quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Há noites assim




Poderia ser, há dias assim, como cantavam os Rádio Macau, uma estranha forma de recordar o ano de 1984, e a velha canção “Até o Diabo se Ria”, os meus 17 anos, o meu namorado (Beto) Vieira da Silva, que tocava numa banda do Algueirão, as minhas fugas até ao café, pois às 20.00 horas, tinha que estar em casa… Nunca mais o vi, sei que foi trabalhar para a Alemanha… tocava para mim a “Michelle” dos Beatles, duma forma que nunca mais vou esquecer.

Era o tempo da inocência, da adolescência, do acreditar na eternidade do momento, de querer mudar o mundo, das calças de ganga ruças, da voz da minha saudosa mãe: "não tens mais nada para vestir?", dos passeios à tarde para os lados de Sintra… dos velhos cafés da Amadora e de Almada, que nesse tempo frequentava. As festas de Sábado à tarde nos velhos cinemas, que hoje alguns já não existem, as histórias que guardo, dum tempo recortado na margem certa da memória, dum tempo onde reencontrei um Amor, um velho Mestre, que nesse tempo não sabia quem era…

Neste dia chuvoso de Dezembro, enquanto regressava a casa, tentei mais uma vez ouvir rádio, mas a encefalia mental de quem tenta fazer rádio é imensa (com algumas excepções, longe do que é a regra): uns dizem umas coisas sobre futebol, que não entendo e não me interessa, outros falam da vida cor-de-rosa (não será cinzenta?) dumas personagens que desconheço, outros nem falar português sabem, sobretudo nas rádios locais, apesar de se ouvir muito atropelo linguístico, também nas rádios nacionais… Mas pior que isso, é não ter o dom da comunicação, papagueiam por catálogo (talvez, multinacional...), como quem diz bom dia ao vizinho no café.
Contam-se pelos dedos os grandes profissionais de rádio, o resto é paisagem, profundamente deprimente.

A pasmaceira em que este pais tenta sobreviver, sempre a reboque de alguma coisa ou de alguém, é assustadora. Os programas de autor desapareceram, como existiam nesses anos de 1982-84, como a “Cor do Som”, a “24ª Hora”, e um programa que tentava ouvir sempre ao final da tarde, com o Paulo Coelho, penso que se chamava “Círculo em FM”, e outros que já não me recordo. Hoje quando ligo a rádio, a uma qualquer hora, é para ouvir algumas notícias, mas mesmo nessa área a estupidez vagueia. Como o que ouvi hoje: "o rendimento dos portugueses vai aumentar em 2009, pela baixa da taxa de juro, pela queda do preço do petróleo…"; o que sei de economia é pouco, só o que aprendi em duas ou três cadeiras na faculdade, mas qualquer leigo entende o profuso disparate que está a ser noticiado. Confundem o mercado da oferta, com o da procura, baralham os fluxos macro e micro económicos, e lançam ao ar umas supostas notícias, um de fogo de artificio, quanto mais colorido e redopiante, melhor!
Acabei por voltar a colocar no leitor de CD do carro, um velhinho disco do Cat Stevens…”Oh Oh, baby, baby, it's a wild world, it's hard to get by just upon a smile…”

Por vezes, temos que encontrar um refúgio para não perdermos a sanidade mental, pois a sanidade do coração é uma outra história…
… por fim: esta semana foi especial, consegui (talvez, não gosto de certezas...) transmitir a alguém o significado (mais que épico…) do alinhamento da Lua e Vénus… o silêncio é a forma que encontrei de sentir todas as suas frequências, as vibrações de quem encontro pelo sentir… as partituras emocionais começam a dourar um novo tempo de criação, até quando ficará nas galerias do mosteiro que lhe devolvi, até quando ficará no claustro do silêncio com que me penitenciou?

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Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.


Pablo Neruda, in "Los Viente Poemas" (1924).[Chile: 1904-1973]

Imagem 1: Conjunção Lua, Vénus e Júpiter (esta semana)
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap081204.html

Imagem 2: Conjunção Lua, Vénus e Júpiter (Los Angels)
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap081203.html

Imagem 3: Pintura da autoria do "Beto" [1984]

1 comentário:

Anónimo disse...

Vi a conjugação, da lua, venus e jupiter. Adorei a nova exposição, já sabes.
bjs
Gaby