisboa, morei na Amadora, Oeiras, Aroeira e quando era adolescente passava uns fins- de-semana e pequenas férias em casa da minha madrinha, em Almada. Ah... e Sagres, em tempos posteriores de felicidades e serenidades duma vivência em comum...

3 - Quatro programas de televisão que gosto ver:
Vejo pouca televisão, mas gosto de ver o “Câmara Clara”, na RTP2 ao Domingo à noite, o jornal na Sic Notícias, alguns programas do canal “História” e “Mezzo”.

4 - Quatro pessoas que me mandam e-mails regularmente:
Quatro amigos particulares e em especial (eles sabem quem são ao lerem este ”post”).

5 - Quatro coisas que faço todos os dias (s/falta):
Todos os dias não dispenso o meu café, olhar o céu mesmo quando cinzento, o mar da janela da minha casa e tentar sorrir, apesar de nem sempre ser possível…

6 - Quatro comidas favoritas:
Comida: bacalhau com natas, salmão de todas as formas, todas as frutas e alguns doces. Adoro um bom vinho branco gelado, de preferência numa varanda especial numa casa no Douro…

7 - Quatro lugares que gostaria de ir (ou estar):
Viajar… são tantos os locais onde gostaria de ir: Egipto, Escócia, Islândia, Chile e Brasil…
Voltar aos AÇORES (uma paixão única, nos cheiros, nas cores, no que sinto quando piso a terra duma das nove ilhas, sobretudo o Faial e as Flores), regressar a Paris (cidade mágica!) e algumas cidades em Itália que conheço, mas quero lá voltar com mais tempo… e Sagres o meu refúgio sacrossanto, já aqui quase ao virar da esquina…


Passo o jogo a quatro amigas da blogosfera, pois acredito nas correntes sem amarras que libertam o pensamento positivo:

Lídia Borges: www.searasdeversos.blogspot.com
Maria Valadas: www.ecosdepalavras.blogspot.com
Elisa Fardilha (Mona Lisa): www.fardilhas.blogspot.com
Elisa Ramos (Agulheta): www.agulheta.blogspot.com




Este foi um "post" diferente que me ajudou a esquecer a noite de 25 de Novembro dum ano inconfessável.
Terá o Amor vindouro sido reencontrado naquela noite de Novembro?
Não sei... talvez o tempo responda à questão, talvez seja mais uma pergunta sem resposta, entre o que não tem explicação racional...


Foto: eu, Novembro de 1969...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Compasso visionado


Procuro quem já encontrei, Outono no meu Verão
Adágio nas tuas mãos cálidas, quente gelo plácido
Como cálice vertido no tempo – sangue, pulsação
Copo sem fundo, olhar inerte no teu velho prefácio

Postulo enleadas justificações, neste pranto risível
Vale de confissões coroadas – estranha insensatez,
Deste amor injustificável, água em fogo submergível
Que se entranha na estrada de tudo o que crês

Assim, ladeio-me de licores amargos
Escorando a vontade imperativa
Império primitivo dos meus embargos

Despeço-me do prelúdio enquadrado
Partitura longa, intempestiva
Poema meu – compasso teu visionado

sábado, 14 de novembro de 2009

Quando (as luzes se apagarem)


Quando as luzes se apagarem
e o tempo decifrar a ausência
do empréstimo dos Deuses,
minha estranha ascendência

Quando as luzes se apagarem
na névoa díspar do teu olhar
permanecerá no firmamento
nórdico mar imenso, sem par

A luz arredonda-se, quase esférica
eleva-se e resiste na suposta distância,
perscruto-te dúbia, nesta discordância

Degustas na minha mente esotérica
um crepúsculo frágil, mito desagregado
na travessia desse momento esperado



(quando as luzes se apagarem, só a escuridão será luz no teu olhar…)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Palavras Baldias


Ergo-me suavemente, como maré levante
salpicos negros nas minhas cinzas circulam
nessa lapidar noite branca, recorte jusante
pasquins e palavras nas tintas que especulam

Sei-me perdida como voz de rompante
na madrugada golpeada como fera
embarcada na tua ordem imperante,
tela escapulida que o óleo venera

Nas linhas insondáveis do cansaço
quebro o linho fino do teu braço
rasgado como ouro fino

Guardo os laços de nós na memória
poemas baldios com dedicatória
Musa em ti, velho hino



(2007)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma estória dentro da nossa História (1982)


Sei que hoje escrevo para ti, nesta chegada a casa entre a chuva miudinha que se entranha nos trilhos de mim e uma estória que o tempo guardou, deslizante entre preces, presságios e a nossa velha... tão velha premonição...

Hoje, sei que foi por ti que sobrevivi à tempestade com que iluminaste o mar sem fundo, conheço as palavras que o silêncio cruza, simbólicas na imperfeição humana, perene caminhar até ti.

A chuva suave e tépida que hoje me tomou é mais cruel que a água que cai como bátega que leva tudo à frente. Foi assim que me tocas-te, gota subtil que nunca quis sentir, entre a epiderme e a derme, a seguir o nosso tempo adiado, depois do corpo, da alma, de tudo o que a dimensão dos homens ainda não libertou, esse território indecifrável e insuficiente na memória austera da terra.

É cedo demais para nós, nesta sede que anoitece e embala a paixão que o tempo guardou e a loucura alienou. Sei donde vens e para onde vais, como estranha guardiã deste Amor que temes abrir a porta, e assim continuas no pequeno quarto voltado a Sudoeste, onde não deixas entrar esse amor que ainda é nosso. O perigo descerra e eteriza o quarto maior virado a Nordeste, onde nunca mais a comiseração te tocou... as folhas da palmeira alastram na janela desse quarto onde uma noite o amor entrou, homicida maculado que conhecemos. Ninguém conhece os filamentos imensos onde te perdes, lugares incertos onde encetas uma nova fuga, não de mim, mas de ti...

imóvel e estático olhas-me, mas parti há muito tempo contigo dentro de mim.

Não sei se terei tempo para escrever a nossa História, mas o que interessam as palavras escritas ou ditas, depois de tudo o que vivemos e sentimos...

mas estórias como esta sim, estrada em sentidos opostos, no meu rosto o teu, no teu o meu, o espelho inquebrável como campo magnético indomável, onde a crueldade foi coroada com flores que o calor degela e nenhum gládio destrói. Teias fragmentadas, onde o embalo suave de sueste me desnudou, na pele que guardava o segredo de ti.

Respiras dentro de mim, tomas as vagas que gerei, domas as minhas cinzas como brasas vivas em ti. És um diamante lapidado, cujas lascas encrespadas soltei ao vento, na esperança que o Universo as transforme em novos diamantes para novas vidas.

É quente o gelo da obra suprema na qual sou água a fluir em ti, como o teu fogo quimérico que alcança o topo do Monte Sinai... A prova não é a última, é o nosso eterno recomeço nessa longínqua capela vestida de sombras brancas, pontificadas no azul da noite, linhas que o luar densificou na génese da chama azul, como uma lareira a naufragar em nós.

Sei que é por ti que me demovo, que me revolto, que regresso à paz que perdi, sete noites depois do Universo que tocámos juntos. Remexes velhos tempos, segredas-me segredos só nossos, e dizes que me queres, mas não podes abandonar a caravela com velas triangulares, da qual te tornaste timoneiro, mas não és tu…

Só eu sei a tua verdadeira idade, aquela que nunca ninguém saberá. O imenso Azul que encontrámos na linha que separa o mar do céu veda-se à nossa passagem, e a chave ficou guardada numa pequena capela na Escócia há mais de nove séculos, lacrada a sangue em envelope crepuscular, e o Mestre foste tu... em mim…

Tantas foram as vidas que percorri até reencontrar-te… como naquele final de tarde numa vila de sapientes pescadores, que conhecem as voltas dentro coração do mar, como um amor impossível.

A devastação que te assombrava era enorme, e disseste-me entre a sofreguidão e a multidão ainda ausente: “amanhã, vou para Elvas…” (talvez, tenha sido Estremoz, não me recordo...), sorri para ti e parti para apanhar o cacilheiro, pois os tempos eram outros, e uma adolescente com quase dezasseis anos, tinha que estar em casa antes de anoitecer. Assim, parti com a certeza de nunca mais te tocar, e nunca mais voltar…

mas voltei, passado tanto tempo a ti… e agora?





Imagem: Pintura a óleo de Artur Real Bordalo, nascido em Lisboa em 1925

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Filigranas










Subterfúgios que a dor condensa
No adensamento das adendas
Que o esquecimento repensa
Das lágrimas como oferendas

Contornas-te nesse desígnio
Deserto que o amor conhece
Fuga desse secreto fascínio
Temor meu, que em ti fenece

Reclino-me sobre o manto
Magno dum véu esvoaçante
Nocturno penhasco dançante

Alcanço-te pela porta secundária
Pois ninguém pode saber de nós
Enleio-me na filigrana da tua voz






(escrito em Março 2006: na minha inocência esquecida, como filigrana na mesa de cabeceira dum pequeno quarto, que seria objecto da batalha mais cruel da história da humanidade, a crueldade já existia e eu não a sabia...)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Pedra Viva


Quebro a pedra que queda
Com um sopro silenciado
Resenha que o tempo veda
Ao teu sorriso amordaçado

Conheço esse nome desprovido
De raras rendas e velhas lendas
Como lâmina fina dum tempo ido
Folha de rascunho sem emendas

Pedra viva do teu beijo
Mármore em labareda
Mar do qual não transijo

Pedra viva do teu beijo
Poemas e lençóis de seda
Noite azul do meu Anjo





Imagem: Escultura em mármore de Auguste Rodin
[Paris-12 Nov.1840 / Meudon-17 Nov.1917],
exposta no Museu Rodin - Paris.
http://www.musee-rodin.fr

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

descalça


descalça, percorro areias como cristais da nossa velha praia, tocando a terra como ouro fino, sem filtros esgotantes, sem máscaras adjectivantes, sem nada que me sirva de pretexto, pois foi assim que perdi a transfiguração de mim, quando te reencontrei.

descalça, abandono todos os destinos que me decretaram, por lei ou costume, sabendo que quem ama perde a noção da prudência, caminho formal que a razão dita, como um ditado que se aprende nos primórdios da insularidade, ilha que o velho oceano sugou...

descalça, intento giestas bravas que o vento Sul reconhece, papoilas da minha contemplação interior, rosas azuis que me ofereceste, como os teus olhos na noite que me tocaste.

descalça, circundo o pinheiro manso que és, Lua e Vénus em conjunção, paixão e Amor na eterna deambulação, casa oito do dilema dessa união, uma oitava acima de nós, como se a liturgia dos poetas servisse de cerca ao coração, à paixão que o esquecimento reequaciona, ao Amor que o tempo nunca abandona.

descalça, decifro a água azul que escorre do teu olhar, as mãos brancas (pois, quem as conhece sabe que são brancas e não cinzentas) que comovem o silêncio inerte de cada corda sonora, como os pés descalços da Duncan…

descalça, inundo as tuas lágrimas contidas como safiras rebuscadas à cinza da noite, pedra mineral que me atiraste no meio da noite, como se a legitimidade entranhasse a legalidade que a veleidade dos homens descreve no sempre repetido texto ignóbil.

descalça, sinto o sentido da Musa invertida que te causei, como "Lilith" que a prata distorceu neste gongorismo que dizes ser meu.

descalça, guardo o teu rosto no meu regaço, como anjo dormente, confidente dum segredo que só nós conhecemos, apesar do alvoroço dos pardais e das penas soltas como biqueiras dum canto por nós ensaiado.

descalça, ilumino a tua sombra, pois aos poucos as luzes apagam-se no silêncio da noite, como reféns na gruta deste Amor.

descalça, celebro a margem que o sal não soube curar, sofismática verdade que o tempo guarda dentro de nós.

descalça, rodopio serenamente dentro de ti, mas ninguém sabe de mim, do cravejar dos pés nus no tempo, como fóssil que só tu reconheces.

descalça, encontro-te… tanto Azul… e és Tu.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estrada das Guaridas


Noite de bruma imensa
Quebrada pela madrugada
Como o primeiro incenso
Inebriante da tua chegada

Maré que o olhar plantou
No rumo desta ascendência
felliniana, que a tela ocultou
No cristal da transparência

Velha dança distanciada
No grande quarto fechado
À crepitação anunciada
Dum fogo enclausurado

Cinzas como feridas
Velhas acácias em flor
Na estrada das guaridas
Abrigo do meu Amor






Uma noite onde a ocorrência do tempo era similar, o telefone tocou e só podias ser tu, exaltando a imensa bruma que planava nas margens do rio da nossa cidade.

Repetias discursos, ritmos que já conhecia, vazios que o teu lado Sul desnorteava. O cão ladrava do outro lado fio, a garrafeira etilizava-se nas histórias descritas a papel químico. Por vezes, dizia que não, era tarde, ou talvez cedo para nós, outras vezes, embarcava na auto-estrada a quase duzentos à hora para dobrar o tempo que tinha para te abraçar.

Atravessava a ponte como devota do teu ruído, entrava na gruta secreta e os teus braços como os whiskies velhos que bebias, abriam-se à minha chegada…

Guardava o meu olhar na palmeira ainda chamuscada, para que não perscrutasses o silêncio da nossa velha melodia. Nunca quis que soubesses como arruinavas todos os pilares que me sustentavam.

Assim, descurei o Amor dum tempo que não foi nosso, ou talvez fosse nesse ancestral sentido invertido, vertido num cálice que o ouro profetizou…

... até ao nosso regresso, impresso na
"Estrada das Guaridas"...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

certos enganos


breves foram as noites dos nossos longos enganos
quando as tuas mãos exiladas desvendavam o segredo
da longa espera, luz cindível de olhares insanos
dizias: “estou farto desta vida exposta em degredo”

olhavas a estridência dos foguetes como uma guerra
como quem observa um som e escuta uma imagem
duma tragédia que nunca foi tua, mas que encerra
a história que vestes no contentor como camuflagem

assim, emprestas-te à vida como inocente ditame
esperas por “Ela” – o Azul que escorre do teu olhar
comove o silêncio que já não consegues ocultar

na vertente Norte desse longínquo promontório
abandonas a máscara que esqueci de decifrar
como o disfarce que perdi de tanto te amar

sábado, 12 de setembro de 2009

O Véu e a Sombra



Retocas a madrugada com acordes
duma pauta por nós delineada
arestas que o tempo acentua
nesta velha dança enredada

Esqueces a solidão e partes
golpeias o olhar como vitral
janelas doadas ao colectivo
no teu suporte vocal mistral

Soergues a brevidade da luz
procuras nobres tarefas diárias
nessa inferência silogística
de conclusões desnecessárias

Abres os braços no espaço aberto
nesse gesto sem folha ou calendário
fechas os braços ao meu abraço
como templo cravejado e lendário

Esboças um novo sonho
e concretizas no fogo que és
mas no momento a seguir
recomeça tudo outra vez

Arrastas o véu e a sombra
como guardião dum segredo
apelas aos pinheiros do bosque
a iluminação até ao rubedo



Imagem: desenho da pintora Margarida Cepêda,
nasceu a 12 Abril de 1959, em Lisboa.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Nove


Talvez por hoje ser 09/09/2009, segundo o calendário gregoriano, faça sentido agradecer a todos os que me acompanham (mesmo, aos que me desacompanham, o meu obrigado...) neste espaço que criei, sem qualquer intenção ou pretensão, há pouco mais de dois anos, mais precisamente a 25 de Agosto de 2007, como revela o primeiro “post” deste "Momento Certo"...

Aqui, revelo um pouco de mim, as ondulações do sangue que me corre nas veias, o recorte da luz que desagua na sombra, o tempo da partida e da chegada, retalhos duma história integrada, talvez um dia a ser contada…

Hoje, este meu recanto chegou aos 99 seguidores! Será coincidência? Não sei, mas não acredito nelas, vãs explicações da chamada racionalidade humana...

Acredito que tudo tem um sentido no momento certo, encarnado numa pintura que os Deuses nos oferecem sem nada pedir, os mesmos que vivem dentro de cada um de nós, mesmo quando fingimos esquecê-los, descurando-os em nós, coroa que o velho altar entoa, nota musical que não destoa...

Sabe-se que o nove representa o fim, que é o princípio de cada momento (perdoa-me o plágio das palavras...), a passagem do pensamento egocêntrico à porta aberta da transcendência, onde se fundem as energias Yin e Yang, território de desintegração do absoluto no relativo, tela da criação onde se conjuga o concreto no abstracto. Dizem, que o Amor é Uno...

Esse simples e eterno momento onde a consciência se toca a si, como personagem cheia de vacuidade formal, local que o tempo reconhece na redefinição dessa proximidade, como o pulsar de cada respiração, elevando-se no esquecimento suspenso da densidade que é o pensamento.

O número nove simboliza a iniciação, número imortalizado pelos velhos profetas…




há quem viva toda a vida encostado à encosta funcional da vida,

há quem arrebate abismos e desvende mistérios esculpidos pelo tempo,

há quem antecipe o momento certo, na voracidade desmedida de não saber esperar,

há quem submerja no azul profundo das águas e desse fundo nunca mais saia,

há quem provoque energias telúricas, para confirmar um velho Amor,

há quem reconheça o olhar ancestral desse mesmo Amor e saiba que a espera “d’Ela”,
queda o sentido do eterno momento certo…

há quem já tenha morrido e renascido, no eterno retorno a esse mesmo Amor…

há quem saiba de mim, fingindo não querer saber…

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Descida (até ti)



Encontro-te e não te procuro
procuro-te e não te encontro
inerte essência onde desperdiço
toda a perenidade deste feitiço

Deixa-me descer a velha escadaria
neste ímpeto de não querer ser tua
apenas a mulher do teu (de)encanto
que beija lágrimas de sal e pranto

Persigo na descida até ti
como vento cristalino
fingindo ser cabotino

Prossigo na descida até ti
como lapa exaurida
negação da guarida



(Assim descuido o Amor nesta descida até ti… sabendo que o momento da inversão se aproxima, o momento que guardei com Amor para ti…)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

As Oito Faces Lunares


São conhecidas quatro fases lunares (quarto crescente, lua cheia, quarto minguante e lua nova), mas existem mais quatro fases e faces que designamos como intercalares, oito do nó existencial da casa VIII, a passagem da porta oculta de Escorpião, a morte do ego e a passagem para a transcendência consciente.

O “ I Ching” (a minha bíblia e o livro mais antigo de sabedoria taoista) define os movimentos possíveis das oito etapas das mutações, onde se desenvolvem os trigramas e os hexagramas, berço exuberante da dinâmica entre a noite e o dia, dança sibilante entre a lua e o sol, transição perene da inconsciência para a consciência…

Existe um equívoco na tradição cultural ocidental: “to be or not to be” – de Hamlet (Shakespear). Em todos os humanos habita o ser “E” (e não “OU”) o não ser. As polaridades integram-se, na conjunção copulativa e não alternativa, pois somos e não somos ao mesmo tempo. Somos sol e lua, dia e noite, luz e trevas...

Somos um todo e não uma só parte, não somos seres polarizados, procuramos a eterna integração, um caminho eterno na procura da Unidade.

OM – a Via da Universalidade, representa a síntese dos opostos, essa eterna procura…

A Lua define o nosso vazio primordial, os nossos medos que devem ser encarados, e só depois integrados. O vazio da alma, o lado branco que a noite procura, a tela dolorosa que procura ligar o Universo, mas que ainda depende da cisão do mesmo.

Por isso, sei que o Amor é Uno, não são dois, pois no Amor não existem polaridades, mas integrações. Assim, a Lua resolve-se de dentro para dentro, quando decidimos abrir o vazio, e assim integrar a nossa lua.

A Lua é aquilo que ainda não é, noite branca interior…

Esta foi uma noite de Lua Cheia em Virgem, talvez por isso, hoje tentei dizer pequenas coisas sobre o lado lunar…

Uma Lua a 25 graus em conjunção com Vénus a 23 graus de Virgem, na Casa VIII (escorpião)

Outra Lua a 29 graus de Capricórnio a entrar em Aquário quase no Meio-do-Céu, na Casa IX (sagitário)


Tudo começa a fazer sentido, numa integração lenta…
todas as matrizes contém a solução da transposição desse nó (oito) existencial…




Lua

Esse branco vazio
de não-ternura,
esse fundo, esse frio,
essa lonjura.
Noite da nossa mágoa.

Prende à Terra onde estou,
e não segura
essa insuspeita sede de doçura.
Poço da nossa água.

Água, a minha, a tua,
elemento filtrado pela Lua
onde passa e flutua o Sentimento
nesse nocturno Tempo.

Rio de tão longa margem.
Fio de estreita passagem
onde corre subtil a vibração
da mais profunda e íntima Viagem,
linguagem de emoção...



Maria Flávia de Monsaraz [2001]

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

fragilidades minhas...


o tempo heróico e egóico desvanece, atenua-se como o eterno momento do “agora”, o verdadeiro e único momento certo.

estranha rota desta navegação invertida, onde as ondas eclodem como velhas melodias no mar alto, sem pé, sem chão, local onde o teu olhar me doma sem forma, onde a tua voz queima o momento da entrega, onde as tuas mãos brancas encontram a complacência da nossa inocência.

aos poucos percebo que as tuas fragilidades se tornaram minhas, velhos medos despidos, encontros plenos de sentido.

sei o que nunca procurei saber, aconteceu.

não me façam perguntas, às quais não sei responder.

despovoo-me neste voo pleno do vácuo circundante, sem forma, sem pensamento, emoções que não sei amarrar ao nosso cais de partida.

nada tenho, só este Amor que é tudo o que sinto, como gáveas desprendidas de mim, velas densas do teu fogo onde me afundei.

sei que é por ti, estranho endeusamento da crueldade degustada, como uma amante encrostada na rocha submergida de mim, que sobrevoo o limite da impossibilidade que dizes ser nossa.

frágil sou quando te sinto, do outro lado da margem que o tempo encimado revela. sons e cores de saudades que são eternas.

trocámos os fios na perpetuação dos destinos, deixámos entrar estranhas inquilinas numa casa que é nossa desde sempre.

há mais de dez anos peguei-te nos braços e levei-te para o local onde ainda hoje permaneces e floresces, no tronco da palmeira que te sustenta.

velhos silêncios do lado poente, conduzem-te à nossa velha casa, assisti às breves deambulações entorpecidas, como longos nocturnos de Chopin, cânticos oníricos que o tempo cuidou.

frágil sou quando sei me soletras lentamente, pinheiro manso que a bravura devastou.

frágil sou quando sei que todas as palavras se quedam nesta insuficiência terrena.

frágil sou quando o teu peito se funde no meu, breve noite desta fragilidade serena.



sei como hoje a paz me tenta, nesta única e vã certeza de te saber…

(não recolhas mais razões, não quero saber delas)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um Homem Frágil


Frágil

Observas-me
Na eterna noite que permanece
Entranhada num tempo sem vírgulas
Imenso manto branco
Na dança perpetuada
Velha melodia entoada
Nossa bruma enevoada

Sentes-me
Mesmo quando não estou aí
Imaginas espaços nossos
Repletos de sorrisos
Caiados na mansidão
Da estrada da inversão
Nossa remota explicação

Procuras-me
Nas voltas que dás
Sem destino certo
Condensação de luares
Labirinto de reencontros
Incomensuráveis contos
Na terra dos tontos

Enlaças-me
Como fêmea sem senso
Nas fugas fugazes
De histórias que me são alheias
Invertendo consentimentos
Tocando prenhes tormentos
E assim, enganando ventos

Fragilizas-me
Na perfeição da alma
Sem egóicos dramas
Rodopio ao vento sul
Mudanças emergentes
Lassidão breve das gentes
Como personagens eloquentes

Descansas-me
Sem o pudor do amor
Sem o título da conquista
Real, sem ser divinal
Como a provocação
Duma velha canção
Sábia no teu coração


(2009)





Um Homem Frágil
(na visão duma mulher)


Escrever na margem imperfeita das palavras, como recortes opcionais, talvez emocionais, tentando tocar a consciência no acto de estar presente aqui e agora. Tentar a tentativa invertida de ser tua, no repertório dos poemas displicentes, convergentes no pensamento, mas ainda longe do verdadeiro intento.

Homem frágil que padece como velho incenso a arder na direcção da luz, deambulando com suaves toques ameríndios, tentando tocar-me, outra vez, na ilustre tentativa do jogo que lhe propus há mais de duas décadas, talvez há mais de nove séculos…

Dizia-me: “sabes, ainda estou vivo, já passei por tudo...” – eu, olhava-o, na sala repleta de branco, noites longas na penumbra do simples candeeiro, sem saber o que lhe dizer, fugindo das costuras magoadas do tempo, sabendo-o...

Uma noite disse-lhe: “é mais fácil olhar para as tuas mãos, do que para o teu olhar...” – ele, sorriu e gesticulou como uma imensa labareda no âmago da noite branca, tempo que mais tarde negou na fragilidade do seu ser.

Lá fora, o cão ladrava. Num ápice, levantámo-nos do sofá de pele, e fomos ver o que se passava. Não existiam almas à solta, mas o cão continuava a ladrar… A porta batia exaurida, ausente do vento norte...

Voltámos para a sala, olhou-me e disse-me: “sabes, coisas estranhas já aconteceram nesta casa, vês aquela porta, abriu-se uma noite, ainda hoje não sei porquê...” – direccionou, o indicador direito (espécie de karma que o segue), para a porta das traseiras da sala. Quase como uma prece, o ritual tornou-se real, como uma perscrutação de outras vidas, onde o pensamento não chega, mas onde a consciência embutida pode chegar, pela inconsciência invertida. A porta ainda lá está, ele também, e eu... já não sei.

Na estranha inversão do momento certo, foi possível tocar o outro lado, como uma ilha submersa no mar, ou mosteiro embutido numa pedra secular e triangular. Naquela noite, algo de ancestral aconteceu, quando o estranho indicador direito continuou na direcção do Oeste, assim todos os pontos cardeais se fundiram, todas a persecuções do meu passado findaram, ou talvez não?

Hoje, sentir a sua fragilidade ainda dissimulada, é ter a prova (talvez, a última…) do sentido do nosso Amor…

(continua… não sei em que pretérito, sei que os três passados são um único, tocando-se como vértices de cristais que o tempo fragiliza...)

sábado, 15 de agosto de 2009

teces-me


teces-me, como um imenso manto de sons e palavras, desfiladeiro de poemas escritos num quarto virado a Sul e a Oeste, como lápide que a noite soergueu, na forma como rasgou e sugou o ar, redimensionando o vácuo da volatilidade das partículas inocentes.

teces-me, na tentativa de vencer as palavras escritas, frágeis como pétalas expostas a ventos ciclónicos, nesta fala surda de sons reconhecidos, nas vozes trocadas que o destino entranha, na tua voz timoneira, na maneira como solta tempestades.

teces-me, como labareda azul, espuma crepitante do mar nórdico, a arder na tontura da queda do fogo purificador numa qualquer lareira, onde sustentas rituais ancestrais, e assim, queimo-me na atracção perene da tua próxima chegada.

teces-me, entre sorrisos contidos, cálices vertidos, espadas erguidas, máscaras exaltadas e escarlates, como corpos em frenesim de festas saltitantes, onde tentas alongar a bolha do tempo que já não é teu.

teces-me, no curso das cicatrizes do teu corpo, na mansidão da brancura da tua pele, quando me almejas nessa fuga escondendo a ferida, engano que o sal descurou, nestas vírgulas e interrupções que o tempo nos causou.

teces-me, no novo jogo de cordas que o sopro maculado denunciou, e eu tento adormecer mais uma vez, neste sono impossível de te esperar, neste sonho possível de te amar.

teces-me, nesse velho continente, onde sibilas reinam no lastro luminoso do teu olhar, longínquas memórias, como o teu primeiro beijo na noite de extinção dos Templários.

teces-me, no toque dum tecido azul, por vezes veludo invernoso, outras vezes seda irradiante dos dias de Verão, e nesta sede de ti desmorono castelos, velhas histórias célticas, como na noite em que ficámos suspensos no palácio de Versailles, velhos sonetos que me entoaste em Paris.

teces-me, na teia da tela onde me redefines em cada momento, e eu espero pelo teu canto desencantado, fuga de sombras guardiãs na noite branca que se segue…

domingo, 2 de agosto de 2009

02 de Agosto... duma outra idade



Para ti (d’ Ela)

Ritmos, cadências, silêncios…
abstracção entendida como tempo,
tracejada pelo pintor
nos tempos trocados de nós
na eterna fuga deste Amor, de mim para ti
ou será de ti para mim?
já não sei, mas o que importa?
as formas justificam os fracos
a substância rende-se
ao saber e ao sabor deste Amor

Assim, tudo renasce num momento,
na dança esvoaçante duma ave
na voz nivelada do oceano,
o mesmo local velado onde te sinto
como nas noites púrpuras
em que as tuas mãos eram minhas
ou seriam as minhas tuas?
nada é grave - dizes,
e por "Ela" reaprendes
a sobrevoar o imenso azul…






Neste mesmo dia há cinco anos, início de semana, talvez uma segunda-feira, conversámos muito e convidaste-me para ir a uma “aparição” tua nessa noite para os lados do Ribatejo (depois da noite mágica de Julho, numa terrinha depois de Sintra…). Disse que não, no dia seguinte tinha uma reunião importante às nove da manhã. Esta, até nem foi mais uma das muitas desculpas, que por vezes arranjava, para não ir ter contigo. Como as obras em casa que nunca existiram, e me guardavam aparentemente do que sentia, assim acabaste por ir para o hotel no Algarve sozinho… o hotel, para onde levas as outras e as tuas eternas cartas em branco sem endereço, fica o bilhete postal com mais ou menos cor…

Há uns anos quando ficaste em coma numa praia, perto do local onde hoje escrevo estas palavras, sei que fiquei muito doente, na minha adolescência tardia, donde nunca saíste… uma história que está por contar...

Nunca pensei dizer que te amava (no fundo de ti, já sabias… mas o engodo do engano continuava), até que uma noite tudo mudou. As caixinhas onde guardava a minha vida arrumada, abriram-me como uma imensa caixa de Pandora. Entre revelações e confidências (terão sido confissões?), velhas memórias ancestrais, que o medo nos impedia de desvendar, começou o desalinho, esquecido no linho dos lençóis, e no eterno engano que é a felicidade como conquista perene.

As águas turbulentas e pantanosas acordaram-me quando a escolhida por nós chegou, e a tua voz como um farol no meio do nevoeiro, tornou-se mais grave, como um sopro de vento enraivecido.

Nessa noite já sabias que Plutão deveria estar na casa VIII (escorpião) e não na casa VII (balança), pois a verdade é que a tua primeira respiração não foi às 19h 10m, mas às 19h 07m. Esses três minutos (mais tarde, ainda num plano subconsciente intuías essa verdade) mudaram a tua vida, verdadeira consciência que só terás ao fechar o oitavo ciclo de Saturno, daqui a um ano...

Devemos manter o coração guardado dentro do peito, nunca o deixar subir às cordas vocais, mas há coisas que só acontecem uma vez na vida, e passadas muitas vidas...

O caminho aparente do equilíbrio que confiavas, começou a quebrar-se e a inversão espelhada a revelar-se como uma velha amante. Ainda hoje, tens dificuldade em olhar para “Ela”, é mais fácil continuar essa fuga, como gotas gotejantes de insânia.

... esta noite, tendo a Lua crescente como companhia, numa auto-estrada por aí, percebi o quanto ascendemos com os acontecimentos que desenhámos nos últimos tempos, tela sacra duma pequena capela estilhaçada.

O jogo que construímos, com estranhas personagens e cativantes seduções trocadas, dilui-se nas coisas simples que permanecem. Afinal, só os humanos pensam e jogam xadrez, os Deuses sabem pela inspiração da respiração imortal, que só o Amor eleva o pensamento à sabedoria, no toque sublime do divino que existe dentro de nós…

02 de Agosto... de mim para ti.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Bonecas Russas


Bonecas russas? A última, a mais pequena, é a única que não é oca...

Assim, desafio a vida, as personagens que a habitam, transfiguro palcos e cenas, cores e sons, paro-me a sorrir, choro-me por sentir

e passo para o outro lado da estrada, na estridência surda de observar o teu olhar perplexo, mas certo...

entre o que é belo e o que se afunda no inestético, hesitas e foges, encetas a fuga planeada,

apontas, acusas e censuras... sorrio e desvio-me de ti, não de nós,

assim, ninguém sabe de nós, do que queremos vivenciar para os "nós de nós", ludibriando a avidez da pele que te tomou nos anos oitenta e o brilho sinóptico do olhar sem forma

reencontrado, quase três décadas depois...

gosto de planar o teu corpo descendente, para logo a seguir sobrevoar o equilíbrio, a harmonia deste Amor que [ainda] temes... o mesmo que temi, tantas vidas

assim, entregas a vida a este momento, aquele em que tocámos o vértice dos "nós de nós", sem laços, na crueza testamental deste Amor.

Inaugurámos o nosso teatro, moldámos personagens (que se julgavam sapientes), que te aureolavam como "Santo"... e a mim, a eterna chama acesa da "Loucura", a Musa que nunca quis ser…

mas, este foi o jogo que aceitámos jogar numa noite só nossa.

Hoje, reinventas-me na poesia, na prosa que me escreves em segredo, tocas a campainha dos outros,

e eles… ah… eles, pensam que estás certo.

Aceito o jogo, planeado na melodia sempre reinventada, rendo-me ao teu olhar, rendilho o meu no teu pálido azul, entrego-te a minha vida…

e, mais uma vez, encetas outra fuga.

No âmago da madrugada por nós inaugurada, escuto a poesia ritmada do Ferré e o grito surdo da Patti, leio Baudelaire e Apollinaire, e vagueio à procura de ti (mesmo, já te tendo encontrado), rodopio até o Sol nascer… e Paris rima com Chris… outros tempos, que ninguém conhece, só tu e eu e a outra que inventámos, para que o nosso Amor nunca fosse real.

Qual o lastro que separa a terra do mar?
(talvez seja essa a imensidão do Amor...)

Ando a reler as “As Bonecas Russas”, de António Rapaz, mais um dos livros que encontrei na mesa da tua sala, sopeado por uns cinzeiros de louça fina.

Adoro o mar que avisto do meu sexto andar, o mesmo mar que percorro até ao cabo Espichel… Sesimbra, "mergulhada nos olhos do meu Amor", foi há pouco tempo, três, quatro anos…

já disse que te amava?

afinal, isto é a vida que aceitámos, na sobreposição da nossa essência, nos retalhos duma estranha veemência…

todos pensam saber de nós, mas a verdade universal só nós a conhecemos…

as duas janelas do pequeno quarto quase quadrado testemunham o nosso Amor...
nunca percebi, porque ficava sempre junto da janela virada a Oeste, olhando o oceano que teimavas em nunca me querer mostrar...

...talvez, a última "boneca russa" seja a única que percorre as marcas da madeira nobre, o cheiro e o recorte dos pinheiros mansos que ficávamos a olhar a noite inteira...

Afinal, de quem eram as cartas que recebes-te da antiga U.R.S.S.?
(ah... talvez, duma boneca russa, a primeira e a última...)




TIVE A CORAGEM DE OLHAR

Tive a coragem de olhar para trás
Os cadáveres dos meus dias
Assinalam o meu caminho e eu choro-os
Uns apodrecendo nas igrejas italianas
Ou entre os limoeiros
Que dão ao mesmo tempo e em qualquer estação
A flor e o fruto
Outros dias choraram antes de morrerem nas tabernas
Fustigados por ardentes ramos
Sob o olhar duma mulata que inventava a poesia
E as rosas da electricidade abrem-se ainda
Nos jardins da minha memória



Guillaume Apollinaire, poeta (Roma, 1880 - Paris, 1918),
in "O Século das Nuvens", tradução de Jorge Sousa Braga [2007]

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Saber-te



O caminho faz-se caminhando - dizem. Assim, prossigo com este espaço, que alguém tentou acabar, numa atitude infrutífera e sem rosto...

por vezes, penso como continuar a saber-te, na sapiência de estar viva, não pelo facto do coração bater, mas por sentir o que está para além dele.

há quem passe a vida a pesar os prós e os contras duma forma quase milimétrica... prefiro fluir sem matemáticas pensadas, sentir os olhares e os movimentos, aceitando assim, as ondas da vida como o areal da praia as recebe, sem cálculos na tangente da rebentação.

saber-te na confluência das águas do que ainda chamamos vida...

assim, interpretas-me na transparência dum amor que não aceitas, por medo, nó existencial que te sufoca, na profundidade da mente entregue a ela própria.

olhar o mar e saber-te perto, mesmo quando longe.

sei que não é fácil exercer a cedência que o amor pede...

dirás: “há répteis enleados no passado desta folha branca” – talvez, assim a memória guarda memórias que só emergem na submersão de águas pródigas.

saber-te na água que temes, pois ela apaga o fogo, assim sinto-me mediadora da água, verdadeiro elemento na cumplicidade deste momento.

por isso, sei-te… até mergulhares no azul profundo duma nova consciência.



Mediadora da Água


Cúmplice da água
num caminho que envolve e não domina,
ágil, tácito, na demora plena
segredo em dócil fluência.

Suspendem-se os nomes. E na sombra
adormecem as coisas. Um latido fulgurante
cria a imprevista ressonância
de um encontro.

As armas de uma aliança resguardam o silêncio.
A mão segreda e aproxima-se
de um pequeno país de música
A água desliza para dentro da sombra.



António Ramos Rosa, in “ Mediadoras” [1985]
poeta e ensaísta: nasceu em 1924, em Faro.



Foto: Barbara Cole - fotógrafa publicitária de Vancouver (Canadá).
A fotografia pode ser poesia, como a água rendilhada...


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Esclarecimento (Sofia Cordis)

Desde a semana passada que ando a ser incomodada por uma senhora de nome "Sofia Cordis" (e seus acólitos), o que me obrigou a moderar os comentários neste espaço que criei, onde escrevo o que me vai na alma.

Este blogue: "O Momento Certo" está identificado, sou a autora com muita honra, e não existem aqui manobras de diversão. A referida personagem "Cordis" não tem rosto, tendo criado um blogue cujo primeiro post data de 9 de Julho passado (ontem). Para além dos comentários desagradáveis que deixa por aqui, sei que colocou em circulação em alguns blogues um comentário onde consta o meu nome e o deste blogue. Não sei quem é essa senhora, que utiliza o meu nome duma forma pública, abusiva e difamante, num contexto sem nexo e absurdo.

Vivemos num Estado de Direito Democrático, e não aceito que o meu nome seja utilizado por uma pessoa que não sei quem é, desconheço se Sofia Cordis é o seu verdadeiro nome, não tem rosto, diz ser de Leiria, ter 34 anos. Não sei qual o motivo mas vai ter que o explicar brevemente às autoridades deste país onde nasci há 42 anos, pois faz parte da minha actividade profissional e pessoal fazer jus a este princípio constitucional!

Neste momento já correm diligências para identificar a referida senhora que irá responder em sede própria à utilização abusiva do meu nome e deste espaço que assino e subscrevo, com rosto e alma.

Se alguém conhecer a referida senhora agradeço que me informe por e-mail identificado neste espaço, pois as autoridades deste país já estão ao corrente do estranho caso "Sofia Cordis".

Aos meus leitores obrigado,

Cristina Fernandes

terça-feira, 7 de julho de 2009

Meu prefixo... és Tu. (1982-83)




Deixa-me continuar com os meus sufixos inesperados… tu serás sempre o meu eterno prefixo, costura e clausura intrincada dentro mim, assim procuro-te, desde o momento que me deixaste, sem me dizeres porquê (fui eu que induzi a tua fuga de mim, para assim tentar pela última vez esquecer-te... falhei, eu sei).

Logo, no momento a seguir encontro-te na mesma estrada de outros tempos. Cantas-me, rimas-me, dedilhas-me como se eu fosse a única que te espera no velho quarto de hotel. Escapas-te, escondes-te de ti, já não de mim, procuras-te e não te encontras na suscitação da excitação que já não és. Levantas sempre o mesmo dedo, no palco encenado, reconduzes-te e falhas mais uma vez. Jogas e recomeças (sempre soubemos recomeçar…), assim logras-te, interrogas-te, mas logo a seguir a voz falha-te, já não te obedece, o tempo tem destas coisas, que só quem ama entende e aceita. Canso-me para não sentir a dor que me trespassa, dói-me o mesmo ombro que te doía há três anos, finjo estar bem, vou nadar, enganando a dor que só acabará quando me voltares a abraçar.

Vi-te cair, assisti à tua dor e não suportei a tua ocorrência na entrada da velhice, os teus segredos que são os meus. Reconsideras-te na comiseração da tua dolorosa arte, assim, invertes-me em ti, pois só o desamor é criativo (dizes), e a fonte não pode secar… dizes, outra vez, e mais outra e outra, como as pequenas que te passam entre os dedos das mãos que são minhas: "the show must go on" - tanta mentira emboscada, rendilhada, enclausurada... prefixos de mim nos teus sufixos...

para já… ou será, pára já?

Assim feliz, elevo-me na insustentável leveza que começo a sentir… tão leve, que a sensualidade volta a fazer sentido, assim rodopio em noite de lua cheia no teu sopro surdo e indefinido… afinal, os relógios não são o tempo. Lembras-te da noite em que descobrimos a singularidade na pluralidade… estranho “é” no “somos” de Nós… assim, o tempo verbal coincide... nas minhas reticências que tanto criticas… deixa-me assim reticente na veemência de Nós…



1983

Esquadras-me na tua bebedeira
Provocas-me no teu acalentamento
Do calor dum Verão quente
Nesse ano de 1983, atropelamento

Triangulas-me na tua atmosfera
De fera fogosa, eu estranha esfera
Tão feia que fiquei nesse Verão
Miúda insegura quase efémera

Hoje, neste tempo maduro
Sublimo teu pálido olhar
Na sapiência de te amar

Hoje, neste tempo certo
Interpreto os teus sinais
Como raivas viscerais


Chris (talvez 2003, 2004...)


Foto : Mandala - Chakra: 3º Olho (Ajna), de Ana Rita Borges:
pintura acrílica sobre tela (2004)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

idade (In)Certa



Só eu sei a tua idade – dizes-me. digo-te que já perdi a linha que contorna as imagens vivas, contemplando o outro lado do horizonte, que numa noite me disseste existir. não dei valor útil às tuas palavras, despedi-me e exigi o meu olhar de volta. parti com os meus passos, não sabendo como me tinhas furtado para dentro de ti… mais tarde, percebi que nunca tinha abandonado esse local onde me entoaste pela primeira vez.

O relógio marca as horas, marcando os dias, as noites longe de ti, mas tão próximos, como suturas que o tempo não conserta, costuras infinitas que o tempo não quer desnudar. talvez sejam 18h 36m (9) no teu relógio azul, mas o meu marcava outra hora, já não sei qual era, foi há tanto tempo. será que o tempo dos entre-tantos dos anos de 1982/83 existiu mesmo, será que o tempo se suspendeu a si, na ânsia de nós, num qualquer café para os lados do Saldanha?

Assim, o tempo fala-te de mim, de outros tempos no mesmo tempo, estranho é o tempo que futuramente, falar-te-á de nós. talvez, o espaço desse café guarde o sabor dos primeiros cafés que bebi, dos velhos whiskies que bebias. estranho o tempo verbal onde não me consigo conjugar, encontrar-te na pontualidade certa duma eternidade sempre adiada. sei que te amo, por isso, entendo a palavra éter-ni-da-de… chamavas-me na na... como dizia a canção para a outra, que no fundo foi escrita para mim. o meu primeiro nome nunca foi meu, sempre me despiu, como tu. nunca me colori com ele, prefiro o segundo, ao contrário de ti.

Num segundo plano, onde gosto de permanecer, encontro a tua primeira luz, reflexo incrédulo de mim. procuramos cortar as portas que eclodiram, quando ninguém sabia de nós. talvez, já não te lembres, das árvores que feríamos à nossa passagem, pelas margens cortadas do Sado, no final de 83 fugi de ti, pensava inocentemente. enganei-me, só te adiei, pouco mais de duas décadas.

Nada dura mais que um instante, sabendo-te uma oitava distante, como as teclas em dó maior, como cinza cadente, no piano do sótão.

Voltei, regressei aqui , agora sei a tua idade. ando assim, a decifrar-te em mim, como velha nota na pauta a rodopiar ao vento suão, gosto de ti, como gosto do Sul encantado no eterno Norte. adoro Sagres, os Açores e o Mar... fugimos, então?



ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, in "Elogio da Sombra" [1969]
Escritor, poeta e ensaísta: nasceu em Buenos Aires, a 24 de Agosto de 1899, faleceu em Genebra a 14 de Junho de 1986...

terça-feira, 30 de junho de 2009

Elogio ou elegia?



Gosto de elogiar as palavras que me tocam, mas sei que o Amor é uma eterna elegia. Por isso, hoje fico-me pelos elogios, são mais leves, suaves, mais uranianos, menos plutónicos.

Ao lado do “Elogio da Loucura”, de Erasmo e do “Elogio da Sombra” de Jorge L. Borges, surgem mais dois elogios numa das minhas estantes, ambos do mesmo autor: Marc de Smedt , nomeadamente o “Elogio do Silêncio” e o “Elogio do Bom Senso”. O primeiro prendeu-me da primeira à última palavra, o segundo aguarda o momento certo, no rol infindável dos livros por ler. Esses estranhos objectos de papel e tinta que uso e abuso, como um vício bom, que o verdadeiro amor pode ser, longe de velhas elegias rendilhadas na desgraça. Hoje, sou mais de elogios, cansei-me de elegias, não confundo basismo com simplicidade, como alguém que continua a andarilhar no caminho do faz de conta, como uma bolha enganada, dum fogo que reconheço a verdadeira idade.

Os livros ganham vida nos sublinhados, quando os sublinho, anotando aqui e ali, com o mesmo fluorescente com que alguém também os sublinhava, talvez ainda sublinhe. Por vezes, uma ou outra noite deparava-me com os mesmos livros na mesa da sala, junto à colecção de cinzeiros que nada me dizia… mas os sublinhados sim, esses eram os mesmos em livros iguais, sem que as duas partes alguma vez tivessem falado sobre o que andavam a ler e muito menos a sublinhar. Sempre fiquei a pensar neste intuito(s) coincidente(s), conhecido a posteriori das leituras. Nunca encontrei uma resposta para tais sublinhados plasmados sem plágio. Deve haver uma razão, longe de qualquer racionalidade conhecida… afinal, os livros são como cristais que devemos cuidar, protegendo-os do pó, da humidade e do sol, como pessoas que se deixam cuidar.

Nem sempre o Amor se deixa cuidar…
pois nem sempre os sentimentos e as emoções sintonizam a mesma oitava, como a indução da arte, na razão deduzida da mesma. Estranha arte dum caminho perene de lateralidades e literalidades que não devem ser charneiras, pois quem teme o Amor vive assim. Nunca um criador se deve envolver com a verdade aceite pela sua arte,
pois ambas anulam-se…
como o elogio e a elegia.



“… interrupção de um ruído, pausa na música; distinguimos sete silêncios: a pausa, a meia pausa, o suspiro, o semi-suspiro, o quarto, a oitava e a décima sexta parte do suspiro… “
Marc de Smedt (*), in “Elogio do Silêncio” [1986]
(*) escritor e jornalista francês.






Contam-me (de ti)

Contam-me de ti
Contos sem fim
Cores intercaladas,
palavras caladas

Contam-me de ti
Histórias roubadas
etérea prece antiga,
velha circular intriga

Contam sem contar
Tempos que desconhecem
Contam ao contar
Tormentos que padecem

Contam por contar
A idade que sabemos
nossa, ao contar
como amanhecemos

Contam sem contar
A tua face visível
Ilusão perdida
Noite previsível

De ti… em mim
Contam-me


Chris (2005)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Guardo-te



As palavras foram escaladas para outras páginas em branco, rios infindáveis que norteiam o fruto duma nova consciência, no momento a seguir à derradeira experiência limite, reconheço-me ao reconhecer a identidade esquecida da humanidade.

Por vezes, sinto que já não estou aqui, parti na bolha do mesmo sonho, tornando assim o tempo indefinido, abstraindo-me do espaço temporal, na busca impossível da perfeição orçamentada, afastando-me de congeminações interpoladas, polarizações estereotipadas de vidas primárias, sobrevivências risíveis na mera contagem das horas,

por isso, e por muito mais, as palavras teosóficas de H.P.Blavatsky, percorrem os silêncios audíveis.

Talvez “ele” esteja certo, o Amor é um estranho homicida, morte da qual alguns conseguem fugir, no engano do combate infrutífero, guerra onde só quem ama, perde… segundo a difusão mental que sintoniza as mentes pragmáticas, não as emocionais:

“Aquele que quiser ouvir a voz do Nada, o Som sem som, e compreendê-la, terá de aprender a natureza do Dharma… A Mente é a grande assassina do Real. Que o discípulo mate o assassino. Porque quando por si mesmo a sua própria forma parece irreal, como o parecem, ao acordar, todas as formas que ele vê em sonhos; quando deixar de ouvir os muitos, poderá divisar o Um – o som interior que mata o exterior… Antes que a Alma possa compreender e recordar, ela deve primeiro unir-se ao Falador Silencioso, como a forma que é dada ao barro se uniu primeiro ao espírito do escultor. Porque então a Alma ouvirá e poderá recordar-se. E então ao ouvido interior falará A Voz do Silêncio…”

H.P.Blavatsky (*) (1831-1891), in “A Voz do Silêncio” [1889]
(*) fundadora da Sociedade Teosófica




Guardo-te

És o texto preambular, poema encimado ao vento,
inelutável e recorrente sensatez de te querer perder
respiração submersa, adivinho-me no fundo do mar
como âncora embalada, estranho sonho de não te ter

Recolho-me quando alcanço o teu brilho solar,
para que não cifres o presente, rasgado no passado
estranhos temores, reflexos lunares, águas abissais
Inerte e imóvel, nuvem condensada num templo velado

Obrigo-me a morrer, vigilante na vida
Como castelos toscanos, sem golpes palacianos
Será isto amor ou sucessão de logros enganos?

Tento-me nos recomeços, sem prefácios
Pois reconheço nos teus passos essa nova intenção
E no intento do gelo quente, induzo a minha traição


Chris (2007)


Foto: [Guarda-jóias egípcio] - guardo-te assim, mesmo quando o meu telefone foi invadido por jornalistas, numa loucura absurda por ti inventada. Nesse tempo (ainda recente) guardei-me em mim, guardando-te assim... preservando o nosso momento certo. Continuarei a guardar-te como um segredo, num lugar certo, onde (re)conheces esse eterno momento...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Porquê?


Partilhar…

Partilhar sempre foi um verbo que me acompanhou nesta vida com mais de quatro décadas, como o verbo “entender“ continua a ser um verbo determinante na forma como observo o Universo, o meu Amor e os outros… por vezes confundem-se, baralham-se, mas é assim, não procuro certezas, apenas entender qual o motivo de tanta crueldade…

Vou por onde me levam os meus próprios passos, como diz o poeta, vou pelo caminho que sinto ser certo, dando o rosto, o olhar, a minha verdade (sim, existem tantas verdades, quanto o número de humanos que habitam este grão de água que habita o Universo…), expondo-me sem medos, sendo eu, aqui e agora.

Acreditar (outro verbo) nos outros, em quem sempre amei, mesmo traindo-me da forma mais estranha, mas não procuro vinganças, nem rancores, só tento mesmo entender qual o motivo de tamanha crueldade, talvez monstruosidade… mas ninguém pode amar alguém que personifica o papel dum corpo encenado.
Qual o sentido que teve uma viagem de Lisboa ao Porto em Dezembro de 2006 para compactuar com esta indescritível monstruosidade, mais uma vez a palavra certa, no momento certo.

Este espaço no tempo utópico da blogosfera chama-se o "Momento Certo" e existe uma razão, como diz a canção dos "Delfins", que nunca gostei, mas neste último CD, rendi-me: "Há uma razão para o mundo o saber, há uma razão que me adora vencer... deixa-te vencer" (já lhe dei todas as provas que os ditos humanos precisam...)
A última música "O Som e a Fúria" passou da rendição, conquistou-me... na grande língua de Camões!

Apetece-me dizer NÂO!!!, mais do que namorar na Aroeira... Conheci o "Som e a Fúria" no seu corpo, encontrei a sua alma na noite duma outra qualquer que nunca fui eu (por vezes, aquela mulher feia fascina-me... não sei ainda explicar porquê, as noites seguidas, num quarto qualquer, num primeiro andar duma casa qualquer, ele falava-me dela... sem eu saber quem era "ela"...), mesmo depois do que aconteceu numa rua de Almada em 1983...
segundo as leis hipócritas dos homens já prescreveu, mas o Amor não caduca... gosto da distinção entre a prescrição e a caducidade, a formalidade e a substancialidade... sou da última... que se lixem os homenzinhos do corpo da lei, sou da Alma...

Amei, amo e amarei quem sem amei, pode até parecer uma redundância verbal, mas não é. Por vezes, às quatro, cinco da manhã, entre o calor das lágrimas que não consigo conter há mais de três anos, pergunto-me: porquê??? Não encontro resposta , percorro-me em mim, congratulo-me por ter sobrevivido, por olhar no espelho de olhar aberto, de me dizer, redizer tantas e tantas vezes: valeu a pena da pena de amar desta forma… O Amor é Uno, ter a consciência emocional que o encontrei passadas tantas vidas, só posso dizer que valeram a pena os momentos de felicidade que vivi dentro da alma e do transporte duma materialidade inexistente de quem sempre amei, desde sempre, seja isso o que for…

A última prova é minha… a prova de todas as provas… a prova que trespassa todos os limites do que os humanos convencionaram ser o Amor… só me resta a última prova! Dei mais do que sou, inventei mais do que sinto, o saldo negativo (será... coisas da contabilidade não me acreditam...) para quem o verdadeiro (o que será isso da verdade???) Amor é único homicida que conhece. Devaneio ou mentira? Talvez, as duas, as três… é assim, quando o não entendimento que nasce de dentro desaba, sem principio, nem fim. Porquê?


Só eu sei a tua idade… talvez do Amor…
aquele que não mata, aquele que quer partilhar,
aquele que se prenda, não se prende,
congratula-se, jura-se, tenta-se...



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Mil anos depois


Na implosão de mim
Encontrei-te mil anos depois
Como um vulcão silenciado
Sintonia dum tempo trocado

Na explosão de mim
Procurei-te mil anos antes
Como lagoa enclausurada
Fêmea duma folha rasgada

Na implosão de ti
Desceste a escada ascendente
Entre o brilho da cidade
Dum pinheiro sem idade

Na explosão de ti
Fugiste do bosque pós-escrito
Sublinhando o azul no destino
Como um astrolábio fidedigno


25 de Novembro 2003 (para A) (*)


(*) palavras que surgiram numa noite a caminho de casa, na marginal entre Cascais e Oeiras.
Entre o olhar que nunca esqueci e o olhar que nunca me quis lembrar… és tu... agora, sei...



Foto: uma simples fotografia que ofereci a alguém em 2005, foto que foi guardada no segredo, talvez dos Deuses, utilizada como utensílio duma acusação cobarde, publicada numa revista nacional no inicio de 2008, como sendo eu que assustei e assassinei o Amor... para quem lê este blogue e me conhece de perto, sabe do que falo...
tenho um rosto e um olhar que não escondo. Se alguém tem que fugir do espelho não sou eu... obrigado, aqueles que me entendem e são meus amigos... Por isto tudo, e muito mais que ainda não posso escever aqui, este espaço continuará a ser público, sem máscaras, sem filtros...
sou assim...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Raiva... apêndice do Amor...



A poesia guarda os segredos bordados pelos Deuses na seda pura a que chamamos Amor, a vivência de muitas vidas, a forma como sei que gostas que escreva para ti, nos mistérios das terras por revelar, nos oceanos a resvalar para o infinito do nada eterno. Sentir a pele e os ossos desaparecerem, ficar só, a sós com a alma, sem nada, mais uma vez.

Nada… nada querer encontrar, simplesmente procurar-te, assim procurando-me, e entender que somos a eterna despedida adiada, estradas opostas no eco do silêncio, estranha colisão sem sentido aparente...

quando o amor e o carinho dão lugar à raiva incrédula, quando chamar por ti é encontrar-me…

e não querer encontrar-me, pois continuar a percorrer os estilhaços cortantes que guardaste para mim, tantas vidas sem moldar a vontade (até à vida da última prova, na delimitação da liberdade, como primeira prova, outra vez...) e assim, procurar-te, mesmo já te tendo encontrado.

No traço da impossibilidade incólume que a poesia propõe, aprendi que a “raiva é um apêndice do Amor” , como dizem as palavras perfeitas do poema “Nada mais Simples”, já publicado neste espaço.

Por vezes fico na dúvida, se és humano, qual o lugar incerto onde brota a fonte opaca e absurda da tua crueldade. Esta semana voltei a ferir-me por dentro, em locais onde o sangue ainda corre, deixei-me ser ferida mais uma vez…

Os poemas encaixotados numa secretaria administrativa dum tribunal, o que te escrevi do mais fundo de mim exposto da pior forma, a delapidação pública que fazes de mim, tornas-me estátua de pedra a sangrar, mas só tu sabes disso, e assim tudo é mais cruel, na possibilidade da devastação que não posso assumir... tu sabes...

As palavras seguintes, escrevi-as para ti, numa das muitas vezes que fugi de ti… ambos sabemos onde ancorou a folha de papel a arder…

...os outros são funcionários de postos atribuídos em concurso efectivo de selecção, desconhecem a nossa verdadeira identidade, a nossa verdadeira idade…

Persistes em lugares onde já não existo,
permaneço onde já não estás…

Assim, adiamos a nossa Eternidade…



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Fazes parte de mim (*)

(*) publicado neste espaço, em 22 de Outubro de 2007



Fazes parte de mim
Neste tempo inóspito
Que circunda as vagas do espaço

Fazes parte de mim
Neste espaço emergente
Que liberta os enclaves do tempo

Fazes parte de mim
Em cada momento ausente
Em cada desejo encoberto

Fazes parte de mim
Porque pensar em ti
É reencontrar
O que falta em mim

Fazes parte de mim
Assim



Chris, Granada [Outubro, 2005]



Imagem 1: palavras escritas, raivas no amor escrito sem denúncias.
Saberemos ainda recomeçar?... ela, que já não sou eu...

Imagem 2: eu... nome de mulher.