sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Esta tarde, percebi...




Neste quase início de Inverno, laivos solarengos inundavam a baixa lisboeta, como os traços que o destino tece, nos recantos dormentes da memória. Demorei mais de sessenta minutos no percurso entre o Marquês de Pombal e a Rua Victor Cordon, semáforos mutantes, automóveis imóveis, gente e mais gente. Como não tinha hora marcada para chegar ao local pretendido, reencontrei o valor das pequenas coisas, na observação pausada, que num ritmo normal de condução não é possível realizar. Sintonizar a frequência moldada no volume do tráfego, estranhos momentos na observação dos gestos, dos movimentos, dos olhares, das rugas tensas, do habitual frenesi citadino, que nesta época natalícia se acentua. Lisboa é cada vez mais uma cidade cosmopolita, onde se cruzam vários continentes, numa osmose cultural, quase sempre benéfica.

Dei comigo a pensar na diversidade da espécie humana, nos sonhos e nas preocupações de cada um… foram poucos os sorrisos que presenciei, muitos rostos perdidos e encerrados em si próprios (apesar das iluminações de Natal), nos passos trocados de uns, no tempo cristalizado em que quase todos vivem, no esquecimento do poder unitário do acto de estar vivo, no poder de transformação que o Amor tem, como um encontro iniciático...

Mais uma vez a rádio era o costume: conversas fúteis, futebol, politiquices e mariquices. Por isso, carreguei na tecla do leitor de cd's, e voltei a ouvir um dos discos que reencontrei do Chick Corea: "Where have I known you before - return to forever”… aquele Sol avermelhado da capa sempre me foi familiar, da primeira vez nesta vida que o voltei a reencontrar, como foram as outras vidas, do Amor... de hoje saber, que nunca se deixa de amar quem sempre se amou.
Do tempo que passou, do tempo que falta passar, do tempo certo, dos momentos de felicidade, de infelicidade, de alegria e de dor. Da conceptualização da teoria existencialista do tempo, com a qual não comungo.

Por breves momentos, quis partilhar com todos aqueles transeuntes tudo o que já vivi, e saber se tinha sido assim com eles. Se estão dispostos a fazer uma vénia à vida, agradecer a oportunidade única de estarem encarnados (mesmo os que ainda estão numa primeira vida), e entender o silêncio comunicante, o espaço táctil onde confluem sentimentos, e todas as imposições que a vida nos submete, até a aprendizagem dum novo conceito de crueldade...

Esta tarde percebi o quanto já fui feliz, e hoje sei que quanto maior é o momento de felicidade, maior é a dor que a acompanha por dentro, só que nesse momento não temos a consciência da divisão do mundo material, e por maior que seja a tentativa de juntar e colar os estilhaços, pintar com a mais nobre tinta a “estatueta” quebrada, por mais que a envernizemos com o verniz mais brilhante, ela nunca mais será a mesma. Os cacos unidos, e nem sempre reencontrados, mesmo depois de colados, dificilmente devolvem o olhar inicial, pois só a dor o aprofunda para uma dimensão maior.

Agradeci ao meu “Mestre”, por me ter deixado sozinha no meio dum mar imenso, com vagas assombrosas, sem conseguir vislumbrar a praia, talvez tivesse sido a prenda cruel desejada por mim. Fui eu que procurei destruir este Amor, fui eu que tentei deixar de amar, fui eu a causa da minha própria causa...

esta tarde, percebi que o seu último (?) beijo continha o veneno, da traição que me prometera no velho sonho, sete dias e sete noites depois…

esta tarde, percebi que as vagas do vento norte se transformaram num mar brando de sueste, num suave caminhar para a velha praia, onde talvez, ele me espere...

esta tarde, percebi que apesar de não conseguir ainda vislumbrar a praia, sei que estou na rota certa, o retorno à casa do Pai…

esta tarde, percebi que os seus braços encerram todo Universo, na libertação infinita quando me acolhem, em diversos modos e tempos verbais...

esta tarde, percebi…



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Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.



Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]


Imagem 1 e 2: Telas de Jú Novais

Imagem 2: Eu... no dia do meu casamento a 19 Dezembro de 1997.

2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei, mais uma vez.
Cumpts.
A. Coelho

Anónimo disse...

Ouvi falar de casamento, não? Tens que contar as novidades, pois são muitas. Parece que ainda não se pode dizer quem é.
Bjs
Gaby