domingo, 28 de dezembro de 2008

A pele serve de céu ao coração

























A pele serve de céu ao coração…
É assim que tenho evitado o pior,
O melhor onde ainda habita
A cor da crueldade feroz
O tempo recortado no mesmo local
Vinte anos depois
Para os lados de Sintra…
A permissão do tempo, a chave reencontrada
Um segredo transmissível
Guardado no aviso das águas,
No eco da paisagem interrompida
Do azul negro guardado…


Para uma mulher que acreditou no amor para além dos limites que a vida lhe impôs, abdicou de quase tudo por esse amor, a história está a ser escrita vinte anos depois da sua morte.
Uma homenagem à vida que me deixou, à eternidade reencontrada em Sintra…



Em Sintra

As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros

Luís Miguel Nava (*), in “Películas” [1979]
(*) Nasceu em 1957, em Viseu e foi assassinado em Bruxelas em 1995…


O Céu

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.


Luís Miguel Nava, in “Como Alguém Disse” [1982]



Sem Outro Intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in “Vulcão” [1994]


Foto 1: José Boldt
Foto 2: José Boldt - Vidro Partido, Sintra [2006]
Foto 3: Eu e a minha mãe, Sintra... [1969]

1 comentário:

splendid disse...

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